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DEPOIS DE AGOSTO >>> Sandra Modesto




Aos nove anos de idade uma menina se isola. Não entende muito o que está acontecendo. Sabe que é uma menina. Apenas. Meio ressabiada, anda pelo mundo prestando atenção nas cores de Almodóvar. Começa a descobrir o corpo. Assusta-se um pouco. Ouve pessoas falando sem parar. Para por alguns instantes. Inconstantes apegos transformados em desapegos. 

Não gosta de bonecas. Acha as meninas da rua vizinha meio chatas. Os meninos brincam de bola.

— Só os meninos?, pensava a menina. Só. 

Com treze anos, uma adolescente vê no espelho do banheiro os seios crescidos. Já não é mais menina. Imagina um sutiã. Ganha o primeiro sutiã rosa de rendinha. Se sente! 

Um ano depois, um moço de 25 anos, puxa a menina de 14 anos, para um canto da escola. Era noite. Na época, as escolas públicas podiam fazer festinhas para arrecadar dinheiro e manter o caixa escolar. E de quebra, proporcionar danças, discotecas. A moçada gostava. Mas o primeiro beijo o cara se aproveitou. Passeou as mãos pelo corpo da menina de 14 anos. Ela usava um colan (Body) branco, uma calça parecida com jeans, um tecido azulado bem macio. Não era jeans. O moço adulto beijou com a língua. Ao perceber a estranheza do momento, a menina se afastou, até porque pensou que o beijo primeiro fosse com um moço da mesma idade que a dela, e de preferência, beijasse pela primeira vez também. 

No começo dos anos oitenta, a moça perdeu a virgindade. Ninguém forçou. Ela quis. O primeiro namorado. Dois anos depois do namoro, uma gravidez. A mãe dela nunca conversou sobre educação sentimental, que dirá educação sexual, e nas escolas pela vida estudantil, o assunto era proibido. Depois da gravidez e com uma filha pra criar, a mulher não quis continuar o casamento. Estava no ensino superior com graduação em Letras. Saía à noite. Ao atravessar a rua, ouvia das vizinhas jovens, porém alcoviteiras: 

— Mulher desquitada saindo essas horas está indo caçar homem. Tradução: Puta. 

A mulher saindo sozinha rumo à faculdade do outro lado da cidade era puta. Puta. Pois bem, o tempo não para e a mulher tem 59 anos. Se pudesse voltar às idades acima publicaria algumas notas nos jornais.

Para quem me beijou pela primeira vez, saiba que você beija mal pra caramba. Eu só tinha 14 anos. E o nome disso é assédio. Você é um velho babaca. Idiota! 

Quem me chamou de puta, eu tenho dó. Que pena, meninas que já reproduziam a cultura machista em vigor. 

No dia 25 de agosto de 2019, eu publiquei minha primeira crônica. Quase sete meses depois de agosto. 

 Porque essa menina, essa moça, essa mulher, sou eu.



https://pin.it/21jlwgE

Comentários

Laércio disse…
Crônica perfeita para esse dia. Nesse meio século pouco mudou em relação a sociedade e seu comportamento diante esse grande problema que a desvalorização e de preconceito a mulher. Mas nesse século as mulheres são outras. Mudaram. Se apoderaram. Parabéns pela bela crônica e parabéns as mulheres pelo dia. Parabéns a você.
Zoraya Cesar disse…
Sandra, essa história merece outras crônicas, essa foi linda! Espero que todos esses personagens, por alguma manipulação do Destino, a leiam. Que bom que li bem no dia dedicado a homenagear a mulher!
Nadia Coldebella disse…
Linda história, deve ser uma vida mais linda ainda.
Acho maravilhoso quando um escritor põe seu mundo nas histórias, mesmo que pra isso precise de personagens.
Crônicas são terapêuticas, escrever é terapêutico. É uma jornada incrível quando honesta. E honestidade tua crônica tem de sobra.
Grande abraço
Albir disse…
Parabéns, Sandra! Orgulhe-se dessa crônica, das outras crônicas e da sua vida.
Carla Dias disse…
Trazer para um texto a beleza, enquanto desfia a feiura do desrespeito do outro, não pé para qualquer pessoa. Ainda bem que é para você, porque este texto é a sua vida, mas também é a vida das muitas pessoas que se conectarão a ele. Muito especial, Sandra.