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Mostrando postagens de 2008

ATÉ O JARDIM >> Carla Dias >>

Durante 2008, deixei registrado aqui no Crônica do Dia tantas e tantas importâncias. Dos shows e filmes que assisti, as tiradas dos sobrinhos; conquistas, percepções, apaixonamentos, decepções, poesia.
De certa forma, o Crônica foi meu diário de bordo, onde tatuei parte de quem sou... Uma parte realmente necessitada da palavra escrita e lida; do compartilhamento com os leitores. Em 2008, aprendi alguns truques de sobrevivência, entre eles um que me ajudou a enfrentar algumas barras: o dane-se.
Permiti que se danassem questões que não eram realmente minhas, apesar de afetarem minha vida. Dei um belo dane-se a elas e fui me virar com as conseqüências, descobrindo que, muitas vezes, melhor é bancar a louca mesmo e sair andando.
Neste último dia de 2008, não tenho uma lista de coisas que fiz e que deveria ter feito, mas ficaram na promessa. Trago, sim, um sentimento estranho de quem sobreviveu, mais do que viveu, a este ano, e que isso foi fundamental para que descobrisse alguns alentos e m…

FELIZ 2009 -- Paula Pimenta

Estou indo viajar em poucas horas. Comecei a escrever uma crônica de retrospectiva anual, mas não deu tempo de terminar. Não deu tempo de terminar quase nada nesse ano que passou e eu nem vi. E agora o outro já está chegando e eu queria tanto que demorasse só mais um pouquinho, porque eu tenho um certo medo dos anos ímpares, já que os meus anos pares sempre são melhores. E 2008, apesar da pressa, foi tão bom pra mim... consegui quase tudo que eu desejei.
Fiz muitos shows no primeiro semestre (apesar de quase nenhum no segundo), escrevi várias cartas de amor, dei muitas aulas, fiz alguns amigos novos, viajei demais (São Paulo, Cabo Frio, Brasília, Uberlândia, Varginha e Buenos Aires), lancei meu livro e ele já me deu mais retorno do que eu jamais esperei, ganhei muitos presentes (dentre eles um notebook e - ontem - um carro novo). Amei demais. Rezei demais. Chorei demais também. Mas não posso esquecer dos muitos sorrisos.
E agora esta última viagem do ano, que eu nem estou com tanta v…

CRIADOR E CRIATURA >> Carla Dias e Eduardo Loureiro Jr.

— Você não pertence a esse lugar...

— Foi você quem me convidou.

— Mas você não percebeu? Não se sentiu deslocado?

— Quem manda aqui é você.

— Engraçado... Sempre achei que fosse o contrário...

— Eu mando aí, no seu mundo.

— Tá bom, tá bom... Vá um pouco mais pra frente.

— Não do lado daquela ali!

— Mas não sou eu quem manda?

— Você poderia mandar ela sair de lá.

— O que o assusta nela?

— Prefiro você.

— Apesar de não poder tocá-lo, apenas mudá-lo de lugar?

— Você podia entrar aqui.

— Desajeitada do jeito que sou, te derrubaria lá embaixo... E lá é meio perigoso, sabe?

— Aqui não há como se machucar.

— Há sim... Se eu entrar e gostar, desejar ficar...

— Lembra daquela história?

— A que eu não soube contar?

— O que lhe deu?

— Faltou o ar... Engasguei... Achei que fosse morrer.

— Morra, na próxima vez.

— Curioso é que pensei em morrer agora. Devo?

— É só vir até aqui.

— Você não é diferente do que imaginei...

— Ela não gostou de você estar aqui.

— Não consigo convencê-la a partir e viver em paz longe daqui.

— O …

AS CASAS DE 2008 >> Eduardo Loureiro Jr.

Há quem não goste de retrospectivas. Mas eu não sou da turma do "pra frente e avante, sempre". Gosto de retrospectivas. Quando a gente olha pra trás de vez em quando, as coisas fazem mais sentido. Mas há que se saber olhar pra trás. Não é olhando de qualquer jeito que se percebe o sentido do que foi vivido.

