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Mostrando postagens de Abril, 2011

CELEBRAÇÃO E AGONIA COM BEETHOVEN
[Ana Gonzalez]

Oh, amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais agradável
E cheio de alegria!

Com esses versos, Beethoven nos convida a ouvir o quarto movimento de sua Nona Sinfonia. Um convite a outros tons diferentes dos que eram ouvidos então. E os sons que ele nos oferece nos movem a um espaço divinamente inspirado. Essa sinfonia é uma daquelas composições geniais que mexem com minha imaginação.

Há duas ou três semanas, assisti a uma palestra sobre essa peça musical. Preparei-me para ela com ansiedade, embora naquele momento eu talvez não soubesse bem o que eu queria.

Acompanhei uma interpretação geral da obra e informações a respeito do contexto em que ela foi realizada, além de conceitos técnicos sobre a forma musical que a caracteriza.

Perceber detalhes de sua composição e do contexto em que ela apareceu, entretanto, pouco ajudou a esclarecer sua grandeza. Por que será que quando recordada pela memória, nos lembramos apenas do te…

BULLYING, ESCOLHA O SEU >> Fernanda Pinho

Não se fala em outra coisa. Já beira os limites do suportável a atenção que o mundo inteiro vem dando ao casamento do Príncipe William com Kate Middleton. A euforia é tanta que até o Globo Repórter abriu mão de exibir mais um programa sobre os mistérios dos oceanos (ou qualquer outro ecossistema que o valha) para fazer uma edição dedicada ao festejado enlace real. O mais curioso é que, lá pelas tantas, a repórter Ilze Scamparine conseguiu a façanha de cruzar os dois assuntos do momento ao informar, como quem não quer nada que, sim, Kate Middleton sofria bullying na escola! A reportagem não entrou em detalhes sobre que tipo de bullying e nem era necessário. A informação por si só já contribuiu para florear ainda mais a aura da plebeia obstinada, que conseguiu o casamento mais desejado do mundo. Sofrer bullying implica em ter sido vítima. E ser vítima te redime de todo e qualquer erro. E já nem falo mais da futura princesa - quem sou eu, pobre mortal, pra apontar algum erro nessa mulher…

EU TE DOU... VOCÊ ME DÁ? >> Carla Dias >>

Toma lá, dá cá é uma força da natureza. A gente doa: tempo, dinheiro, amor, sonhos etc, mas espera, sim, o retorno. Mesmo na bondade, há essa espera. Faz-se o bem esperando que aquele que o recebe se torne alguém melhor: toma lá, dá cá. Mesmo que o esperado não seja para benefício próprio, ah, a espera... Esperamos, sim, pelo feedback.
Por isso os pedidos por retorno me endoidecem. O toma lá, dá cá pode ser bacana, mas perde o charme e se torna irritante quando se transforma em exigência. Antes, esse escancaramento era apenas profissional, para quando fosse necessário lutar para conquistar o resultado almejado. Enfim, a boa e velha barganha... Ou seria diplomacia? Não sei, porque, neste aspecto, as coisas se confundem.

Hoje em dia, não há a espera pelo retorno de uma doação. Há, sim, a exigência disfarçada, como quando alguém diz que colocou seu nome em um artigo publicado em um blog qualquer, então você “tem” de retribuir incluindo o link em tudo quanto é rede social da qual faça par…

TECNOLOGIA X HOMEM — ROUND 2
>> Clara Braga

Não sou do tipo que gosta de generalizar, mas hoje vou pedir licença. Todo mundo já falou, ou conversou, ou debateu, ou escreveu a respeito dos malefícios da tecnologia — principalmente a internet — na vida do homem.

É muito comum ouvir pessoas falando que não encontram mais crianças brincando na rua. Claro, nesse ponto temos que lembrar da questão da violência também, que está cada vez maior, mas as crianças, em sua maioria, preferem ficar na internet. Adolescentes não se importam com a quantidade de amigos que têm na vida real, desde que tenham, pelo menos, mais de 100 no Orkut e no Facebook. E por que não citar também os adultos, que estão usando essa ferramenta cada vez mais e mais?

