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OS DOCES CHEIROS DO NATAL [Maria Rita Lemos]


Acredito que um de meus sentidos mais aguçados é o olfato - e isso desde que eu era muito pequena. Prova disso é que tenho gravados, num cantinho do cérebro, odores familiares que me remetem de volta ao passado, a momentos amargos ou felizes da minha vida. Bons ou maus momentos, mas sempre embrulhados na mesma forte emoção.

O cheiro da terra quando recebe as primeiras gotas de chuva; o doce perfume da “dama da noite” - esse especialmente me leva a um jardim em Belo Horizonte, na primeira vez que lá estive com meus pais. Quando entro em lojas de tecidos, recordo-me de um vestido cor de rosa de organdi, cheio de babados, que aos seis ou sete anos minha avó costurou para mim, e eu amava vestir. Aliás, vovó tinha uma compoteira de bico de jaca, na qual ela colocava o doce de ambrosia (ah, que saudade de saborear esse manjar dos deuses)!. É por isso que sempre que sinto cheiro de doce de leite ou de ambrosia, a mesma compoteira cor de mel chega de forma intensa à minha mente. O aroma forte das coroas de flores me conduz àquele dia triste de um agosto distante, quando dei o último adeus ao pai de minhas filhas, que partia desse mundo. Já o perfume de rosas vermelhas me encontra, emocionada e linda, na cama da maternidade, sentindo o cheiro doce de minha primeira filha, recém-nascida.

Falando em filhos e filhas, é deles que me vem a saudade de odores familiares: leite azedo, impregnando quase todas as minhas roupas, naquele gostoso momento do abraço para “fazer arrotar”. O cheirinho de cocô, conhecido de todas as mamães, que sempre lambuza os dedos quando a gente desconfia - enfia a mão na fralda para testar e confirma. Realmente, é cocô.

Entre todos os aromas, entretanto, jamais esquecerei o cheiro próprio que o Natal tinha, na casa de minha infância e juventude. A cozinha era o centro de uma confusão de odores: peru assando, chester, tudo se misturando ao cheiro da boneca que ganhei aos oito ou nove anos. Eu achava, ainda, que Papai Noel havia trazido, afinal fui criança num tempo em que a infância durava o tanto que deveria durar.

Lembro tanto dessa boneca! Chamei-a, de Marily, o nome de uma colega querida que nunca mais vi. Marily era loura, tinha o vestido de tule azul claro, e dizia “mamãe” quando era debruçada... O cheiro dela na caixa simbolizava, para mim, toda a magia do Natal. Ali, eu respirava avidamente o assado no forno, o presépio cheio de luzes que mamãe fazia questão de montar numa peça longa, na sala de jantar, a árvore alta de bolas vermelhas.

Eu revivia, nessas noites mágicas, o sorriso maroto de meu Pai, nosso eterno Noel, e a voz de mamãe, repreendendo os mais afoitos que chegavam à mesa antes da hora aprazada.Durante todo o ano, muitas vezes eu voltava ao cheiro daquela boneca, evocando as emoções que acompanhavam aquela viagem.

Confesso que jamais senti aquele cheiro outra vez, depois que a infância acabou e Marily quebrou, não sei como nem quando. Em cada noite de Natal, no entanto, eu fecho os olhos e recordo a magia e a inocência da infância. É o momento em que consigo ressuscitar a menina que fui e a esperança que ainda tenho, depois de tantos anos, intocada, inquebrável, teimosa que ela é.

O Natal vem chegando outra vez; falta muito pouco. Desejo a você que haja, em seu lar, um brilho mágico de Amor, uma centelha que seja de fé. Não importa se sua mesa vai conter um banquete ou uma macarronada gostosa: que haja, nela, o perfume inesquecível da Esperança. Que Jesus Menino se faça presente em seu Natal, para que ele seja muito, muito feliz.

Comentários

Zoraya disse…

Muito obrigada pelos votos, Maria Rita! O mesmo para você e seus Queridos. E crônica está cheirosíssima, de aromas misturados de dama da noite, chuva esperança e da delicadeza de seu texto. Beijos
Anônimo disse…
Obrigada, querida. Um lindo Natal para você também e todas as pessoas que você ama. Abração.

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