quarta-feira, 6 de abril de 2011

REVOLUCIONAR-SE >> Carla Dias >>

Houve essa noite em que deu de sorrir o sorriso do silêncio, no qual cabem tantas interpretações que me desnorteiam o pensamento. Há exatos quatrocentos e vinte e sete dias eu o observo, assim, o encanto estampado na retina, envolvida por um psicodélico transe de aventuras emocionais.

A minha voz até andou engolida pelo engasgo, por isso venho tomando todo cuidado do mundo para não me calar em falso, porque, às vezes, é preciso dizer o sentimento, mesmo quando o desejo não se apresenta rebelado, nu.

A minha voz emudece diante dele e do seu sorriso eriçado, feito pelo atrevido despontando da pele do esquecimento. Feito rabisco na janela embaçada – a palavra talhada com a ponta do dedo indicador, escorregando ao contrário, que é para que os transeuntes não se percebam desentendidos de si mesmos... E de mim, e da palavra exposta.

Enquanto, dentro de mim, os mil tons não serenam, mesmo diante da reza, da lógica que reverbera os seus motivos, do sonho incandescendo suas faíscas, ele caminha como se a vida jamais fosse lhe cobrar experiência outra que não a de saborear o tempo com a amenidade sua aviltando a pressa nossa.

Eu sinto pressa, confesso. Por mim, já teria roçado as costas da minha mão em sua face. Teria reconhecido a geografia da sua voz ecoando as palavras preferidas, enquanto escolhe as suas próprias importâncias.

Sinto pressa de virar ao avesso esse sentimento.

Enquanto o mundo gira, as cidades crescem, a tecnologia avança, a ciência se descobre, a religião é questionada, aqui estou: há quase quatrocentos e vinte e oito dias – que estou à beira do dia seguinte – só sei observar a arquitetura dos seus gestos, a riqueza da sua presença, o alambrado me separando da sua companhia, enquanto discorre sobre seus voos, que não estão nas cartilhas, nos manuais, nas fórmulas. Não carecem de liberdade, porque dela bebem aos goles.

Há quatrocentos e vinte oito dias eu o penso assim: gente. Não adianta a melhor amiga arrancar o livro da minha mão, escondê-lo entre Física e Geografia, lá na biblioteca. Depois do primeiro parágrafo eu já sabia: seria para a vida toda, e já foram quatrocentos e vinte e oito dias dessa eternidade.

E se eu ando por aí, suspirando por um personagem tão imperfeito que exigiu de mim a capacidade de encontrar nele o que me agradava, desafiava, inquietava é porque tenho pressa, meus caros... Uma porção de pressas, de urgências. E sei que se eu as revelasse, pela necessidade de vê-las livres, elas perderiam o charme, o dengo com o qual caminham pela minha alma, e o sentido, o valor.

Ele avisa que vai sair de cena, agora, já, neste instante. Antes do epílogo, elabora um monólogo sobre revoluções, das menos impactantes às catárticas. Das que envolvem armas às que abarcam paixões. Eu interrompo, desferindo a voz à criação alheia:

Revolucionar por quê?

E então, ele descola o olhar da página e me encara. Olhos dele nos meus, marejados os dele pela emoção que vem lá dos primeiros capítulos.

A quem, minha cara...

Quatrocentos e vinte e tantos dias de paixão desvelada. Enquanto minha revolução interna acontece, mais certeza eu tenho de que somos construídos pela vida com a mesma eloquência de um romancista empertigado fazendo o parto da sua trama. Por mais que se pense que ele tem o controle do que acontecerá, é nas entrelinhas, no entanto, no porém que os personagens são jogados e se tornam independentes... Feito ele, que não é príncipe, não nasceu belo, não tem dinheiro, fama, mas ainda assim, veja bem, revolucionou-se.

E eu no aguardo de a minha revolução ser concluída.

Imagem © Juja Kehl >> www.flickr.com/photos/juja_kehl/

carladias.com



Partilhar

4 comentários:

Senhora disse...

Nossa, Carla! Que profundo!
Acho que preciso ler e reler para conseguir chegar um tiquinho mais próxima do todo que você colocou nesse texto.
É incrível a capacidade que você tem de criar, de renovar, de mudar seu estilo! Em síntese, "uau"!!:)
Beijos

albir disse...

Carla,
continue recolhendo encantos e revoluções daquilo que não pode controlar.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Que lindeza de prosa poética, Carla! Mas, menina, o que é que você anda lendo? :)

Carla Dias disse...

Cara Senhora... Não tenho palavras para agradecer o seu comentário. Fiquei feliz em saber que você mergulhou no texto de forma tão profunda, porque sim, às vezes somos nós que criamos a profundidade com um olhar generoso. Beijos!

Albir... Recolher e seguir colhendo, não? Vou lá, então... Sempre irei.

Eduardo... Ai, que fico feliz quando tem comentário tão bom seu : )
Pois é... A verdade é que ando lendo nada, infelizmente. Acho que essa poesia é vem da falta de botar os olhos nela.