Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de 2020

A MORTE DO GALO >>> Nádia Coldebella

A manhã despontou enevoada no horizonte. Logo o sol deixou tímidos raios de luz transpassarem as frestas dos morros que rodeavam o pequeno sítio. Um deles incidiu diretamente sobre a casca amarronzada de um ovo. A mãe-galinha zelosa acabara de se levantar para comer os grãos de milho que o homem havia lançado ao chão. Porém, como toda mãe, voltou correndo, a tempo de ver um delicado biquinho romper a casca do ovo.  Para o susto da galinha-choca, eclodiu repentinamente do ovo um pintinho branco e preto, muito feio, com olhos completamente esbugalhados. Apesar da aparência burlesca, ele contemplou a mãe com paixão fulgurante, certo do lugar que viria a assumir neste mundo: o de líder do galinheiro.  A mulher, que recolhia os ovos, chamou a criançada que corria por ali para ver os outros pintinhos que também nasciam. O fuzuê dos pequenos atraiu a atenção do homem, que precisou intervir antes que ocorresse algum desastre com as frágeis avezinhas. Não pode deixar de notar, porém, a aparênc…

CANÇÃO 2 DE 7 | TENHO SEDE >> Carla Dias >>

Quantos dias de falta? Uns setecentos e tantos, mas não importa. Talvez importe, mas ele não se importa com o tempo passado. A questão é o tempo esperado, que acredita, com a fidelidade dos ateus que se apegam aos santos - em noites em que a saudade parece ser capaz de rasgar carne, torcer nervos, amplificar zumbidos e expor, dramaticamente, a sua brutalidade em humilhar suas vítimas -, deve a ele uma explicação.
Por que se ausenta dele com o tempo rasgando o calendário? Por que lhe falta no silêncio de um absoluto que ele não consegue compreender de onde veio?
Não que a ausência que o aflige seja a pior do que a de outros. No entanto, é com ela que ele tem de lidar. É ela que tomou conta dele, que faz com que se levantar da cama seja um exercício longo e desencorajador.  Com que exercer a pessoa que a biografia dele descreve seja um interpretar um papel com o qual ele não tem qualquer identificação.
O tempo esperado. Esse tempo que é amanhã e fere profundamente ao se tornar ontem. D…

alamedas e outros nunca mais >>> branco

alamedas  (enxerto/trecho)
...mas ele passou tão rápido por esta vida nos deixando atônitos e atordoados quando vimos sua silhueta virar a esquina e desaparecer ele que agora observa outras alamedas com olhos sorridentes e rosto tranquilo

nunca mais
quando abri a janela e vi aquele alvorecer tão lindo gritei para que todos ouvissem que naquele dia nada de ruim poderia acontecer em qualquer outro mas não naquele
não me lembro - em toda a minha vida - de ter visto uma manhã tão bela

EMBARQUE >> Fred Fogaça

Existia uma casa onde não tinham cadeiras.

Não havia, de todo, onde se descansar por um momento e olhar o ambiente, nem como sentar-se pra uma refeição mais ou menos demorada.

Não havia, também, pedaço algum de objeto concreto que servisse a altura de uma pausa, que já não estivesse ocupado de coisas perenes. 
Tudo lá era passageiro, tenho a impressão, mas não certeza, não reparei o bastante.
Não deu tempo.

PEDRA >> Sergio Geia

Se você chegou aos cinquenta, dispenso-me de maiores explicações. Se não chegou, sugiro que se contente em saber apenas isso: com a idade, as dores, sim, elas aparecem.
Dia desses senti algo estranho na boca do estômago com irradiação pelas costas. Considerei perigoso o sintoma. Não era. Mas procurei médico, fiz exames, e obtive o diagnóstico de que o meu mal se resumia a uma pequenina pedra. 
O mais interessante não foi o diagnóstico, mas a simpatia do médico. Como você deve saber, há médicos calados, de mal com a vida, que na hora do exame fazem perguntas tão misteriosas, que nos deixam tão aflitos, que o melhor a fazer é se calar e aguardar o resultado. 
Depois de se inteirar sobre as razões que me levaram ao exame; depois de passear com seu ratinho gelado e melequento na minha barriga; depois de demarcar as imagens do que existe dentro desta casca meia-vida, ele concluiu o exame e me despachou o resultado sem maiores delongas: 
— Um pequeno cálculo no rim esquerdo, pequenininho,…

DISTÂNCIA >> Paulo Meireles Barguil

Considerando que a impermanência é constante, as transformações são inevitáveis.


