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Mostrando postagens de 2020

ENTRE CAIXAS E SEGREDOS >> Cristiana Moura

Dia desses, dediquei o tempo a arrumar gavetas, estantes, armários. Estas coisas que, por vezes, deixamos para depois. À medida em que dobro uma roupa, em que separo meias, ou penduro todos os vestidos de um mesmo lado do guarda-roupas, algo dentro de mim vai se arrumando também: emoções, ideias, quereres. Na arrumação encontrei pequenos objetos perdidos pelas gavetas, memórias e segredos de tempos outros preservados em caixas de sapatos.

Numa das minhas memórias, encontro poema escrito em adolescência paulistana. Li e lembtrei-me de Mayara, seus 16 anos repletos de novas experiências, sonhos, altas expectativa e exigência consigo mesma, medos e desejos aglutinados. A menina-moça experimenta o corpo mudando, a paixão, o prazer. Nutre-se mais de livros e suas histórias do que de comida. Sabem aquelas pessoas que mergulham fundo em si mesmas? Ela é assim.

Mayara, dentre tanto novo a ser vivido, também tem provado as viagens e a alteração de consciência possibilitadas por substâncias ta…

UM DESVIO NO CAMINHO É OUTRO CAMINHO - 3a parte >> Zoraya Cesar

Margoleen abriu o alforje de Hosmaryn. Pela Lei, agora tudo lhe pertencia. Dentro, encontrou o conjunto de itens correspondentes à cura, proteção, ataque que toda Curandeira, ao viajar, levava consigo. Pomada cicatrizante, chá repelente, folhas cegantes foram as escolhas de Hosmaryn. Cura, proteção, ataque. Que de nada serviram contra o Craobh, entristeceu-se Margoleen. 
Então ela chorou. Chorou muito, seus lamentos escorrendo pelas paredes, saindo pelas janelas, enchendo o ar da floresta. Quando silenciou, esvaziada, a vida ao redor penetrou pelas frestas: a dama da noite explodiu em aromas; sapos-voadores farfalhavam alegremente as folhas das árvores com seu coaxar abaritonado; mariposas-pirilampo batiam suas asas fosforescentes em volta das açucenas – algumas entraram na sala, sua luminosidade formando estranhas sombras no teto. Toda Curandeira entendia o ciclo da vida e morte. Um ciclo se completara. Chegara a hora de começar outro. Margoleen preparou-se para cumprir sua missão.

NEVE NEGRA - Parte 2>>> Nádia Coldebella

Segunda parte:
A sombra da Rainha Morta


Quando o rei voltou  com a feiticeira, encontrou a rainha morta na cama, com a criança em seu peito. Escuridão, sangue e frio, ela dissera - palavras que Madorno grasnara em frente ao espelho.
http://www.cronicadodia.com.br/2020/02/neve-negra-nadia-coldebella.html


O rei parou de se mover. As palavras do anão ecoavam em seu peito oco. Tentou fazer um grito desesperado subir pela garganta, mas na verdade não queria gritar. Parecia flutuar em uma banheira de água morna, desprendido de qualquer contato com o solo e de qualquer sentimento.
- Morrer é assim? - perguntou-se. Sua visão agora estava embaçada e uma névoa cinza fechou-se ao seu redor, delineando parcamente uma paisagem monocromática. Uma silhueta começou a tomar forma. Logo ele viu a si próprio e os acontecimentos das últimas semanas desenrolaram-se a sua frente. Não sabemos se ela sobreviverá, disseram os médicos - e ele saíra em busca de Angèlle, coração descompassado no peito.
- Angèlle...…

