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Mostrando postagens de Julho, 2012

APELOU PERDEU... >> Clara Braga

Quanto mais eu observo, mais eu percebo que não tem jeito, tudo que é bom tem um lado ruim e tudo que é ruim tem um lado bom, o que a gente faz é só medir as coisas. Se na medição o bom vence o mau, então a gente diz que algo é bom, e vice-versa. E quando dizemos que algo é sensacional é porque o lado ruim fica tão pequeno perto do lado bom que nem o consideramos, mas ele está lá.

Faz dois dias que comecei um estágio. A vaga é sensacional! Seis horas de trabalho variável, não vai prejudicar a faculdade e, o melhor de tudo, o que eu tenho que fazer é assistir filmes e dar a classificação indicativa dos filmes. Para uma cinéfila, não podia ser melhor. Mas devo dizer que para chegar até aqui não foi tão tranquilo assim.

Para mim, a pior parte de arrumar um emprego ou um estágio novo é o processo seletivo, principalmente se no meio do processo inventam uma dinâmica de grupo. Me desculpem as pessoas que gostam de dinâmica, mas eu acho que não podia existir nada pior para avaliar um candida…

MINHA FILHA VAI SER
>> Albir José Inácio da Silva

Assisti à reunião da escola preocupada com a hora. A gerente já avisou sobre os meus atrasos. Ainda tenho que chegar em casa, tomar banho e viajar durante duas horas até o trabalho. Mas não deixo de ir às reuniões. A escola me emociona. Principalmente quando falam da minha filha.

Nunca esqueço de como foi difícil reconquistar a guarda de Mariana, das coisas que ouvi na audiência, da vigilância até hoje, com visitas da assistente social e entrevistas no fórum. Cheguei a ficar sem ela por mais de um mês depois de tudo que inventaram sobre mim.

Assim que Mariana nasceu, tentei trabalhar como doméstica. Chegaram a me aceitar, mas não durou uma semana. Além do choro, que irritava a patroa, eu não conseguia completar as tarefas, tinha de amamentar e cuidar do bebê.

Além da juras de amor e das promessas de antes, o pai de Mariana nunca deu nada. Tinha mulher, filhos e uma militância religiosa que não podia ser manchada por filhos fora do casamento. No início pediu silêncio e prometeu ajuda …

ESCREVA BONITO
>>Eduardo Loureiro Jr.

Àqueles que me ensinaram a escrever
Minha relação com a escrita não começou de forma promissora. Embora eu fosse um ótimo aluno nos tempos de colégio, minhas duas únicas notas abaixo de cinco, em toda a minha história escolar, foram justamente em Português, Redação, Ditado, ainda no 4º ano primário.

Alguns anos depois, quando o professor Tavares me devolveu uma redação com um 10 no topo da página, fiz uma cara de tanta surpresa que acho que ele pensou em reconsiderar a nota. Não faço a  mínima ideia do que escrevi ou de como escrevi algo merecedor da nota máxima. Naquela época meus interesses eram voltados principalmente para Matemática e Geometria.

A principal responsável pela minha aproximação definitiva com a literatura foi uma namorada, Giovana, que estudava no mesmo colégio que eu. Além de me apresentar àquele que, ainda hoje, é meu escritor favorito, Fernando Pessoa, Giovana tinha o hábito de me escrever pequenos bilhetes, aos quais eu respondia. Os bilhetes foram se transforman…

REPENSANDO CONCEITOS
E FORMAS DE VIVER
[Heloisa Reis]

Quando estudei História na escola e me foram apresentadas as Guerras  - a do Paraguai, a do Peloponeso, a de Waterloo (claro que não nessa ordem) -  já me incomodava saber o quanto os humanos eram (ir)responsáveis por matarem-se uns aos outros. A explicação que eu intimamente aceitava era a de que  a n t i g a m e n t e  os homens eram assim, e que agora, após a 2ª Guerra Mundial, tinham finalmente aprendido.
Hoje neste novo período de nossa História, com o desenrolar da revolução  das comunicações, com o desenvolvimento tecnológico/científico, continuo perplexa não apenas com as guerras que já se tornaram rotina nos noticiários, mas também com o afastamento que vemos acontecer entre os humanos.
Enquanto o planeta todo é praticamente coberto por um único sistema técnico, vemos tornarem-se cada vez mais indispensáveis ações que aproximem os seres humanos de sua essência. Para isso precisamos todos de um certo distanciamento de um valor que vem predominando: o consumo.
Claro que todos os s…