Se usada devidamente, ela é muito boa. Boa para pesquisas, boa para encontrar amigos antigos e, no meu caso, boa para me tornar uma pessoa que liga no dia certo para os amigos para desejar feliz aniversário. Mas convenhamos, não é fácil achar esse limite entre o que é e o que não é devido quando se tra…

AS DUAS VOLTAS >> Kika Coutinho

A fazendinha estava lotada. Talvez fosse pelo feriado, ou porque era um dia de muito sol, fato é que os pais disputavam cada pedaço de capim que lhes era oferecido, para que as crianças alimentassem os carneiros e as cabras. Era uma festa. Logo abaixo, algumas recebiam milho nas mãos para alimentar os patos, e via-se no rosto dos pequenos um misto de emoção e medo ao dar de comer para aqueles animais. Eram essas alegrias que faziam valer o ingresso de 30 reais...

Mais alguns passos e vimos a fila para andar a cavalo. “Olha o pocotó!”, falamos idiotamente para a nossa filha, que não hesitou em nos puxar com suas pequenas mãozinhas para perto do bicho. Lá estávamos nós, na fila para que ela passeasse um pouco sobre um cavalo cansado que, a cada duas voltas, parava, deixava que lhe tirassem uma criança para que outra subisse em seu lombo. Foi lá, nessa curta fila, que o fato se deu.

O menino era pequeno, devia ter uns três anos, deu as duas voltas a que tinha direito e, quando chegou a h…

FILHO INGRATO! >> Eduardo Loureiro Jr.

O leitor fique tranquilo, porque o título da crônica não é um insulto à sua pessoa, mas à minha.

Sexta-feira da Paixão, ligo para minha mãe para desejar-lhe uma boa Páscoa.

— Demorou para dar retorno, hein? — disse minha mãe, sagitariana das boas, antes de qualquer bom dia.

E eu fiquei calado, sem entender. Ela continuou:

— Domingo, quando liguei, você disse que estava numa cafeteria e que retornava a ligação quando chegasse em casa. Faz cinco dias...

E eu soltei um "desculpe, mãe" encabulado, mas não completamente tomado de surpresa, porque no dia anterior já tinha chorado de remorsos ao tomar consciência de minha ingratidão em relação à minha mãe.

Não, meus amigos, não vou bancar o filho querido e dizer que falo com minha mãe com frequência. Passo dias e dias, às vezes semanas, sem dar um telefonema. Sei que nessa época de Páscoa até os ladrões pregados em cruzes têm esperança de estarem ainda à noite no Paraíso, mas um filho ingrato está desde já — desde o momento de tal …

CONVERSA DE PÁSCOA [Maria Rita Lemos]

Amanhã é domingo de Páscoa, e, como sempre, nessas datas festivas, não pude deixar de mergulhar no passado, num tempo em que realmente se marcava a passagem do tempo através dos rituais próprios a cada período.

Muita gente de minha geração ainda se lembra de como se vivia o tempo da quaresma e, no seu final, a Semana Santa, num passado em que não havia computador, e a tecnologia da comunicação ainda era precária. Hoje, apesar de todos os recursos de que dispomos, eu me pergunto: será que as crianças de agora, nossos filhos(as) e netos(as), vão se lembrar tão clara e docemente dos rituais do passado como nós? Pessoalmente eu temo que não, embora faça de tudo, pelo menos no que está ao meu alcance, para que algumas tradições não morram jamais, na memória de nossos descendentes.

Lembro-me claramente das quaresmas da infância, talvez porque nos meus dezesseis primeiros anos de vida a avó materna morava conosco, e dentro de vovó Santa moravam mil estórias, casos e “causos”... alguns que …

O AMOR ME DEU UM BEIJO >> Carla Dias >>

Sabe quando temos o que ser dito engasgado, parecendo até que não sabemos direito do que se trata, mas é preciso berrá-lo? Tem quem berre mesmo, encontra um descampado, uma sala com tratamento acústico, um lugar tão barulhento que nem se percebe o som lançado.

Tem quem guarde amor no berro, sabe? Vai engolindo, guardando, escondendo de si, da sensibilidade do outro em reconhecê-lo, jamais entrega o segredo. E como dizem os quiropatas (ou seriam os médicos de ocasião?): vai tudo para os ombros. A tensão, o peso do mundo, o desassossego arrastado vida afora.

