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ponto final >> eduardo loureiro jr

no começo da escrita não havia ponto ou vírgula o texto era um rio que corria sem que se pudesse perceber as correntes o sentido do texto era revelado por um leitor verdadeiro sacerdote que fazia a ligação entre o verbo da palavra e a carne do mundo lia quem sabia reconhecer as pausas a mensagem estava entre as palavras com o tempo criaram-se os sinais de pontuação .:?,!; para uniformizar o sentido já que diferentes intérpretes realizavam pausas também diferentes mas então veio a poesia e desfez o trabalho dos sinais na poesia cada palavra não diz apenas o que se quer dizer só pela poesia deus pode ser filho de deus e a poesia mesmo sem versos ou rimas inventou pausas nos textos e embaralhou as palavras e cada um lê como respira uns profunda e lentamente outros leve e saltitantemente tem poesia na bula de remédio altas doses e uso a longo prazo no cartaz pregado no poste seu amor de volta na fala da mulher suor lágrima e água do mar poesia está onde se pausa onde se pousa antes da continuação do vôo está em parar de bater as asas e deixar-se levar pelas correntes invisíveis do ar poesia não precisa ser longa para ser grande poesia poema não se lê se cria quando se pára para respirar palavra se esconde do olho na voz no gesto viver é assim mirar o rio pausar o rio sem que ele pare para respirar e pausar a si que mira o rio e nele adentrar ser corrente corrente corrente e abrir-se em sentidos quando alguém lhe pausar

Comentários

Eduardo, estou aqui procurando um porta-queixo, porque estou boquiaberta com tamanha arte
literária. Acho que você não é deste mundo, não... :)
luciane disse…
Só depois da décima linha percebi a ausência da pontuação e, conclui que ela é mesmo dispensável, como já dizia minha filha, recém alfabetizada. E então vi que eu mesma estava criando o sentido da poesia. Parei, me observei, senti minha respiração, como se estivesse numa daquelas instalações artísticas, nas quais o espectador interage com a arte.
Eduardo, gostei muito do seu jeito de escrever... suor, lágrima, água do mar e também poesia lavam a alma.
Bj, Luciane
cArLa disse…
Seu texto me "pausou" e ao mesmo tempo me levou na corrente das palavras feito rio mesmo.
Marisa, posso até não ser desse mundo, mas juro que estou me esforçando para encarnar. :) Que você ganhe um porta-queixo de algum amigo-secreto. :)) Grato pelo carinho de sempre.

Então você veio, Luciane! Grato por ter sentido o sal das minhas palavras. :)

cArLa, que bom que o sentido foi sentido. :)
Anônimo disse…
É... você realmente é um encantado. Obrigada por me fazer sentir tanta emoção quando te leio... minhas segundas estão também encantadas!!!
Anônima, fico feliz por compartilharmos encantos. :)
leonardo marona disse…
gostei do experimentalismo. pena que meu som tá quebrado e não pude ouvir o ritmo.
albir disse…
Sou meio escravo dos sinais de pontuação. Mas vou tomar coragem, a partir do seu exemplo, e procurar me libertar.
Parabéns, Edu!
Grato, Léo. Fique tranqüilo, o experimentalismo estava mais no texto do que no som, que era uma forma de atenuar o experimentalismo do texto. :)

Albir, também sou muito apegado à pontuação, mas nada como um bom jejum de vez em quando. :)

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