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Mostrando postagens de Dezembro, 2012

LIMITES DO TEMPO E DA RAZÃO >> Albir José Inácio da Silva

Sob o olhar espantado de uma velhinha, eu falei sozinho na rua. Não estou maluco, embora reconheça que tal afirmação não prove saúde ou lucidez de ninguém. Não é a primeira vez que acontece. Há meses percebo que as pessoas me olham na rua com um interesse quase científico. Mas isso vai mudar.

Não gosto quando me chamam atenção por isso. No início não acreditava e dizia que louco era quem me acusava. Mas tive de reconhecer. Além de vários testemunhos, chegaram até a filmar um de meus solitários discursos. Mas continuo não gostando. Por que não se metem na sua vida? Vida deles, quero dizer, não se ofenda leitor, isso não é com você que nunca me viu ou acusou de falar sozinho.

Claro que a minha fala não é para ser ouvida, se fosse eu falaria com alguém. Geralmente é na rua que falo mais porque em casa fazem muitas perguntas. As pessoas admitem tudo, menos que alguém fale sozinho. Ora, se eu quero, ou preciso, conversar comigo, com quem devo falar? Ou não devo conversar comigo?

E há coisa…

O ANO QUE VEM. EXISTE? >> Sílvia Tibo

Superada, enfim, a fase de especulações acerca do fim do mundo, que se tornou assunto obrigatório em qualquer mesa de bar nas últimas semanas e objeto das mais enfadonhas piadas, é tempo de nos concentrarmos na chegada do "ano que vem".

Esse período sempre provocou em mim certa melancolia. Nada que me impedisse de colocar um vestido novo, sair de casa e participar de uma festa ou outra que aparecesse, ao lado de pessoas queridas. Nada que me impedisse, também, de brindar o início de um novo ciclo. Mas a minha alegria, lá no fundo, era sempre menor e mais contida do que aquela que exalava das outras pessoas, que pareciam sempre mais eufóricas do que eu.

Nunca entendi muito bem isso e sempre me perguntei por que diabos meu espírito nunca foi capaz de acompanhar o brilho dos fogos de artifício que enchem os céus nessas ocasiões. Ou o barulho gostoso que exala das rolhas lançadas das garrafas de espumante, anunciando a virada.

Pra completar, geralmente, o sono teimava em d…

2013 — MUDANÇAS NO AZUL >> Claudia Letti

Saturno, o Senhor do Tempo e do Karma, é o regente astrológico do ano que vem chegando aí. E vem pedindo responsabilidade nas mudanças que pretende provocar. No signo de escorpião, nada escapará deste planeta severo. Sabe aquela sujeirinha, aparentemente inofensiva, que foi varrida pra debaixo do tapete? Levanta, sacode a poeira e não poupe na faxina geral para não ter que passar por constrangimentos logo mais. Saturno também promete boas colheitas para quem soube plantar. Ainda não plantou? Melhor começar seu cultivo sem demora e com desapego. E siga o ano com paciência, (outro mote de Saturno), que os frutos podem estar onde menos se espera.

Entrar o ano de Azul, na virada, pode ser uma ótima ideia, dizem os entendidos em Feng Shui. Não por acaso, Azul também é cor de Yemanjá, a Rainha dos mares, que junto com Obaluayê, vai reger o ano de 2013. Tudo azul para as mudanças e transformações com sinal verde para a cura de muitos males e epidemias. E mesmo que o tom soe otimista, não po…

A FICÇÃO DO PASSADO >> Mariana Scherma

Pra não ficar refém das reprises dos canais a cabo nem dos especiais de Natal da tevê aberta, todo fim de ano eu me cerco de filmes – e da forma antiga, diga-se, indo até a locadora. E neste ano, Tarde Demais Para Esquecer estava esperando por mim num canto empoeirado da loja. Foi meu milagrezinho de Natal: de todos os romances clássicos, era esse que faltava ganhar um OK na minha lista de assistidos. Não falta mais.
Eu amo os filmes antigos, principalmente os romances, por vários motivos: a classe dos personagens, a trilha sonora imponente, a educação no jeito de tratar as pessoas, os vestidos que nunca saem de moda das protagonistas, a falta de malícia (ou seria a malícia discreta?) nos diálogos, o colorido desbotado das cenas... A verdade é que hoje todos esses motivos fazem os clássicos do cinema virarem a maior ficção improvável. Em dias de Facebook, Instagram, Twitter e 3G, um roteiro como o de Tarde Demais Para Esquecer jamais seria escrito dessa forma.
Explico. Pra quem nunca…

COMO TEM DE SER >> Carla Dias >>

Sentiu fome, então engoliu duas bolachas de água e sal, repetindo, mentalmente, que manteiga está fora da lista dos alimentos saudáveis. Minutos depois, enquanto aguava as plantas, o seu estômago reclamou que a fome era maior e duas bolachinhas de água e sal não tapariam a sua boca. E a boca do estômago é desaforada. Sempre foi. Quase sempre atazana a gente por causa do que sente o coração. Então, recorreu ao micro-ondas, porque o tempo urge, lembrando-se, como se pescasse uma história muito importante do seu passado, do remédio para diabetes. Engoliu os comprimidos com refrigerante, tentando se convencer de que estava a um passo de se tornar alguém com um ritmo de vida mais saudável. A sensação durou os cinco minutos que levou para devorar a mini pizza, porque depois foi a culpa que tomou conta.