E falo do amor na abrangência dos corações em pleno concerto de taquicardia, seja pelo sorriso do amante, pela delicadeza do abraço recebido de uma criança, pela languidez da mulher que passa, pelas cores das praças, pelas histórias acontecidas nas esquinas, pelas casas que servem de guarida às famílias e aos seus sonhos.

A cidade, ela mesma dá de ser calada, e não fossem os que se expressam nessa mudez, fazendo festa na sala dela, da …

LIBERDADE PARA PLAYSTATION >> Clara Braga

Liberdade, para mim, é dividida em fases, assim como um jogo de videogame. E nós vamos passando das fases mais fáceis para as mais difíceis até chegarmos no chefão.

As fases mais fáceis são as que passamos quando pequenos, como aprender a falar, andar etc. Quando crescemos, os desafios crescem também. Continuamos eternamente aprendendo a falar e andar, e começamos a encarar chefões como achar empregos bem remunerados e sair de casa para morar sozinhos.

Todo mundo passa por essas fases em algum momento, alguns com mais facilidade que outros, mas no final todo mundo ama o gosto gratificante da vitória.

Quando eu tinha meus 10, 11 anos de idade, eu e minhas amigas tínhamos um jeito simples de nos sentirmos livres. Nós íamos ao shopping sem nossos pais (em uma época em que não existia celular para eles ligarem perguntando se estava tudo bem), e íamos assistir filmes para maiores de 16 anos, já que nessa época também não conferiam idade na carteirinha na porta do cinema. E lá ficávamos nós…

A VOVOZINHA II >> Albir José Inácio da Silva

Tidinho era na verdade Aristides e nem mesmo ele sabia o porquê do diminutivo. Tinha mais de dois metros, cento e muitos quilos e uma manopla que conseguia segurar dois presos de cada vez. Vinte anos de polícia, salário ruim, muito trabalho, mas ele até que gostava. Tentaram lhe dar outras funções, mas ele ficava bem era na carceragem. Gostava dos rapazes. Dava conselhos para os que ouviam e corretivos para os que precisavam. Até os presos concordavam que ele distribuía justiça lá do seu jeito.

Isso não evitava que de vez em quando inventassem umas modas para tirá-lo do xadrez. Foi o que aconteceu hoje: muita gente de folga, o delegado mandou que ele acompanhasse a equipe a um bingo clandestino. O cassino existia de fato, mas não havia viva alma no lugar, apesar das máquinas ligadas e até cigarros acesos. A operação deve ter vazado. Tidinho fez cara de contrariado, como os demais, mas ficou aliviado. Era só recolher as máquinas pro depósito e voltar para a tranquilidade de sua carcera…

ABRIO, ABRIU, ABRIL >> Eduardo Loureiro Jr.

O dia de hoje merecia um poema, e não uma crônica. Um poema que falasse das muitas coisas que se abrem em abril, como se o que despetalasse lá no norte caísse primaveril aqui no sul. Um poema que fizesse a gente entender por que o dia se abre à meianoite, que contasse que a Lua é mãe, o alvorecer é parto e o Sol é sucessor.

Um poema porque a poesia é pensamento no sentido do coração — faz sentido fazendo sentir: cheiro de suor de pai, aroma de lençol de mãe, pele pelúcia de mulher amando, gosto apimentado da palavra filha.

Poesia porque quando se tem muito a dizer — e poucas palavras — não é na frente que está a verdade: é no verso.

Não foi estalo
  de trinco de porta,
foi suspiro
  de botão de flor.
Não foi tábua,
  tranca, tramela,
foi perfume,
  pétala, pudor. 

AbriO, abriU, abriL.


VOCÊ REPAROU NAQUELE MENINO...
[Maria Rita Lemos]

... sentado, quietinho, no fundo da classe, sem amigos, mas também sem dar trabalho a ninguém? As escolas, públicas e particulares, enfim, a educação como um todo, tenta entender como conter o aluno sem limites, que vive atrapalhando as aulas e os colegas, aquele que não deixa o professor transmitir o conteúdo de cada matéria.

