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Mostrando postagens de Junho, 2008

A PÁ LAVRA >> Eduardo Loureiro Jr.

"Penetra surdamente no reino das palavras."
(Drummond)

Você conhece o poder das palavras. De salvar uma alma penada das penas de outras palavras. De cavar sepulturas. De alçar às alturas. De ajoelhar. De fazer chorar: de dor, de alegria. O poder da coberta e o de desnudar. De mover as pessoas. De parar as pessoas. De impedir as pessoas. De tudo o que há, podem as palavras. E podem — ainda — de tudo o que não há, mas que se possa imaginar.

Conhecendo o poder das palavras, a gente tenta se apoderar. Qual a palavra que abre? — Abracadabra. Qual a palavra que voa? — Pirlimpimpim. Qual a palavra que encerra? — Chega! Qual a palavra que entrega? — Adeus. Qual a palavra que leva? — Inté. Qual a palavra que pede? — Perdão. Qual a palavra que toca? — Vem... E por vezes acertamos a palavra e o desejo, e sentimo-lhe a firmeza como se o poder fosse nosso.

Mas a palavra vem de antes do nosso corpo. "No princípio era o verbo", e não a carne. Nós fomos feitos da palavra — não a fazem…

mais uma tarde entre a vida e a morte >> Leonardo Marona

era início de verão,
toda hora parecia meio-dia.
eu estava desempregado,
sem namorada, sem saco,
sem dinheiro obviamente.

meus amigos haviam viajado,
eles foram para muito longe,
e mesmo os que estavam perto,
acenavam de cima dos navios.

mesmo assim era de manhã,
uma dessas manhãs de verão,
e o tempo estava quente demais,
mas eu andava escutando Lou Reed,
chutando pequenas pedras,
assobiando para as garças,
enquanto nos cantos mais escuros
pessoas pediam esmolas,
pessoas sem pernas, sem olhos,
pessoas falavam sozinhas no calor,
sem amor, sem afeto, largadas,
mas eu sabia que era preciso
continuar andando e, se possível,
ainda tentar mostrar um mínimo
de alegria por não ser ainda
a minha vez.

Lou Reed falava sobre piranhas e travestis
que rodavam pela Western com Hollywood,
onde, um dia, certo poeta bagaceiro viveu.
Lou Reed falava também sobre garotos ricos
que virariam padres, sobre cartas de tarô
e muitas mulheres que falavam demais.
de alguma forma ele me ajudava a seguir.

a mim restava continuar andando,
entregar…

NA TEORIA TODOS SOMOS PRÁTICOS >> Carla Dias >>

Há dias em que perguntas simples, e que merecem respostas objetivas, caem na vida da gente como se fossem chamarizes para desabafos ou delírios.

Ontem uma amiga me perguntou como eu estava, e ao invés de responder “tudo bem” ou “mais ou menos”, contei a ela uma historinha:

Eu... Nada. Estou confinada no meu mundo imaginário, onde os cobertores são quentinhos e o vinho substitui a água. Onde o pianista, que também arranha um violão, compõe ao lado de onde escrevo meus livros. Há quarto de hóspedes na casa, para receber os amigos, assim como canecas em louça coloridas para servi-los com café ou chá.

Sim...Eu ADORO canecas em louça!

Continuando...

Fico pensando se, valendo a previsão que um amigo fez para mim, há alguns anos, dia desses eu não entrarei nesse universo fictício e interessante e ficarei por lá mesmo... Maluca de tudo e, finalmente, feliz.

Hoje, outra amiga caiu na besteira de perguntar como eu estava:

Com um mau humor intruso que só... Onde já se viu mau humor invadir o dia da gen…

21A -- Paula Pimenta

Ontem de manhã, bem de manhã mesmo, 7h pra ser mais exata, eu já estava dentro de um avião tentando chegar à minha cadeira de sempre. Toda vez que eu viajo, eu escolho a 21A, que fica ao lado de uma janela, que não é muito na frente, nem muito pra trás, e que muitas vezes vem acompanhada da sorte de ninguém comprar suas ‘irmãs’ 21B e 21C, e eu posso viajar bem tranqüila, sem ficar encostando no cotovelo de ninguém e sem ter que agüentar ronco na minha orelha (porque sempre tem muito dorminhoco nos vôos de 7h da manhã).