RASTROS DO ÊXODO >> Leonardo Marona

FRISSON – SP – (1)
no fundo escrever é o nosso principal sexo, a perfeita comunhão com o corpo. mas, sem estragá-la com os excessos da pele, teremos parâmetro suficiente para reconhecermos a sua perfeição?
FRISSON – SP – (2)
Nossa primeira discussão mais séria foi acerca de um pedaço de pão e restos de um queijo ruim e caro. Você come bastante, acabou com tudo, ainda bem que sobraram esses farelos. Emburrou-se e fechou a cara durante toda a manhã. Nada se quebrou, embora exista agora um copo bem na beirada da mesa. Nunca mais tentar ser engraçado. Quando sentir vontade de sê-lo, ser sério. Aí está a origem do riso. Ela tem mil tipos de riso, e não precisa pensar em nada engraçado para emitir nenhum deles. Projeto ambicioso: tentar catalogar as variações de riso. Ser sério e tentar desvendá-los. Sem pressa. Nunca mais escrever nada que não leve ao desespero qualquer homem apressado. Isto é uma frase de outra pessoa, agora é minha. No fim me angustiou pensar que eu não era capaz de recon…

O HOJE DE CADA DIA >> Carla Dias >>

Numa arrancada súbita, ela se deslocou quase solene em direção à porta; logo freando porém o passo. E parou. Fazemos muitas paradas na vida, mas supondo-se que aquela não fosse uma parada qualquer, não seria fácil descobrir o que teria interrompido o seu andar.
Raduan Nassar em "Hoje de Madrugada"

Na literatura eu encontrei algo que me salvou de mim mesma. Na poesia, a ideia de rimar e depois desarrimar as rimas, de dizer muito com poucas palavras. O drama e a leveza caminhando de mãos dadas a cada verso. Na prosa, a poesia ainda presente, poder reinventar histórias e até mesmo se atrever a criar algumas.
Minha jornada, até aceitar ser chamada ‘escritora’ ao invés de ‘alguém que escreve’, passou por momentos que guardo com carinho. Para a menina que não fazia saber amigos, de uma timidez que a fazia gaguejar na hora de responder a chamada na escola, os rabiscos no caderno eram um alívio intraduzível. A vida passava a fazer mais sentido quando eu mergulhava nas palavras. Par…

SE EU PUDESSE EU SERIA...
>> Clara Braga

Vamos brincar de imaginar... Imagine que hoje você acordou e ganhou um prêmio. Esse prêmio nada mais é do que a chance de viver um dia como a personagem de qualquer filme que você queira e ainda por cima contracenar com todos aqueles atores que fazem parte do filme.

Não saberia nem por onde começar, mas com certeza gostaria de ser a Sarah vivida pela Jennifer Connely em Labirinto – A Magia do Tempo. Sei que ela já fez papeis muito mais fortes do que esse como em Réquiem para um Sonho, Casa de Areia e Névoa ou até mesmo em Uma Mente Brilhante, mas em nenhum desses ela pôde abraçar o Ludo, contracenar com o David Bowie e curtir uma trilha sonora genial, tudo ao mesmo tempo, como em Labirinto.

Amaria ser Amelie Poulain! Nada como viver em um mundo supercolorido e ver poesia nas pequenas coisas. Por falar em poesia, seria ótimo ser a Alice de Tim Burton, imagina como deve ser maravilhoso viajar nas fantasias loucas de Tim Burton e ainda, de quebra, contracenar com ninguém mais ninguém men…

A ÚLTIMA >> Kika Coutinho

O último beijo. O último pedaço do doce, o último par de sapato (no marrom, 37), a última gravidez, o último amor. Todos os últimos carregam consigo alguma melancolia. Até a última bolacha do pacote, ainda que esteja um pouco mole, posso apostar, terá sempre outro sabor. Tem impressa naquele final algo um pouco simbólico, como se ali cerrasse uma oportunidade; ali cravamos um momento único, porque ainda que outro pacote esteja na prateleira — é outro pacote. Aquela era a última. Há sempre certa dor no último, certa melancolia no final, muitas lágrimas na despedida, muita tristeza no que se acaba, mesmo que os dois tenham escolhido seguir caminhos alternativos. Quem não chorou numa separação, por mais amigável que tenha sido? Quem não sentiu os lábios trêmulos ao dizer adeus, ainda que a escolha tenha sido acertada, quem é que não engoliu em seco quando fechou a porta, um aperto fino no peito, uma moleza súbita nas pertas, o coração se esfacelando contido, em mil pedacinhos. Um estou…

UM DIA DE SORTE >> Whisner Fraga

Não sou pescador, nem profissional nem amador, mas gosto de uma pescaria, mais pela tranquilidade de uma sombra à beira-rio do que pelo prazer de fisgar um peixe grande. Naquela época, tempo era o que eu mais tinha para gastar, daí que combinei com meu cunhado de irmos à fazenda de sua mãe, próxima ao Córrego do Açude, entre Ituiutaba e Capinópolis.