No entanto, há outro tipo de crianças e adolescentes. Existem aqueles, geralmente meninos (resta estudar o porquê...), que se sentam no fundo da classe, entram mudos e saem calados das aulas. Geralmente têm bom rendimento escolar, às vezes até acima da média. O que chama atenção neles, ou deveria chamar, é sua solidão, o isolamento em que vivem, dentro e fora da escola. Eles não participam de grupos de estudos, a não ser quando obrigados a isso. Não emitem sua opinião, não fazem perguntas. Não “ficam” com as meninas, não são convidados para festinhas, ou quando são não comparecem. São quase invisíveis, como o jovem Wellington, que no dia 7 de abril saiu atirand…

O MOTORISTA FRANZ KAFKA
>> Leonardo Marona

Hoje o motorista do meu ônibus era Franz Kafka. Não era tão magrinho quanto o nobre inseto-literato. Era um Kafka perfeito, um Kafka com aquelas orelhas de abano e aquela hesitação peculiar, os olhos gigantescos e vidrados, mas que não poriam medo a um inseto. Eram, afinal, os próprios olhos gigantescos e vidrados de um inseto entre a parede e a sola da bota. Mas era robusto, com os cabelos de escovinha arrastados violentamente para trás da cabeça triangular, as fundas covas por trás dos olhos sobressaltados, uma exasperação a cada passageiro que entreva no veículo: "Desculpe... perdão... eu quero dizer... acabei que me...", apenas para dar o troco da passagem.
E pensei: o pobre Franz, se fosse motorista de ônibus e não escritor, seria um gênio maior, como era aquele motorista Franz. Porque nada estava tão fora do lugar para aquela personalidade quanto a força bruta de uma brusca virada em curva, com todo aquele peso controlado por seus punhos trêmulos, e ainda assim o rosto …

ATAQUE DE BOBEIRA >> Fernanda Pinho

Jamais poderia ser uma cantora ou uma atriz de teatro. Não que eu não tenha talento. Imagine! Tenho demais! Quando começo a cantar no banho, meus vizinhos abrem as janelas para ouvir. Alguns, mais ousadinhos, até pedem: "canta mais alto". E, bom, nunca contei isso antes para não me exibir: mas saibam que Fernanda Montenegro trocou seu nome de Arlete para Fernanda em minha homenagem. Enfim, sou um primor das artes cênicas e da música, mas vamos parar de falar disso que já estou ficando sem graça. Esta não é uma crônica sobre meus talentos enrustidos, mas sobre o que me levou a enrusti-los: minha total falta de preparo psicológico para ver uma pessoa reagindo ao meu trabalho.
Diante disso, tive de adiar minha carreira de cantora-atriz para a próxima vida e inventei de escrever. O que eu não esperava é que as pessoas, de fato, leriam o que eu escrevo e — pior! — muitas vezes na minha cara! Quanto a ler o que eu escrevo, até dá pra aceitar. Nunca escrevi diários porque sempre a…

DE ONTEM PARA HOJE >> Carla Dias >>

Olhando para trás, mas com um olhar fresco de adulta assumida – mas nem tanto -, encontro-me com quem fui com certo zelo. Aquela pessoa lá era eu? Era sim... Passeando na Feira Hippie do Paço Municipal de Santo André, aos sábados, onde comprava brincos e pulseiras, e camisetas de bandas e cantores que adorava. Ela teve uma da Janis Joplin com uma foto famosa, mas que causou um alvoroço em casa. Onde já se viu usar camiseta com estampa de mulher vestindo apenas colares?

Naquele mesmo lugar, eu às vezes passeava, durante a semana, com os amigos do trabalho, depois de encerrarmos as funções profissionais. Sentávamos nos bancos, batíamos papo durante horas, passando por banalidades e chegando às questões existenciais. E depois, íamos até a padaria, logo ali, porque precisávamos de um café para reorganizar os pensamentos.