Na família de minha mãe, nos aniversários redondos, fazemos uma retrospectiva da vida do aniversariante. Esse ano, por exemplo, tivemos dois aniversários de 70 anos. A retrospectiva de Tia Antomária foi feita a partir de um acróstico, forma poética que ela gosta de usar. Para cada letra de seu nome, nós puxávamos uma série de lembranças. Já no aniversário de Tia Ângela, que gosta de fazer crochê, foi a encenação de uma conversa entre uma linha e uma agulha que guiou a lembrança dos momentos mais marcantes de sua vida.

E este 2008? Que forma posso dar às lembranças desse ano em que aconteceu tanta, mas tanta coisa, e muita coisa importante? Pensei em fazer um registro mês a…

ADEUS PROLONGADO [Sandra Paes]

Final de ano. Suspiro de alívio retido antes da contagem regressiva. Nunca uma data ficou tão marcada e tão ansiada. Celebrar o ano novo, seja ele do aniversário, seja ele do ano terrestre, dá, pelo menos pra mim, um bafejo de esperança, uma vontade de começar de novo, embora saiba em grande parte do meu córtex que a virada do dia ou do ano é apenas uma convenção simbólica.

Outro dia, me peguei dizendo não sei pra quem: - Você sabe que nosso calendário é fruto de um decreto papal, não sabe?”, querendo dizer que o ano novo fazemos quando de fato decidimos que ele comece.

Embora saiba de todos os hábitos e promessas, listas de mudanças, vontades disso e daquilo, me surpreendo com certos requintes tais como gente que come doze uvas de joelhos no virar da meia-noite e pede para cada uva um desejo a se cumprir a cada mês. Há quem brigue se não comer uma sopa de lentilha ou ainda quem perca o humor se não tiver semente de romã para começar o ano com dinheiro na carteira e nunca faltar grana.

DOIS >> Leonardo Marona

"metamorfina"

agora que invento teus olhos
agora que sei que és de outro
penso: sendo assim és minha
porque eu sou outro em mim.

agora sou não doente de sim
escorado em planos secretos
concretizados na perspectiva
da tua foto sobre a cabeceira.

agora a hora agoura a agonia,
outro em mim tão eu sozinho
acomodou tua falta no escuro.

sinto que perdi meu rastro em ti
indo levaste o outro que em mim
sendo teu não, conhecia meu sim.

***X***

"laços de bronze"

pai...
quando vi os olhos de bronze
de Drummond e Mário Quintana
num banco da Praça da Alfândega
ouvi sinos – talvez de uma igreja
e me lembrei de um domingo
quando engolimos calados nossa ceia
porque afinal era domingo de natal
e depois, já na rua, lembrei também
que estávamos bêbados e sentimentais
e você falou comigo através de ombros
sobre um texto meu que tinha lido
sobre você e sobre seu próprio pai.

e me lembrei que você enxugava os olhos quando voltei do banheiro
e comemos arroz amarelo com tempero indiano e peixe ao sal grosso
e que o garç…

Queridos amigos, >> Ana Coutinho

Pois não foi que chegou? E eu, esse ano, fui tão desatenta que nem lhes desejei o habitual feliz Natal, tão cansada que me sentia. Não justifica, eu sei, mas é o que tenho para oferecer-lhes hoje, bem hoje, o dia mais especial do ano.

De certo é alguma coisa da idade que me tornou assim, preguiçosa e desanimada. Logo eu que sempre escrevia-lhes no início de dezembro, silenciosamente, falando da minha alegria e empolgação com as luzinhas, as cores, a fraternidade, enfim.

De repente, sinto-me cansada. Cansada é pouco. Sinto-me exausta. E exausta dessa forma, não tive forças para desejar-lhes tudo aquilo que merecem.

Vocês, amigos queridos, que merecem ter tido uma linda noite de Natal sim, mas, mais do que isso, merecem ter tido lindas noites comuns, lindas noites de verão, lindas noites no inverno, aquecidos por aqueles a quem mais amam. Merecem ter um dia lindo hoje, dia de Natal, mas, mais ainda, merecem ter tido dias e dias lindos no decorrer dos anos, ao quais possam lembrar-se com pr…

O NATAL É UM QUINTAL >> Carla Dias >>

A menina quer ganhar um pintinho no Natal, ignorando completamente que, quando crianças, minhas irmãs, primas e eu não podíamos ouvir o barulho do berro do homem do megafone, que corríamos com as garrafas nas mãos, das quais, dedicadamente, tomáramos todo guaraná, dias antes.

