quarta-feira, 25 de julho de 2012

O HOJE DE CADA DIA >> Carla Dias >>



Numa arrancada súbita, ela se deslocou quase solene em direção à porta; logo freando porém o passo. E parou. Fazemos muitas paradas na vida, mas supondo-se que aquela não fosse uma parada qualquer, não seria fácil descobrir o que teria interrompido o seu andar.

Raduan Nassar em "Hoje de Madrugada"


Na literatura eu encontrei algo que me salvou de mim mesma. Na poesia, a ideia de rimar e depois desarrimar as rimas, de dizer muito com poucas palavras. O drama e a leveza caminhando de mãos dadas a cada verso. Na prosa, a poesia ainda presente, poder reinventar histórias e até mesmo se atrever a criar algumas.

Minha jornada, até aceitar ser chamada ‘escritora’ ao invés de ‘alguém que escreve’, passou por momentos que guardo com carinho. Para a menina que não fazia saber amigos, de uma timidez que a fazia gaguejar na hora de responder a chamada na escola, os rabiscos no caderno eram um alívio intraduzível. A vida passava a fazer mais sentido quando eu mergulhava nas palavras. Para a adolescente, e a sua primeira paixão, os poemas dedicados ao sentimento que lhe assaltou foram devidamente registrados em palavras, e assim ela aprendeu que amor é coisa para se levar a sério, porque somente assim é possível viver a sua leveza.

Tornar-me uma escritora realmente me salvou de mim mesma. Poder criar cenários, incutir personalidade em personagens, alinhar tramas, enfim, criar um universo com a minha imaginação, tirou-me da estática, atirou-me à vida, ainda que seja à alimentada por folhas em branco, sentimentos necessitando ser escritos.

Porém, há algo muito maior do que ser uma escritora. Obviamente, é poder ler um escritor. Um dos grandes prazeres oferecidos a um leitor é a liberdade de se embrenhar ao que lê, e de uma forma que o permita se sentir ali, entre as páginas 40 e 65. O que vivi – e ainda viverei – por meio dos livros, é o que me permite viver na realidade do cotidiano sem perder a fé na humanidade, sem me distrair a ponto de não perceber as sutilezas da existência.

A literatura é uma fazedora de esperança.

E mais, muito mais do que a gratidão de ter me tornado apta a ser considerada escritora, existe o prazer imenso de ser uma leitora, de conhecer escritores fantásticos, pessoas que me ajudaram a me salvar de mim mesma. Que me ajudam com isso, diariamente, a cada página.

Que todo dia seja dia de inventar histórias, de colher poesia. 

Que todo dia seja dia de aprender, de dentro para fora, as matizes criadas por esses construtores de sonhos, arquitetos de rendições, biógrafo dos sentimentos – dos seus e dos alheios.




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3 comentários:

Ranyele Oliveira disse...

Nossa, gostei muito das suas palavras de hoje. Identifiquei tanto com tudo que teve horas que achei que eu tinha escrito.

Gosto muito de crônicas, mas muitas vezes por preguiça deixo de fazer ou ler...mas é algo que gosto muito.

bjos

albir disse...

Por isso você é escritora, Carla. Porque escreve para nós e por nós - escreve o que pensamos. Beijo.

Carla Dias disse...

Ranyele... Que bom que você gostou do texto. Volte sempre que quiser, tá? Beijos.

Albir... Ainda bem que vocês existem. Assim eu também posso existir. Beijos.