Também ali tive meus momentos de contemplação urbana e namoro... O Paço era point dos namorados. Não sei se ainda continua... E assisti a filmes que não passavam no cinema,…

REVOLTA DAS ÁGUAS >> Clara Braga

Há pouco tempo, dia 22 de março para ser mais exata, foi o dia de algo importante para todos nós. Você sabe o quê? Provavelmente você não sabe, eu também não sabia, afinal, tem algumas datas que nós só comemoramos quando estamos na escola, aí fazemos trabalhos, bolamos uma apresentação e nossos pais vão nos assistir.

Bom, sem mais delongas, dia 22 de março é o Dia Internacional da Água. Um dia no ano escolhido para conscientizar as pessoas do quão importante ela é e também chamar a atenção para a conservação da água pura. Acredite se quiser, se nós não a conservarmos, a água vai acabar.

No último domingo, caiu uma chuva aqui em Brasília, tão forte que inundou a Universidade inteira. Mais de um milhão de dólares de prejuízo em equipamentos, salas completamente alagadas e prédios interditados pela Defesa Civil. As aulas de segunda e terça foram suspensas.

Não sei se isso acontece com todos, mas quando esse tipo de situação aparece, eu acho difícil acreditar que a água vai realmente acab…

NADA SEI >> Eduardo Loureiro Jr.

— O que foi que você aprendeu na escola hoje, Luís?

Foi o que perguntei a meu sobrinho de quatro anos. E ele me respondeu:

— Não sei.

Pensei lá comigo que o ensino, nos dias de hoje, deve estar bem avançado, pois crianças de pré-escola já aprendem a sábia máxima de Sócrates: "Só sei que nada sei".

Na mesma sala, num apartamento no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, a televisão seria ligada à noite por meu cunhado e faria com que fôssemos invadidos por uma tragédia: Wellington, um jovem de 23 anos, retorna a sua ex-escola, em Realengo, a 30 km de onde estou, e assassina 12 adolescentes entre 12 e 15 anos.

Se alguém me perguntasse, enquanto eu arrumava o sofá-cama para dormir, O que você aprendeu na escola da vida hoje, Eduardo?, eu teria que responder como Sócrates e Luís: — Não sei.

Um acontecimento assim deixa o cronista num insolúvel dilema. De um lado, o que dizer três dias após o acontecido, quando tudo já está exposto em palavras, fotos e vídeos nos jornais, nas rev…

INDIGNAÇÃO [Debora Böttcher]

Na semana passada, eu escrevi sobre pessimismo. E sobre o que escrevo hoje depois da tragédia de quinta-feira, no Rio de Janeiro? Nada me vem à mente... Meu coração acelera quando penso nas famílias que perderam suas crianças pelas mãos de alguém tão frio, sem qualquer compaixão - como alguém é capaz de olhar para os olhos de uma criança e atirar contra ela? E repetir isso incontáveis vezes?!

Confesso que nem li ou assisti a todas as informações dos noticiários - é tudo muito terrível e doloroso demais -, mas o que vi e ouvi foi pra lá de suficiente para estarrecer meus sentimentos.

E como especialistas justificam tal barbárie? Pelas brechas da loucura? Afinal, como explicar algo assim? Você consegue? E como é possível que alguém planeje e cometa uma atrocidade desse porte, sem que ninguém ao seu redor se dê conta?

Alguém vai dizer que a 'ocorrência' não é tão rara, quando a gente olha para os casos no mundo - os portais de notícia de hoje anunciam que um homem cometeu algo seme…

ANTIGAMENTE >> Fernanda Pinho

Por que antigamente tudo era muito mais fácil, mais bonito e mais doce? Porque antigamente é uma ilusão. Cada um cria o antigamente que quiser. Na cabeça de cada pessoa, o antigamente é um lugar diferente no tempo. Cada um escolhe o que quer chamar de antigamente e acontece de sempre escolhermos as partes boas, como quem diz para o presente: "Tá vendo? Você devia ser assim. Fácil, bonito e doce. Como antigamente".
O meu antigamente tem gosto de groselha. Coisa, aliás, que eu não suporto hoje em dia. Mas antigamente não existia para mim nada mais saboroso que aquele líquido bonina engarrafado em recipiente com rótulo da Pantera Cor de Rosa. Pois é, no meu antigamente a gente usava falar "bonina" e costumava, inclusive, ser minha cor preferida (sim, bonina é uma cor. Se você não for de Minas, provavelmente não conheceu essa palavra em época nenhuma da sua vida).
Se a cor era bonina e o sabor era groselha, o cheiro era do álcool que vinha impregnado nas folhas mimeogr…