Trocávamos garrafas vazias por pintinhos... O que poderia ser mais terno? Dar algo vazio e pegar uma vidinha na mão, frágil, mas bem nervosinha, porque eles bicavam mesmo!Depois vinha a fase difícil: dar-lhes nomes e cuidar deles. Corríamos atrás dos pimpolhos, babadores nas mãos, mamadeiras, gritando seus nomes: Piupiu, Zezinho, Cocoricó, Adalberto (?)... Queríamos que os filhotes fossem nossos, mas quê! Eles se escondiam e sabíamos que, numa hora ou outra, eles atravessariam a cerca e debandariam pelo quintal do vizinho.

Aliás, quintal era o que não nos faltava...

O menino pediu um pássaro de Natal, sem se importar se ele teria plumagem fashion ou, como disse um amiguinho certa vez, ele fosse um verdadeiro “vira-l…

A ORAÇÃO DO PAJÉ >> Albir José Inácio da Silva

Desde fins do século passado, ventos ecumênicos têm aproximado cristãos de alguns inimigos históricos. Nessa onda é que o arcebispo convidou para a festa de Natal lideranças de cada religião que conseguiu encontrar. Assim vieram bispos, rabinos, líderes muçulmanos, pastores, babalorixás, monges budistas e até um pajé. O pajé foi o último a ser lembrado porque religiões animistas não têm lá muito prestígio. Além disso ele não tinha e-mail, fax nem telefone. O pajé venceu muitos quilômetros de selva para estar ali. Em compensação, os anfitriões concederam-lhe a honra de pronunciar a oração antes da ceia. O pajé, que começava a conhecer o mundo através de aulas gravadas de telecurso, fez a sua prece, provavelmente cometendo algumas injustiças.

"Ó grande Tupã que sabes todas as coisas, venho te pedir ajuda para estes irmãos confusos reunidos aqui hoje para celebrar o nascimento de Jesus. E que parem de se agredir como têm feito desde que se entendem por fiéis.

Que cristãos não mate…

ponto final >> eduardo loureiro jr

no começo da escrita não havia ponto ou vírgula o texto era um rio que corria sem que se pudesse perceber as correntes o sentido do texto era revelado por um leitor verdadeiro sacerdote que fazia a ligação entre o verbo da palavra e a carne do mundo lia quem sabia reconhecer as pausas a mensagem estava entre as palavras com o tempo criaram-se os sinais de pontuação .:?,!; para uniformizar o sentido já que diferentes intérpretes realizavam pausas também diferentes mas então veio a poesia e desfez o trabalho dos sinais na poesia cada palavra não diz apenas o que se quer dizer só pela poesia deus pode ser filho de deus e a poesia mesmo sem versos ou rimas inventou pausas nos textos e embaralhou as palavras e cada um lê como respira uns profunda e lentamente outros leve e saltitantemente tem poesia na bula de remédio altas doses e uso a longo prazo no cartaz pregado no poste seu amor de volta na fala da mulher suor lágrima e água do mar poesia está onde se pausa onde se pousa antes da con…

O PRESENTE DE NOEL [Maria Rita Lemos]

Uma chuva miúda começou a cair, quando José distribuiu as últimas balas da sacola a crianças sonolentas, cansadas da confusão e da mistura de sons, naquela noite de véspera de Natal.

Pelo movimento da rua, que foi diminuindo de repente, José calculou que passava das dez horas. A chuva caía fininha, e ele só pensava em chegar à sua casa, na periferia, a tempo de levar alguma coisa para as crianças. Se os filhos estiverem acordados, José pensava, abririam hoje mesmo o carrinho e a boneca que conseguiu comprar para eles, além do panetone e da tubaína. Só restaria comprar um frango assado para o almoço de amanhã, e estaria tudo certo, o resto das coisas gostosas da cesta de Natal que ganhou da loja ficaria para o Ano Novo, porque o emprego de Papai Noel acabou esta noite. Amanhã será outro dia. Amanhã...