COLHEITA >> Carla Dias >>

De todas as decisões que tomou, trocaria duas ou três por permanecer calado. De resto, não se importaria de passar outros perrengues, por conta das escolhas feitas, das brigas compradas, das tiranias das quais teve de se defender. Pessoa feito ele não vive de estabilidade, tampouco se entrega ao possível, apenas porque a outra opção aponta para o improvável.
Já gastou sola na estrada da vida, o que o ensinou que as pessoas sentem diferente. Esse tipo de aprendizado leva tempo para maturar. Ele levou mais tempo do que um ser menos curioso levaria, porque seguiu parando nas encostas para apreciar os efeitos da compreensão, que nem sempre eram pacíficos e traziam alívio.
Não se acha especial, gosta de deixar isso bem claro. Enquanto deixa isso bem claro, deseja ser especial, um dia. E que seja mais simples do que o apego que muitos têm pelo dramático. Não precisa de grande produção, mas é necessário o envolvimento de doses de café nesse enredo, assim como de afeto que não o force a ser …

AMAR É... 2020 >> Clara Braga

Outro dia encontrei um álbum de figurinhas antigo daqueles bonequinhos do Amar é.... O álbum está incompleto, mas passei pelas mensagens das figurinhas e fiquei pensando: realmente, muitas questões dos relacionamentos são atemporais, porém, se tivéssemos um álbum Amar é em 2020, alguns pontos precisariam ser atualizados!
Por exemplo, os relacionamentos que sobreviveram às últimas eleições precisam ser lembrados, afinal, conheço muita gente que está até hoje sem se falar. Que tal um: Amar é... sobreviver a jantares familiares nos quais te culpam pelos problemas do país pois você defende ideais políticos contrários aos deles.
Outro ponto que precisa ser atualizado é a questão da comunicação, que ainda era feita por meio de correspondência e telefone fixo. Só esse assunto dá um álbum inteiro, mas acho que uma figurinha que eu faria seria: Amar é... entender que não é romântico querer a senha das redes sociais dele/dela.
As figurinhas também são um tanto machistas, a mulher sempre cozinh…

5 dias para o demônio >>>> branco

prólogo

praia de copacabana - rio de janeiro
31.12.2009/1º.01.2010

a virada
na escuridão da orla marítima  milhares de pessoas observam o grande relógio luminoso que inicia a contagem regressiva o espocar precoce de garrafas de champagne - ou espumante  conforme o poder aquisitivo - faz-se ouvir timidamente a ansiedade pelo ano novo ... 3 2 1 0 ... gritos abraços e desejos de felicidade fartura saúde  e riqueza tem inicio a linda loucura pirotécnica fogos desenhando na noite usando as 7 cores do arco-iris - e outras tantas que desconheço -  uma estrela azul explode no céu escuro a deusa dourada e verde que se transforma em cascata arroxeada grandes bolas vermelhas que terminam em fagulhas multicoloridas a chuva de prata se mistura à real - que tem caído incessantemente durante os últimos dias - um grande sol amarelo surge o milagre está feito o sol
 em plena noite chuvosa na passagem do ano obrigado senhor

parte I
angra dos reis - rio de janeiro
mesma data
onde a terra desce
em outra parte…

UM DUQUE >> Sergio Geia

VISÃO >> Paulo Meireles Barguil

POW.
Estava no quarto, na semana passada, quando ouvi o barulho.
Achei-o parecido quando o quadro de energia se desarma.
Para testar a hipótese, apertei o interruptor e a luz acendeu.
Decidi, então, verificar a origem do som.
POW.
Ao sair do quarto, encontrei um passarinho vivo no chão da escada.
Ele acabara de se chocar, novamente, com a janela fixa situada no 2º andar, que fica acima da escada.
Presumi que ele entrou na casa por uma alguma abertura no térreo e tentou sair pelo local que tinha muita claridade.
Rapidamente, fechei as janelas do 2º andar, com exceção da que fica no escritório, a qual eu abri no máximo para que ele pudesse escapar da casa.
POW.
A cena é angustiante: ele voa com toda força e se choca com a parede de vidro, caindo, mais uma vez, no chão.
Decidi, então, também abrir totalmente as janelas que ficam no térreo.
Ao retornar, não mais o encontrei e conclui que ele havia saído com sucesso da casa.
Quantas vezes eu fui esse pássaro que, atraído por algo, entrei …