REVOLUCIONAR-SE >> Carla Dias >>

Houve essa noite em que deu de sorrir o sorriso do silêncio, no qual cabem tantas interpretações que me desnorteiam o pensamento. Há exatos quatrocentos e vinte e sete dias eu o observo, assim, o encanto estampado na retina, envolvida por um psicodélico transe de aventuras emocionais.
A minha voz até andou engolida pelo engasgo, por isso venho tomando todo cuidado do mundo para não me calar em falso, porque, às vezes, é preciso dizer o sentimento, mesmo quando o desejo não se apresenta rebelado, nu.
A minha voz emudece diante dele e do seu sorriso eriçado, feito pelo atrevido despontando da pele do esquecimento. Feito rabisco na janela embaçada – a palavra talhada com a ponta do dedo indicador, escorregando ao contrário, que é para que os transeuntes não se percebam desentendidos de si mesmos... E de mim, e da palavra exposta.
Enquanto, dentro de mim, os mil tons não serenam, mesmo diante da reza, da lógica que reverbera os seus motivos, do sonho incandescendo suas faíscas, ele caminh…

CONSELHOS ÚTEIS >> Clara Braga

Começar um novo relacionamento é sempre muito curioso. Digo curioso porque esse é um dos sentimentos que está sempre presente. A gente está curiosa pra saber como vai ser, curiosa sobre a pessoa, querendo conhecer, estar perto e também ser parte da vida dessa pessoa. E estamos também sempre curiosas para saber se essa curiosidade é recíproca, claro!

Mas outro dia percebi que essa curiosidade não é só de quem está no relacionamento, os amigos que acompanharam os relacionamentos anteriores que não deram certo também querem saber se dessa vez você está com alguém legal, que lhe trata bem e que também quer fazer parte da sua vida de forma que possa lhe acrescentar algo e não lhe empacar.

Dessa curiosidade e cuidado dos amigos, surgem os conselhos. Atire a primeira pedra quem nunca teve um amigo ou amiga que sempre tivesse um bom conselho para dar. E mesmo com aquele ditado que diz que se conselho fosse bom não era de graça, alguns deles são úteis, sim. Normalmente os úteis são aqueles mai…

CARIOQUICE >> Albir José Inácio da Silva

Marcelo é um carioquinha cheio de carioquice, que não desiste do Rio mesmo sabendo de suas mazelas. Vive dizendo que basta algum tempo de Rio de Janeiro, e nenhuma formalidade, para se adquirir dupla naturalidade: a de origem e a carioca.

Ele esclarece que não é vantagem perder a naturalidade original. Carioquice é um plus ao alcance de todos. Carioca-mineiro, por exemplo, é melhor do que só mineiro, e também melhor do que só carioca. Mesmo quem nasceu carioca, pode ser carioca-carioca, da mesma forma que cristão nasce pagão e precisa de batismo.

Marcelinho tem quinze anos e vive oferecendo sorrisos e cumprimentos em inglês macarrônico e portunhol. Gosta de ajudar quando vê um gringo de mapa na mão e cara de perdido, mas rejeita moedas.

Ele sabe que tem gente que merecia perder a carteirinha de carioca. Estes, além de não acrescentar carioquice a suas vidas, sofrem de xenofobia. São incapazes de entender que ninguém consegue ser carioca sozinho. Nasceram no Rio, mas não percebem que es…

LISTA DE DISSABORES
CAPAZ DE ESTRAGAR UM DIA
>> Eduardo Loureiro Jr.