Fomos, em seu Chevette 74 (estávamos em 1999, mais ou menos), na esperança de pegar uns bons bagres ou uns mandis que não nos fizessem passar muita vergonha. O carro sofria para vencer os cinquenta quilômetros de terra até a sede. A região é fértil em barbeiros e foi dormindo em casebres de pau-a-pique que este cunhado contraiu Chagas e assim seguiu desta para melhor ou pior, mas essa é outra história.

Chovia forte naquele primeiro dia, o rio encheu e não pudemos testar nossas iscas. No dia seguinte, o sol voltou com tudo, catamos algumas minhocas e rumamos para o barranco. Pegamos vários mandis, que não nos ferroaram naquele dia. Toda ve…

ESPERTO TODA VIDA >> Zoraya Cesar

Quando D. Lindinha morreu, a família entrou em desespero. À tristeza pela perda da matriarca, juntou-se o medo de que Seu Nestor morresse logo em seguida. Foram mais de 40 anos de casados e, nos últimos tempos, Seu Nestor dependia de D. Lindinha para tudo.
Sempre trêmulo, apesar de não ter Parkinson; sempre com palpitações no coração, apesar de não ter problemas cardíacos, qualquer esforço parecia lhe custar anos de vida. Para poupá-lo, D. Lindinha amarrava-lhe os sapatos, passava manteiga no pão, enxugava-o após o banho. Cozinhava também, pois seu Nestor só aceitava comida feita por ela e, de preferência, comida fresca. "Lindinha, minha filha, preciso disso, estou com vontade daquilo", e ela se desdobrava para atender às necessidades do marido, abnegada e amorosa.  “Não vivo sem minha Lindinha” era o bordão de Seu Nestor.
Ela dizia, toda orgulhosa, que Seu Nestor poderia arranjar uma lambisgóia qualquer, 20, 30 anos mais nova, mas não, fazia questão que ela, ela mesma, Lin…

LISTA DE LISTAS >> Fernanda Pinho

Começou com minha mãe fazendo uma lista de possíveis nomes para mim. Franciane, Cristiane, Paloma, mais uns outros pra garantir, e, por fim, Fernanda que no fundo era o que ela queria desde sempre. Antes ou depois disso deve ter existido uma lista de itens para meu enxoval. O que será mais caro: uma lista de enxoval ou uma lista de material escolar? Porque não demorou e veio essa também. A primeira de muitas. Com a lista de material escolar veio a lista de aprovados para entrar no colégio onde eu estive até sair numa lista de aprovados para o vestibular. Anos a fio respeitando a supremacia da lista de chamada.
Não contentes com as listas que já chegam prontas pra gente, ainda insistimos em fazer outras. Na adolescência, eu tinha verdadeira fissura por elas: lista dos meninos mais bonitos da escola, lista de coisas a fazer, lista dos atores de cinema com quem eu me casaria, lista das bandas/músicas preferidas, lista das pessoas que conheço em comum com minha melhor amiga, lista dos li…

O DESPETALADOR DE FLORES >> Carla Dias >>

Inspirado na canção JÁ NÃO TENHO MEDO, de KléberAlbuquerque.

O BENQUERER
Despetalar flores requer o desejo escancarado de que o bem-me-quer-mal-me-quer dê jeito no destino, fazendo com que ele confesse, delicadamente, os desfechos dos próximos capítulos da nossa biografia. Também é um dos preferidos prazeres dos poetas, eles que adoram passar tempo sonhando jardins. E diferente do que se pensa por aí, despetalar flores exige coragem. E da desprovida de pudores.  Despetalar flores é ofício para destemidos. Por isso observo o feito de longe. O despetalador de flores, esse herói desconhecido, com seu charme de quem corre risco, quem carrega o desejo pungente de que o seu ofício dê sempre no benquerer, é uma pessoa que carrega esperança nas pontas dos dedos. Quem bem me quer, quer isso mesmo? E se mal me quer? Como superar as malquerenças? Bem me quer a liberdade... Mal me quer a intolerância... Bem me quer o café quente em tardinha fria, a chuva dançando nos telhados, o abraço para curar s…

EM BUSCA DO MEU BEST SELLER!
>> Clara Braga

Pronto, já me decidi! Tenho novas metas, vou emagrecer e escrever um livro. Tudo bem, emagrecer não é uma meta tão nova assim, já que eu tento fazer isso desde que eu descobri o que é dieta. E querer escrever um livro também não é novidade, mas emagrecer e escrever um livro sobre como emagrecer, isso sim é novidade.

