quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

NADA A PERDER >> Carla Dias >>



Quando não se tem nada a perder, cala-se diante das palavras alheias. Das ideias e das ideologias então, nem lhe conto. E infiltra-se em um universo em que o som embrutece, soa como se andássemos com fones de ouvido desplugados. Como realidade abafada e sonho tiranizado.

Os pés parecem blocos de concreto, então se passa muito tempo parado, às vezes até contemplando parede, pensando que aquela seria uma ótima tela para uma péssima obra, e que pena que você não tem pincel e tinta, pois desenharia esse profundo nada a perder nesse painel que, no momento, ilustra apenas cotidianos abandonos.

Não ter nada a perder lhe oferece as lentes do dane-se, vandaliza com a sua capacidade de desejar bálsamo, enquadra a sua percepção na inabilidade de observar e absorver e compreender e criar opinião a respeito. Torna-lhe um promissor algoz das emoções fundamentais para não se enxergar a vida como se ela fosse absolutamente nada.

Nada a perder, por ironia deslavada, oferece uma coragem gritante a sua cria. E quando seu títere, em movimentos ainda incertos, dá o primeiro passo ao cumprimento do desfecho ao qual é induzido, o nada perder se espreguiça, sorri se deliciando com a sua nova conquista.

Quem tem nada a perder não caminha, arrasta-se pelo tempo em que passa a ruminar nem sabe o quê, já que nada é uma grande metáfora para um tudo que, após parecer definitivamente importante, parte-se em mil e tantos pedaços, então se perde dentro de nós. E há ainda as lonjuras construídas com telefonemas não retornados, e-mails não respondidos, contas não pagas, desejos recorrentes que, de repente, escorregam pelos vãos do esquecimento.

Dizem que quem tem nada a perder se torna cruelmente indiferente. Alguns cometem mágoas aos seus afetos, outros se tornam itinerantes, desapegando-se definitivamente das suas raízes. Há os que se esbaldam no esquecimento e quase conseguem inventar para si uma nova história, das bem simples, que não exija sentimentos demais, buscas demais, planos demais, e que lhes permita boiar em uma existência flat.

E há aqueles que abraçam uma ideia, uma ideologia, colocando ali toda a sua imaginação e energia, ligando pontos que não deveriam se encontrar, gerando deduções que não fazem o menor sentido, e chamando esse nada a perder de “minha religião” ou de “meu patriotismo”.

Sempre há algo a se perder, mesmo quando parece tão certo que já se perdeu tudo, até a si mesmo. Pode até ser que para quem tem nada a perder, quem tem esse sentimento lhe conduzindo, o que fizer, por mais bizarro ou insano que pareça, não chegará aos pés do vazio que lhe engole. Mas a verdade é que as ações de alguém nessa posição sempre se tornam consequência para os que estão a sua volta. O nada nunca existiu, meu caro. É sempre tudo que se coloca a perder quando se assume o posto de quem tem nada a perder. O tudo próprio e o de outras pessoas.

Melhor, então, não ficar de bobeira, esperando a vida lhe oferecer o que você espera dela. Melhor correr por aí, braços abertos e disposição para abraçar todos os tudo que você puder. Porque tudo também não existe, meu caro. Não na amplidão do sentido da palavra. Tudo é uma metáfora para todas as possibilidades que nos são oferecidas para nos tornarmos alguém que não precisará chegar ao ponto de ter nada a perder.

E assim, não se perde a graça, o amor, o desejo, a habilidade de ser gentil, de compreender a diferença, de aceitar que suas opiniões não são únicas ou definitivas. E de se respeitar com o respeito de verdade, que não se mistura com rótulos ou preconceitos, que é livre do egoísmo destrambelhado. E se ganha um tudo... Dois tudo... Três, quatro...

Imagem: sxc.hu

carladias.com



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3 comentários:

silvia tibo disse...

Linda crônica, Carla...
Obrigada por compartilhar conosco!
:)

Zoraya disse...

Ninguém perde nada por ler você, Carla!

Carla Dias disse...

Silvia, eu que agradeço pela leitura :)

Zoraya e sua gentileza...