quarta-feira, 22 de novembro de 2017

AOS MÚSICOS E AOS OUVINTES >> Carla Dias >>


Vivo evitando calendário e suas celebrações. É coisa minha, de quem adora dar presentes em dias ímpares, e fica feliz que só quando o dia ímpar cai em quarta-feira. É coisa que me aconteceu, na verdade. Já me basta o calendário dos compromissos da rotina. Os outros, aqueles que frequentam o ambiente dos meus afetos, a eles eu dedico certa elasticidade nesse tempo de calendário. Porém, costumo ser bem inspirada nas celebrações.

Ontem, conversando com um amigo sobre música, ele muito agoniado sobre uma geração que não conhece o que de bom as anteriores fizeram, percebi que, apesar de compreender e compartilhar de tal desalento, tenho a sorte de conhecer músicos que não me permitem apegar àquela frase abismal: não tem mais jeito.

Não há como deixar de ter jeito. Haverá sempre aqueles que farão música de forma tão bonita, seja compondo ou interpretando. Lembro-me de quando assisti a uma apresentação de orquestra pela primeira vez. Eu não conhecia aquela música, e graças às pessoas que a interpretaram naquele dia, eu aprendi um pouco mais sobre a beleza de se escutar e de se tocar um instrumento; de se permitir conduzir pela música. Aprendi, também, por meio da música, que nem tudo o que você aprecia está nas manchetes dos telejornais, nos programas de televisão. Não está no que uns e outros decidem ser bom.

Olhe para o lado. Escute outros sons.

Eu tive a sorte de bons músicos cruzarem o meu caminho. Esses bons músicos me apresentaram a música de outros bons músicos. A partir daí a história da música se misturou à história dos músicos, e eu me peguei curiosa. Talvez, o que falte mesmo seja curiosidade. Sei que é bem complicado dar atenção a ela, em tempos em que informações explodem na nossa cara, sem pausa. Mas a curiosidade é essencial.

Foi pela curiosidade, por exemplo, que me apaixonei pela música de alguns. Nem todos são famosos, mas todos são talentosos. Você pode até não ser fisgado pela música deles, mas certamente veria o talento ali. Sabe como? A música não é apenas entretenimento. Encará-la somente como diversão é aprisioná-la à função de trilha sonora para dancinhas questionáveis. Música provoca as pessoas. Já se sabe que é de grande valia ao nosso querido cérebro. Música pontua nossa vida ao se relacionar com nossas memórias e nos ajuda a socializar. E para termos essa intimidade com ela, de nos permitir emocionar, é preciso compreendermos que a música não acontece porque sim. Os músicos a trazem à vida.

Nesses anos todos lidando com música, já tive a oportunidade de conhecer pessoas fantásticas, inclusive muitos dos meus ídolos. A música vem com a história dessas pessoas. Obras têm histórias, porque essas pessoas viveram essas histórias ou as imaginaram.

Hoje se celebra o Dia do Músico. Para mim, e para muitos, não é preciso lembrar da importância desses profissionais, mas muitos se esquecem disso. Porque, sim, eles vivem do que você aprecia, do que embala seus encontros com os amigos, sua festa de casamento, sua lembrança sobre quando seu primeiro filho nasceu. Muitas das conexões emocionais que você estabelece com as experiências que vive contam com trilha sonora. Quando a tristeza impera, a música ampara. A música que é trazida ao mundo pelo músico.

Pensando na minha conversa de ontem, na minha tentativa de explicar ao meu amigo que, apesar de parecer que não, há muita gente bacana fazendo música tão bacana quanto, posso concluir que se faz necessário compartilhar a música dessas pessoas. Que esses músicos merecem ser reconhecidos e não há forma mais adequada de fazê-lo do que dando a nós mesmos a chance de escutar algo novo, diferente, valoroso, ainda que não faça parte da trilha sonora da novela. Na verdade, é dar-se uma chance de conhecer alguém que seja capaz, por meio da música, de nos deslumbrar; de enriquecer nosso espírito, nosso vocabulário emocional.

Nesse dia do músico, desejo a você, ouvinte, que se desapegue da ideia de que o que é bom sempre chegará a você, e de que ele tem uma cara só; apenas um estilo. É que, quase sempre, o melhor está em outro lugar. Aos músicos, eu agradeço. Obrigada por abraçarem minha vida com seus sons.

O vídeo abaixo é na conta de um dos shows mais bonitos que já assisti. Naquele dia, Renato Borghetti me deixou muito feliz. Continuo feliz ao escutar a música dele.




PS.: Não vou listar nome dos amigos aos quais desejo um dia, uns dias, uns meses, uns anos, uma vida de músico justa e digna de reconhecimento. Até porque, desejo isso a todos que se dedicam ao ofício com apreço e cuidado. Que entregam ao mundo algo bom. Música boa.

Imagem: A melody © Beatrice Offor

carladias.com


Partilhar

terça-feira, 21 de novembro de 2017

QUANDO NASCE UMA MÃE >> Clara Braga

Logo que descobri que estava grávida lembrei das pessoas dizendo: sempre que uma criança nasce, nasce também uma mãe. Me apeguei a essa ideia. Não porque a achava linda, mas porque precisava. Não me imaginava mãe de jeito nenhum, se quando meu filho nascesse não nascesse uma mãe junto ele estaria enrolado. 

Chegada a hora do parto o momento era de felicidade e dor, muita dor. Mas também, como poderia ser diferente? De dentro de mim sairia um bebê e uma mãe! Mas a verdade é que depois do bebê só saiu mesmo a placenta. Foi aí que eu descobri que mãe também é gestada por nove, quase dez meses, mas para parir é diferente. Você só se percebe mãe em momentos específicos.

Me percebi mãe quando acordei com uma respirada mais forte do meu filho ainda na maternidade. Quem diria, justo eu que há tempos não ouvia mais o despertador se ele não estivesse no máximo.

Também me vi mãe quando 20h deixou de ser a hora que eu começava a me arrumar para sair e passou a ser um horário muito tarde para fazer qualquer coisa.

Mais de três pessoas passou a ser muita gente. Coitado, ainda não sabe direito nem quem é a mãe e o pai, se ficar ouvindo muitas vozes e passando de colo em colo vai ficar muito estressado.

Meu amor por cachorros sumiu no dia que desci para passear com meu filho no carrinho e um cachorro começou a latir para o carrinho. Normalmente ao ver um cachorro, mesmo latindo, pensava: que lindo, queria tanto um cachorro! Nesse dia pensei: se chegar perto do meu filho vai se arrepender!

Ah, e claro que também me vejo mãe toda vez que vou escrever uma crônica e o único assunto que tenho é a maternidade. Não é que outros assuntos não sejam interessantes ou importantes, mas é que entre fraldas e cólica não me resta mesmo muita novidade para contar.