Tomou um banho demorado, daquelas demoras de quem não quer sair de debaixo do chuveiro nunca mais. De quando a água abafa o zumbido da realidade que já não se consegue conduzir com o mesmo e…

FELIZ NATAL! >> Clara Braga

Que beleza, o natal caiu numa terça! Nada melhor do que ter esse espaço para desejar um natal iluminado para todos. Sem contar o gostinho especial que esse natal tem, afinal, o mundo não acabou, como muitos temiam.

Na verdade, o mundo não acabou para a gente que ainda está aqui, mas de fato, como muito bem disse minha mãe, esse ano parece que Deus tomou bastante ômega 3 e lembrou de levar para perto dele umas pessoas que não queriam ir tão cedo. Começou pela Hebe, depois teve Niemeyer, que resistiu até seus muito bem vividos 104 anos, e hoje, aos 105 anos, Deus levou pra ficar com ele Dona Canô!

Todos esses merecem muito mais do que apenas uma homenagem, pelo legado que deixaram para quem ficou e teve a sorte de não ver o mundo acabar, mas, com certeza, Niemeyer deixa uma saudade a mais para quem é de Brasília, já que é quase impossível transitar pela cidade e não se deparar com uma de suas grandes construções!

É bem verdade que alguns brasilienses já andavam um pouco chateados com o …

O MITO DA IGUALDADE >> Whisner Fraga

O mito da igualdade racial no Brasil sempre vem à baila quando os políticos resolvem tomar alguma medida para tentar minimizar as injustiças sociais que reinam em nossa sociedade. Recentemente, pudemos acompanhar a aprovação de uma lei que prevê uma reserva de 50% das vagas nas universidades federais para alunos oriundos do sistema público de ensino. Há bons argumentos de ambos os lados e os que são contra defendem que o ideal seria investir mais na educação básica, que a aplicação da lei provocará uma distorção muito grande no acesso ao curso superior, que todos somos iguais perante à lei, que os ricos pagam muitos impostos e só porque seus filhos estudam em escolas particulares, não podem perder o direito ao ensino de qualidade, encontrado, hoje, principalmente nas faculdades públicas.

Do lado favorável, há o reparo de desigualdades que se acentuam cada vez mais com o fato de que os pobres não têm acesso à educação de qualidade, a esperança de que, com esse incentivo, os alunos c…

OS DOCES CHEIROS DO NATAL [Maria Rita Lemos]

Acredito que um de meus sentidos mais aguçados é o olfato - e isso desde que eu era muito pequena. Prova disso é que tenho gravados, num cantinho do cérebro, odores familiares que me remetem de volta ao passado, a momentos amargos ou felizes da minha vida. Bons ou maus momentos, mas sempre embrulhados na mesma forte emoção.

O cheiro da terra quando recebe as primeiras gotas de chuva; o doce perfume da “dama da noite” - esse especialmente me leva a um jardim em Belo Horizonte, na primeira vez que lá estive com meus pais. Quando entro em lojas de tecidos, recordo-me de um vestido cor de rosa de organdi, cheio de babados, que aos seis ou sete anos minha avó costurou para mim, e eu amava vestir. Aliás, vovó tinha uma compoteira de bico de jaca, na qual ela colocava o doce de ambrosia (ah, que saudade de saborear esse manjar dos deuses)!. É por isso que sempre que sinto cheiro de doce de leite ou de ambrosia, a mesma compoteira cor de mel chega de forma intensa à minha mente. O aroma fort…

MINUETOS DE NATAL >> Zoraya Cesar

Minueto, do francês menu (pequeno): dança de gestos delicados. Como a vida, muitas vezes.
1° Minueto – um instante de compaixão
O homem sentou-se pesadamente em frente à luzinha vermelha que, sabia, sinalizava a presença do dono da casa. “Ele” morreu tão sozinho quanto estou agora, pensou amargurado, chorando silenciosamente para dentro.
Tanta gente no mundo, tantos conhecidos de trabalho, uma agenda repleta de telefones e absolutamente ninguém com quem passar o Natal. Olhou em volta e viu que o velho Padre, andando pela Igreja e desfiando um Rosário, parecia também muito só, além de um tanto empobrecido, a batina muito limpa meio surrada, sapatos gastos. Coitado, pensou o homem, talvez passe necessidade, gostaria de fazer algo por ele, eu bem gostaria que Deus fizesse algo por mim...
E, podem acreditar, nesse breve instante de compaixão pelo velho Padre, o celular toca, e o primo, com o qual brigara e não falava há quase um ano, chama-o para fazerem as pazes, passarem o Natal junto…