ELE CHEGARÁ >> Whisner Fraga

o medo atocaia meus passos, que pretendem a fuga. os postes na rua balbuciam uma claridade que nada ilumina. o medo é uma vasta sombra a abraçar tudo. eles não aceitam a existência do medo, mas a pontaria falha e trancam as portas. os dedos sapateiam ferozmente sobre a tela do celular propagando o medo: eles acreditam em mentiras e me acusam de não pactuar com a traição. o medo entra, liga a tv, senta no sofá e pede uma cerveja. uns passaram a acusar outros e ninguém tem razão: um dia todos acusarão o medo no outro e tentarão resolver isso a tiros. eles não sabem mais o que é mentira, mas sabem o preço das coisas, e o medo é mercadoria também. tenho medo que me enganem e me convençam que a desordem prevalecerá. tenho medo que me arranquem o medo e o substituam por uma arma. tenho medo desse novo diálogo. tenho medo que, em nome da justiça, implorem a mediação da bala. tenho medo. e isso é bom.

LET IT BE >> Carla Dias >>

Recolhe cacos, ajeita objetos, varre a sala de estar. Abre janelas, espana pó, espirra. Rinite, sinusite? Cansaço. Hoje: feriado. Amanhã: emenda. Depois, então: fim de semana. Quatro dias de descanso. Roupas lavadas, estendidas. Roupas recolhidas e passadas agora moram em gavetas perfumadas. As janelas precisam de banho. O jardim, terra remexida. Flores agonizam ao olhar de um sol escaldante. O cheiro de chuva invade narinas. A curiosidade dos vizinhos busca por enredos. Entrega a eles um aceno e um sorriso, que eles devolvem, gentileza encenada. Retira-se do quintal, endireitando o corpo ao chegar à cozinha. Espreguiçamento necessário para etapa seguinte. Pano de prato, toalha de mão, talheres expelindo som metálico. Água corre da torneira. Água despenca do céu. Lava, seca, guarda, engole um anti-histamínico e respira fundo. Próxima etapa: banho. Água quente derramada na cabeça. Xampu de camomila acalma pensamentos alvoroçados? Sabonete de açafrão, esfoliante corporal caseiro. Condi…

SEU NOME NUNCA MAIS SERÁ O MESMO >> Clara Braga

Renata, coitada, será sempre ingrata!
Juliana curte rock n' roll. Juliana não quer sambar. Ah, samba Juliana! O que que custa? Samba Juliana, SAMBA!
Ninguém sabe o que é passar os últimos 9 anos da sua vida ouvindo a mesma piada a respeito do seu nome. Inara sabe! Só Inara sabe o que é entrar em um recinto e ver um grupo de pessoas fingindo tocar pandeiro com as mãos e cantando: Inara, Inara, Inara, Inaraí! O pior de tudo é que esse grupo sempre acha que está sendo criativo. Inara finge que esteve privada de vida social todo esse tempo e nunca ouviu essa piada! Ou então finge ser fã número 1 de Katinguelê, dá aquela sambadinha marota, aquele sorriso amarelo e segue sua vida.
Janainas nunca serão mulheres diurnas, acordam todo dia às quatro e meia e já na hora de ir pra cama Janaina pensa que o dia não passou. Mas também né Janaina, 16:30 nem o banco está mais aberto.
Se você só pensa nela então o nome dela não é Ana, não é Denise, não é Roberta nem Marisa. Se você só pensa nela, …