Aquela costuma ser silenciosa, por isso não é facilmente percebida.


De repente, tal qual um vulcão adormecido, ela desperta.


As mudanças podem ser lentas, aceleradas, vertiginosas.


Diante delas, há quem coloque o cinto, segure em algo, balbucie e feche os olhos!


Outros, todavia, dispensam qualquer ritual e, confiantes, seguem em frente de braços abertos...


A distância, espacial e temporal, é um ingrediente poderoso para potencializar tanto as alterações, como a sua compreensão.


A variação da contiguidade produz resultados ignorados, no máximo, especulados.


Proferimos Vade retro (Afasta-te) e Veni propius (Aproxima-te) de acordo com o queremos e vislumbramos na nossa frente ou dentro de nós.

O que as suas palavras, verbalizadas ou abstidas, estão lhe trazendo?

ESTES TEMPOS >> Whisner Fraga

tem como correr on line?

os dedos-pernas não se estafam dessa maratona inexistente,

olhos-braços que fisgam bytes,

o segredo virtual, menina, a confidência binária,

colegas, árvores, ritmos, palavras, abraços,

agora são tela,

e a imaginação não compreende mais,

a pandemia justifica tudo, até os fins,

aula não é aula mais, é agitação,

eles esclarecem que é preciso reinventar tudo,

mas a menina não se convence,

e chora.

CANÇÃO 1 DE 7 | FOR NO ONE >> Carla Dias >>

Medo é coisinha que vive a persegui-la, todo envolvido no como assim? Quando? Será? Sei não...  Medo, acredita, é o que garante limites para a criatura ousada ousar danadamente e sobreviver à própria temeridade. A pessoa que se quebrará toda – corpo, mente e coração –, mas não acuará diante da vida, lamentando o quanto a dita foi cruel ao tricotar as cicatrizes da cria da vez. Não que se considere capaz dessas ousadias, das transformadasem grandes descobertas pelo poder da casualidade em maquinar epifanias encharcadas de conhecimentos, as tais alinhadas aos neurônios mais dedicados dos seusautores. Não nasceu com a capacidade de mudar jeito do mundo, nem como as pessoas lidam com ele ao criarem milagres da ciência ou o que o valha. Não sabe consertar corações partidos, puídos, cheio das questões e uma e outra via congestionada por sentimentos engavetados.   Contudo, mesmo o medo sendo essa coisinha nada diminutiva, mas sim coisa que se espalha dentro dela e a domina, fazendo com que e…

ACABOOOOOOOUUUU >> Clara Braga

- Filho, mamãe precisa escrever uma história! Mas a mamãe está tão cansada, que não consegue pensar em nada. Você pode me ajudar? - Toma, pega esse livro! - Ah, boa ideia! Vamos nos inspirar em um livro!
Então, meu filho de 2 anos sentou no meu colo e passou página por página de um livrinho infantil sem falar nada. Quando terminou eu perguntei:
- Então, você já se inspirou? Vai criar sua história? - Vou! Era uma vez... - Legal, começou bem, pode seguir! - Um papel! - Hum, interessante, ter um papel como personagem principal não é comum! Continue... - Ele morava na floresta! - Legal, faz muito sentido um papel morar na floresta! Talvez esteja tentando voltar às suas raízes, dá para escrever uma história ecológica! Continue... - E pronto! - Como assim pronto? A gente não fica sabendo o que acontece com o papel? O que ele fez? Achei muito curta essa história, vamos tentar criar uma um pouco maior? - Tá! Era uma vez... - Sim... - Uma árvore de natal! - Uau, essa é sucesso na certa, todos…

