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TÃO FORA DO LUGAR >> Carla Dias >>


É que tudo mudou.

Tem certeza de que a geladeira não está mais no mesmo lugar. Mas como ela se deslocou? Que tipo de feitiçaria se fez necessária para isso? Essa ruga na testa dele, ela já conhece. Sabe que ele reclamará do tempo, do frio intenso de ar-condicionado. “Desliga um pouco”, ela vai dizer, “senta ali na varanda e sente o sol do outono”. Ele sorrirá, ironicamente, como lhe é comum ao adoçar sorrisos, para então alegar: “o sol não é meu amigo, mancha a minha pele”. Ela dará de ombros e se enroscará no braço dele, e o conduzirá até a varanda: “é tanto mundo, não?”.

É mundo a se perder de vista.

Ficam alguns minutos em silêncio, percebendo que o mundo nunca esteve tão silencioso. Ele pensa sobre as vezes em que pediu para que o mundo se calasse, apenas para que pudesse se aprofundar em si mesmo. Ela envereda pelas lembranças de calçada: encontro com amigos, algumas palavras sobre o tempo, a balburdia das vielas onde o mercado é das especiarias. Tudo tão colorido e perfumado.

“Imagem também grita.”

Ele gargalha baixinho, da declaração sem sentido dela. Ela gargalha baixinho, da falta de saber dele a respeito dos sons, perfumes e imagens que lhe atiçam os sentidos.

A geladeira mudou de lugar, ele tem certeza, mas não o suficiente para que ele possa perguntar o que houve, sem que ela brinque de enganá-lo. Ela gosta disso, de testar a lógica dele. Ela sempre faz isso e ele sempre gosta. Mas não agora, quando muito mais está fora do lugar. Até o outono lhe parece meio deslocado. 

Os amigos o acham a pessoa mais lógica do mundo, mas não ela, quem sabe que dentro dele tudo é bagunçado e se esparrama em poesia renegada, ou seja, das mais eloquentes, de tão rebelde que é. Há quem a chame de desatenta, dramática, sem noção, até ele gosta de fazer isso. A diferença é que ele já percebeu que tudo nela se ajeita em uma coerência que não se priva do afeto. Pode parecer tudo fora do lugar, mas não ela. 

Não é o pôr do sol que eles se ajeitam para assistir. A porta do prédio em frente se abre e lá estão... A menina, os pais e os avós. Todos os dias, eles saem, na mesma hora, pouco antes de a noite chegar, e dão cinco passos fora da porta, depois voltam. Então, olham para cima e seus olhares os alcançam. Acenam, eles acenam de volta.

A geladeira é um mistério. Quem irá estancá-lo? Ele tem certeza de que foi ela quem a tirou do lugar, apenas para incomodá-lo, porque sabe que nele o incômodo gera distração. 

Porque o mundo...

“Eles me parecem bem”, ela diz. Ele não sorri, que o momento é da contemplação. A noite chega quase no momento em que o pai fecha a porta de saída do prédio, atrás de si. Qual será o nome deles? Que história essas pessoas carregam? Ele se sente tão curioso, mas ela prefere deixar passar, porque há perguntas que podem nos enlouquecer ao não alcançarem resposta.

Não assistem mais aos telejornais. Sentam-se na varanda, à noite, às vezes para observar estrelas e dizer bobagens, em outras, para declamar saudades e se molhar de chuva.

“O mundo se tornou esse lugar estranho, feito a gente”, ele diz, e sorri uma alegria requentada. Ela segura o rosto dele entre as mãos, como viu personagem fazer, no último filme que assistiu, em um quando que não saberia reconhecer em calendário: “ainda bem, não acha?”, ela sussurra, como se entoasse uma canção de ninar.

Ele acha que o mundo nunca foi tão amplo e silencioso, e que os estranhos nunca foram tão próximos, ainda que desconheça suas histórias. Ela não se lembra do antes de hoje, o antes de tudo fora do lugar, feito a geladeira que tanto o incomoda. 

Adormecem um nos braços do outro, seus fantasmas muito bem acomodados nesse abraço. Amanhã o mundo continuará amplo e silencioso e misterioso e distante, ainda que logo ali. Amanhã eles continuarão a tomar sol na varanda, às vezes, chuva, enquanto dançam aquela canção da qual esqueceram a letra, mas ainda reconhecem a melodia.

Tudo tão fora do lugar, que parece certo e talvez o seja.

Imagem © Karen Arnold | CC0 Public Domain – publicdomainpictures.net

carladias.com

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