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Mostrando postagens de Março, 2020

HISTÓRIAS PARA CRIANÇAS, SAIA JUSTA PARA OS ADULTOS >> Clara Braga

Já vi rolando pela internet vários checklist da quarentena para você ver se as atividades que você está tendo em casa, são semelhantes ou diferentes da maioria das pessoas que também estão de quarentena. 
Até agora, a atividade que mais vi as pessoas fazendo foi assistir alguma live de um artista que gosta! Você já assistiu? Eu não só assisti como já me emocionei, chorei e tudo mais que tenho direito, inclusive aproveito para perguntar para quem entenda do assunto, é normal ficarmos mais sensíveis nesse momento?
Outra coisa que muita gente está fazendo é passar o dia todinho de pijama, tira só para tomar banho e coloca de novo! Por aí o pijama também virou seu melhor amigo? Ou talvez você tenha participado  de alguma vídeo conferência do trabalho com a blusa de trabalho e o short de pijama? Ou pior ainda, não tirou o pijama nem para tomar banho, não se sujou mesmo, banho para que?
E quem aí já fez algum exercício físico em casa, tirou foto, postou no Instagram e escreveu: tá pago? Es…

cyfarchion cyfeillgar a byddwch yn iach

informação:

estarei ausente nas próximas semanas, devendo retornar no dia 27 de abril de 2020.
agradeço muito e muito cada um que veio aqui no passado e hoje.
espero ter vocês de volta .

saudações amigas e fiquem bem !

branco
cyfarchion cyfeillgar a byddwch yn iach cyfarchion cyfeillgar a byddwch yn iach

VIII >> Fred Fogaça

Bartolomeu! O que eu não entendia era essa banalidade da existência, a mesquinheza do dia após o outro – afinal, o que era a vida, Bartolomeu?

E eu sonhava em um dia responder essa pergunta, mas ele morreu, Bartolomeu. Ele morreu enquanto eu pensava e já se foram anos que o programa dele na TV acabou.

Acabou e voltou.

Voltou com outra cara e outro anfitrião e eu já nem gosto mais porque profanaram o abraço final com uma selfie e eu que acho que a literatura e a arte não podiam se corromper com selfies, Bartolomeu, você me entende?

É tão baixo, Bartolomeu, é tão perverso.

Mundano, frívolo, diário.

Mundo cão – meu pai dizia que meu avô dizia.

Sabe, é isso que eu não entendo, é exatamente esse ponto específico de estranhamento que me foge.
Que eu estendo os conceitos e palavras e repertório – mesmo que pouco – pra me satisfazer, pra tentar entender mas eu já sei, Bartolomeu, qu’eu nunca vou entender.

Como quando eu esqueço uma palavra e ela ainda está ali e parece que na ponta da língua…

AGOSTO EM MIM >> Sergio Geia

Há uma película turvando a imagem. 
Ou, é como se houvesse. 
Os letreiros da casa-consultório ocre se embaralham: dr. alguma coisa, de alguma coisa, especialidade qualquer. Quase ninguém caminha pela rua. Aqueles que resolvem descumprir regras básicas de sobrevivência, parecem sem cor, ainda que um velho de barba esbanje um vermelho em camisa; ainda que uma mocinha de coxas grossas decline de panos em sua saia justa da moda. Um homem está na garagem, portão para dentro, observando a rua; parece assustado com o que vê, ou com o que não vê. Do outro lado, uma mulher lava a calçada, esfrega a vassoura com força, deseja retirar tudo de mal que salpica aquela superfície, nem que o concreto venha junto. O mundo está ao contrário e ninguém reparou, escuto a voz de Cássia. 
Única cor, opaca, para todos. Como se todas as cores do arco-íris, todos os vermelhos, azuis, amarelos, verdes do universo tivessem de uma hora pra outra perdido a potência; deixaram de brilhar. 
O sábado amanheceu choven…

PESADELO >> Paulo Meireles Barguil

Há dois tipos de pesadelo.


Um acontece quando durmo e o outro quando estou acordado.


No primeiro, a solução é acordar.


Embora seja inseguro que ele não retorne noutra ocasião.


Ou, ainda, que a sua lembrança me visite durante a vigília.


No segundo, a solvência é dormir.


Ainda que seja duvidoso que ele não apareça no repouso.


Ou, ainda, que ele continue a me atormentar durante o descanso.


É um sonho viver sem eles...

