sexta-feira, 21 de julho de 2017

A CRIANÇA FERIDA E A CRIANÇA ILESA >> Paulo Meireles Barguil

Uma estimada leitora me enviou, na semana passada, sucinta postagem sobre a criança ferida, tendo em vista que, há mais de uma década, conversamos muito sobre isso.

Embora o texto fosse bastante interessante e pertinente, pois esclarecia o quanto as nossas experiências frustradas na infância deixam marcas profundas no nosso crescimento emocional, atônito, percebi o quanto eu, durante anos, acreditei, desenvolvi e divulguei um olhar baseado apenas na falta.
 
Sim, essa perspectiva é parcial, assaz tendenciosa, uma vez que enfatiza e valoriza o que não foi satisfatório ou agradável.
 
E os momentos saudáveis?
 
Se estamos biologicamente vivos é porque recebemos o mínimo de afeto para prosseguirmos na nossa jornada.

Não tenho a pretensão de refutar, nem de analisar o impacto das feridas do passado nas escolhas que fazemos, as quais, por vezes, perpetuam o sofrimento, a despeito do nosso discurso de vítima, que soa vigoroso e convincente, mas que revela, de modo categórico, para um ouvinte sensível, o quanto estamos desconectados da criança ilesa.
 
Sim, ela também está intacta!
 
Antes que alguém me alerte que a ausência da consciência desse vínculo é fruto das mazelas pretéritas, eu ouso contestar e declarar que ele não é vivenciado também porque não temos nos dedicado a entender e a celebrá-la da mesma forma como fazemos com a outra.

Uma estratégia  ardilosa da criança ferida é se fantasiar de criança ilesa, na tentativa de que todos, inclusive ela, acreditem que a primeira não existe, apenas a segunda.
 
Ciente sou de que muitas pessoas tentam esconder, de si e dos outros, as suas chagas, de modo especial por não terem recebido, na quantidade e na qualidade por si desejadas, o afeto, o cuidado dos seus responsáveis.
 
Então, vagueiam em florestas urbanas, repletas de zumbis e outras entidades, com a esperança de aplacar seu sofrimento emocional, mediante aplausos, flashes, sorrisos efêmeros, likes e drogas similares ou ainda mais nefastas, pois que degradam corpo e alma.

Como diferenciar uma da outra?

Ah, é bem fácil...

Enquanto uma reclama e fala mal dos outros, a outra agradece e exala amorosidade.

Enquanto uma julga e exclui, a outra compreende e acolhe.

Enquanto uma guarda mágoas e planeja vingança, a outra distribui perdão e emana compaixão.

Enquanto uma vive com fome e acumula, a outra está saciada e partilha.

Enquanto uma está no passado e no futuro, a outra está no presente e na eternidade.

Esclareço que essas realidades não são estanques, definitivas, pois, conforme a Física Quântica explicou no século passado, ondas e matéria são possibilidades da energia.

A criança ferida é a criança ilesa.

Cada um de nós pode vibrar em um padrão ou em outro...

Se você hoje, adulto, não consegue identificar, dar atenção e priorizar a sua criança ilesa, com quem convive ininterruptamente, será que é sensato esperar que outra pessoa, com sua criança ferida, o faça por você?
  
A vida convida você, diariamente, a reconhecer que ambas existem, bem como a assumir a responsabilidade para que elas se (re)encontrem e possa acontecer uma fusão psíquica de imensurável potencial amoroso.

Percebo, com muita alegria, que, cada vez mais, as crianças ilesas estão brilhando.


[Grato sou a Aídda Pustilnik e Cipriano Carlos Luckesi, que, há mais de duas décadas, desenvolvem a deslumbrante vivência Curando a Criança Ferida dentro de nós, a quem dedico essa crônica]


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quarta-feira, 19 de julho de 2017

QUEM SOU É UM MISTÉRIO QUE NÃO SEI RESOLVER >> Carla Dias >>


Quem nunca viu essa cena em algum filme, em uma contemplação forjada pela casualidade, até mesmo como protagonista da mesma? Porque encarar a si no espelho é rotina. Banhar o rosto, faxinar os dentes, alinhar os cabelos. Perceber o que incomoda e o que apraz.

Hoje, porém, minha rotina parece funcionária do improviso. Percebo-me de um jeito outro. Não me importo com as tarefas usuais de quem se olha no espelho às seis da manhã, enquanto se prepara para o trabalho. Não tento fazer de conta que não percebi os incômodos tatuados em meu rosto pelas marcas de feição, tampouco a opacidade que tomou os meus olhos. Meus dentes desaparecidos em uma boca que se nega a se arreganhar em sorriso. Meus cabelos, seus desgrenhados absolutos, não faço ideia de como o alinho se comportará diante de sua revolta.