Partilhar

sábado, 18 de novembro de 2017

NUA, BEIJANDO O SAGRADO >> Sergio Geia


 
Trespassa o janelão, e encontra o céu claro que emoldura o Bixiga, paisagem campestre, vazio coletivo, rico, transbordante, plural. De fora, a árvore da Lina, tão íntima, tão nua, beija o sagrado, um astro-rei, sol a iluminar São Paulo, que, cinquentenário, sabe provocar, instigar, demolir, sacodir entranhas — facadas na alma. Alguém disse que o janelão é ilegal, que contraria o Código Civil? Isso é sério, gente?
A onda do mar se arma, se agiganta, vai subindo, crescendo de tesão, sobe, sobe, ereta ela sobe ainda mais, um paredão verde pronto a se desmanchar, rasgando em mil pedacinhos de inconsciências, quebrando cremosamente até tudo levar, os pensamentos mais vis. Limpa, oxigena, zera.
A primavera, as noites primaveris (“A primavera é quando ninguém mais espera, a primavera é quando ninguém não, a primavera é quando do escuro da terra, acende a música da paixão; a primavera é quando ninguém mais espera, e desespera tudo em flor, a primavera é quando ninguém acredita e ressuscita por amor” — ouço sua voz guerreira cantando), mas não a noite, primeiro a tarde; sim, a tarde alva, água que vai virando vinho, nuvem negra que vira chuva, chuva que encharca, gelo que quebranta, então a noite, gloriosa, pacífica, desliza suave pós-caos.
O caos, sim, o caos — como eu poderia me esquecer? —, tão necessário, tão importante para tudo; para agrupar, para organizar, para não morrer. Mas não há caos sem onda, sem chuva, sem terra rasgando em fendas, sem Oficina.
Me paraliso no caos, me perpetuo no caos, me entrego no caos, clamo por ele. Caos, você agora é o meu tudo! Stelarc, Orlan, Lady Jaye e Genesis, Aimee. Gregório, Villa-Lobos, Oswald, Nelson, Glauber, Fernanda, Chico, Caio, Ney, Zé. “Um clamor, um convocar, um convulsionar, um amar”, que desorganiza uzyna uzona e gera vida.
Que faz andar, rodar (Roda Viva!), que ayuasca, peyote, donpedrito, vinhos e ervas embalam, ó doce Xamã, salve a sacação! As suas! Sua resistência inspira, desorganiza, sacode, convoca, convulsiona, faz amar! À descolonização! À revolução! Ao descovardamento!
No parque — a imagem vem assim boba, do nada mesmo —, a toalha estendida, o chão-terra, o sagrado, harmonia doce, intimidade que acarinha o corpo nu  — “o poente na espinha de tuas montanhas, quase arromba a retina de quem vê” (Chico), ele no azul do céu, sol desbotando, ar fino, sacolejando por dentro.
Pois o sagrado é você, doce vítima. Desse humanoide capitalista que tudo destrói, especula, imobiliza, estupra. Sete Quedas, São Francisco. Augusta? Oficina? Quer tirar o ar, matar por asfixia, asfixia mecânica. Quer destruir, estuprar, estupro seguido de morte, roubar, matar, latrocínio cultural.
Não vai conseguir.
Você é pura energia.  
P.S.:
1. O Grupo Silvio Santos quer erguer duas torres no Bixiga, na frente do teatro Oficina, num terreno que lhe pertence; Zé Celso, que já está no local há quase 60 anos, quer a desapropriação da área, a criação de um espaço cultural ao ar livre. Numa reunião no Condephaat, o Zé falou: “Nós vamos morrer, Silvio, nós passamos, mas tudo aquilo vai ficar”. Pensei: consciência cidadã (lembrei: ele é chefe da minha prima – que orgulho de você, Brenda!), espinha enroscada na garganta de quem se nega a enxergar as coisas doces.  Pensei também: um monumento às artes ou mais espigões na selva paulistana? Difícil escolha, não?
2. No facebook, ou em qualquer outro lugar, defendo o projeto do Zé Celso. Essa causa não é só dele, do Oficina, do Bixiga, de São Paulo. É nossa!
#Fica Oficina!
#NÃO ÀS TORRES!
3. Primavera – Zé Miguel Wisnik
4. Ilustração – Facebook Teatro Oficina Uzyna Uzona
 


Partilhar

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

CHARLIE, O 'SOLITARIOFÓBICO' >> Zoraya Cesar

Era um desinfeliz, o velho Charlie. Seu epitáfio poderia ser: “nunca teve uma mulher que prestasse e todas o abandonaram”. No entanto, acreditem, ele se esforçava arduamente para manter seus relacionamentos. 

Charlie, o metamorfo – mudava de atitude, aparência, personalidade para se adequar aos gostos e preferências das amantes, namoradas, esposas (sim, casara quatro vezes). Fazia de tudo para agradar, mimar, fidelizar suas mulheres. Nada adiantava. Depois de algum tempo elas o abandonavam, deixando-o desesperado, à beira da insanidade.

Charlie ficava assim, desestruturado, por amor? Coração partido, dor de cotovelo, orgulho ferido? Não exatamente.

Charlie, o gerascomonofóbico – nosso amigo não aguentava a solidão e tinha medo de envelhecer sem a companhia de uma esposa para dividir a vida. Estar descasado ou sem namorada o deixava doente.

Doente, talvez não fosse, mas, desequilibrado, definitivamente. Vejamos. Se passasse mais de um mês sem namorada, flerte, pretendente, surtava. Deprimia-se, tornava-se insone e inapetente. O que Charlie queria, precisava, ansiava, era casar, morar junto, amigar.

Consciente de sua predisposição, digamos, peculiar, juntara duas fobias – a de envelhecer e a de ficar sozinho – e criara um novo termo, para se autodenominar. Sou um gerascomonofóbico, dizia, orgulhoso.

Terapia? Jamais. Dizia que era um sujeito normal. Afirmava não temer a velhice – recusava-se a fazer implantes para cobrir a vasta careca pontilhada de marcas da idade ou a recorrer a truques estéticos para eliminar as rugas; nada fazia para disfarçar a decadência que pouco a pouco invade nosso corpo à medida em que passam os anos.

Apenas não queria passar por esse processo sem alguém ao seu lado. Se, durante a juventude, já sofria com a solteirice, agora, que a velhice esmurrava sua porta, a situação tornara-se mais crítica. Dizia que não era doente, era sensato. Quem quer envelhecer sozinho? 

Ah, diriam vocês, mas isso é fácil de resolver. E eu rebato: não. Nada na vida de Charlie era fácil de resolver. 

Charlie e seu carma - frequentava bares, aceitava encontros às escuras, entrava em sites de relacionamentos. Tudo para ter uma mulher para chamar de sua, Deus de bondade, para se sentir casado, amigado, juntado de cama e mesa e banho, de mala e cuia, ser a corda de alguma caçamba. E, ainda assim, nada dava certo, não por muito tempo.

Era má pessoa, teria hábitos execráveis, vícios insanáveis, algo que realmente o desabonasse? Roncava, fedia, deixava de tomar banho? Não! Então, por que era sempre abandonado?

Ninguém sabia. Talvez fosse um pouco chato, grudento, carente, o nosso amigo - mas isso não é explicação, é constatação. Talvez fosse algo cármico, pois estava pra nascer alguém com o dedo mais podre para escolher parceiras do que Charlie. 

Como escolhia mal! Na ânsia por não ficar sozinho, aceitava o que viesse. Perdulárias, trambiqueiras, pistoleiras, vadias, vulgares... não importa; entregava-se por inteiro – corpo, alma e o que mais tivesse para entregar, até a dignidade. 

E, mesmo passando por cima de algumas desvirtudes de suas amadas, ainda assim, elas o abandonavam sem dó nem piedade. Às vezes sem otras cositas más, como dinheiro, jóias de família, celulares... A última esposa, pela qual Charlie ainda chorava, partira fazendo uma limpa na casa; só não levara o que não pudera ou quisera. Como o fogão. E uma panela velha.

Charlie, o desesperado – fazia quase um mês que Charlie não encontrava uma companhia que pudesse vir a ser uma parceira, esposa, ficante, amante, 'esposamante'.