Só que aí, quando eu sobrevivi àquela fila de gente que fica espremendo coisas dentro dos bagageiros sem a menor consideração por quem tem que esperar em pé até que eles resolvam a vida, e consegui chegar ao meu querido número 21A, tinha uma menina de uns 16 anos sentada BEM no meu assento. Eu - que já estava com paciência zero por causa de: a) ter acordado às 5:30h pra pegar o dito vôo, b) ser segunda-feira, c) ter acabado de despedir do meu namorado e com toda a trist…

UM A MAIS >> Eduardo Loureiro Jr.

Há um quarto a mais na casa. Uma suíte onde não se pensava haver nada. Um guarda-roupa, uma cama, uma estante e um banheiro comprido e espaçoso. Um quarto de hóspedes sem hóspedes que pode ser usado pelo dono da casa.
Há um canto a mais no ar. Um som onde só havia silêncio e barulho. Uma nota, uma melodia, um arranjo e uma canção de letra delicada. Uma música procurando o seu ouvinte.
Há um pensamento a mais na mente. Uma idéia onde só havia oposição. Uma palavra, uma expressão, um sentido e uma história desmemorada e conhecida. Uma vida contando seu rumo.
Há um sorriso a mais na cara. Uma alegria onde só havia dentes. Uma brecha, uma abertura, uma expansão e uma fé capaz de mover a si mesmo. Um encontro de si consigo.
Há um tempo a mais, um sonho a mais, um milagre a mais, um detalhe a mais... de tudo um pouco a mais guardado entre as dobras do que se vê.
E há o espanto — libertador — desses achados.

AGENDAS ROTINEIRAS [Sandra Paes]

Parece redundância. Talvez seja. Se é pra estar na lista do que fazer, parece óbvio que é pra seguir uma certa rotina. Mas há certas coisas e atos que se tornam incorporados, e, não sei que parte do corpo ou do cérebro dita suas normas, mas todo mundo parece seguir sem pestanejar.

O mais chato e irritante é ter que ouvir o de sempre: “Eu estou apenas fazendo meu trabalho.” Aí é que mora o perigo. Não sei quando foi que inventaram a escravidão do trabalho como forma de conquistar a liberdade. E com isso se justificam os cortadores de árvores, os matadouros de aves e vacas e porcos, os cortadores de gramas e podadores de árvores naturais, os construtores compulsivos com seus cimentos e tijolos empilhados, os policiais de ronda que espancam as pessoas em nome de manter uma possível ordem, as faxineiras domésticas que arrastam os moveis e passam o aspirador de pó com o rádio ligado às tantas - mesmo que tenha alguém em casa de cama, não suportando barulho -, os garçons e catadores de prato…

Enquanto Juca lia Fausto Wolff no jornal >> Leonardo Marona

Juca e Dato durante certa manhã de frio, enroscados debaixo de cobertas já não tão limpas, no chão da sala com cozinha embutida.

As mãos vermelhas e quebradiças refugiadas em xícaras com café forte e amargo. A chuva estala as janelas e é tão difícil se ver livre da poeira quanto do passado. Os jornais estão espalhados pela sala, com marcas antigas de copos de vinho e pontas de cigarro – algum amor perdido em noites sem sono.

Dato veste apenas meias de lã acinzentadas e uma cueca samba-canção esgarçada. Está fora de forma, de modo que ostenta mamas salientes, mas ainda tem belas coxas e se orgulha delas.

Juca corta as unhas do pé numa bacia e fuma um cigarro ao mesmo tempo. Com os cabelos presos em coque por uma caneta de cinqüenta centavos, bate as cinzas no tapete “do tipo polaco” e funga com o nariz entupido por causa da alergia ao pêlo do gato. O jornal dobrado no chão duro de tábua corrida não representa nenhum aconchego.

- Outro dia me chamaram de reacionária porque eu disse que era …

CONTINUO SEM SABER DE MIM >> Carla Dias

Estava nessa correria, tropecei, caí, levantei, sacudi a poeira e dei a volta pela sala, procurando bugigangas que arquivo na alma, enquanto falava com as paredes, reiterando o mantra: essa não sou eu.

Não sou a pessoa que encontro a cada manhã, o olhar enevoado, a rotina desprovida daqueles gracejos usuais, provocados pela vontade de pensá-la colorida; a rotina lírica, atrevida.

