CASAMENTOS E CACATUA >>> Nádia Coldebella

 

Além de ser meu chefe há 20 anos, Eliseu é meu grande amigo: torce pro mesmo time, conhece a minha esposa e é padrinho do meu filho. Enriqueceu vendendo produtos importados numa época em que ninguém pensava nisso.

Ele tem um segredo que descobri ao acaso há alguns anos, quando fui ao banheiro do escritório. O encontrei muito compenetrado em frente ao espelho, perscrutando milimetricamente a cabeça a procura de algum infeliz fio de cabelo desbotado. Na mão, empunhava uma escovinha muito pequena, que parecia cheia de tinta.

– Que que é isso, Eliseu? – Foi a primeira de muitas vezes que eu vi essa cena e acho que ele assustou-se, porque tentou esconder o apetrecho e olhou desconfiado para os lados.

– Ah, é você, Fernandinho! – Ele respirou aliviado e passou a falar em voz quase sussurrada. – É um rímel para cabelo importado, caríssimo e difícil de achar. Sei que não parece, mas eu pinto o cabelo. E não tem jeito, esses brancos aqui, ó, sempre aparecem. Então uso o rímel todo dia e costumo dar uma reforçadinha quando posso. Funciona muito bem. – Então ele virou a cabeça num ângulo engraçado – E tem um efeito bem natural. Repara só!

– Pára com isso, Eliseu! – Sempre soube que ele pintava o cabelo. – Seu cabelo vai acabar caindo. Ficar careca é pior do que ter cabelo branco. – Também virei minha cabeça num ângulo estranho para ele ver meu cocuruto brilhante.

A verdade mesmo é que o meu amigo pintava o cabelo para compensar o dedo mais podre que eu já vi na minha vida quando o assunto é mulher. Ele casou-se três vezes. Os três casamentos falidos – horrivelmente falidos. E eu fui padrinho dos três desastres.

A primeira esposa era uma mulher que nadava terrivelmente bem. Mais ou menos da idade dele, parecia muito mais jovem, especialmente quando subia no trampolim do clube e dava saltos performáticos depois de dois ou três movimentos teatrais que deixavam meu amigo muito excitado e aos demais de boca aberta. Logo foi convidada a integrar a equipe sênior de natação local. Não foi sem espanto que, certo dia, Eliseu me contou que ela e o treinador costumavam fazer exercícios específicos na banheira de hidromassagem de casa. Quando a pegou em flagrante, ele até pensou em se tornar violento, mas a visão do imenso treinador saindo da banheira facilitou, de alguma forma, uma separação rápida, amigável e polpuda para ela.

– Não dava para competir, Fernandinho. O cara era muito grande.

A segunda esposa foi uma espécie de enigma. Era muito culta, esquálida e com cara de velha. E chique. Gostava de blusas de gola rolê e saias plissadas, adorava saltos altos e coques na cabeça. Costumava sentar em uma poltrona muito feia, comprada especialmente para ela. Fumava um cigarro importado com o auxílio de uma piteira também importada, e, quando soltava a fumaça, elevava o queixo e fazia biquinho. Era dada a falar difícil, utilizando-se de palavras incompreensíveis e impronunciáveis para o simplório Eliseu. Para mim, ela falava alguma língua morta. O casamento durou apenas algumas semanas e meu pobre amigo ficou sem saber, do começo ao fim, o que aconteceu. Um dia ela lhe disse três ou quatro palavras daquelas, baixou o queixo, parou de fazer biquinho e foi embora para Paris – lógico que de passagem e estadia paga pelo meu amigo.

– Acho que tivemos um problema de comunicação, Fernandinho. Eu não compreendia o que ela tentava me dizer.

A terceira esposa era uma cozinheira excepcional. Ele a conheceu quando fomos a um restaurante da capital, numa semana de trabalho intenso. Era uma loira volumosa, muito alta e forte, de grandes olhos azuis e uma voz meio anasalada. Veio vestida de chef, trazendo um frango assado numa caçarola. Era realmente uma forma estranha de servir um frango assado, mas meu amigo não percebeu. Ela sorria sem parar e ele ficou muito nervoso, retorcendo-se na cadeira e ocupando as mãos num irritante movimento de abrir e fechar o relógio de pulso. Casaram-se naquela semana mesmo, numa linda cerimônia realizada num hotel fazenda. E a separação ocorreu horas depois por causa da cacatua.





Acontece que a loira parruda levou para o casamento sua cacatua de estimação. O animal, de asa devidamente aparada, carregou as alianças no bico. Acabada a cerimônia, ficamos na festa e o pássaro desgraçado acompanhou o casal para o quarto onde o mel da lua seria devidamente consumido. Eliseu me contou que, enquanto a esposa estava no banheiro, ele aproveitou para reforçar o rímel dos cabelos, usando o vidro da janela como espelho. Foi quando ele viu o reflexo da cacatua. A ave, alucinada, jogou-se sobre ele, atacando-o desvairadamente – eu acredito que tenha sido um ato deliberado de ciúmes.

– Os olhos do bicho estavam vermelhos, Fernandinho. Acho que ela tinha o diabo no corpo! Eu tentei me proteger, mas ela deu uma bicada no meu olho e depois enfiou aquelas garras na minha bochecha. E ainda me olhou nos olhos, soltou uns gritos, roubou meu rímel e saiu pela janela…

Da festa eu vi a ave larápia voado baixo e, logo atrás, meu amigo, descalço, tentando correr pelo cascalho do jardim. Ele estava todo vermelho e proferia em alto brado uma série de palavrões que não ouso reproduzir. Em seguida, vinha a noiva, com todo seu corpanzil ainda vestido de branco. Corria meio desequilibrada, braços jogados para o alto. Gritava com todas as forças para que Eliseu parasse. Atordoado pelos gritos semi-fanhos da mulher, ele acabou enfiando o dedão do pé no cascalho. Mas, ao invés de gemer de dor, abaixou-se, pegou uma das pedras e atirou, acertando em cheio na cabeça da ave, que caiu mortinha da silva com o rímel ainda no bico. Tudo assistido de camarote pela rainha do fogão que, furiosa de ódio, deu um chute épico na canela do infeliz Eliseu e correu em direção a cacatua amada.

Depois disso, Eliseu parou de pintar os fios e resolveu assumir a cabeleira. E por uns dias, tornou-se um romântico rejeitado de cabeça quase branca, lamentando, pelos cantos da empresa, sua triste sorte. Ontem, quando cheguei, ele tinha um sorriso enorme no rosto e me disse, todo empolgado – e me deixando antever um quarto casamento – que havia conhecido uma linda garota, bem burrinha e da metade da sua idade. Ela havia ficado sinceramente encantada por sua cabeça platinada, seu carro do ano e sua farta carteira. Ele até matriculou-se numa academia e insistiu para que eu fosse junto. Mas não aceitei. Sinceramente, Eliseu, eu não tenho mais idade pra isso.

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