Sentia-se cansado e perplexo. As mulheres não querem compromisso sério, contorcia-se, em amargor e pânico. Estava ficando velho, não tinha mais tempo para longos e rebuscados namoros. E se não arranjasse mais ninguém? Estaria condenado a ver a vida a se arrastar, sozinho?

Ajoelhou e pediu a Deus uma companheira para passar os dias de seus últimos anos. Uma que não lhe roubasse ou batesse; que não desgrudasse dele. Bastava isso. Além de não ser jovem, também não era rico ou bonito, nem primava pela cultura ou inteligência. Não podia, a seu entender, ser muito exigente (aliás, nunca fora, como vimos).
Charlie se desesperava, achando que não teria tempo de encontrar
com quem passar o resto de sua vida.
Não dava para ser exigente. 

Àquela hora imprópria, em que ele, ajoelhado, sofria tão sofrentemente, a campanhia tocou.

Sobressaltou-se. Como pudera esquecer? Era dia de faxina!

Charlie, o esperançoso - Cruzdeusa, a faxineira, só não era mais feia por impossível.

Era apelidada, em surdina, de “gêmea de Belzebu”. Tinha os dentes amarelados pela nicotina e era mais vesga que o Christopher Lambert. Gostava de perfumes fortes, bijuterias extravagantes e era chegada a uma carraspana de cerveja. Casara quando bem nova, e, dizem as más, péssimas, línguas que o marido morreu de susto ao acordar e se deparar com o rosto da mulher muito próximo ao dele.

Nunca mais casara, D. Cruzdeusa, desde então, e vivia se queixando que, aos 64 anos, ainda era moça pra ficar sozinha, queria um homem pra chamar de seu, pra mostrar às amigas...

Charlie sorriu. Minha prece, pensou, foi atendida. 

Foto: Myriams Fotos in Pixabay


Partilhar

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

ANTI-PAPAI NOEL>>Analu Faria

Adoro esta época do ano: é quando eu mais tenho trabalho. Eu não tenho nome, mas a partir do momento em que as luzes de Natal começam a tomar conta das ruas eles me chamam de Anti-Papai Noel. Eu também não tenho gênero, poderiam me chamar de Anti-Mamãe Noel, mas já que a  civilização judaico-cristã ocidental não dá muita bola para a Mamãe Noel, faz mais sentido eu ser a antítese do personagem principal, dada a minha importância.

Sou eu quem cutuca as entranhas até dos familiares mais despolitizados e faz com que eles se ponham a brigar, na ceia de Natal, com a tia, o avô, o primo, a neta sobre as próximas eleições. E sobre as eleições passadas também. E sobre o fato de ninguém-se-lembrar-em-quem-votou-para-vereador. (Note: o tal parente cutucado também não se lembra). Sou eu quem faz os pais se esquecerem das crianças se estapeando na cozinha, sou eu também quem enfeitiça os que estão na festa para que não percebam a avó ali no cantinho da sala, triste e sozinha. Sou eu quem cochicha no ouvido do tio que aquele sobrinho ali  "é gay que eu sei". Aliás, sou eu quem inventou o "é pavê ou pacumê" e as uvas-passas no arroz (sim, eu sou um gênio!). 

Não, eu não sou Aquele responsável pela guerra na Síria, nem pelo fato de o cerrado ter encolhido mais que a Amazônia este ano. Isso é coisa lá da Diretoria. Ou de vocês mesmos. Eu sou mais um fanfarrão. Aposto que até você ri do que eu faço com os finais de ano. Em outras épocas, eu só aumento a taxa de obesidade (fui eu quem criou o cronut, o bolo de churros e batata frita coberta com queijo cheddar), incentivo a fofoca entre vizinhos, escondo aquele relatório que você nunca achou, aumento o preço da cesta básica. 

Este ano, porém, embora eu já esteja todo serelepe, um filhote de cachorro me deixou encafifado. Tremia debaixo de uma marquise, com um medo danado da chuva. Eu, que em outros tempos tomaria isso como inspiração, fiquei condoído e dei abrigo ao bicho. Devo estar convivendo demais com os humanos: prometi que ia só dar água e comida e que voltaria mais tarde para ver como estava, mas não, resolvi brincar, dar carinho, abraçar, levei para casa. Lá se foi o dia. Deixei de fazer uma velhinha tropeçar na rua, de atiçar um moleque para plagiar o trabalho de um colega, de incentivar a pedreirada a passar a famosa "ôôôô lá em casa" para as 32 mulheres que passariam pela construção hoje. Preciso fazer um pedido à Diretoria, para que tire do caminho da gente essas coisas que minam a força de vocês, humanos. Um cachorro, um abraço, uma obra de arte, uma amoreira... isso tudo atrapalha muito.


Partilhar

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

CANTANDO NA CHUVA | DA SALA DE CASA AO PALCO DO TEATRO >> Carla Dias >>


Lembro-me, vagamente, porque minha memória adora reinvenções, de quando ficava em frente à tevê, esperando a hora. Então, a hora chegava, e enquanto as primeiras cenas aconteciam, eu arrastava os móveis, de jeito a ter o espaço necessário para meu faz de conta.

Não era a história que me fisgava, porque era menina de tudo, tinha entendimento zero sobre o que falavam. Minha diversão era acreditar que, lá na sala de casa, aconteceria igual ao que acontecia no filme, se eu me esmerasse em repetir tudo, direitinho. Por isso, se eu colasse no personagem, dançaria e cantaria bonito feito ele.

Essa é uma das coisas interessantes sobre a arte. Ela é muito da liberdade, e ousa nos permitir nos sentirmos personagens principais em histórias que não nos pertencem. Propicia devaneios sobre como seria se fizéssemos aquilo que, ao observarmos o outro executar, nos enche de prazer. A arte que nos inspira sondar nossa própria capacidade de ir além.

Cantando na Chuva é um filme americano estrelado por Gene Kelly, Donald O’Connor, Debbie Reynolds e Jean Hagen. Foi lançado em 1952, e apesar de seu sucesso contido na época, tornou-se referência para o cinema musical. Ambientado nos anos 20, a trama mostra, de forma bem-humorada, como a chegada do cinema falado afetou o universo dos empresários da indústria cinematográfica e suas estrelas.

Neste ano, Cantando na Chuva ganhou uma adaptação brasileira, com Jarbas Homem de Mello e Claudia Raia. Em cartaz até 17 de dezembro no Teatro Santander, a casa sempre lotada prova que a história de Dom Lockwood, Kathy Selden, Cosmo Brown e Lina Lamont se mostra atemporal, até mesmo com as significativas mudanças tecnológicas. Afinal, desde o cinema falado, foram muitas as mudanças. Talvez não tão significativas, mas definitivamente marcantes.

Foto © Divulgação

Domingo passado, eu e Lucy, minha companheira de musicais, fomos assistir ao espetáculo. Assim como muitos dos presentes, eu estava ansiosa por aquela cena, que só de saber que ela aconteceria ali, naquele palco, fez com que a música ficasse tocando na minha cabeça. Apreciadora que sou do filme, esperava algo agradável. Fã que sou do Jarbas, sabia que haveria muito o que apreciar, principalmente o sapateado. Ainda assim, fui surpreendida, e várias vezes, com a fluidez dos diálogos, o humor bem pontuado, as interpretações e a música bem executada, tanto pelos músicos da banda, quanto pelos atores.

E a dança, claro.

