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A CONCORRÊNCIA NO 155 >> Whisner Fraga


As linhas telefônicas eram caras e poucas pessoas tinham uma em casa. Em Minas, havia uma empresa que dominava todo o mercado, a CTBC, que oferecia um serviço de chat. O número era 155. Bastava teclar a sequência para se ter acesso a uma sala em que dez ou quinze pessoas gastavam seu tempo trocando amenidades e insinuações. Às vezes todos falavam de uma vez e era um caos. Eu gostava de ligar para o 155 para ouvir sobre o que as pessoas conversavam, para aprender algumas cantadas (pois era um ambiente de azaração) e para me divertir, lógico.

Meus pais ficavam chateados com a conta telefônica no final do mês, mas como os quatro filhos utilizavam o serviço, era difícil encontrar um culpado. Negávamos tudo, evidente, e era um milagre que tantas horas de 155 viessem parar na fatura, ao final do mês. O telefone antigamente era uma coisa estranha. Como não havia celular, lembro que minha irmã não deixava ninguém se aproximar do aparelho e ela mesma não se desgrudava dele, pois sempre estava esperando uma ligação importante de algum candidato a paquera.

O 155 era o Facebook da época. Em vez de selecionar a melhor foto, os participantes escolhiam a melhor voz. Todos mentiam sobre tudo, como nas redes atuais. Uma balconista virava médica, um estudante se tornava empresário e assim por diante. Era a sobrevivência naquela selva, que estava em jogo. E às vezes alguém se apaixonava por algum timbre, por algum sussurro, por alguma nuance e a coisa era tão platônica como precisava ser.

No 155, as pessoas tinham de se fazer inteligentes, espirituosas, para chamar a atenção, para fisgar alguma pessoa igualmente pretensiosa. Já viram no Facebook, quando postam uma foto da Clarice Lispector e, abaixo ou ao lado, uma frase que ela jamais teria coragem nem capacidade de escrever? Pronto, um exemplo: “Quantas estrelas necessitam do sol para brilhar etc. etc.” Clarice humilhada. No 155, era a mesma coisa, alguém sacava um clichê espirituoso e pronto, ao final acrescentava: é do Vinícius de Moraes, você gostou?

Era comum a gente engatar um papo legal, encontrar uma voz suave, bem feminina versando sobre futebol, sobre o último jogo do Cruzeiro, sobre o artilheiro do campeonato e a empolgação tomar conta, a gente já imaginando um encontro no Paiol ou no Pilão, bares tradicionais da cidade, ela tomando uma coca-cola, ele sacrificando o salário de office-boy em troca de uma mão nas coxas ou de uma ilusão do mesmo naipe e, de repente, no meio daquele sonho, um susto: a gargalhada máscula, o grito rouco e o sujeito do outro lado entregando: ou, idiota, caiu nessa? Era um homem se passando por mulher.

Mudam-se os suportes, mas a humanidade é a mesma e o brasileiro curte (para usar um termo do Facebook) mesmo é uma cerveja, um futebol aos finais de semana e o conforto possível de um teto. As meninas adoram uma maquiagem, um shopping, um cabeleireiro, uma música sertaneja e uma roupa nova. Isso em termos gerais, claro. Sempre há o risco de se achar um oásis nesse deserto de lugares-comuns.

Comentários

Zoraya disse…
Boa demais, como sempre, Whisner. Mas, vem cá, o pessoal procurando coisa realmente boa no 155 ou no FB quer mais é se iludir, né não? Ainda bem que vc, Eduardo, Albir, Carla sabem alguns caminhos para oásis. Bjs
Anônimo disse…
Conheço o site há pouco tempo, mas estou adorando. Essa crônica em especial é excelente! Atualmente resido no PR, mas durante toda a minha vida vivi no RS e lá havia um serviço semelhante, prestado pela CRT, cujo número era 138. No 138 conectava até 4 pessoas ao mesmo tempo e era excelente. Cheguei inclusive a encontrar pessoalmente pessoas que "conheci" no chat... Não adianta, sou mesmo um saudosista! Parbéns pelo texto!
Carla Dias disse…
Ótima crônica comparativa, Whisner. Isso me faz lembrar dos classificados das revistas, a versão vintage dos sites de relacionamento. Realmente, a vida é um balaio de reinvenções e versões.

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