A ousadia me dispensou há tempos, pois até mesmo ela tem de se alimentar. E ando dando de comer a ela somente as raspas, os restos, a letargia. As esperas vãs.

Hoje um estranho me pediu informação sobre ônibus e, do nada, disse para eu não cortar mais os cabelos. Será que ele enxergou do lado contrário do espelho, alcançando o quando eu parecia mais certa, cabendo em mim, ainda que descabida de tudo? E, certamente, mais descabelada...

Dei a informação sobre o ônibus e ignorei os cabelos.

Antes que me esqueça de esclarecer: não era apenas sobre ônibus pra Lapa e cabelos cortados. O estranho disse que era recado de …

AO VIVO >> Eduardo Loureiro Jr.

Tem coisas que é melhor ao vivo. Tomar sorvete, por exemplo. Não deve ser bom tomar sorvete no passado. A lembrança de tomar sorvete, mesmo que muito prazerosa, perde para uma nova oportunidade de meter os lábios no frio ardor de um açaí com menta ou de um tapioca com milho verde. O mesmo vale para tudo que é alimentação. Vá lá que um Proust da vida consegue tirar leite de pedra, quer dizer, leite de madeleine, mas é coisa para poucos: aqueles que vivem mais na imaginação do que no corpo.

Já outras coisas parecem estranhas no aqui e no agora: literatura, por exemplo. Todos os dias eu pego um ou dois ou três livros para ler e não fico pensando "e se eu estivesse do lado do autor na hora em que ele estivesse escrevendo?" Talvez eu nem tivesse paciência: "Vamos lá, cara, escreve logo, não tenho todo o tempo do mundo", "o quê?! Você vai ao banheiro?! Mas justo agora, na melhor parte do livro", "Não acredito, você voltou do banheiro mas nem lavou as mãos e…

POIS NÃO, SENHORA! [Sandra Paes]

Não faz muito tempo que me dei conta que tinha virado senhora! Aos olhos dos outros, é claro... De repente, voce percebe que as pessoas passam a lhe dizer, a toda hora, a sra. aqui, a sra deseja, pois não, senhora!.

Ganhei um status novo. E diante disso, confesso, fiquei sem saber como me comportar. Um sentimento muito parecido como o de quando fui “comunicada” que tinha virado “mocinha”.

Minha consciência, minha percepção, nunca foram muito ligadas ao espelho ou na visão do outro... Costumava - e ainda é assim - ser mais ligada nos meus próprios sentimentos ou emoções, ou o que se passa dentro de mim como sinal prioritário de tudo. Coisas como a intuição, o conforto ou não dos músculos, da respiração, da batida cardíaca, da temperatura da pele e o desassossego das vísceras.

Daí que essa coisa como: - Nossa, como você está bonita! Ou, o que você tem usado nos cabelos, ou você perdeu peso!, ficou sempre por conta do olhar do outro mesmo. No máximo, me ligo na reação vibracional que posso …

VAI QUE... >> Carla Dias >>

Vai que o mundo desabe, justo hoje, sobre nossas cabeças desprotegidas. Um chapéu, então, flores e cores, decoração de jardins nessas nossas cabeças que, mesmo quando ocas, deitam no colo dos amores e pensam melhor. Pensam com afeto.

Vamos logo pôr as roupas no varal, a comida no fogo; vamos preparar com antecedência os preparativos com hora marcada, aniquilando a certeza de que o tempo é o do relógio e conduzido pelos prendados. Vamos pregar uma peça no tempo, porque ele, meus caros, é um doido varrido. Merece um carnaval de horas desembestadas.

E dá-me cá tua mão, então! Vamos cultivar um enlace, ainda que seja no susto, nos valendo do que Vinicius disse em seu poema: “eu te peço perdão por te amar de repente / embora o meu amor seja velha canção nos teus ouvidos”... E cantarolar sentimentos nessa antecipação romântica. Vamos endoidecer de vez de amor dos sinceros, que é para que o fim seja um começo dos mais inspirados; e tropecem os minutos diante dos beijos trocados, nos arrabalde…

NOTÍCIA PRÉ-DATADA >> Eduardo Loureiro Jr.