Dom Lockwood (Jarbas Homem de Mello) e Lina Lamont (Claudia Raia) são o casal sensação das telas de cinema e das revistas sobre celebridades. Apesar de o estúdio vender a ideia de que eles são um casal, Lockwood não suporta Lamont. Com o projeto do primeiro filme falado da dupla, surge um grande problema: a voz de Lina Lamont. Lockwood conheceu a atriz Kathy Selden (Bruna Guerin) e se apaixonou de imediato por ela. É Selden quem atende à ideia de Cosmo Brown (Reiner Tenente) e se torna a voz de Lamont.

Foto © Divulgação

Fascinou-me assim, com toda grandiosidade do feito, as trocas de cenário, assim como a iluminação. A sutileza da interferência das mudanças de cenário e de iluminação são tão bem coreografadas, com sutileza, apesar das mudanças grandiosas. Viajávamos das ruas para o estúdio, para a sala de cinema, para o camarim em uma transição natural, o que só colaborava com a continuidade das cenas e não distraia nossa atenção do todo.

O cenário é apenas uma das belezas de Cantando na Chuva. O elenco entrega a história com fluidez. Há belíssimos números de dança. Os diálogos contam com um humor refinado, quase sempre conduzido por Brown, por um Tenente muito divertido. Aliás, o humor descamba para o surreal – com todo requinte, devo dizer – por meio da personagem de Lamont. Claudia Raia deu ao personagem o tom certo, divertindo o público com a transição de bela atriz do cinema mudo para uma pessoa nada agradável, com uma voz irritante. Guerin... Que lindeza de voz.

Os números de sapateado me deixaram muito feliz. Claro que o ritmo me pega de jeito, que ele ocupa um espaço importante na minha apreciação e na minha vida. Jarbas me encantou com os números que protagonizou. A cada espetáculo, eu o admiro ainda mais, pelo talento dele ao dançar, atuar e cantar. Porém, a cena da chuva, aquela que Gene Kelly eternizou, que me fez subir no sofá da sala da minha infância, como se me enroscasse naquele poste, com meu guarda-chuva, bom, a versão que assisti naquele palco, domingo passado, é a que vou carregar comigo sempre que tiver de explicar o que é deslumbramento. O aspecto técnico é impressionante. Chove no palco... Chove. Mas a forma como Jarbas entrega aquela cena, foi ela que me encheu o espírito de contentamento.

Foto © Divulgação

Claro que a nostalgia me pegou de jeito. De certa forma, a menina da sala, que fazia de conta que era parte do que acontecia na tela de tevê, assistiu ao espetáculo de maneira diferente. No final das contas, personagens se tornaram importantes para mim. Não sou dançarina, não sou atriz, não sou cantora, mas aprendi a apreciar quem o é. Aprendi apreciar a construção daqueles que dançam, atuam e cantam, a motivação deles. Aprendi a criar personagens, e eles sabem fazer muitas coisas que nunca farei, mas que vão sempre desafiar meus sentidos. Aquela imaginação de criança, aquela inspiração na infância das minhas percepções, ajudaram para que eu me encontrasse nessa terra de desafios, espantos e deslumbramentos que é a arte. E daqui em diante, toda vez que alguém questionar de que nos serve a arte, eu me lembrarei daquela cena de Jarbas interpretando Dom, debaixo de chuva, em um palco de teatro de São Paulo.

CANTANDO NA CHUVA
Em cartaz até 17 de dezembro.

Teatro Santander
Av. Pres. Juscelino Kubitschek, 2041
Itaim Bibi, São Paulo - SP

Clique AQUI para comprar o ingresso.

carladias.com



Partilhar

terça-feira, 14 de novembro de 2017

TODO DIA É DIA >> Clara Braga

Dia de natal todos ficam mais fraternos, mais amigáveis, e sempre passamos pelo natal pensando: as pessoas podiam passar o ano inteiro sendo tão agradáveis quanto no natal, essa atmosfera natalina é tão boa!

Dia da consciência negra as escolas fazem o dia letivo diferenciado, várias programações são voltadas para a luta contra o racismo, e então pensamos: as pessoas podiam se unir para lutar contra o racismo o ano inteiro e não só em novembro.

Dia das mulheres é lindo de ver! Parece até que todo mundo entende de fato a importância desse dia. Mas se todo mundo entende, porque ainda é tão necessário que ele exista? Acho que as pessoas não entendem tanto assim.

Dia da pessoa com deficiência todo mundo entende as limitações do outro e está pronto para ajudar, nos outros dias nem lembram que existem no mundo pessoas com deficiência, afinal, não esbarram frequentemente com elas nas ruas. Engraçado, nunca pensam que se elas não estão na rua é porque a rua não é lá muito acessível. Bom, mas não vamos reclamar, melhor ter um dia do que não ter nenhum!

Dia do amigo aqueles amigos que passam o ano inteiro sem se ver lembram de mandar uma mensagem no facebook do outro dizendo o quanto se gostam! Santo facebook que além de lembrar dos aniversários lembra que é dia do amigo! Vamos determinar um dia para celebrar a criação do facebook, e que seja feriado internacional e nunca caia no final de semana. Já existe data de tudo mesmo, mais uma não seria problema.

Várias datas são comemoradas uma vez ao ano e esquecidas no resto dele. Achamos ruim, reclamamos, nos questionamos porque não conseguimos ter compaixão o ano todo. Agora, se ser amigo e consciente só em datas específicas já é ruim, coitada da gentileza, seu dia passou e nem nele as pessoas lembraram de comemorar!


Partilhar

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

O QUE VOCÊ ESCOLHE? >> Paulo Meireles Barguil


Fincar-se na Terra ou verter-se na Água?

Brincar com o Fogo ou fugir do Ar?

Purificar-se na Água ou queimar-se no Fogo?

Entregar-se ao Ar ou esconder-se na Terra?

Expandir-se na Água ou dissipar-se no Ar?

Transmutar-se com o Fogo ou sujar-se na Terra?


[Aquiraz – Ceará]

[Foto de minha autoria. 14 de setembro de 2017]

Partilhar

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

LUCINA E A BELEZA DE SEU CANTO DE ÁRVORE >> Carla Dias >>


Música é algo surpreendente. Para mim, ela tem servido de fio condutor para muitos relacionamentos profissionais, mas principalmente aos pessoais. No amparo da música, tenho construído a minha percepção sobre a vida. Ela é mutante, não por ser frágil, a ponto de se adequar à percepção do outro, por puro comodismo. Ao contrário, minha percepção é rebelde por natureza. Vive das inquietações e, assim, é mutante porque se mistura ao aprendizado diário, adquirido com a experiência do experimentar a música.

Nessa importância que a música tem na construção da pessoa que me torno a cada dia – construção ininterrupta e que acabará somente quando eu deixar de existir –, mora a disponibilidade de me permitir surpreender pelo o que se destaca com exuberância. Na verdade, mora a expectativa, a espera pelo o que trará essa exuberância ao conhecimento da minha percepção.

Uma dessas surpresas é o novo disco de Lucina, Canto de Árvore. Compositora que admiro muito, ela traz para esse feito uma coleção de canções belíssimas, compostas em parceria com músicos e poetas e pessoas interessadas em mergulhar na vida, não apenas observá-la; esperar que ela aconteça.

Aprecio a identidade musical de Lucina, a forma como ela fala por meio de seu violão, como ela entoa a poesia das letras das canções. A conexão que mantemos com a música que nos entregam é alimentada pelas sutilezas. Em Canto de Árvore, Lucina se vale delas para tocar a música que encanta e cantar as palavras que evocam cenários e explicitam catarses, como na belíssima Rio de Chão, parceria com Inês Blanchart:

Já sei andar sozinha comigo,
Como se fosse rio sem chão.
O vento arruma meus desalinhos,
O fogo acalma minhas paixões.