FIDELISSIMAMENTE - Segunda parte >> Albir José Inácio da Silva

Como tudo que está mais ou menos pode piorar, uma notificação do Tesouro veio sacudir a frágil harmonia daquela pobreza conformada. O ministro ameaçava confiscar terra e produção por sonegação de impostos.
Fidélio não estava acreditando. Sempre foi leal ao Senhor e separava os tributos antes de vender qualquer coisa. O que ele não sabia era que o édito que obrigou casamentos e deu títulos de posse também reajustou os impostos. “Está cada vez mais caro defender o povo dos malfeitores e das ameaças externas”, explicou o Ministro do Tesouro.
Mas não se abateu, o Fidélio. O Senhor era justo e tudo seria explicado. Se devia alguma coisa, pagaria, mas sem prejuízo para sua família. Munido de coragem e da notificação, rumou para o Castelo.
Benta é que começava a se arrepender daquele casamento. Seu pensamento voava em segredo pelas roupas coloridas, as máscaras e as danças de uma trupe que passava por lá de tempos em tempos.
O grupo tinha má reputação, principalmente as mulheres, com fama d…

ESCADA ROLANTE >>> Sandra Modesto

Todos os humanos têm medos. 
Em baixo ou alto grau. Ou seria degrau? 
O meu medo me encabula há muitos anos. Escada rolante: 
— Quem te inventou? Por favor! 
Tirem todas as escadas rolantes do caminho, eu quero desenrolar a minha dor. 
Mas... 
No aeroporto tem. No shopping tem. Quando vejo logo penso: “ela vai me engolir”. Eu vou morrer. Se tiver opção de escada normal, me apeguei tanto no subir e descer pé ante pé. 
Medo de avião e elevador? Não tenho. De baratas também não. Adoro matar baratas. Morrem numa esmagada só. Não sossego enquanto não espremo a cabeça de cada uma. Sim, porque elas só morrem pelas cabeças. Envolvo - as num papel higiênico e jogo ralo abaixo. Pronto. Barata boa é barata morta. 
Já pensei sobre a tal da escada rolante. Talvez em vidas passadas eu tenha morrido impressa numa escada rolante.
Quanto às baratas, vi uma voadora voando agora.

UM DESVIO NO CAMINHO É OUTRO CAMINHO - 2a parte >> Zoraya Cesar

Há muito que Margoleen acompanhava os sinais de que havia algo errado no Equilíbrio de Tudo o que Há. Sabia que, em breve, diversos acontecimentos abalariam a estrutura de vida que levara até então. Quando encontrou sua mestra à morte, soube que o primeiro raio atingira sua Torre. 
Magra e miúda que fosse, a Curandeira levou com facilidade o corpo da mestra para dentro da sala. A mulher gorducha e sanguínea, de músculos fortes e rijos dera lugar a um espectro – praticamente só pele acinzentada e ossos quebradiços; a face, de tão encovada, lembrava a de uma caveira coberta por transparente lençol. O pouco sangue que restava mal corria nas veias. Havia um entumescimento sob a pele, como a de um afogado há muito submerso. 
Os sinais deixaram Margoleen desconfiada. Procurou. E encontrou as marcas características deixadas pelo ataque de um Craobh. Recuou, apavorada. Não era possível! Um Craobh? Quem ousara despertar o terror das florestas? 
Como toda Curandeira, entendia o Ciclo da Vida e da M…

NEVE NEGRA >>> Nádia Coldebella

Primeira Parte: 
Escuridão, sangue e frio


Há muito e muito tempo, havia um reino conhecido pelo amor que seu povo devotava a rainha, uma mulher muito bonita e bondosa. Elora era seu nome e havia quem jurasse que ela não era uma mulher comum, mas uma rainha também entre as fadas. Talvez assim pensassem porque, em dias ensolarados, era muitas vezes vista sozinha pelos jardins do palácio, entoando, em voz baixa, uma delicada melodia. Várias vezes durante a semana, mesmo a contragosto do rei, ela costumava sair com suas criadas para passar as tardes em companhia dos menos abastados, agonizantes e doentes. Trazia-lhes a alegria contagiante que emanava de sua face, olhos e voz e as crianças costumavam cercá-la por isso. Embora as amasse, a rainha sofria porque, na presença dos pequeninos, era lembrada de que nunca poderia dar um filho ao rei.
Então, um rigoroso inverno derramou seu manto branco sobre o reino. Chegara magno, escuro e cinzento, deixando o coração da Rainha Elora apertado e re…