Recentemente, vi uma reportagem sobre o novo best seller que está fazendo sucesso inclusive entre os artistas de Hollywood: um livro que tem dicas incríveis e inovadoras que te fazem emagrecer muito e em pouco tempo. Isso sim é o que todo mundo quer, emagrecer, ficar lindo/linda e, o melhor de tudo, em pouco tempo, afinal, ninguém tem tempo a perder.

Segundo a reportagem sobre o tal livro milagroso, uma das dicas inovadoras e infalíveis é que na primeira semana você corta o carboidrato e come só proteína! Depois mantém uma dieta onde a base principal são verduras, legumes e grãos... Corrijam-me se eu estiver errada, mas acho que eu já ouvi algo parecido com isso em algum l…

CORDEL DO QUASE DA VÓ BARANDINA >> Albir José Inácio da Silva

Eu quase que não nascia,
de força que me faltava,
não fosse a mão da parteira
que bem forte me puxava.


Eu quase que não vingava,
não fosse uma reza forte
da sogra da minha tia,
que brigou muito com a morte.


Eu quase que não falava,
não fosse uma tamancada
que me fez ver as estrelas
e vomitar as palavras.


Eu quase que não crescia,
não fosse a mãe tarimbada
arranjar carne de rã,
misturar com papa dágua.


Eu quase não estudava
não fosse o relho de burro
que na mão do professor
minhas costas trabalhava.


Eu quase não fico virgem
tão pura como nasci
não ganhasse na corrida
do filho do fazendeiro
saltando cerca de arame
pulando que nem saci.


Eu quase que não casava
com o meu Bento safado,
não fosse na última hora
um trabuco enferrujado.


Eu quase que não chegava
aos noventa, ano passado,
se não tivesse vencido
trabalho, patrão e marido,
mais tísica e maleita,
que não sou tipo que deita
para esperar pela sorte.
De pé eu brigo com a vida,
de pé pelejo com a morte.



Não devo nada pra dita
nem ela me deve nada.
Quase que eu nã…

SUA VIDA EM CANAIS >> Eduardo Loureiro Jr.

Quando a gente passa muitas horas seguidas dentro de um estúdio de gravação de áudio, como tem sido o meu caso nesses derradeiros dias, começa a ouvir música de maneira diferente. A canção ouvida no rádio não é mais um ser único, indivisível, mas um conjunto formado por uma série de camadas.

A gente percebe o som só do violão, e só da guitarra, e do violão e da guitarra juntos, e só da percussão, e só do violão e da percussão, e só da guitarra e da percussão, e do violão, da, guitarra e da percussão juntos, e só do baixo, e só do baixo e do violão, e só do baixo e da guitarra, e só da percussão, e do baixo, do violão e da guitarra juntos... numa extensa combinação de instrumentos e de conjuntos de instrumentos. A música se revela para a gente não como algo milagrosamente pronto, mas como uma construção canal por canal, linha melódica por linha melódica. Cada instrumento, ou voz, é gravado separadamente no estúdio, para só em seguida ser combinado, mixado, com os demais. Quando, no dia…

O Resgate do Samba [Carla Cintia Conteiro]

Sou daquele tipo que fica com os cabelinhos da nuca arrepiados ao ouvir sobre o resgate de alguma coisa no contexto cultural. Não é por nada não, só que concordo com quem diz que se alguma manifestação cultural está desaparecendo é porque perdeu seu significado, sua representação simbólica para o grupo que a praticava. Vale registrar como documentação histórica, mas movimentos como revitalização da tradição por quem não foi criado nela me soa como triste pantomima, lamentável pastiche. Ou, como bem definiu Oswald de Andrade, macumba para turista.

Então observo com interesse cético essas rodas de samba nos morros recém-pacificados da Zona Sul carioca. É sempre bom ver que as fronteiras se dissolveram e que o sobe e desce agora é fluente, mas a juventude bem intencionada da PUC me parece equivocada ao achar que está incentivando o “resgate” do samba nas comunidades “corrompidas” pelo funk, forró universitário, tecno brega e outros ritmos fora do rótulo de genuíno ou cult.