Antes de conhecer, de saber do que tratava a poesia, eu escrevia poemas, mas por conta das letras das músicas que eu escutava no rádio da minha avó. Canções despertaram a poesia em mim, talvez por isso a música tenha se tornado personagem recorrente nos meus escritos. Certamente, por conta disso os compositores me são tão caros.

Canto de Árvore é daqueles discos que nos lembram de como pode ser fantástica a viagem de escutar canções. Os sons e as palavras se casam bonito nesse trabalho, enquanto Lucina tece esse caminho, provocando, sutil, porém efetivamente, uma revolução na perspectiva do ouvinte.

Ainda estou descobrindo as nuances de Canto de Árvore. Neste momento, O Espectador, parceria com o poeta Joãozinho Gomes, elucida:

E Deus assiste de óculo do alto de um obelisco
àquele  imenso obstáculo: reter os passos
que buscam salvar os que correm risco
na beira desse penhasco,
o mais sombrio precipício, sem fundo e sem riacho.

Zé Renato Fressato, arrudA, Luhli, Aloísio Brandão, AlziraE, Paulinho Mendonça, Iso Fischer e Paulo Bastos também contracenam com Lucina na criação das canções de Canto de Árvore. Décio Gioielli, Marcelo Dworecki, Peri Pane, Otávio Ortega e Ney Marques compartilham os sons do feito. Lucina conseguiu reunir neste disco pessoas capazes de dar destaque aos matizes do belo.

É preciso trazer ao mundo discos como este, que celebrem a música na qualidade de sua criação e na beleza de sua execução.



Lucina apresenta seu novo álbum, Canto de Árvore, no Estúdio Showlivre.







Partilhar

terça-feira, 7 de novembro de 2017

APRENDENDO A VIVER EM UM MUNDO COM BEBÊ >> Clara Braga

Tornar-se mãe é só saber falar sobre maternidade. Tá aí uma afirmação que eu sempre questionei, sempre achei que mesmo sendo mãe você não pode deixar sua vida de lado. Mordi minha língua e entendi que só se fala sobre maternidade pois só se vive a maternidade.

Mas engana-se quem acha que só viver a maternidade é algo tedioso, nunca em um único mês eu aprendi e vivi tantas coisas.

Para começar pelo mais simples, descobri que pelos próximos anos não vou pegar uma blusa na gaveta que não tenha uma marca da última golfada que ele deu.

Entendi que o famoso conselho "quando ele dormir, durma também" é lindo na teoria, mas quase impossível de ser colocado em prática. Quando ele dorme você escolhe entre dormir também, comer, tomar banho ou viver um pouco. Isso quando você não está dando atenção para alguma visita. Mas é sempre bom lembrar que cochilos de 15 minutos são essenciais para sua sanidade mental.

Lavar o cabelo todo dia é luxo. Aliás, descobri que minha mãe não era louca quando dizia que 10 minutos são mais do que suficientes para tomar banho.

Falando em mãe, entenda de uma vez por todas: a culpa é sempre da mãe. Você vai se sentir culpada por tudo, e os raros momentos que você não estiver se sentindo culpada alguém vai fazer com que você se sinta.

Você não acredita em mandingas, mas depois de dez minutos de um bebê irritado por causa de soluço você dá um jeito de arrumar uma lã vermelha e colocar na testa dele com cuspe.

Não existe ideologia que se sustente depois de uma semana sem dormir. Acordar de hora em hora não é mole, rapidinho você esquece todo seu discurso sobre chupeta ser ruim e coloca uma na boca do seu filho para ele dormir um pouquinho mais.

Você jura que sabe várias músicas infantis até ter que cantar.

Você vai se perceber mais nostálgica do que nunca e, de repente, viver em um mundo sem Sandy e Junior torna-se algo muito ruim. Sorte que a Xuxa voltou a fazer shows.

Ir ao pediatra é um baita evento, afinal, as vezes você passa tanto tempo em casa que esquece como é a rua.

Amamentar pode não ser tão mágico quanto dizem que é.

E, para terminar por enquanto, afinal, preciso de material para as próximas crônicas, descobri que a expressão "dormir que nem um bebê" sempre foi usada de forma errada, na verdade ela significa que você acorda, no mínimo, de três em três horas, ou seja, é quase sinônimo de insônia.


Partilhar

sábado, 4 de novembro de 2017

ALGUMAS RUAS >> Sergio Geia

 

Andava ontem, de noitinha, uma coisa boa me bateu. Nostalgia doce, logo pensei. Era a Professor Moreira; de novo. Vi o pensionato das freiras (hoje a fria Cúria Diocesana de Taubaté), a Doceria Nívea, a casa dos Castilhos. Vi a juventude (bons tempos), e me vi perambulando, sozinho, à cata de coisas que não tinha a menor ideia do que seriam, nem sabia definir, mas que empurravam a vida pra frente.
A Doceria Nívea (pra minha alegria) ainda está lá — desde 83, segundo o aviso na porta. Pois me vi entrando, escolhendo doces a fim de presentear a amada (Nívea foi participante ativa de minhas táticas de sedução, pra conquistar a mulher da minha vida. Ainda engatinhando um namoro, dei de presente uma cesta de doces — a boca ainda enche de água, o coração aperta). Vi-me entrando nos Castilhos para assistir Porky’s. Vi-me empunhando um violão, soltando a voz ainda fraca, na frente do pensionato. E vi a janela se abrindo, emoldurando os mais belos sorrisos das mais belas jovens que já vi.
Mas não era minha intenção falar do que vi, principalmente por ser a Professor Moreira. Já tenho uma crônica publicada exatamente com este título: “Na Professor Moreira”, em que falo dessas coisas, lembranças que tenho de lá, dos Castilhos, das serenatas que fazíamos para as jovens do pensionato, da tristeza que senti ao ver que hoje, tudo mudou, que a rua, assim como a Desembargador, a Barão, virara uma rua de comércio.
Vi-me na dona Sinfa — como me queria bem —, entrando em sua casa, sendo recebido com certa formalidade, um copo de água e todo o carinho do mundo (uma vez, venci a eleição para dirigir os jovens da paróquia. Ela, muito ativa na igreja, ministra de eucaristia, catequista, coordenadora de diversos cursos, me chamou para me cumprimentar pela eleição e para dizer que “agora, o grupo de jovens vai”, que somente eu teria pulso para dirigir o grupo.) Ah, dona Sinfa! Morreu cedo. De repente, chegou a notícia de sua morte. Eu muito senti.
Pois me vi ainda entrando na casa da Roseli, pra tomar banho de piscina. Abrindo o portão da Marli para um aniversário. Conversando com dona Eugênia. Jogando detetive numa varanda. Bebendo todas no Água na Boca. Sorrindo, beijando, amando, flutuando. Ah, Professor Moreira, o que fazes comigo?
Se eu tivesse que apontar as minhas ruas dessa Taubaté, eu não titubearia: primeiro, a Desembargador Paulo de Oliveira Costa; a Professor Moreira e, por fim, a Barão da Pedra Negra, e a Praça Santa Teresinha.
A Desembargador, porque lá morei por 25 anos. Porque lá tinha amigos, porque lá joguei bola, quando ela era uma avenida tranquila. Porque lá andei de bicicleta, empinei pipa, joguei botão, bolinha de gude, toquei violão. Porque lá, às vezes, eu ficava sentado vendo o tempo passar, olhando o céu, as mulheres bonitas.
A Professor Moreira eu já disse.
A Barão, porque lá construímos a caverna dos ratos (sim, João, eu lembro).
E a Santa Teresinha porque me acolheu criança, jovem, e me acolhe todos os dias, hoje, amanhã, sempre, até a luz se apagar.
 