UMA CRÔNICA ANTES DO FIM DO MUNDO
>> Fernanda Pinho

NADA A PERDER >> Carla Dias >>

Quando não se tem nada a perder, cala-se diante das palavras alheias. Das ideias e das ideologias então, nem lhe conto. E infiltra-se em um universo em que o som embrutece, soa como se andássemos com fones de ouvido desplugados. Como realidade abafada e sonho tiranizado.

Os pés parecem blocos de concreto, então se passa muito tempo parado, às vezes até contemplando parede, pensando que aquela seria uma ótima tela para uma péssima obra, e que pena que você não tem pincel e tinta, pois desenharia esse profundo nada a perder nesse painel que, no momento, ilustra apenas cotidianos abandonos.

Não ter nada a perder lhe oferece as lentes do dane-se, vandaliza com a sua capacidade de desejar bálsamo, enquadra a sua percepção na inabilidade de observar e absorver e compreender e criar opinião a respeito. Torna-lhe um promissor algoz das emoções fundamentais para não se enxergar a vida como se ela fosse absolutamente nada.

Nada a perder, por ironia deslavada, oferece uma coragem gritante a sua…

PALMAS PARA O THE VOICE BRASIL >> Clara Braga

Nesse último domingo foi a grande final do The Voice Brasil, e pela votação em massa deu para perceber que as pessoas se mobilizaram para ver a final desse programa que salvou a programação televisiva do final de semana! Brasília estava especialmente ligada torcendo pela maravilhosa Ellen Oléria, que após surpreender a todos com apresentações de arrepiar, foi presenteada como a vencedora do programa!

Eu já conhecia o trabalho dela há um tempo. Fui a diversos shows aqui em Brasília, incluindo o show de lançamento do seu primeiro CD, o qual eu super recomendo a todos que gostaram de sua performance no programa. O trabalho da Ellen é cheio de personalidade, assim como ela, e é impressionante como ela consegue passar através de sua voz o carisma que ela mostrou ter no palco do programa, fazendo com que sua vitória fosse mais do que justa.

Porém, além de usar esse espaço para fazer uma homenagem merecida a artista, gostaria de compartilhar um fato sobre o qual fiquei pensando após convers…

VADE RETRO >> Albir José Inácio da Silva

Joca tinha sim as suas superstições, mas não admitia. Pior, sentia vergonha delas, negava-as. Mais que isso, fazia inflamados discursos contra as crendices que o cercavam. Por isso fingia que aquele número pendurado no peito não o incomodava.

Treinara com afinco e dedicação. Economizara para a inscrição às vezes com prejuízo do jantar. Nunca ia esquecer o vexame da última corrida com cãibra, queda e atendimento médico na frente de todos. “É falta de potássio”, disse alguém. “Falta de alongamento”, declarou outro especialista. E o maldito do João Pedro: “Foi o espelho que ele quebrou ontem na mudança de Dona Mercedes”.

Desgraçado! Na verdade a culpa tinha sido dele, João Pedro, que ficou na frente com o espelho, enquanto Joca tentava carregar sozinho a penteadeira. Mas nem por isso o cretino deixou de anunciar aos quatro ventos: “O Joca quebrou o espelho!”. Teve ganas de lhe quebrar a cara, mas fingiu indiferença. Não faria mais esses biscates. Era um atleta.

Depois, na corrida, o me…

CONFISSÕES DE UMA GEMINIANA >> Sílvia Tibo

Sempre duvidei um pouco daquelas previsões e definições astrológicas, que são publicadas em jornais e revistas para cada um dos signos do Zodíaco. E minha descrença aumentou depois de ter ouvido o amigo de um amigo dizer que, durante os meses em que foi o responsável pela edição desses textos num jornal de razoável circulação, era ele próprio, muitas vezes, quem tinha que “criar” o que ali se dizia, embora nada entendesse do assunto.
Mas devo admitir que, ao menos no meu caso, o horóscopo não mente. Confirmando todas as descrições da Astrologia, sou a típica (e assumida) geminiana. A inquietude em pessoa, pra resumir o assunto.

Desde que me entendo por gente, tento compreender, aceitar e administrar toda essa minha agitação. Essa mania de querer abraçar o mundo, como se ele fosse mesmo acabar em poucos dias, cumprindo uma dessas profecias apocalípticas.