Felizmente, deu certo esse emprego temporário de Papai Noel que conseguiu no grande magazine; deu para tirar um troquinho, porque, agora, ele não podia se esquecer de que era mais um bras…

Pequenas Biografias Não Autorizadas >> Leonardo Marona

“Napoleone di Buonaparte”

foram-se as baionetas imaginárias,
baixaram a meio pau as bandeiras,
deitaram a correr o velho infame.
os heróis acabam sempre nas ilhas,
os verdadeiros impérios do oriente
foram roídos pela decadência, e tu
estás gordo, a riscar velhos mapas.
muitos se dizem você no hospício,
o mundo ainda é o das debilidades
e mendigos provocam ira nas ruas.
precisávamos talvez da tua loucura
para encarar de frente o apodrecido
e remover as manchas da nossa fé.

que constantinoplas foram precisas
para alcançar o centro de si mesmo?
Novo Prometeu, agora bem sentado
atado em uma rocha onde um corvo
lhe rói as entranhas, e ali o homem,
as entranhas da democracia furiosa.
a imaginação faz perder as batalhas,
você disse, e amou, e foi pra guerra.
você tornou incrível nossa verdade,
depois trancafiou o Marquês de Sade,
e quanto não ficou trancafiado em ti,
homem interditado, líder soberano?
o que vem do fogo para o fogo torna.

***

“Lady Day”

nanicos pisaram as gardênias
nascidas da pedra e do suor
e mesmo o sol…

MAS AGORA EU SEI >> Ana Coutinho >>

Eu ainda me lembro bem daquele dia. Estava frio, mas eu sentia meu corpo suar. Estava nervosa e feliz de uma forma que nunca, nunca mais consegui sentir igual. Lembro de olhar meu namorado ali, no altar, esperando por mim, e ter tido um instante de susto. Ele me olhava com tamanho amor e ternura que meu coração aqueceu-se subitamente.. Lembro-me tão bem, que nem parece fazer já quase 3 anos.

Hoje, assistindo a essa menina que eu fui um dia, tomo outro susto. Como tive coragem? Eu nem conhecia bem aquele rapaz, namorávamos há menos de um ano, onde era que eu estava com a cabeça? Foi uma loucura, um desatino mesmo. E tenho uma sorte do cão de ter sido tão feliz nessa loteria. Porque é, de fato, uma loteria. Mas é hoje que sei disso.

Eu achava que sabia naquele dia. Mas agora é que descobri. Descobri milhares de coisas de lá pra cá.

Eu sabia que não seria só bom. Dizia, entre sorrisos, que sabia que casamento não era só bom, que teríamos dificuldades e tal. Mas eu não sabia do que estava fa…

A ÁRVORE DOS SONHOS >> Carla Dias >>

Comprometo-me a vagar pela casa vazia, varrendo melodias pra debaixo do tapete. Solfejando sentimentos castos; cantarolando de repentes como fosse destino desatinado. E também a ficar a sós pouco antes do grito histérico que sai de quem necessita.

Quem sabe até rodopio pra ficar tonta de tanto lamento, depois sapateio pormenores e entremeios. Misturo tudo que é pra endoidecer, mas dessa vez, à noite.

Eu adoro a noite.

Pode acreditar que passarei dançando pelo fio da navalha só pra recortar alegorias. As cores, estandartes, concertinas a me lembrarem desse carnaval precedente de quarta-feira a catar as cinzas. A fênix bêbada de boteco, de farra pura, já não renasce... Perpetua-se por pura preguiça.

E minha boca sempre aberta, apesar da palavra engasgada.

Mas calo a mudez num reverberar de palmas, pois a estrela da noite aponta no céu, os cabelos trançados por anjos. Sapateio bisbilhotice e curiosidade pelo universo que habita outros cantos, aquém desse meu. Barulhenta que só, aproximo-me do…

O MENINO-LUZ >> Eduardo Loureiro Jr.

Resolvi antecipar meu Natal e visitar o aniversariante antes que a casa ficasse lotada de visitantes de última hora.

Ainda não havia me ocorrido visitá-lo. A gente às vezes não atina com certas coisas óbvias, e acaba cometendo absurdos: por exemplo, um aniversário em que a maioria dos presentes são trocados entre os convidados, muitas vezes até na ausência do aniversariante.