Ilustração: Praça Santa Teresinha


Partilhar

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

ESVAZIADO >> Carla Dias >>


Há um descaramento no olhar dela que desperta nele um alvoroço interno. Descamba em um estremecimento. Tem nada a ver com devassidão, ao que ele está disponível.

Vem com esse olhar a ideia de que nunca fora observado dessa forma. Nunca um olhar o desafiara com tamanha espetaculosidade. Há algo oculto nele. Não camuflado. Sobrenatural. Há algo nesse olhar que lhe arrepia os pelos e confrange seu espírito.

Por que não se apegar ao óbvio?

Tem para si que seria muito mais benéfico para ambos se ela caminhasse em sua direção e se acomodasse em seu corpo. Experimentassem um da saliva do outro. Jura que provaria dela com desfastio, livre dúvidas ou pudores. Contudo, ela continua a oferecer o tal olhar, que muda a cadência da respiração dele.

Diz que o que ele quer é perigoso. Ele quer saber o que a leva a pensar assim. Diz que não seria problema ir até ele e estancar-lhe os desejos, mas teme o que mora nele.

“O que mora em mim? ”, ele pergunta.

Ela sorri, luxuriosa.

“O vazio”.


Imagem: Seated Couple © Egon Schiele

carladias.com



Partilhar

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

VOCÊ TEM MEDO DE QUÊ? >> Paulo Meireles Barguil


Do desconhecido ou do conhecido?
 
Do escuro: de dentro ou de fora?

De mudar ou de não mudar?
 
De ser ferido de novo ou de não ter mais o discurso de vítima?
 
De nem tentar ou de não obter o que gostaria?

De ser amado ou de não ser amado (de novo)?

De passar vergonha ou da vergonha não passar?

De cair no abismo ou de não sair dele?

De ficar de (novo de) castigo?

De morrer ou de não viver?
 
Você sabe quais são as suas feridas?
 
Você sabe que precisa ter coragem para curá-las, pois ninguém pode fazer isso por você?
 
Qual é o seu bicho-papão de estimação?
 
Até quando você vai dormir com ele?
 
Até quando ele não deixará você acordar?
 
Pelo menos o medo de não escrever a crônica quinzenal eu consegui superar!
 
Daqui a 2 semanas, ele volta...


[Recife – Pernambuco]

[Foto de minha autoria. 20 de março de 2004]


Partilhar

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

CHAPEUZINHO PANTONE 17-1463>> Analu Faria

                                          Para as minhas avós, Lourdinha e Maria (in memoriam).



Passando pela floresta, com uma cesta de frutas orgânicas e doces fit para a vovó, deparo-me com uma pegada de lobo que leva ao meu destino. Já sei que vai dar merda.

Chegando à casa da vovozinha, lá está o lobo, péssimo ator e maquiador que é, tentando ridiculamente se passar por ela. Minha vontade é desmascará-lo logo, porque eu tenho aula de yoga em uma hora e não posso me atrasar. Contudo, com a paciência que Shiva me deu e tentando ter alguma empatia -  afinal nunca se sabe o que levou o lobo a ser lobo - finjo que acredito que ele é a vovó.

_ Olá, vovó.
_ RRRRRR Olá, minha netinha.
_ É impressão minha ou a senhora rosnou, vovó?
_ ...
_ Vovó?
_ Impressão sua.
_ Vovó, onde deixo as frutas e os doces?
_ Aqui,comigo, eu como agora.
_ A fruta é orgânica e o doce é de batata doce. Fit, aliás.
_ Então, não.
_ A senhora deve estar cheia, né, vovó? Deve ter comido há pouco tempo, não?
_ RRRRRR por que você diz isso? - faz o lobo, tentando esconder o bucho inchado por ter comido a minha pobre vovozinha.
_ Nada.
_ Vem aqui mais perto, minha netinha.
_ Não, vovó, a senhora tá com um bafo horrível. Eu já estou de saída, tenho aquela aula de yoga que te falei. Mas antes... me responde umas perguntas, vovó?
_ Que perguntas?
_ Será que esses seus olhos grandes não são uma metáfora do consumismo desenfreado da nossa época?
_ Hein?
_ E essas mãos grandes, será que elas não seriam para massagear o seu ego?
_ Não, são pra passar nas novi... digo, para te abraçar.
_ Sabe o que é, vovó... eu andei pensando que a senhora está meio estranha ultimamente. Lá fora, por exemplo, caída na varanda, tem uma camiseta com os dizeres "Artista é tudo vagabundo".
_ Err... não sei como foi parar ali.
_ Seus amigos também não a veem há muito tempo. O Rogério e o namorado reclamaram que a senhora anda sumida.
_ VÁ DE RETRO! EU NÃO TENHO AMIGO VIADO!
_ O que a senhora anda lendo, vovó? Que influências estão mudando essa cabecinha?
_ Só leio coisa boa, para o seu governo! Quer dizer, eu abro uma exceção às vezes e leio aquela porcaria que você escreve.
_ Às vezes, vovó?
_ Tá bom, vai. Eu leio sempre.  Também te sigo no Facebook, no Twitter e no Instagram.
_ Nossa, a senhora tá muito stalker, vovó.
_ Aliás, sua pentelha - O lobo muda de repente de tom - Quem tem que te fazer umas perguntas sou eu.
_ Ah, é, vovó?
_  De onde você tira aquilo ali, hein?  Pra mim o que você escreve só pode ser...
_ Só pode ser o que, vovó?
_ Dor de cotovelo, falta de louça pra lavar, falta de...
_ A dor é no pé, vovó, fraturei fazendo stand-up paddle, lembra? E tem uma pilha de louça suja aí atrás da senhora também...
_ Velha bagunceira - balbucia o lobo.
_ O que disse, vovó?
_ Eu disse que lugar de mulher é na cozinha.
_ Que é isso, vovó?? A senhora nunca foi assim.

Nesse instante, ouço uma voz abafada que vem de dentro do lobo :

_ Já chega, usa a serra elétrica que eu comprei no Mercado Livre! Tá perto da porta!

Rapidamente abro a porta da frente, pego a serra elétrica e parto para cima do lobo. Preciso acabar logo com o sofrimento de minha avó. Além disso, que Shakti me perdoe, mas eu dei muitas chances para esse lobinho  tosco  com sérios problemas de autoimagem. Antes, porém, de cortá-lo da virilha ao pescoço, ainda pergunto:

_ Quais são suas últimas palavras?
_ Bolsonaro 2018.
_  Cooooooortaaaa!!! - ouço minha vovozinha gritar de dentro do bicho.

Contra uma serra elétrica ninguém pode. Nem um lobo bolsominion. Pena é ter voado sangue para tudo quanto é lado - sujou meu tapetinho de yoga, minha roupa, o cabelo que eu tinha acabado de hidratar com uma máscara de ojon. O importante é que vovó está bem e inteira.

_ Não entendi por que você demorou tanto, minha filha.
_ Tentei a empatia, vovó.
_ A gente tem sempre que tentar, né, minha querida? Boa menina!





Partilhar

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

AOS INQUIETOS >> Carla Dias >>


De todos os sonhos
Arrastados pela vida afora
Aquele que mais me assombra
É o que nunca sonhei


Às vezes, ela age assim, como se nunca tivessem lhe confidenciado sobre a vida e seus desafios. Como se não tivesse sido educada para lidar com abandonos. São dias em que a vulnerabilidade a cerceia, vestida – elegância desalinhada – em realidade crua. Só que de crueza profunda, feito corte que não é na carne.

