domingo, 15 de julho de 2012

SUA VIDA EM CANAIS >> Eduardo Loureiro Jr.

Quando a gente passa muitas horas seguidas dentro de um estúdio de gravação de áudio, como tem sido o meu caso nesses derradeiros dias, começa a ouvir música de maneira diferente. A canção ouvida no rádio não é mais um ser único, indivisível, mas um conjunto formado por uma série de camadas.

A gente percebe o som só do violão, e só da guitarra, e do violão e da guitarra juntos, e só da percussão, e só do violão e da percussão, e só da guitarra e da percussão, e do violão, da, guitarra e da percussão juntos, e só do baixo, e só do baixo e do violão, e só do baixo e da guitarra, e só da percussão, e do baixo, do violão e da guitarra juntos... numa extensa combinação de instrumentos e de conjuntos de instrumentos. A música se revela para a gente não como algo milagrosamente pronto, mas como uma construção canal por canal, linha melódica por linha melódica. Cada instrumento, ou voz, é gravado separadamente no estúdio, para só em seguida ser combinado, mixado, com os demais. Quando, no dia a dia, a gente ouve uma canção de quatro minutos de duração, raramente se dá conta de que, para que os artistas pudessem gravá-la, levaram horas ou, mais frequentemente, dias.

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A vida, nossa vida, talvez também seja assim: uma mixagem de muitos canais, mas muitos mesmo, de família, amizade, trabalho... Cada maneira com que nos relacionamos com uma pessoa específica é uma linha melódica diferente que tocamos. Essas linhas se combinam na tentativa de compor uma harmonia que podemos chamar de felicidade. Às vezes, ficamos muito satisfeitos com o resultado de determinada linha melódica, mas quando a ouvimos em combinação com outra linha, o resultado não é muito bom para os ouvidos. Assim como em um estúdio, poder ouvir cada canal separadamente é, ao mesmo tempo, uma bênção e uma responsabilidade: um canal mal tocado não pode ser coberto, oculto, escondido por outro canal bem tocado. É preciso identificar onde está o erro do canal mal tocado e corrigi-lo, concentrando-se só nele por algum tempo, até poder retornar à combinação com os outros canais.

Quem já passou pela experiência de um estúdio de gravação sabe que o prazer de fazer música pode ser tão cansativo quanto os dias mais chatos da vida. Mas, assim como na vida, o resultado final da dedicação de trabalhar canal por canal é um conjunto mais harmônico que compensa todo o tempo e todo o esforço empregados na tarefa.

Quem canta, seus males espanta. Quem grava, seus males destrava.

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5 comentários:

albir disse...

Edu,
poética, precisa e enriquecedora a sua parábola.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, Albir.

Zoraya disse...

Que ótima maneira de ver a vida. Mais uma vez, você nos faz lembrar coisas que deveriamos ter aprendido na escola, desde cedo, desde sempre.

Carla Dias disse...

Lendo sua crônica, lembrei-me da época em que vivia enfiada em um estúdio de gravação, porque trabalhava em um. Assisti a muitos artistas brincarem sério com os canais de sua música, e experimentei o cansaço de horas acertando as “camadas” de muitas delas. Achei perfeita a sua comparação de tal experiência à vida. Beijo

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Zoraya, precisamos mesmo mudar o currículo da nossa infância.;)

Você sabe como é, Carla... :)