terça-feira, 24 de junho de 2008

21A -- Paula Pimenta

Ontem de manhã, bem de manhã mesmo, 7h pra ser mais exata, eu já estava dentro de um avião tentando chegar à minha cadeira de sempre. Toda vez que eu viajo, eu escolho a 21A, que fica ao lado de uma janela, que não é muito na frente, nem muito pra trás, e que muitas vezes vem acompanhada da sorte de ninguém comprar suas ‘irmãs’ 21B e 21C, e eu posso viajar bem tranqüila, sem ficar encostando no cotovelo de ninguém e sem ter que agüentar ronco na minha orelha (porque sempre tem muito dorminhoco nos vôos de 7h da manhã).

Só que aí, quando eu sobrevivi àquela fila de gente que fica espremendo coisas dentro dos bagageiros sem a menor consideração por quem tem que esperar em pé até que eles resolvam a vida, e consegui chegar ao meu querido número 21A, tinha uma menina de uns 16 anos sentada BEM no meu assento. Eu - que já estava com paciência zero por causa de: a) ter acordado às 5:30h pra pegar o dito vôo, b) ser segunda-feira, c) ter acabado de despedir do meu namorado e com toda a tristeza do mundo no coração - coloquei a minha passagem na frente dela (que por sinal estava dormindo encostada na MINHA janela) e perguntei: "O seu é o 21A??", ao que ela abriu os olhos como se fosse a coisa mais normal do mundo roubar o lugar dos outros e falou: "Não, é o 21C. Troca comigo?"

Me diga, você aí, que está lendo esta crônica-desabafo. 7h da manhã. Você ainda não comeu nada, além de um Trident. Aquele vôo vai te levar para uma distância de 15 dias do seu namorado. Você quase não dormiu. Você tem uma semana de muito trabalho pela frente. Tudo que você quer é uma janelinha de avião pra lembrar que pelo menos acima das nuvens o horizonte é sempre azul... e vem uma folgadinha pedir pra você trocar com ela a janela que você comprou desde antes dela nascer! O que você responderia?

O que eu respondi - aliás, o que a minha timidez respondeu - foi um baixinho: "Troco..", com vontade de chorar e de sentar a mão na cara da menina ao mesmo tempo. Só que, paralelamente a isso, tinha uma daquelas tais pessoas sem-noção socando a mala no bagageiro e impedindo que eu me sentasse na 21C, e durante os três segundos que isso durou, eu olhei de novo pra menina cara-de-pau olhando toda contente pela minha EX-janelinha, e - em um ímpeto de coragem - enfiei de novo a passagem na frente dela e falei: "Aqui... é que eu passo mal se eu não for na janela!"

Ela levantou na mesma hora, com uma expressão meio assustada, enojada e emburrada ao mesmo tempo e devolveu o meu lugar. E eu ainda pisei no pé da amiguinha dela, da 21B, que nem se deu ao trabalho de dar licença para que eu pudesse entrar.

Eu acho que se eu fosse mais vezes impetuosa assim, minha vida seria mais fácil e feliz. E com certeza menos gente tiraria vantagem da minha timidez. Mas pelo que eu sei de mim, outro impulso como esse só daqui a uns 10 anos... ou da próxima vez que alguém tentar roubar a 21A de mim!


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6 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Paula...e foi uma verdade a sua afirmação para a mocinha. Você passaria realmente mal se não viajasse na 21A, afinal ficaria aquela pergunta incomodando por sei lá quanto tempo: "por que que eu aceitei trocar a minha janeilinha?"
Tem coisa pior?

Anneliza disse...

Oi, Paulinha.
Eu acho que não é timidez. Eu faria a mesma coisa que, inicialmente, você pensou em fazer: pagar, algum preço, para não se aborrecer, bater boca, etc.
Mas, no fim, você agiu bem, pois se agradou e não tentou agradar a terceiros. Não se estressando, ganhou algum tempo de vida útil para amar e ser amada.

Anônimo disse...

Paulinha, acho que eu sentiria a mesma coisa que você e, de cara, já iria respondendo que não trocava nada. Cada um no seu lugar
Eu nunca andei de avião e nem sei se é bom ficar na janela mas, em qualquer outra coisa, o que é meu,é meu. E a tristeza sua por ficar longe do namorado por 15 longos dias, lençol frio né? Tinha mais era que pisar no pé da amiga dela mesmo. Gostei muito Parabéns.Janda

Carol Barcellos disse...

Paula, eu já sou do tipo que não pensa duas vezes na hora de dizer não, especialmente quando a pessoa acha que vai me intimidar. Tenho uns amigos que sempre falam que não querem ficar mal com fulano ou cicrano. Mas, sinceramente? Eu não me importo muito com isso, não, hihihi...Pra falar a verdade, a franqueza, às vezes, tem suas desvantagens (até escrevi sobre isso lá no meu blog). Mas, tô contigo: "Ah, querida, desculpe, mas não vai dar mesmo. Obrigada por perguntar." Acompanhado de um sorrisinho bem ingênuo... ;o>

Beijos doces cristalizados!!! :o*

Anônimo disse...

Sabe que qualqer dia vamos nos encontrar acima das nuvens? É que só compro passagem marcando a cadeira 20 A. Séééééério! Quando li sua crônica não pude deixar de imaginar nosso encontro. Apesar de cansadas, com sono e com saudades de quem deixamos na terra, vamos tagarelar enquanto deitamos e rolamos naquele tapete-algodão-doce branco das nuvens. E vamos falar de como nos encontramos no Pátio virtual, do dia em que te escrevi esse comentário, do quanto somos meio bobas por não sabemos dizer não e depois ficamos com raiva de nós mesma e fazemos milhões de juras dizendo que vamos aprender...Por hora, só posso dizer que é um prazer te conhecer virtualmente e esperar nosso encontro nas nuvens. Você na 21 A e eu na 20 A, compartilhando a paisagem na janela!
Beijo com as energias do Planalto Central,
Cris...amiga do É do ar do Pátio

Debora Bottcher disse...

Ai, Paula,
Acho que não demora dez anos não pra vc se livrar dessa timidez. A passagem do tempo deixa a gente mais corajosa, acredite. Chega um tempo em que a gente entende que não tem mais nada a perder - nem a aguentar - e passa a se preocupar mais consigo mesma. :)))
Beijo.