Imagine, por exemplo, alguém que não consegue terminar um livro inteiro antes de dar início à leitura de outro. Ou, ainda, que não co…

DE SORRISOS E LUZES DE NATAL [Ana González]

Eu estava sentada esperando a vez para ser atendida numa loja dos correios. Antes de sentar, olhei à volta e cumprimentei as pessoas com quem pude trocar olhar.
Não percebi quando uma senhora sentou-se ao meu lado e se dirigiu a mim. “Será que eu poderia ser sua amiga?”; o inesperado da situação me surpreendeu. Pensei:  “Como?, é isso mesmo o que eu ouvi? Um pedido para ser minha amiga?” Essas e outras mil perguntas aconteceram nesse momento dentro de mim. O que dizer? O que fazer?
Era uma figura discreta em meio a um grupo ansioso e também discreto. Blusa e calça comprida pretas. O rosto limpo de pele tratada, o cabelo escuro puxado atrás da nuca. Na faixa dos cinqüenta - talvez sessenta? - tinha a expressão do rosto calma. A voz era clara.
Em seguida, ela continuou a conversa, tirando-me do primeiro susto. O objetivo foi diretamente colocado, explicando-me tranquilamente o motivo da abordagem. “Você me sorriu e eu estou muito só”, disse-me. Daí então falou mais. Mudança de cidade, de …

A TORCIDA MAIS LINDA É FIEL>> Mariana Scherma

Vendo a festa dos corintianos no Japão, eu não me segurei e liguei para o meu pai só pra avisar que a maior herança que ele me deu foi o amor pelo Corinthians. Já peço desculpa aos outros torcedores e aproveito pra dizer que esse texto é puro amor pelo timão, quer dizer, pela torcida do timão. Sei que tem muita gente que torce o nariz para os corintianos e sei também que nenhum fanatismo faz bem. Mas não posso deixar de admirar um bando que vai junto acompanhar o embarque do time do coração, que faz churrasco no meio do caminho e vira amigo de infância de qualquer um que tenha a marca alvinegra no coração.
Nem me importo tanto se o Corinthians ganha ou não do Chelsea no domingo, mas isso eu digo por mim – sei que minha vida vai continuar igual. Agora, pela torcida, sei que vou roer a unha, sei que vou andar de um lado para o outro durante o jogo, sei que vou sofrer um pouco. Ou muito. Porque eu detesto assistir aos corintianos sofrendo. Independentemente da conta bancária, corintiano…

RELEVÂNCIA >> Carla Dias >>

A senhora passa declamando o acontecimento na cadência de dialeto de quem tem preguiça de pronunciar todas as letras, como se as engolisse ao dizê-las. Só que os palavrões são praticamente gritados. O pipoqueiro, que atende em frente ao cinema, sente-se traído pela novidade e praticamente engole um pacote de pipoca doce para tapar o buraco no estômago causado por ela. Não adiantou, ele se dá conta, enquanto planeja uma seção de exercícios para queimar as calorias extras.

O moleque, com boca cheia de biscoito esfarelado, eficazmente afanado da cozinha do amigo e quase sob o olhar de braveza da mãe dele, jura pelos santos que o pai idolatra que é isso mesmo. Engasga a secura do biscoito, a mãe do amigo o acode com uns tapinhas frouxos nas costas. O apresentador do programa de variedades desata o nó da gravata e se senta, desprovido dos modos dos apresentadores de televisão, em um degrau do cenário. Está extasiado e temente ao acontecimento, pensando que, talvez, seja hora de evoluir e …

AS IRMÃS ENIGMÁTICAS >> André Ferrer

Nos últimos dias, releio “A hora da estrela” e “A convidada do casamento” para tirar uma teima que, há pelo menos duas décadas, incomoda-me. Clarice Lispector (1920-1977) e Carson MacCulers (1917-1967) nunca me enganaram. Têm almas gêmeas. A forja que as moldou é a mesma.
Contemporâneas, fizeram a recriação literária do pós-guerra só que, ao contrário da maioria dos autores da época, de dentro para fora. Seus personagens representam a barbárie do século XX através da solidão e de uma autoconsciência devastadora. Macabéa e Frances, protagonistas das obras que releio, têm absoluta certeza da sua condição de excluídas.
Na década de 1990, quando descobri MacCullers, eu já conhecia Lispector. Assim, as primeiras páginas de “A balada do café triste” pareceram-me familiares. Uma sensação que, a partir do instante de reconhecimento daquela irmandade de espíritos, passei a recordar e realizar com o impacto de uma epifania.
Epifania é uma palavra difícil. Inadequada, nesta era esquematizadora, à l…