TÁ LIGADO? >> Albir José Inácio da Silva

Embora não tenha a menor ideia do que seja isso, Uélito acordou estremunhado. Braço dormente embaixo da cabeça, barriga doendo e pescoço duro. A mãe já o sacudiu duas vezes enquanto se veste para trabalhar. Parece que ela está falando há horas na cozinha, no banheiro, às vezes bem pertinho, no quarto que também é sala.
- Levanta logo, menino, vai pra escola que tu já faltou ontem e eu acabo perdendo o bolsa-família de novo. Pede pra diretora te deixar entrar, que eu hoje não posso ir, mas eu vou falar com a patroa pra ver se dá pra ir amanhã. Toma leite do Juninho que eu peguei ontem no Posto e tá em cima do fogão, não sai sem comer que tu já tá magro que nem pau de virar tripa. Toma também água da garrafinha que eu trouxe da igreja pra te curar dos vício e te livrar daquele processo na Vara da Infância, que ainda bem que foi só uso mas da próxima vez a mulher já falou que tu vai assinar artigo 33 de tráfico. Tu precisa tomar rumo na tua vida, se não vai morrer de tiro que nem teu pai,…

A CASA DAS OITO MULHERES >> Sandra Modesto

Havia na Avenida 27, numa pequena cidade do arraial de São José do Tijuco, uma casa. A princípio, casa das sete mulheres. 
Naquela época, 1974, era questão de honra para um homem casado, com família constituída, ter uma casa "própria" financiada. 
Foi mais fácil e acessível comprar uma casa velha e reformar. Mudaram. Na casa, uma sala pequena. 
No único banheiro, azulejos floridos. 
Uma cozinha que aos poucos avermelhou-se. Geladeira vermelha, fogão vermelho, mesa e armário vermelhos. Muitos sorrisos espalhados escancarados em cada mulher. 
E a casa sorriu também. Três quartos. O do casal, o dos filhos adotados e crescidos, e o quarto das meninas adolescentes. Amontoadas num espaço delicado. 
Alguns mistérios antes do sono, antes das histórias malucas, antes do amanhecer. 
Pela porta um sol... Hora do despertar, do aroma de canela. Quente pela manhã. Gelado ao entardecer.  A casa das sete mulheres não era a do livro, nem da minissérie. Apenas uma história qualquer. 
Dessas …

MADRUGADA, ÁGUA E COR >> Cristiana Moura

Muito já contei sobre ela, mas esta menina-moça-mulher não se esgota no tempo e, hoje, volto aqui, para dar notícias de sua vida. Gabriela, que já brincou com a beleza efêmera das bolhas de sabão, que já deixou um pedaço de sorriso em cada encontro fugaz, abandonando-se em infância e juventude remotas. Ela mesma, que teve um sorriso não planejado num sinal fechado e aprendeu a costurar pedaços do dia a dia com linhas de névoa e assoprar, agora, sabe devanear com os pés firmes no chão. http://www.cronicadodia.com.br/2014/07/um-sorriso-numa-bolha-de-sabao.html
Gabi, com seus cabelos brancos por entre os negros a iluminar pensamentos e sonhos, vive o segundo tempo da vida com a intensidade forjada por desejo e medo atados, pois já sabe que são parceiros. Ao mesmo tempo que baila solo na sala de estar, a vida lhe é urgente, transparente, fluida e quer gente.
Na polifonia da vida cotidiana, mora em seu casulo-casa-corpo e, simultaneamente, reencontra com entusiasmo e volúpia, também trans…

DESAFIO NAS TERRAS DO SEM FIM >> Zoraya Cesar

Já nasci cavalgando. Não tenho memória da infância que não montar a cavalo e manejar o revólver. Eu gosto. É minha natureza. Uma vida dura, essa que escolhi, mas não reclamo. Nunca reclamo. 

Fiz de tudo. Guarda-costas. Justiceiro. Matador. Boiadeiro. Caçador. Agora sou só cavaleiro. Eu, meu cavalo e meu revólver, no céu ou no inferno, juntos,  percorrendo o giro do mundo. Ver o céu amanhecer lilás e se espessar de nuvens plúmbeas de chuva forte e doída. Atravessar leitos de rios tão gelados que mesmo a alma se retraía. Assistir ao embate de ursos da pedras por território. Dormir ouvindo as corujas sussurrarem a noite tenebrosa. Pertencíamos à terra. Nunca tivemos medo.  
Meu cavalo era o melhor de muitas regiões, regiões a perder de vista. Um alazão portentoso e bravio, cujo simples bufar fazia o resto da tropa fremir de reverência e excitação de batalha.  Era lindo de se ver, quando estávamos com outros cavaleiros - meu alazão bufava, o vapor saindo das narinas, quente derretedor de…

Pulos, Barbies e nostalgia >>> NÁDIA COLDEBELLA

Minhas filhas estão em distanciamento social já faz um bom tempo. Sentem falta dos colegas, da escola e da vida normal. Sentem falta da correria, do movimento, dos abraços, dos gritos e empurrões das brincadeiras, da balburdia da sala de aula.