NÃO ABRA A PORTA >> Whisner Fraga

a saída era inevitável, já que os mantimentos estavam no fim.

repassar os cuidados:

- levar no bolso o frasco de álcool em gel 70%,

- descer pelas escadas,

- higienizar as mãos, o trinco da porta,

- deixar o celular em casa, a carteira, levar apenas o cartão de débito.

fundamental:

- não passar a mão no rosto, nunca,

- não mexer nos cabelos, nunca,

- não se aproximar de ninguém,

- levar a própria sacola e já ir colocando as compras dentro,

- só tocar nos produtos,

não fale com a atendente: gesticule.

não economize no álcool, eu sei que está em falta, mas depois a gente dá um jeito.

chegando, deixe as compras no cantinho sujo, logo depois da porta. higienize a maçaneta.

deixe os chinelos lá fora, tire a roupa, ponha num saco e depois na máquina de lavar. agora. já.

vá tomar banho.

agora reze para ter feito tudo direitinho.

TÃO FORA DO LUGAR >> Carla Dias >>

É que tudo mudou.
Tem certeza de que a geladeira não está mais no mesmo lugar. Mas como ela se deslocou? Que tipo de feitiçaria se fez necessária para isso? Essa ruga na testa dele, ela já conhece. Sabe que ele reclamará do tempo, do frio intenso de ar-condicionado. “Desliga um pouco”, ela vai dizer, “senta ali na varanda e sente o sol do outono”. Ele sorrirá, ironicamente, como lhe é comum ao adoçar sorrisos, para então alegar: “o sol não é meu amigo, mancha a minha pele”. Ela dará de ombros e se enroscará no braço dele, e o conduzirá até a varanda: “é tanto mundo, não?”.
É mundo a se perder de vista.
Ficam alguns minutos em silêncio, percebendo que o mundo nunca esteve tão silencioso. Ele pensa sobre as vezes em que pediu para que o mundo se calasse, apenas para que pudesse se aprofundar em si mesmo. Ela envereda pelas lembranças de calçada: encontro com amigos, algumas palavras sobre o tempo, a balburdia das vielas onde o mercado é das especiarias. Tudo tão colorido e perfumado.
“…

SEGUIMOS CONFINADOS >> Clara Braga

Quando toda essa situação de isolamento começou, minha maior preocupação era: como vou explicar para uma criança de 2 anos, que desce pro parquinho ou pra jogar bola praticamente todo dia, que ele não pode mais sair por tempo indeterminado? Como explicar o que é uma coisa que a gente não vê?
A situação por si só já nos deixa apreensivos, imaginar a criança ficando doida em casa, querendo sair e não entendendo nada, me deixava ainda mais ansiosa.
Eis que começou o primeiro dia de confinamento. Primeiro pedido do dia: quero ir pro parquinho! Respirei fundo e comecei a explicação, falei de forma bem simples o que era um vírus e o levei até a janela para mostrar que, por um tempo, é assim que as ruas vão ficar. 
Essa situação se repetiu uns três dias. No primeiro teve bastante choro, no segundo só irritação e no terceiro descobrimos um episódio de Pocoyo - o atual desenho predileto dele - que fala sobre vírus. Ele assistiu, perguntou se era isso que estava acontecendo e pareceu aceitar q…

A PESTE >> Albir José Inácio da Silva

Muita gente pensa que isto aqui era quilombo. Mas não era. Se olhar direito, por debaixo dos matos, vai encontrar os restos da casa grande que o cupim e o tempo derrubaram.
Alguns contam histórias de revolta de negros que mataram os senhores, mas pouca gente sabe o que se passou. Ninguém gosta de histórias de maldição e eu também fiquei assombrada por muito tempo e não queria falar do que eu vi. Mas agora, na velhice, até jornal já veio conversar comigo.
A única ainda viva na cozinha era a Kinah, que não conseguiu se levantar, queimando em febre no porão aonde a gente dormia. Eu já tinha doze anos, então acendi o fogão, passei o café e assei umas broas. Na sala, Sinhá Martina estava sentada perto da janela com roupa de ontem ainda.
- Sai daqui com isso, negrinha, que eu já vomitei até as tripas! – disse com o olhar na janela e os braços caídos.
O padre estava encolhido em outra cadeira, com fundas olheiras e careta de dor. Com um gesto de mão, ele me mandou embora. Eu arriei a bandeja no…

ELA NÃO FOI INTERROMPIDA >> Sandra Modesto

Apenas meu olhar diante dos fatos... 