Após mais de dois mil anos, esperava encontrá-lo um tanto idoso, de cabelo e barbas brancas, mais parecendo o pai que o filho. Para minha surpresa, ele tinha a aparência de uma criança entre um e dois anos. E confesso que não sei como se tornará um homem moreno de cabelos castanhos e encaracolados, porque o menino é branquinho de cabelo liso e preto.

Ele já é capaz de andar com habilidade, o que não o livra de algumas escorregadelas de vez em quando. Mas não existe praticamente nada que ele não possa alcançar, direta ou indiretamente. Os adultos brincam com máquinas e ferramentas, enquanto as crianças contam com a ma…

QUANTOS IDIOMAS VOCÊ FALA? [Sandra Paes]

Parece uma pergunta comum feita na seleção de candidatos a emprego. Parece, mas se olharmos bem de perto, pode não ser.

Entre diversas propagandas pra eficientes cursos de inglês, difundidas por toda parte, me deparo com uma outra bem sutil: a propaganda da mais nova língua planetária.Onde quer que se vá, especialmente no ocidente, depara-se com um novo idioma instituído e adotado por toda a mídia: o economês.

Só se fala em números, em cifras, em gastos, investimentos, em produtividade, em salários, em poupança, em juros, prejuízos, regras mutantes do pode e não pode. Regras pouco claras sobre o controle de sua vida, de seus movimentos, de seu poder de viver até em nome da sua qualidade de vida.

Me pergunto quando foi que começou essa ditadura numérica e toda essa avalanche de sinais sempre articulados em função de onde vai o dinheiro e do jeito que querem que você assimile isso.

E toda a população tem que aprender de uma forma ou de outra a acompanhar o modismo dessa nova língua. E todo …

ANTES DO SONO >> Leonardo Marona

Talvez fosse preciso um longo bocejar. Admitir a aceitação mais violenta: a que diz respeito a nossa própria carne. Um tigre de papel, perdido nos lençóis da carne. Estamos sobre um pedaço enorme de coisa que não sabemos de onde veio e na verdade é um pedaço mínimo de uma outra coisa sem referência nenhuma que gira sem direção por um espaço que por sua vez não se sabe se é infinito, finito ou realmente espaço. É impossível não pensar que estamos todos perdidos, andando por aí, criando rotas dentro de algo – chamemos de algo o que não tem nome – maior e que não tem rota alguma. Mas não tenho essa pretensão. Pretensões grandiosas são as mais mesquinhas. Perguntem a Lee Oswald ou a Oswald de Andrade. Na verdade, queria falar sobre o momento imediato como no futuro do pretérito, o tempo da desesperança poética. E hoje não precisaríamos mais do tiro que explode o sangue na parede. Não haveria mais pernas gangrenadas de pico ou dólares falsificados inflamando vaginas. Estaríamos todos sob u…

No trenzinho da alegria >> Ana Coutinho

O programa se chamava Bambalalão e a apresentadora, Gigi. Passava na Cultura, um canal que as crianças da minha época adoravam porque as propagandas eram muito curtas. Eu, como fã da Gigi, não consegui me conter de alegria quando a minha vizinha convidou-me para ir com ela e mais algumas crianças assistir à gravação do programa.

Ver a Gigi de perto? – ou seria Silvana? – eu pulei de alegria.

No dia, éramos umas quatro crianças no carro da vizinha que, embora vivesse num corpo de adulta, parecia uma criança como nós.

Lembro-me da musiquinha que repetia incessantemente: bambalalão, bambalalão, bambalalão, bambalalão - para por fim concluir - bambalalão é o trenzinho da alegria, que carrega todo dia dentro do seu coração. Talvez não fosse isso - hoje não tem importância - a música, naquele dia, estava cravada na minha cabeça e eu não cansava de repeti-la a todo instante.

Lá chegando fomos acomodadas no que seria a platéia, um nível abaixo do palco. Não demorou muito e elas apareceram, cantan…

AMAPÁ em CANTOS >> Carla Dias >>

As saias das dançadeiras, floridas; as caixas do marabaixo e os tambores e pandeiros do batuque. O sorriso das moças... O sorriso dos moços; suas histórias de vida. Os olhares curiosos dos transeuntes, deslumbrados pela beleza da dança, do lamento, do canto.

