quarta-feira, 29 de junho de 2011

MUNDO PARTICULAR >> Carla Dias >>

Mundo pequeno é aquele que alguns chamam de rocambole e outros de passeio na praça. A gente sabe que o mundo, que o planeta Terra é enorme, mas às vezes ele parece caber exatamente na essência do que chamamos encontro fantástico, porque o mundo só pode ser rocambole ou passeio na praça quando há pessoas envolvidas.

Em caso geográfico, ele é o que mapa descreve. Em caso financeiro e geográfico, sim, é caro dar uma volta ao mundo, ainda que muitos garantam que vale a jornada.

Dureza é quando se trata do mundo particular, aquele que apelidamos de universo para que a ideia pareça totalmente existencialista. O que ela realmente é... Só que, às vezes, ela só parecer ser, entende? E assim o mundo pesa em nossos ombros.

O mundo particular é pequeno. Se for pequeno como é pouca a bagagem que levamos para passar uma semana na casa de um parente, significa que escolhemos levar a vida de uma maneira simples, que aceitamos a objetividade das situações, que não passamos horas alimentando abismos entre nós e os outros, ou entre a nossa realidade e os nossos desejos de conquista. Sendo do mundo particular, pequeno tipo essa bagagem, vive-se com mais fluência nos assuntos que tratam da vida sendo vivida na sua própria cadência, sem sofrer grandes interferências dos nossos temporais internos.

Um mundo particular pode ser apenas caótico, com mil e tantos motivos para que ele desabe logo ali. Mas também pode ser assimétrico, mergulhado em tons, pode se fantasiar, o tempo todo, apenas para mudar a forma como é percebido pelos mundos particulares alheios.

O mais interessante sobre o mundo particular é ele ser o responsável pela existência do mundo rocambole ou passeio pelo parque. Não fosse a sua natural sensibilidade em perceber nuances, os olhares laçando a imensidão a sua frente, a contemplação das tantas possibilidades espalhadas pela geografia do sentimento, tudo ficaria no seu devido lugar, e não experimentaríamos a sensação de que jamais iríamos rever uma pessoa, porque ela sumiu da gente, mudou de país, seguiu outro rumo.

Mas, de repente, está ali...

Na beira do seu mundo particular, sorrindo de feliz, comprando revistas na banca que você frequenta há décadas, ou levando o filho na mesma escola que a sua filha. Está sentada no único banco do trem com lugar vago, ou faz parte do grupo que comprou um pacote de viagens para o litoral. Esbarra em você na rua.

De repente, a proximidade se repete, e não de forma corriqueira. Ela é de uma lindeza que mata saudade, coloca as novidades em dia, fortalece relações. É de uma força que nos torna capazes de ver o mundo assim, pequeno e confortável, uma sala de estar no qual, oportunamente, (re)encontraremos nossos afetos.

carladias.com



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5 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, essa sua crônica me fez pensar que meu mundo talvez esteja mudando de órbita. :)

albir disse...

Carla,
é mesmo uma descoberta a riqueza do pequeno e confortável, e quase inexplorado, mundo particular.

Cacá - José Cláudio disse...

Carla , eu tenho um sonho: o de, senão todos, pelo menos a maioria pensar e viver segundo essas premissas. Ah, como seria melhor o entorno de todo mundo! Ótima a crônica. Meu abraço, paz e bem.

Marisa Nascimento disse...

Carla, como você consegue? Me diz...
Todo texto seu faz os leitores mergulharem no seu próprio eu...Perfeita, como sempre!

Carla Dias disse...

Eduardo... Vai ver que ele está mesmo! Aonde será que ele vai parar?

Albir... É sim... Espero que mais pessoas descubram isso e se sintam em casa nesse mundo dentro do mundo.

Cacá... É fato que são os sonhos que dão o primeiro sopro de vida às realizações. Quem sabe o seu não se realiza. Outro abraço, a mesma paz e o mesmo bem.

Marisa... Pergunta difícil para uma facilidade que decidiu viver na minha cabeça. Para mim, mergulhar no próprio eu é a premissa para o emergir, mais tarde, e ainda ter o prazer de encontrar pessoas nessa retomada de fôlego.