sábado, 23 de abril de 2011

CONVERSA DE PÁSCOA [Maria Rita Lemos]

Amanhã é domingo de Páscoa, e, como sempre, nessas datas festivas, não pude deixar de mergulhar no passado, num tempo em que realmente se marcava a passagem do tempo através dos rituais próprios a cada período.

Muita gente de minha geração ainda se lembra de como se vivia o tempo da quaresma e, no seu final, a Semana Santa, num passado em que não havia computador, e a tecnologia da comunicação ainda era precária. Hoje, apesar de todos os recursos de que dispomos, eu me pergunto: será que as crianças de agora, nossos filhos(as) e netos(as), vão se lembrar tão clara e docemente dos rituais do passado como nós? Pessoalmente eu temo que não, embora faça de tudo, pelo menos no que está ao meu alcance, para que algumas tradições não morram jamais, na memória de nossos descendentes.

Lembro-me claramente das quaresmas da infância, talvez porque nos meus dezesseis primeiros anos de vida a avó materna morava conosco, e dentro de vovó Santa moravam mil estórias, casos e “causos”... alguns que nos causavam medo e que, mais tarde eu soube, eram puro folclore e tinham por objetivo despertar a obediência, ou simplesmente alimentar o medo, mesmo, uma coisa bem maquiavélica, mas tão desejada! Outras histórias e rituais eram lindos, e nos faziam pedir a nossa avó que os repetisse, infinitas vezes, principalmente as crendices ligadas às festas juninas e suas adivinhações, ao Natal, ao Dia dos Mortos, à Semana Santa e Páscoa.

Uma das histórias que mais provocava em mim um misto ambivalente de atração fatal e medo quase insuportável era a da moça que pulou a janela de seu quarto e fugiu de casa, numa Sexta Feira de Trevas (assim vovó chamava a sexta feira da Semana Santa) e foi, contra a vontade da família, a uma festa na roça onde morava. Lá pelas tantas, um simpático rapaz (por que o diabo sempre se mostra atraente?) “tirou-a para dançar”, como se dizia há muito tempo. Ela aceitou, é claro, estava sozinha e o rapaz parecia um bom pé de valsa. Bastou começarem a dançar para ela sentir um forte cheiro de enxofre (vovó dizia que o diabo cheirava a enxofre), e, olhando para baixo, viu que seu parceiro tinha pés de cabra (outra característica atribuída ao capeta, quando em forma humana). Claro que a moça fujona se apavorou e voltou correndo ao aconchego do lar, aprendendo com isso a lição.

Mas o melhor dessas sessões de estórias era a performance de vovó, o olhar arregalado quando a estória pedia isso, e gargalhadas alegres ou soturnas, também quando fosse o caso.Ela nunca fez curso de contadora de histórias, mas fazia isso como ninguém, naturalmente. Estórias de quaresma eu sabia – e ainda sei – várias, que espero contar a meus netos quando forem maiores, se ainda lucidez me sobrar. Para minha neta não adianta mais, ela já discerne o que é verdade do que é fruto de uma imaginação herdada do sangue nordestino, cheio de riquezas. Apesar de adulta, no entanto, sei que ela vai se enternecer quando chegar para os feriados de Páscoa.

No domingo, quando acordar, estarão no chão, coladas desde a véspera, as marcas da patinha de dona coelha, levando à caixa de bombons que já lhe está reservada. Para os dois netos pequeninos, as patinhas virão desde o portão de nossa casa, e os ovos de chocolate terão que ser encontrados entre as plantas, embaixo do caramanchão. Agora eles só sabem do coelhinho, mas pretendo que saibam, quando forem maiores, a história de verdade da Páscoa, a passagem do povo hebreu no Mar Vermelho, fugindo à escravidão do Egito, a libertação através de Moisés e depois de Jesus, o significado dos ovos e do coelho. Voltando às Semanas Santas de minha infância, na quarta-feira era dia de faxina na casa, porque fazer isso nos dois dias seguintes era pecado.

Lembro, com muita saudade, que era maravilhoso ouvir rádio na Sexta-feira Santa... tudo que eu estudava em música clássica, no Conservatório São José, e todas as maiores orquestras do mundo eram guardadas para serem exibidas nesse dia, sem intervalo comercial. Nas pausas, apenas a voz grave do locutor: “Essa programação especial prossegue em respeito ao feriado de hoje”...

Na Sexta-feira de Trevas, não havia nem cinema funcionando. Íamos à Igreja no meio da tarde, ainda arrotando o bacalhau do almoço, e eu quase morria de dó do Jesus ensanguentado cujos pés beijávamos, em procissão. Era só música clássica, cheiro de vela, roxo por todo lado, procissão do enterro à qual não podíamos faltar. Era tanta dor que a gente torcia para o domingo chegar logo, com os ovos de chocolate e os sorrisos de volta. Aprendemos a dizer, em lugar da saudação matinal costumeira: “Jesus ressuscitou, aleluia”. Quando esquecíamos que era para dizer isso, e não apenas “bom dia”, os mais velhos sempre nos lembravam. O domingo era de Páscoa, alegria, vatapá da vovó, macarronada ou lasanha, e ovos de chocolate de sobremesa.

Enfim, são estórias dentro da História. O importante é fazer com que nossas crianças entendam, aos poucos, que o sentido do feriado vale mais que o chocolate. Concordo que são datas que hoje passaram a ser muito mais comerciais que religiosas, mas é preciso que não levemos a ferro e fogo esse conceito, para não corrermos o risco de cair na amargura e sermos de mal com a vida.

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2 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Nossa! Me emocionei com seu texto!
E também fiquei aqui pensando que, talvez, as pessoas, atualmente tenham desaprendindo a arte de contar estórias, justamente, por não ouvi-las.
Bjs e Feliz Páscoa!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Eita prosa boa, Maria Rita! Fez-me viajar no tempo.