sábado, 13 de dezembro de 2008

QUANTOS IDIOMAS VOCÊ FALA? [Sandra Paes]

Parece uma pergunta comum feita na seleção de candidatos a emprego. Parece, mas se olharmos bem de perto, pode não ser.

Entre diversas propagandas pra eficientes cursos de inglês, difundidas por toda parte, me deparo com uma outra bem sutil: a propaganda da mais nova língua planetária.Onde quer que se vá, especialmente no ocidente, depara-se com um novo idioma instituído e adotado por toda a mídia: o economês.

Só se fala em números, em cifras, em gastos, investimentos, em produtividade, em salários, em poupança, em juros, prejuízos, regras mutantes do pode e não pode. Regras pouco claras sobre o controle de sua vida, de seus movimentos, de seu poder de viver até em nome da sua qualidade de vida.

Me pergunto quando foi que começou essa ditadura numérica e toda essa avalanche de sinais sempre articulados em função de onde vai o dinheiro e do jeito que querem que você assimile isso.

E toda a população tem que aprender de uma forma ou de outra a acompanhar o modismo dessa nova língua. E todo mundo controla a “vida” dos outros pelos significados dessa língua.

Você fala economês? Mais ou menos? Pois presta atenção. Se quando sair vai conversar sobre uma liquidação, especular sobre o preço de uma passagem pra viajar nas férias, soltar vez por outra que vai dar pra aproveitar a chance de reformar a casa, ou que esta pensando se vai dar para fazer um lift pro verão, você está matriculada no curso médio do economês.

Se você se pega fiscalizando a nota fiscal das compras do mercado pra medir se gastou mais do que o mês passado, está praticando um dever de casa na prática do idioma. E o que é mais indicador do seu nível de prática: se você justifica quase tudo em sua qualidade de viver usando argumentos citando a “crise” internacional, você foi promovida na escola existencial dos falantes dessa língua.

Eu tenho tido dores de cabeça. Tive que ouvir de uma amiga que seria preciso fazer um diagnostico pra arranjar o tratamento adequado. Mais uma jargão, de outra língua derivada do economês - o cuidado com a saúde, ou melhor, com os sintomas de doenças que nem sempre fazem parte de um quadro fixo da OMS - Organização Mundial de Saúde. Até isso!

Se sua cabeça vive ocupada com cálculos numéricos, tantos por cento disso, tantos por cento daquilo e sem dar dízima periódica, apenas números redondos ou vermelhos, o cérebro começa a dar um sinal de pane.

Quem vive debaixo da ditadura da manutenção do salário, com o medo de perder o emprego por conta da ameaça da crise internacional - essa nova peste que abala o mundo, segundo os doutores do economês -, você está debaixo de outras ameaças. Todas mexendo com a segurança existencial. Ter ou não onde dormir, ter ou não condições de andar de carro, ter ou não condições de sustentar energia pra manutenção do emprego e do salário. E sem esses, fica ameaçado o casamento, o natal, o ano novo, as tão esperadas férias e até, quem sabe, a chance de ter um filho.

A ditadura do economês é a mais avassaladora forca terrorista no mundo. Corrompe de dentro pra fora, mina a auto confiança, retira o poder de respirar e dormir em paz. E a mídia não poupa seu ouvido com todos os discursos falados nesse idioma. Todo rebuscado de estatísticas e dialetos próprios pra testar mesmo seu poder de compreensão e de submissão a essa doença crônica.

Sim, porque pra mim, e isso pode ser pessoal, basta olhar para a poluição de todas as cidades, com excesso de carros em todos os lugares, e num simples piscar de olhos, constatar a inviabilidade de uma sociedade como um todo. Primeira mostra que não faço parte do grupo que conjuga esse dialeto.Não faço parte do grupo que acredita e pensa que está tudo cuidado, por conta de jargões sobre primeiro mundo, desenvolvimento, produtividade, crescimento econômico - sem olhar todos os desastres naturais ou não, decorrentes da cata de impostos pra se produzir mais poluição e mais insegurança e violência.

Não conjugo o verbo consumir. E sou cobrada de forma direta e indireta por isso.
Se não se tem carteira assinada, declaração de Imposto de Renda, conta bancária, crediários em dia, casa própria ou em planos de ser adquirida, carro na porta ou no consórcio, prestações em dia, sonhos de consumo e inserção no mercado consumidor com possível garantia de êxito, você está seriamente doente e condenado ao isolamento. Você tem que saber economês pra sobreviver numa sociedade que so fala esse idioma, senão, seu analfabetismo lhe condena. Viver no ostracismo ou na exclusão social real tornou-se a mais seria ameaça plantada por esse império.

Você tem que fazer parte do contexto dos apavorados pela crise internacional, tem que sentar nos lugares e falar sobre isso, exaurir o espírito do medo que assola a todos e se incluir no projeto de cidadania também imposto. Está na hora de participar de mais esse programa, os poupadores de energia, os conversores de colaboração pra manutenção dos poderes políticos vigentes e tudo em nome do crescimento econômico, do PIB, resultado das linhas de produção, dos índices de consumo e de circulação de mercadorias, não importa se importantes, bio degradáveis, essenciais ou não.

Enquanto isso a vida passa e você ficando mais escravo do que nunca. Já conferiu seus números pra saber se sim ou se não? Como não? Se você não tem CPF, CEP, ID, CC, ISS, PIS, PASEP, FGTS, INPS, SUS, SS, CM, RG, CEL, você não existe! E como alguém pode viver se não existe? Como alguém pode estar incluso em uma cidadania se existir equivale a possuir todos esses códigos?

Estou querendo descobrir e viver sem eles, e não quero falar economês - já ouço demais, leio demais, mas daí só falar essa língua, está muito difícil. E nenhum médico vai me perguntar no consultório quantos idiomas eu falo, apenas pra saber se estou sofrendo de dificuldade crônica de fazer parte da tribo que fala, e conjuga essa língua - a mais falada em todo planeta. E não pensar em economês tem me dado muita dor de cabeça. Literalmente. Espero encontrar a cura.

Imagens: Woman and World Map, Thomas Kruesselmann; Binary Code with Euro Sign and Dollar Sign, Joson; Burning Candle and Page from the Torah, Coleção Corbis



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4 comentários:

Debora Bottcher disse...

Sandra, querida,
Tão atual e pertinente essa análise! Um olhar perfeito para os tempos neuróticos que estamos vivenciando... Sempre bom te ler. Super beijo.

Olhar Azul disse...

Oh céus, estou mais do que inserida no contexto. Eu existo, infelizmente. Dancei de verde e amarelo nos IIIIIIIsssss e continuo não entendendo nada dessa língua. Parabéns minha querida, muito boa crõnica, só pra variar um pouquinho né? Bjs, Simone

Anônimo disse...

Sandra querida, eu que sou assidua nos Jornais da TV, entendo perfeitamente do que vce fala.
Como vce, nao falo essa lingua, mas nem porisso ela deixa de estar inserida na minha vida. Dificil escapar da cilada.
Bom ler vce, sempre, beijos, Haydee

Cristina Alegre disse...

Sandraaaaaaa.... Sandronaa....BIG SANDRA... que MARAVILHA!!! Adorei! Como voce e' inteligente! Pois fique sabendo que faz muito, mas muito tempo que eu nao tinha o privilegio de conhecer alguem tao inteligente quanto voce e'. E' uma honra! Estou ate' orgulhosa de mim mesma por me permitir(hahaha) VOCE.
Queria ler mais e mais e... acabou, snif.
Bjss querida e parabens.