— Verdade? 
— Sim. 
— Muito bom! Mas meio estranho. 
Ela era negra. 
— E daí? O Brasil não é racista. Não sei se você sabe. 
— Estou sabendo agora. Que legal! 
Ela era negra e lésbica. 
Chega! O texto já destravou... 
O outono chegou. A natureza ganha novas cores. Folhas caem. Mulheres caem também. Histórias são relembradas. Marcam. A morte transita entre o porquê e o sofrer. 
A família chora. Choram a mãe o pai , choram a irmã e a filha, chora a esposa. 
Porque de lutas e lutos somos feitas. Desabamo-nos às vezes. Depois é luz! 
O que fazer para proteger uma cidade? Um povo? Uma sociedade? A moça estudou Sociologia. Teve projetos importantes e conseguiu ser a quinta vereadora mais votada em 2016. 
No dia 14 de março de 2018 foi assassinada. Assim, do nada, vários tiros. Do nada é apenas eufemismo. A moça que sabia demais, que lutou demais, foi embora. 
Mas ressoa em mim, a liberdade de uma voz. 
Dois anos sem ela. Estou enclausurada dentro de c…

O MUNDO SURTOU >> Nádia Coldebella

Peço desculpas aos queridos leitores, mas interrompo a saga épica e fantasiosa que vinha escrevendo - prometo retomar em futuro próximo. Faço isso porque o mundo surtou. E faz parte da natureza do escritor dar um passo para traz ou um passo para diante e olhar o fenômeno de ângulos que talvez ele nem compreenda.
Quando dou um passo para traz, vejo que há dez anos eu era professora de uma universidade e estava grávida da minha segunda filha. Época exata em que grávidas morriam por causa do H1N1.
- É só uma gripe, professora! - e eu acuada num canto, de máscara, tentando ser valente para não entrar em pânico e não causar pânico. Naquela época, as pessoas ainda mantinham a calma, um certo autocontrole. E eu estou aqui, dez anos depois, viva e ansiosa falando disso.
Agora, porém, é diferente. Covid-19. Ele não é só um vírus da gripe. Verdade seja dita, o Covid-19 é um vírus da globalização. E sobre ele, tenho escutado de tudo: de chacotas, à notícias catastróficas e profecias de fim de m…

ALÉM DOS QUINTAIS >> Carla Dias >>

Falando com um amigo, para parabenizá-lo pelo seu aniversário, lamentei que a celebração da chegada dele ao mundo se desse em momento tão complicado. Então, ele me lembrou de uma das marcantes frases de Gabriel García Márquez: O amor se torna maior e mais nobre na calamidade.
Não consegui evitar de refletir sobre um dizer tão poderoso, e que, ao mesmo tempo, despertava em mim muitos questionamentos. 
Qual é o tom desse amor?
Qual é o alcance desse amor?
Qual é a profundidade desse amor?
Gabriel García Márquez me levou ao primeiro mergulho, há muito tempo, enquanto eu me perdia nas páginas do seu “Cem anos de solidão”. Na escrita dele, eu descobri que o amor pode ser volúvel, influenciável, panfletário, falseado, egoísta. Amor pode ser catártico, melancólico, rancoroso, distraído, flertar com o ódio e também ser tudo aquilo de fantástico, extasiante, profundo e benevolente que sentimos ao somente pronunciarmos a palavra.
Amor. Αγάπη. Ljubav. Kärlek. Amour. любовь. Kærlighed. Liefde. T…

VAMOS APRENDER >> Clara Braga

Estou acompanhando todas as notícias sobre o coronavírus e respeitando todos os alertas de isolamento social possíveis. Mas confesso, precisei fazer feira.
Não estou me sentindo mal, não apresento qualquer sintoma, então segui a recomendação de deixar as máscaras para quem realmente precisa e fui na cara e na coragem. Bem pouca coragem e até um tanto grande de culpa, pois sei que a recomendação é mesmo para ficar em casa.
Fiz uma lista prévia para ir direto onde eu realmente precisava e poder voltar o mais rápido possível! Quando parei para comprar frutas, peguei minha garrafinha de água na bolsa e bebi um gole. A sede estava grande, tinha ido a pé no calor forte das 11h.
No último gole, a danada da água decidiu descer pelo buraco errado e me deu uma vontade enorme de tossir. Segurei o quanto pude, nessa altura meus olhos já estavam lacrimejando e eu me afastava o máximo que podia das pessoas da feira, mas sem pressa, para não fazer alarde.
Quem precisou andar nas ruas esses dias sab…

tio irso >>> branco

tio irso acordou muito cedo naquele dia tomou seu café colocou a mochila nas costas e saiu começou a assobiar uma canção alegre e enquanto caminhava em direção a sua terra prometida os vizinhos madrugadores olhavam para suas costas e perguntavam-se para onde ele estaria indo mais tarde - no mesmo dia- todos comentavam entre si por deus agora ele ficou louco de vez
tio irso chegou a um lugar chamado quatro e ainda estava assobiando a canção quando olhou para os lados                                                                                      e viu cérebros cérebros piscantes cérebros enevoados e opacos cérebros tranquilos pareciam amistosos e telepaticamente deram-lhe as boas-vindas sentou-se e foi rodeado por eles que lhe ofereceram um chá conversaram - ainda telepaticamente - e eles falavam sobre as maravilhas                                                                                         da medicina moderna não se usava mais o cavalo e uma simples dose os levava ao  paraíso e que isso…

DESPEDIDA >> Sergio Geia