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É SURREAL >> Clara Braga

Acho que tenho passado tempo demais comigo mesma! Acho que todos temos, mas andei reparando coisas em mim que não havia reparado antes. Por exemplo, uso muito aquelas frases feitas, uns clichês comparativos, para expressar meu estado. 

Acredito que eu sempre tenha usado essas frases, mas só agora reparei o quanto elas não fazem sentido algum para mim, embora expressem bem o que sinto. 

Sei que estou soando um tanto abstrata até aqui, mas prometo ser mais específica. Por exemplo, quando estou cansada, constantemente digo: estou tão cansada que parece até que corri uma maratona. Eu não poderia saber se realmente estou cansada como se tivesse corrido uma maratona, pois nunca corri uma maratona. Já corri uma meia maratona e fiquei bem cansada, mas me parece que se eu falar que estou cansada como se tivesse corrido uma meia maratona, as pessoas vão achar que eu não estou tão cansada quanto eu realmente estou, embora muitas delas nunca tenham corrido. 

Outra frase que falo é: comi igual uma vaca. Você certamente não está me imaginando comendo grama, mas deveria. E confesso que não sou nem um pouco estudiosa da vida animal, então não poderia nunca afirmar com certeza que as vacas comem muito, mas por algum motivo, dizer que eu comi igual a uma vaca, mostra com mais intensidade o fato de eu ter comido muito do que se eu só falasse que comi muito. 

Meus colegas da equipe de corrida usam muito uma frase específica quando querem dizer que o treino do dia será feito lentamente: hoje vou no passo da tartaruga bêbada! 

Certamente, ninguém ali nunca viu uma tartaruga bêbada, e eu me atrevo a dizer que a tartaruga é tão lentinha que às vezes a bebida daria até uma agitada nela. Mas, se as pessoas disserem apenas que naquele dia irão correr lentamente, será confuso, já que lento para mim não é necessariamente lento para você. 

Não pense você que estou aqui defendendo que nossa rica língua deva ser usada apenas de forma literal. Muito pelo contrário, acho essas frases sensacionais. O que realmente me intriga é que até para falarmos de algo real e concreto, às vezes, somos mais claros se usarmos como referência, algo irreal. 

O que seria de nós sem um pouco de surrealismo, não é mesmo? 

Comentários

Nadia Coldebella disse…
O que seria da nossa vida, ainda mais hj em dia, se não fossem as hipérboles da rotina para enchê-la de drama e um pouco de cor? Esse mundo seria chatérrimo! Infeliz é aquele que, na rigidez do pensamento, precisa conviver com a exata exatidão das coisas, chafurdando no branco e cinza do mundo. Continue surrealista! Grande bjo!
Zoraya Cesar disse…
Clara, concordo com a Nádia, total. Continuemos surreais para vencermos a realidade! E que nesse contato com nós mesmos nos olhemos com mais diversão e leveza. Surrealismo já!