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SOBRE CANETAS E PAPÉIS >> Whisner Fraga

Outro dia, estava na rodoviária do Tietê, em São Paulo, me preparando para embarcar, quando uma senhora me perguntou se tinha uma caneta para lhe emprestar. Ela queria preencher um bilhete, com seus dados pessoais, trabalho que se tornou obrigatório para quem deseja viajar em algum ônibus de linha. Então, tirei da bolsa uma caneta tinteiro, que uso em minhas andanças, para anotar acasos que minha cabeça me cobra. Ela se assustou, acho que nunca havia empunhado um objeto daqueles, tamanha surpresa que demonstrou.

    - Chique, heim?, observou.

Esperei que começasse a escrever. Então, aconteceu o que já esperava: ela sentiu um deleite jamais experimentado ao rabiscar alguma coisa.

    - Que delícia!, confirmou.

Claro que não estou comparando uma Mont Blanc a uma Bic, nem fazendo apologia a nada. Não é somente uma questão de classe. Como escritor, valorizo muito o papel em que registro minhas ideias e também a tinta e a caneta. Não estou dizendo tampouco que não uso esferográficas: numa emergência ou para registrar assuntos sem importância, não tenho nada contra. Mas para o dia a dia, para o trabalho fundamental, só uso tinteiro.

Poucas coisas são mais agradáveis ao tato do que uma pena deslizando por um papel macio. Eu, preguiçoso por natureza, abandono o desânimo e não quero parar de anotar. Simples assim. Então, como normalmente escrevo meus contos à mão, é essencial que eu tenha por perto os instrumentos adequados. Chego a dizer que um pouco da criatividade advém da harmonia do conjunto.

Tudo bem se qualquer um quiser continuar com sua Bic, não tenho problema nenhum com isso. Não sou apologista de nada, não ganho para fazer propaganda. Dizem que canetas com penas de ouro, de platina, são também joias. Podem até ser sim, mas não as encaro dessa maneira. Para mim, engenheiro, o metal com que as penas são feitas impacta diretamente na qualidade da escrita. O canal por onde escoa a tinta tem um diâmetro minúsculo, quase imperceptível a olho nu. Ora, é evidente, portanto, que a precisão envolvida ao se fabricar o componente é bastante alta e não pode ser alcançada com qualquer material – daí o uso do ouro ou da platina.

Depois há o próprio corpo. Enquanto uma esferográfica é usualmente fina, se encaixando penosamente entre os dedos, uma Meisterstück tem o diâmetro mais ajustado às nossas necessidades de escrevinhadores. Resina, cerâmica, o material aí também é determinante: é preciso que os dedos não escorreguem pelo tubo, é necessário que haja uma boa “pega”. Há toda uma ciência envolvida, como se pode perceber.

Aliás, há ciência em tudo e cabe a cada um decidir se quer conhecê-la ou não. Como alerta um amigo: quem prova de um vinho bom, não quer mais saber de outro! O mesmo se pode dizer de quase tudo: o que é bom. Claro que, na falta de uma Mont Blanc ou de uma Parker, eu continuarei a escrever com uma esferográfica mesmo – não é isso que me move. Mas que não será a mesma coisa, ah, não será mesmo!

Comentários

Zoraya disse…
Que delícia Whisner! Que coisa boa ver um homem que olha as coisas dessa maneira. E um engenheiro, ainda por cima! Quase uma ode aos pequenos detalhes.
silvia tibo disse…
Coisa rara mesmo... entre homens e, principalmente, engenheiros...rs.
Muito bom!
Carla Dias disse…
A gente acaba se cercando do aprazível ao criar. É como a história do escritor que se sente muito mais confortável registrando suas ideias com a máquina de escrever. A explicação é simples: assim como você se envolve com a caneta e ela passa a fazer parte do processo de criação, sendo a ferramenta ideal, há quem se apegue ao som das teclas da máquina de escrever e não se dobre à agilidade das eletrônicas ou computadores. É o som, é a força necessária aplicada em cada tecla para registrar a letra e por aí vai.

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