"Na boca da noite, na beira do mato, os grilos são astros."  (Rosinha de Valença)
Estava eu aqui asfixiado, com falta de inspiração para minha crônica semanal, quando li a bela coluna de aniversário de meu querido amigo acreano Marcos Afonso.
Além da genial analogia do ano como sendo uma volta em torno do sol (como é que eu, sendo astrólogo e escritor, não havia pensado nisso antes?), chamou-me a atenção inspirativa o seguinte trecho: "Quero me planejar para chegar aos 50 (o pós-metade-século) sabedor sereno de minhas dores, talvez amigo de algumas. Tanto que já fiz uma lista, com profundidade e sutileza, daquilo que hoje me irrita muito, ao ponto de estragar um dia".
Meu amigo escritor aniversariante, não sei se por vergonha de si ou se para não aborrecer o leitor, omitiu do texto os itens de sua "listinha da chatice" ou "lista de dissabores". Eu, como meus leitores frequentes já sabem, sou um tanto desavergonhado e aborreço meu leitor, não rara…

HOMEM-AVENTURA >> Eduardo Loureiro Jr.

Não sou homem de dar o bis — nem no sexo, que dirá em coisas banais como crônicas e canções. Mas eis que terminada a crônica dos dissabores, descubro que é o aniversário do Arthur — assim com H, coisa de antigas realezas.

Arthur nasceu quando eu tinha catorze anos e meio. Enquanto ele mamava, eu me aventurava pelas ruas de Fortaleza, gozando da liberdade recém-adquirida de andar de ônibus e assistir a filmes censurados. Um tempo maravilhoso aquele de caminhar pelas ruas do centro da cidade de mãos dadas com minha juventude. Tempo também maravilhoso deve ter sido para Arthur, se alimentando na fonte bonita e gargalhante de sua mãe.

Arthur não tem idade para ser meu colega, filho ou aluno. Nasceu para ser só um primo de terceiro grau. Mas foi se chegando pelo amor hereditário que sentimos por algumas pessoas: amor por tio Cícero e tia Ângela, que se transformou em amor por sua filha Hebinha, que virou amor por seu filho: Arthur.

Embora seja também gente — de carne e osso, sorriso bonito, …

PESSIMISMO COTIDIANO [Debora Bottcher]

Nos últimos tempos, as notícias dão conta apenas de tragédias: tsunamis, terremotos, enchentes, deslizamentos de terra, assaltos, assassinatos, sequestros, falências, suicídios, corrupção, guerras, doenças, destruição ambiental, separações - a lista é interminável e o mundo parece um território de desolação em seus quatro cantos.

Atualmente, morando numa pequena cidade nos arredores da capital, em dias em que tenho que ir a São Paulo (hoje, por exemplo), sinto um curioso desconforto, quase um medo.

Beira como uma constante sensação de sobressalto, como se algo estivesse à espreita, pronto pra acontecer ao menor descuido. E a ilusão maior é pensar que, estando atentos, poderemos evitar o eventual mal...

A verdade é que não estamos seguros em nenhum lugar - no máximo em casa, às vezes nem nela! - e isso incomoda um pouco. A liberdade de ir e vir anda totalmente cerceada - nem mesmo nos shoppings, em outras eras considerados intocáveis, as pessoas conseguem se sentir tranquilas atualmente. …

O SILÊNCIO TANGE O SINO:
UM LIVRO QUE SE ANTEPÕE AOS ALARDES
>> Leonardo Marona

(Ateliê Editorial, 2010, 80 p.)
Toda a infelicidade dos homens
nasce na esperança.

(Camus)

Depois do grito, vem o silêncio. Mariana Botelho é a primeira pessoa que entendeu a expressão de forma poética. Pelo menos, é ela a primeira pessoa que fez isso para mim. Porque outros, talvez, me causassem a mesma sensação: Paul Celan, Tsvetaieva, Georg Trakl. Mas destes podemos dizer: muito bem, estão no centro do mundo, passaram por guerras concretas, anunciadas pelo rádio, por bombardeios, e o silêncio deles é, na verdade, o silêncio de quem morde um pano para não gritar. Mariana gritou em volume altíssimo, depois sentou para escrever o que restou deste grito. Porque para fazer com que o silêncio diga algo – e o silêncio só poderá dizer algo que seja fundo como o fundo do oceano – é preciso antes ter havido uma rachadura, como diz Mariana, um corpo feito de aberturas / onde / silêncios entram / saem / como águas de longe, uma rachadura profunda onde chegará o silêncio, onde o silêncio por fim …