Pronto-socorro não adianta.

Vulnerabilidade a deixa assim, zonza, feito um Bobo da Corte parido para distrair distraídos. Munido com os piores truques para incitar gargalhadas. Destinado ao fracasso.

Zonza, mas apenas até encarar seu destino, porque já aprendeu que lidar com infortúnios exige uma coragem que não desabona o medo. É ele, o medo, que mantém sua percepção afiada.

Não raramente, aprofunda-se em si, em outros. Então, enxerga além, acompanha entrelinhas, envereda por espantos. Desvela silêncios.

Pode até não sorrir o sorriso esperado, dizer as palavras adequadas. Pode até não se comportar com o requinte de quem decorou manual de etiqueta ou respeitar tempo estabelecido. Mas continua ali, a lidar com os destemperos da sua existência, em dias em que a vida lhe parece tão frágil, capaz de se romper em um espirro.

Acontece de ela não caber em retrato, roupa, desejo alheio ou dentro de casa. Basta cair uma chuvinha e ela sai em passeio. Durante longas caminhadas, é capaz de reorganizar pensamentos gritantes, esses rebeldes que se aproveitam da ocasião para badernarem os sentimentos dela. Quando tudo se mistura no seu dentro, o barulho a incomoda. Ainda assim, ela escuta o tal, durante esse show particular que tem como meta impacientar sua paz de espírito.

Paz de espírito necessária. Feito pausa, respiro.

Então, vem a taquicardia para enfeitar a vulnerabilidade com um pouco de ritmo.

Ela se deleita durante a jornada de descoberta sobre o que muda o andamento das batidas do coração e que também é capaz de estremecer a alma. Passou tanto tempo erguendo seus muros, vigiando seus limites, reverberando normas e vivendo rótulos. Especializou-se em se preservar, até o dia em que se deu conta de que preservar-se, quando se trata de ser, é o mesmo que anular-se.

Aos apegados às manchetes sensacionalistas: ela aprecia redenções e chá de gengibre. Ama, ainda que não a amem em contrapartida. Quebra silêncios hostis com a maior delicadeza. Encanta-se facilmente por mistérios. Tem pudor nenhum em fazer escândalo diante de injustiças.

Aos curiosos: sim, seu coração é partido mais vezes do que gostaria. Não, ela não sonha que um dia será diferente. Ela já teve esse sonho. Hoje, ela vive essa realização.

Imagem © Carolina Bicudo
Conheça outras obras da artista em Flogoníssima.




Partilhar

sábado, 21 de outubro de 2017

CAIO >> Sergio Geia

 
Beber dessa bebida amarga (e doce ao mesmo tempo). Entrevistas, YouTube, crônicas, contos, romances, biografias, Caio, Caio, Caio. 

Vítima dessa AIDS que levou, além dele, outros gênios como Cazuza, Renato Russo, Betinho (e tantos outros), todos contemporâneos seus, Caio nos deixou muito cedo. Por conta dessa morte prematura, à exceção de sua literatura, há pouca coisa, principalmente na internet, sobre ele.
Não lembro como tudo começou. O que lembro, é que sempre tive na mira o “Morangos Mofados”, seu livro de maior sucesso. Também não lembro o motivo pelo qual eu o tinha na mira. Não sei se alguém falou bem do livro — aquele papo de “Nossa, esse livro mudou a minha vida!”, ou “Nossa, aquele disco de fulano de tal mudou a minha vida!” —, talvez alguém tenha dito “Nossa, o ‘Morangos’ do Caio Fernando Abreu mudou a minha vida!”, afinal, “Morangos Mofados” e “Feliz Ano Velho” marcaram uma geração. O que sei é que nenhum livro mudou a minha vida. Nenhum disco. Nenhum filme. O que me ocorre agora é que, talvez, tenha sido o título do livro que tenha me chamado a ele. Os títulos sempre me chamam. “Olhai os lírios do campo” me chamou. Lembro que um dia, entrei no Submarino e comprei “Morangos Mofados”. Desde então, respiro Caio (respiro do ponto de vista intelectual e artístico, é óbvio; mas como gostaria de ter respirado o mesmo ar de Caio; poderia ter sido no Ritz?), e “Morangos Mofados” virou o meu livro de cabeceira, quem sabe, candidatíssimo a mudar a minha vida.
Neste momento leio “Para sempre teu, Caio F.”, da Paula Dip, que foi colega de trabalho e amicíssima de Caio. É uma biografia, e como toda biografia, me oferece um mergulho na vida do autor. Conhecer a sua infância, a sua vida antes de se tornar o escritor famoso, a visão que os amigos tinham antes dele se tornar o escritor famoso, hábitos, preferências, personalidade. Está recheado de passagens da sua vida (claro), cartas — Caio adorava escrever cartas —, bilhetes, textos, crônicas, fotos, os bastidores de diversos contos, inclusive dos “Morangos”, a vida a mil, visceral, muito Caio, sem medo de ser infeliz.
Outro dia estava lendo a crônica “Ao momento presente” que está no livro “Pequenas Epifanias”, da Editora Nova Fronteira, em que Caio reverencia esse momento esquecido. Depois li “Lições para pentear pensamentos matinais” (Caio era ótimo para escolher o título dos seus textos), depois “O livro da minha vida”, e depois “A cidade dos entretons”. Adorei “Quando setembro vier”. E que sacada! Depois pensei: “Esse Caio é realmente fascinante!”
Inimigo dessas de preservar estabilidades, absolutamente aberto ao mundo, a tudo e a todos, Caio é uma fonte inesgotável de ser. Intensidade plena. Luz e Sombra. Dia e noite. Medo é uma palavra que não existe no seu dicionário. Sofrimento, amargura, depressão, angústia, agonia, fracasso, constrangimento, até broxadas, foras, furadas monumentais. Isso é vida, e Caio não tem medo dela. Abrir mão dessas coisas é abrir mão da própria existência.
Lembro que algum tempo depois de lançar o meu romance, uma querida ligou dizendo que tinha gostado da história e, principalmente, dos personagens, que não tiveram medo, segundo ela, de fazer escolhas que significaram, no universo ficcional da obra, uma guinada de 360 graus, ainda que tais escolhas significassem também problemas. Disse que se arrependia de suas escolhas. Diferentemente dos personagens do livro, a leitura a fez entender que sua opção fora sempre a opção do conforto, do controle absoluto, do medo do novo, do não-viver, do não-arriscar. Uma escolha, digamos, não-Caio, não-vida.
Esse sentimento traduzido no livro eu senti anos atrás, tanto que mal ou bem, consegui transportá-lo para os personagens, de modo a fazer com que eles fossem diferentes do que eu tinha sido até então. Não tenho dúvidas de que gostaria de ter a personalidade marcante do padre-narrador.
Sinto que Caio vem dar um refinamento a esse sentimento.


P.S.: Um amigo me falou coisas: “que os problemas vão se acalmar com o fim do período de retrógrado”, “que o Sol estará em Virgem, enquanto a Lua estará em Peixes”, “que ouviremos boas notícias sobre conquistas sociais, econômicas, culturais, humanas e espirituais”. Lembrei-me na hora de outra das muitas facetas do Caio.
“Nossa, como você hoje está Caio Fernando Abreu!”, respondi.
E arrematei:
“Com Sol em Virgem e ascendente em Libra”.
Momento Caio.
Total.


Partilhar

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A ESTÁTUA DOS INELTEPNAC - 2a PARTE >> Zoraya Cesar.