São Paulo pode ser cinza, por conta de seus prédios e ruas, mas se engana quem a julga distante. Ela é acolhedora e recebe, de braços abertos, a todos, criando um cenário cultural eclético, rico. E foi esta a cidade que serviu de cenário para um projeto muito peculiar e, definitivamente, uma iniciativa louvável de impulsionar o brasileiro a conhecer a pluralidade cultural do seu próprio país.

A música do Amapá visitou São Paulo, de 20 a 30 de novembro, tendo como palco o SESC Ipiranga. O projeto AMAPÁ em CANTOS teceu o fio que uniu duas culturas tão diferentes, e com a graça de quem conta uma história. Talvez por isso a presença de tantos poetas empunhando violões, cantando não só a beleza do Amapá, mas também sua importância na com…

LEITORA >> Eduardo Loureiro Jr.

Eu estou aqui. Sentado diante de uma tela que começo a preencher com palavras. Você está aí, com as palavras todas à sua frente. Se o tempo desse um descanso em sua mania de passar, você poderia me contar o que eu ainda nem sei que escrevi.

Então vamos inverter os papéis. Eu saio da frente do computador agora, me visto e desço até o jardim. Você me encontra lá, me dá um abraço — se já formos velhos conhecidos — ou então nos apresentamos ("Prazer, sou Eduardo.") e começamos a caminhar.

Enquanto nossos passos se acertam com uma música imaginária — ou mesmo real, "oh, darling, darling, stand by me" — você vai me contando a crônica que eu já — e nem ainda — escrevi.

Para aumentar minha curiosidade, você não começará falando da crônica em si. Falará de como chegou até ela clicando sobre um link do Google — ou de como espera por ela toda tarde de domingo. E depois dirá o que sente, como se sente. Falará das surpresas, dos encantos e das decepções (por que não?).

À beira de u…

CAOS >> Leonardo Marona

Estou à espera de qualquer coisa. Qualquer coisa que se move por perto e me apavora. Me entorta a espinha. Mas é um perto que não posso ver. Não existem milhas ou léguas que nos separam. Estamos em lugares distantes e ocupamos o mesmo espaço. Mas posso sentir seu bafo quente, sua passada larga e lenta, sinto seus dentes rangendo e algo me diz que isso não é nada bom. Digo apenas que posso sentir. Digo mais alto, algo ainda não me convence, então digo muito mais alto, e penso que perdi a razão. Posso sentir. Isso parece uma frase um tanto desesperada, de alguém insensível querendo se justificar. Sentir é algo assim tão amplo, tão vago que preciso andar pela casa a topar com móveis pontiagudos escarnecendo com as mãos para cima. Tenho um pensamento patético, no fundo de outro pensamento óbvio. O pensamento patético é: “O que estou esperando?” Ele está dentro do seguinte pensamento óbvio: “Por que demorei tanto para me dar conta de que precisava me perguntar isso?”. Fatalmente alguém há …

VENHA COMEMORAR >> Ana Coutinho >>

Quer me ver feliz, me dê um convite em que tenha escrito em letras garrafais “VENHA COMEMORAR!” que eu vou. Tendo o aniversariante qualquer idade cujo número caiba apenas em um dígito, pronto. Meu final de semana está feito. Cancelo viagem pra praia, desmarco o almoço com as amigas, tudo. Minha prioridade — na vida — são as letras garrafais em colorido: VENHA COMEMORAR! Vou.
Sou abduzida por festas infantis. Ao contrário de todo mundo que conheço, eu as adoro, confesso com uma pitada de vergonha. Por isso, a propósito, deixo claro: não estou aqui falando de retornar à infância, de sermos crianças de novo e nem das festas ridículas que pessoas de 30 anos fazem vestidas de Cinderela em buffets infantis. Cruzes, não, não faço o tipo adulta tip-top que anda pra lá e pra cá com adesivos das Meninas Superpoderosas. Não.
Falo mesmo de olhar a infância daqui, do alto dos nossos inta e poucos ou enta e tantos, não importa. Falo de assistir aos pequenos tolos rirem, gargalharem até, com um palhaç…