- Mãe, lembra quando eu ia para a aula? - diz minha filha menor, na hora de dormir - Eu gostava muito de brincar de pular corda. Vamos brincar?

- Errr... - Como saio disso? Minha inaptidão esportiva me segue a vida inteira, da caminhada ao jogo de volei. Se envolve pulos, a coisa é muito séria. Mas mãe tem que dar exemplo, ainda mais na pandemia.

- Tamo junta, filha, mas podemos fazer isso amanhã? - Eu ou ela vai esquecer, uma baita estratégia manipuladora e desumana inventada por uma mãe em puro desespero com a possibilidade de pulos miquentos. Uma mãe inapta que não quer se expor. Quem disse que os fins não justificam os meios?

Recolho-me, envergonhada, na minha insignificância, e vou até o quarto da minha filha de doze anos. Lá o assunto é o…

DANOU-SE >> Carla Dias >>

Danou-se, meu caro.
Eu pensei que, finalmente, a liberdade de ser estivesse ali, na esquina das nossas buscas. Não se tratava mais de uma estrada a ser percorrida, mas de destino acenando, nos dando boas-vindas.
Estradas a serem percorridas perderam até o quê poético para mim. Veja, percorremos estradas bem longas, até aqui. Ser tem sido o desafio mais complexo que já encaramos. Ser sem medo de sê-lo. Ser com direito a sê-lo.
Talvez, tenhamos nos deslumbrado com perspectivas e perdemos a noção da força daquele que prefere ecoar um outro alguém. Um alguém oco destinado a sobreviver feito reservatório de percepções obsoletas. Porque, se o ser humano tende a evoluir nada mais natural do que seu olhar se apurar, certo? Suas percepções se aprumarem.
Na minha cabeça – e no meu coração, na minha alma, ou sabe-se lá em que lugar do dentro você entende como sensível ao mundo -, o futuro seria o tempo no qual compreenderíamos que somos seres humanos; que nos trataríamos, primeiramente, como pe…

DAS GRANDES ÀS PEQUENAS CRIAÇÕES >> Clara Braga

O homem já foi à lua.
O homem entendeu a eletricidade e, com ela, criou coisas incríveis.
O homem encanou a água.
O homem arrumou formas de viajar cada vez mais rápidas e, quando viajar não é possível, criou formas de estar presente virtualmente.
O homem cria músicas que emocionam, livros que nos fazem viajar e imagens que nos representam e encantam.
O homem entendeu como funciona a terra (embora alguns duvidem) e pôde, assim, contar o tempo.
O homem criou obras arquitetônicas que nem Deus explica como foram feitas.
O homem lê e escreve em diferentes línguas, conta, cria e interpreta mapas, decifra enigmas e prevê fenômenos naturais.
Para quem não vê direito, óculos. Para quem não escuta direito, aparelho auditivo. Para quem está cansado, cadeira. Para quem está entediado, jogo de tabuleiro. Para quem está doente, remédio.
O homem mal intencionado também criou coisas maléficas e destruidoras, verdade seja dita.
Mas eu fico pensando: diante de tanta capacidade de criação, será que ain…

2 rios >>> branco

a vida passou tão rápida por nós amigo ainda há pouco  e estávamos bebendo cerveja e cachaça no bar minha risada era franca sua tranquilidade não menos que isso uma doce obsessão de sermos jovens entre um copo e outro a alternância nos goles cerveja cachaça cerveja seu manso falar daqueles que sabem meu senso de humor impedindo a implosão - sem saber - já éramos vulneráveis cores sem matiz
há muito tempo não nos vemos amigo - paradoxo o tempo que não vimos passar o tempo que faz tempo de alguma coisa -  gostaria de poder dizer aquele velho olá seguido também pelo idoso tudo bem? sempre fomos sinceros e isso bastava mas como foi dito  há muito tempo não nos vemos meu amigo e assim meus olás foram desperdiçados e os tudo bem que não se perderam são agora apenas como contas gastas de madrepérola neste grande rosário que chamamos vida
envelhecemos como grandes e orgulhosas árvores mas não tão fortes  para impedir que o vento derrubasse nossos galhos resta o tronco cascudo cansado desenca…