Daqui a dois dias, a cidade de Recife se encaminhará até o aeroporto dela mesma e embarcará num avião rumo a Montreal. Irão com ela o estádio dos Aflitos, a praia de Boa Viagem, o Bar do Cabo, o Instituto Brennand e o Parque da Jaqueira. Irão também o maltado, o siri-mole e o guaiamum gigante; o mesmo valendo para o frevo e para o maracatu. Tudo irá na bagagem de um senhor de nome Felipe Holder, que terá que pagar excesso de bagagem. Quem quiser ir a Recife, de terça-feira em diante, terá que comprar passagem para Montreal. Os geógrafos, de plantão, já começaram a redesenhar os mapas do Brasil e do Canadá. Os sismólogos alertam para a possibilidade quase certa de fortes tremores no dia 10 de junho. Os meteorologistas prevêem muita chuva, inclusive salgada. Fiéis de todas as religiões já estão reunidos em vigília, pedindo a Deus que não aconteça um novo dilúvio e que a mudança aconteça com o mínimo de transtornos. Os demais veículos de comunicação estão evitando divulgar a notícia por …

EXERCÍCIO NO ESPELHO [Maria Rita Lemos]

Quando meu professor de literatura pediu para que fizéssemos esse exercício, na frente do espelho, tão despidos(as) como chegamos ao mundo, fiquei preocupada. Seria um encontro difícil, meu corpo de agora e meu corpo de antes. Enfim, o exercício tinha que ser feito até sábado, próxima aula de redação.

Vamos lá. Nua, na frente do espelho grande do quarto. As vozes vieram chegando, bem de dentro, a princípio sussurrando: “Vim para me despedir. Mas tenho, antes, coisas para lhe dizer” – foi a voz grave e séria do corpo que eu via circundando o meu, figura embaçada e nebulosa. Era uma espécie de auréola, que me envolvia toda. Uma sombra bem mais larga que eu, ao redor de mim mesma.

“Que é que você fez dos trinta quilos a mais, que eram seu corpo, ou melhor, o meu, ou o nosso corpo, há dois anos atrás?” o tom da voz era de censura.
“ Sei lá”, respondi. Agora era minha voz, minha boca. Eu via a articulação dos lábios, que não havia quando a sombra é quem falava. “Talvez tenham derretido para …

Plantação de Cenouras >> Leonardo Marona

Talvez fosse um poeta voltando a pé para casa, passando pela Cidade Baixa, cogitando entrar num cinema de freqüência quase exclusivamente homossexual, talvez porque lhe atraísse o muro escuro de tijolos, talvez porque estivesse perto de enlouquecer, ou muitas coisas juntas, as quais chamamos nenhuma.

Em sendo um poeta libertino, talvez tenha gastado a tarde enterrado numa poltrona vitoriana empoeirada no fundo de um sebo, a boca numa cigarrilha, as pernas trêmulas, lendo uma antologia poética de Bertolt Brecht aos pigarros, forjando a coqueluche. E o que talvez fosse um poeta voltando a pé para casa talvez já não fosse mais um poeta. Enfraquecido pela própria peste, deslizou por sua sombra entre ruelas e pensou em que momento poderia ter se equivocado tão irreversivelmente. Mas não conseguiu chegar a nenhuma conclusão quanto a isso.

Ao sair da livraria, depois de horas procurando um começo para o texto que tinha na cabeça, envergonhado por não ter como comprar o que gostaria e ainda mai…

MEU CORAÇÃO >> Carla Dias >>

Meu coração goza de paixões subalternas. Ele bate o cansaço, o behind beat exausto; trafega há muitos quilômetros de querenças indigestas, curvando-se ao comando dos fados.

E se sente acuado, esse meu coração, ele que sempre foi da catarse nem tão de repente: arpões. Caiu derruído sob a guarda dos menestréis da tristeza; lambendo a língua do amargor como fosse o amante. A saudade vaiando sua coragem retrógrada. Indisposta.

Deu de digerir solstícios num jeito infante de praticar sustos; o assobio vem sei lá de onde, o berro intrigado, o desfalcar quimeras ao cantá-las nos panos das mágoas.

Um cancioneiro revirado por lamúrias, esse tal, que arranha lembranças em busca de abrigo.

Meu coração anda aliciando labirintos, submergindo a necessidade frenética de apreciar singelezas; colecionando negativas e grunhindo malfeitos.

Em tempo algum, esse meu coração foi tão dolente. E soa, no vazio que o consome, essa canção distraída sobre sonhos desgastados; desejos esquecidos. Uma ária sobre apegos.

M…