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VIII >> Fred Fogaça


O texto de hoje é um spoiler do livro que estou trabalhando, espero que gostem :)

Bartolomeu! O que eu não entendia era essa banalidade da existência, a mesquinheza do dia após o outro – afinal, o que era a vida, Bartolomeu?

E eu sonhava em um dia responder essa pergunta, mas ele morreu, Bartolomeu. Ele morreu enquanto eu pensava e já se foram anos que o programa dele na TV acabou.

Acabou e voltou.

Voltou com outra cara e outro anfitrião e eu já nem gosto mais porque profanaram o abraço final com uma selfie e eu que acho que a literatura e a arte não podiam se corromper com selfies, Bartolomeu, você me entende?

É tão baixo, Bartolomeu, é tão perverso.

Mundano, frívolo, diário.

Mundo cão – meu pai dizia que meu avô dizia.

Sabe, é isso que eu não entendo, é exatamente esse ponto específico de estranhamento que me foge.
Que eu estendo os conceitos e palavras e repertório – mesmo que pouco – pra me satisfazer, pra tentar entender mas eu já sei, Bartolomeu, qu’eu nunca vou entender.

Como quando eu esqueço uma palavra e ela ainda está ali e parece que na ponta da língua, como dizem, e literal como eu talvez pudesse alcançá-la, se colocasse a mão na boca mas ela não sai, ela não vem e eu sou obrigado a desistir e

Bartolomeu! A vida é só isso? Essa coleção de desgraças injustificáveis que se sucedem e não se sustentam a coisa alguma?

A vida, Bartolomeu, é só uma selfie?

Comentários

branco disse…
como diz a canção "u jardineiro como aquele, ninguém consegue substituir". capturar um momento (me desculpe a linguagem fotográfica) é muito difícil, mas capturar esse momento com o sentimento que existe é quase impossível e você conseguiu. de um dolorido tão bonito. aceite um abraço, dispensemos a selfie.
ddmichelin disse…
Será só uma selfie?🤔