A ESTÁTUA DOS INELTEPNAC 1ª parte  Meu tio encontrara uma estátua antiga que, aparentemente, pertencera ao misteriosamente desaparecido povo Ineltepnac. Chamou o eminente Professor Sondaar-Dief para atestar a veracidade de sua descoberta. Achava, meu tio, tratar-se de uma deusa da fertilidade. Não podia estar mais enganado. Perigosamente enganado.

Que bonita era! Uma mulher alada de mais ou menos 1,60 m, em terracota, fresca e conservada, como se esculpida recentemente. Ela parecia... macia! Tive o bom senso de não a tocar, ao contrário de meu tio e do Professor Sondaar-Dief, que lhe passavam as mãos, fascinados. 

Nua, suas formas arredondadas e cheias traziam promessas de noites longas e sensuais, sugerindo fertilidade, exultava meu tio. Não, contradizia o Professor: as mãos estendidas, súplices, o sorriso lúbrico, o cabelo comprido e encaracolado demonstravam ser uma deusa do amor dos Ineltepnac. 

Embora indubitavelmente bela, mas continha uma malignidade tão óbvia, que me espantava eles não o perceberem. O riso de seus lábios era sardônico e cruel; o olhar, oblíquo; suas asas, pontiagudas e angulosas, não sugeriam benignidade, mas beligerância. As mãos nodosas, os dedos curtos, ligeiramente encurvados, mais pareciam garras, e não ofereciam nada de bom. Eram, antes, um chamado à decadência, à destruição, ao excesso. Lembrei das palavras da minha tia: “aquela coisa era desgraçada”. 

Nesse momento aconteceu-me algo totalmente inusitado e extremamente estranho: um raio de lua escapou por entre as nuvens, iluminando meu rosto; minha mente desligou-se do instante presente e tive um vislumbre de memórias ancestrais reveladoras, lendas, rituais, magias dos Ineltepnac - e de quem era a deusa representada por aquela estátua. Juro a vocês que vi os olhos dela se voltarem para mim, estreitando-se de ódio.

(Não me perguntem, por favor, como isso aconteceu. Até hoje não sei explicar; e, se não fossem as sequelas que até hoje carrego, duvidaria de tudo o que ocorreu depois. Mas estou me adiantando. Voltemos, pois).  

Tudo passou muito rápido. As memórias, no entanto, ficaram. Ficou também algo, ou alguém,  uma espécie de entidade, não sei - e acho que nunca saberei - dentro de mim, partilhando minha mente. Confesso a vocês que estava apavorado. Nunca tivera uma experiência mística em toda minha vida. 

Até que convenci-os a voltar, dizendo que, cansado como me sentia, não conseguiria decifrar os dizeres esculpidos na base da estátua - sou linguista com especialização em línguas antigas (e mortas, como o ineltepnateco). Meu tio e o Professor discutiam, alterados, seus pontos de vista, mas seguros de que estavam diante de uma descoberta arqueológica que lhes traria fama e fortuna, revolucionaria a história da região, e explicaria, talvez, o desaparecimento súbito do povo Ineltepnac. 

Grandes Deuses! A magia negra da deusa da destruição já estava fazendo efeito! Contei tudo à minha tia, que baixou a cabeça, desconsolada. A chegada da deusa Nshtabala significava ruína. Ganância, cupidez, luxúria, violência, alcoolismo, loucura. Os sentimentos mais sórdidos que aprisionamos no fundo de nossa alma afloravam e explodiam, incontroláveis e iracundos, sob a influência dela. 

E eu, eu não era mais dono de mim desde que o raio do luar me atingira. Minha mente consciente não entendia o que estava acontecendo, mas aquele "algo" que não minha persona controlava e guiava minhas ações: fui ao depósito onde minha tia guardava suas magias e preparei um alforje com sal, óleo de olíbano, incenso de sálvia, fósforos. Por mim, teria ficado em meu quarto escondido debaixo das cobertas, mas, como disse, não tinha mais controle sobre meus atos.

Voltei à noite fria, para ler a inscrição na base da estátua. Senti que não teria dificuldades em decifrá-la. 

O vento soprava forte. Soprava uma poeira pedregosa e afiada, que cortava minha pele e arranhava meus olhos. Soprava ameaças veladas, que enregelavam meu coração e me davam ânsias de fugir correndo, aterrorizado. 

A estátua, acreditem, emitia um zunido baixo e constante, como se uma grande colmeia estivesse dentro dela. Aquela coisa estava viva, apenas aguardando para que sua influência nefasta atraísse incautos para adorá-la. E, depois, tudo desapareceria numa nuvem de dor e sangue. 

A inscrição estava em ineltepnacteco pré-tristaniano. O esforço para me concentrar apesar do zunido e do medo me davam ânsias e engulhos.  Ainda assim, eis o que consegui traduzir, grosseiramente, com a ajuda, não duvidem, da entidade dentro de mim: 

Eu sou Nshtabala, a Destruidora. 
Malditos sejam meus inimigos e também meus adoradores. 
Vim do fogo e só ao fogo retornarei,
Se você tiver não tiver o coração forte consumirei sua vida. 

Não tenho coração forte, posso lhes assegurar. Quis fugir dali na mesma hora, mas não consegui. Por falta de opção, fechei os olhos e me entreguei à entidade que me ocupava o corpo e o espírito – que, ao menos, pelo que intuí, era um oponente daquele ser medonho. 

Entoando cânticos cujo significado desconhecia, mas que me vinham naturalmente à boca, cerquei a mim e a estátua num círculo de sal. Untei-nos com óleo de olíbano. Acendi uma fogueira com algodão-sagrado, sálvia e artemísia. O vento parara de soprar.

Acendi um círculo de fogo.
 Sabia, em alguma parte da minha mente, que deveria derreter a estátua.
Só não sabia o que ia acontecer comigo. 

Foi horrendo, quase enlouqueci. Gritos de gente torturada ressoavam em meus ouvidos, senti dentes afiados rasgarem a minha carne e quebrarem meus ossos. Parecia que eu também, assim como a estátua, estava derretendo. A dor era insuportável; eu me contorcia e urrava, pensei que fosse morrer. Aliás, eu queria mesmo morrer para acabar com aquilo. Se me perguntarem como resisti ou porque não saí, terei de responder com o silêncio. Pois não sei com certeza. Acho, apenas, que o oponente de Nshtabala era mais forte que eu. Mais forte que ela.

Apresso-me, agora, pois prometi-lhes contar essa história em somente dois capítulos. A estátua só derreteu inteiramente ao amanhecer, e, talvez por sortilégios de minha tia, ninguém interrompeu meu ritual. Quando tudo terminou, desmaiei e só acordei com o sol a pino. Misturei sal às cinzas e espalhei-os no ar. Nshtabala e seu poder desapareceram. (Pelo menos, naquela forma).

Finalizo esse longo relato. Sou, novamente, dono de mim. Restaram-me algumas sequelas daquela noite incrível: queimaduras, músculos distendidos e pesadelos - que perduraram por bem mais de um ano. O Professor Sondaar-Dief prometeu me denunciar como vândalo, e meu tio ameaçou deserdar-me. Não me importei com um nem com outro. Pela primeira vez na minha existência pacata eu vivenciei uma aventura heroica, cumprindo uma missão sagrada. O que pode haver de mais importante que isso?

Eu agora sabia o que acontecera ao povo Ineltepnac, meu povo ancestral. Detinha um segredo que jamais, nem por toda a glória vã desse insensato mundo eu revelaria. Até porque ninguém iria acreditar.

Foto: Skitterphoto in pixabay


Partilhar