quinta-feira, 14 de abril de 2011

ATAQUE DE BOBEIRA >> Fernanda Pinho



Jamais poderia ser uma cantora ou uma atriz de teatro. Não que eu não tenha talento. Imagine! Tenho demais! Quando começo a cantar no banho, meus vizinhos abrem as janelas para ouvir. Alguns, mais ousadinhos, até pedem: "canta mais alto". E, bom, nunca contei isso antes para não me exibir: mas saibam que Fernanda Montenegro trocou seu nome de Arlete para Fernanda em minha homenagem. Enfim, sou um primor das artes cênicas e da música, mas vamos parar de falar disso que já estou ficando sem graça. Esta não é uma crônica sobre meus talentos enrustidos, mas sobre o que me levou a enrusti-los: minha total falta de preparo psicológico para ver uma pessoa reagindo ao meu trabalho.

Diante disso, tive de adiar minha carreira de cantora-atriz para a próxima vida e inventei de escrever. O que eu não esperava é que as pessoas, de fato, leriam o que eu escrevo e — pior! — muitas vezes na minha cara! Quanto a ler o que eu escrevo, até dá pra aceitar. Nunca escrevi diários porque sempre achei bobo mesmo escrever pra ninguém. Agora, ler comigo por perto acho demais. Quando acontece, inevitavelmente sou acometida pelo ataque de bobeira. Suo frio, tenho vontade de sair correndo, tento arrancar das mãos da pessoa o objeto de leitura (computador, cartão de aniversário, livro, revista), forço uma mudança brusca de assunto: "Mas e o filme da Bruna Surfistinha, hein?". Nunca funciona, pois o ser humano é assim, gosta de torturar o outro.

Estou passando muito por isso desde que tenho mostrado às pessoas do meu convívio o livro que escrevi com as minhas amigas. Veja bem, eu mostro para as pessoas porque eu quero que elas se interessem, comprem e leiam. De preferência, bem longe de mim. Mas o que elas fazem? Pegam, folheiam, começam a ler, chamam alguém pra ver junto: "Ô fulano, vem ver o livro da Fernanda". Você pode — e deve! — ler, fulano, mas quando eu estiver na minha casa e você na sua, ok?

E o livro ainda tem a vantagem de, por ainda serem poucos exemplares, eu meio que conseguir controlar meus leitores. Pior é quando eu trabalhava em jornal. Certa vez, dentro do metrô de Belo Horizonte, sentei-me ao lado de um moço que estava lendo a página de esportes do jornal para o qual eu trabalhava. Até aí beleza, não cubro esporte mesmo. Mas o insaciável leitor passou umas páginas e pá! Começou a ler uma matéria minha. Achei uma cara de pau! Será que ele não viu que eu estava ali do lado dele? Bom, pode até ter visto, só não sabia que eu era eu, né? Mesmo assim, peguei minha bolsa e me mudei de lugar.

Pelo menos nesse caso eu tinha como correr. Pior uma outra vez que fui cobrir um congresso e a revista para qual escrevo atualmente estava sendo distribuída na porta. Quando me dei conta, tinham umas duzentas pessoas ao meu redor lendo a revista. Me senti num paredão de fuzilamento. Fixei meu olhar para frente, de modo que eu não visse aquele despautério e tratei de enfiar minha credencial pra dentro da blusa e garantir meu anonimato.

Depois desse tratamento de choque, até achei que estaria curada do ataque de bobeira, mas que nada. Sigo cada vez pior. Portanto, já sabe, você pode até continuar lendo minhas crônicas, desde que fora do meu campo de visão!

Foto: www.sxc.hu


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6 comentários:

Jujú disse...

Hahahahaha...

Ai amiga, pior que eu te entendo perfeitamente! Como atriz encarar o público do palco sempre foi muito fácil, afinal era não era eu que estava ali, e sim o personagem, agora encarar o depois, quando a peça acabava sempre foi MUITO difícil pra mim. Queria sempre um buraco pra me enfiar, juro! E receber elogios? Eu sempre acaba me sabotando...kkkk!

Iguais mesmo....rs!

Samara disse...

Compartilho do sentimento. Tb poderia ter sido uma grande baterista ou uma atriz fenomenal, mas escolhi escrever, pq era mais fácil se manter anonima, mas nem sempre, né,rs Adoro escrever, até só pra mim mesma, e gosto que as outras pessoas me leiam, mas nao, nao na minha frente.Mas pior mesmo é quando acham que o texto tem motivos escusos ou sao indiretas pra alguem quando não é. E elogios? Nao sei lidar com eles. Acho que lido melhor com criticas,rs

Loreyne disse...

kkkkkkkkkkkkkk sua louca, td bem eu li e vc nem viu!!! rsrs Bjuss

Laís Bastos da Silva disse...

Ferdi, eu também sou assim, pior até, fico meio encabulada até de mostrar nosso livro, não que eu ache que seja ruim, muito pelo contrário, mas por saber que alguém estará lendo algo meu, sei lá...rs
Beijo

..DONA DAS BATATAS.. disse...

Então a única vantagem que a distância nos dá é essa: evitar seu ataque de bobeira...

Porque eu leio tudinho o que você escreve. #prontofalei

albir disse...

Fernanda,
com o sucesso de seus textos, imagino que você ficará cada vez mais exposta a esses ataques.