Esses moços e…

HOJE NÃO >> Carla Dias >>

Minha sobrinha está apaixonada por cavalos, quer dizer, pelos cavalos que conseguiu domar em um jogo de computador. Falando sobre eles, até parece que ela está cavalgando em animais de verdade, de tanta beleza que ela enxerga nessas criaturas, de tanta aventura em correr em vastos campos-pixels. Uma dessas criaturas, em especial, recebeu o nome de Bronze, por causa da sua cor. É um cavalo, mas esse vem de um lugar no qual as meras cercas não delimitam. Bronze é cavalo alado, tem asas e trará minha sobrinha até minha casa em dia de domingo. Pousará na minha área de serviço, sobre a máquina de lavar e voltará mais tarde para buscá-la, porque Bronze não gosta de tetos, então prefere esperar do lado de fora da casa, dando carona aos passarinhos preguiçosos.
Quando me apaixonei pelo pôr do sol, ainda era menina. Naquela época, não sabia dizer imaginação como as crianças de hoje. Eu fui uma menina de imaginação aguçada, mas de boca calada, que revirava realidade e escondia dela minhas inve…

A RAIZ DO PROBLEMA >> Clara Braga

Antes de começar a ler essa crônica tem três coisas que eu gostaria que todos soubessem e que a princípio elas não vão fazer sentido, mas lá no final vocês vão entender tudo! A primeira coisa é que eu tenho provas de que o mundo ainda tem muitas pessoas indelicadas, a segunda é que eu moro no mesmo lugar há 18 anos e o vizinho de baixo é o mesmo desde que chegamos aqui no prédio, e para terminar saibam que essa é uma crônica/explicação, pois vou aproveitar para explicar a minha falta aqui na semana passada!

Bom, tudo começou depois que eu terminei um agradável almoço com meu namorado e estava voltando para casa pensando nas coisas que eu tinha que fazer naquele dia. O sinal fechou e eu parei, pois eu achava que era isso que significava o sinal estar vermelho, mas pelo visto não significa a mesma coisa para todas as pessoas com carteira de habilitação no mundo!

Já estava parada, eu e todos os carros que estavam ao meu lado, e enquanto olhava para o sinal esperando que ele abrisse... PO…

A CONCORRÊNCIA NO 155 >> Whisner Fraga

As linhas telefônicas eram caras e poucas pessoas tinham uma em casa. Em Minas, havia uma empresa que dominava todo o mercado, a CTBC, que oferecia um serviço de chat. O número era 155. Bastava teclar a sequência para se ter acesso a uma sala em que dez ou quinze pessoas gastavam seu tempo trocando amenidades e insinuações. Às vezes todos falavam de uma vez e era um caos. Eu gostava de ligar para o 155 para ouvir sobre o que as pessoas conversavam, para aprender algumas cantadas (pois era um ambiente de azaração) e para me divertir, lógico.

Meus pais ficavam chateados com a conta telefônica no final do mês, mas como os quatro filhos utilizavam o serviço, era difícil encontrar um culpado. Negávamos tudo, evidente, e era um milagre que tantas horas de 155 viessem parar na fatura, ao final do mês. O telefone antigamente era uma coisa estranha. Como não havia celular, lembro que minha irmã não deixava ninguém se aproximar do aparelho e ela mesma não se desgrudava dele, pois sempre estava…

DIA DE MARCINHA >> Zoraya Cesar

Sem mais nem menos, do nada, resolveu arrumar a bagunça da casa. Começou pela estante de livros. E lá em cima, na última prateleira, encontrou uma coletânea de cronistas mineiros, como Fernando Sabino e outros. Cansada antes mesmo de começar a limpeza, desceu da escada, sentou-se no sofá e abriu o livro, aleatoriamente. 

Caiu na história de uma mulher que, ao ouvir do marido que ser traído era a menor de suas preocupações, pois ela já não era nenhum brotinho (linguagem da época), propõe-lhe um passeio, durante o qual provaria o quanto estava errado. Mas ela passa inteiramente despercebida e, ante as provocações do marido, sugere andarem separados, argumentando que a presença dele estava inibindo as aproximações masculinas. Ele caminha atrás dela e vê, espantado, que, realmente, diversos homens olham persistentemente para sua esposa, alguns até viram a cabeça para trás. O que ele não vê são as grotescas caretas que ela faz para chamar a atenção e fingir ser paquerada.

Marcinha ri, nem…