O problema é que sinto saudade imensa de mim. Os amigos dizem que é saudade infundada, que não há como sentir falta de quem se é. Eu entendo a gentileza deles, mas ando mais curioso a respeito da aridez de seus verdadeiros pensamentos. Eu sei que eles se cansaram dessa minha espiral de silêncios, suspiros de duração absurda, desejo de fechar os olhos e dormir para acordar daqui a uma década. Todos esses itens que compõe a lista do que atalha a alegria alheia.

Nada mais justo do que me retirar, o que nem foi assim tão difícil. Para quem sente saudade de si, com tal violência, ausentar-se do outro é apenas questão de baixar o olhar e seguir em frente. Assume-se assim a culpa pelo ocorrido, deixando os abandonados com a sensação de que tentaram tudo, mas foi impossível salvar ser tão dedicado ao erro. Já que culpá-los nunca foi meu desejo, deixá-los infelizes pela convivência unilateral, também não, recolho-me.

A saudade que sinto nem é de uma história que já vivi, para a qual rumino o desejo impossível por outro desfecho. Não é sobre o que faria se tivesse escolhido aquilo, em vez daquilo outro. Não é saudade do que fiz, mas de mim. Não é saudade de quem fui, mas de mim.

Saudade dessa pessoa que sou e ainda não conheci.

Imagem: Landscape from a Dream © Paul Nash

carladias.com

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sábado, 15 de julho de 2017

UM SENTIMENTO >> Sergio Geia



A primeira vez aconteceu quando fui levar meu filho pra prestar vestibular no Mackenzie. A faculdade fervia de gente. Os jovens conversavam, fumavam, se beijavam, até que deu o horário e o pátio ficou vazio. Fui então andar. O Mackenzie é bastante arborizado, com bancos para as pessoas sentarem, numa espécie de praça privada bem bucólica numa escola em pleno centrão de São Paulo. Tem o Starbucks, uma praça de alimentação com o Bob’s, o Pão de Queijo, o Rei do Mate, um bom espaço pro aluno estudar, biblioteca, o Itaú. Foi quando o esperava terminar a prova, a faculdade enchendo de novo, os jovens chegando, saindo, alguns de terno, outros tatuados e com cigarros entre os dedos, que o pensamento bateu: “Puxa, no meu tempo não tinha isso. Ou, se tinha (e tinha), eu que não fui atrás. Me contentei com a vidinha controlada e estreita de sempre”.
Outro dia descobri o Oasis. Primeiro, uma amiga me emprestou uns CDs, alguns do grupo britânico. Já conhecia a Wonderwall, que tocava num programa de esportes da televisão. Num domingo de chuva, em casa, fiz o almoço tomando uísque e assistindo a um show deles, em Manchester. Eles tocaram Stand by me e as guitarras de Stand by me me acertaram num lugar que me levou a nocaute; fiquei vidrado. Depois rolaram Live Forever, Don’t look back in anger, Go let it out, Supersonic, não exatamente nessa ordem. Descobri que eles já estiveram no Brasil, em São Paulo, Rio, Curitiba, Porto Alegre; em 2001, tocaram no Rock in Rio. Descobri entrevistas dos irmãos Liam Gallagher (vocalista) e Noel Gallagher (compositor da banda e guitarrista) com o Zeca Camargo para o Fantástico; uma em 1998, outra em 2009. Descobri que a cada show que assistia, mais eu gostava; era uma musicalidade que me dizia coisas, que me tocava fundo. E finalmente descobri que os irmãos Gallagher brigaram e que o Oasis não existe mais. Aí o pensamento bateu de novo: “O que eu tava fazendo no final da década de 90 e início do 2000? Onde eu estava com a cabeça? Como não descobri o Oasis a tempo de curtir um show em Sampa? Como descobri esse som somente agora, quase oito anos depois do fim da banda? Eu estou é muito atrasado.”
Comecei com House Of Cards essa coisa de séries; confesso que nunca curti muito uma série, nem conto ou crônica; nem poesia. Sempre preferi os longas, e, nas livrarias, Roth, Coetzee, McEwan, Tezza, Hatoum, romances, romances, romances. Mas ouvia o pessoal falar, comentar, que insisti e acabei me jogando de cabeça em Breakin bad. A história do professor de química, sujeito comum, inexpressivo, com sentimento de inferioridade, mas gênio, condenado à morte por um câncer no pulmão, e que passa a produzir metanfetaminas, se tornando um dos maiores produtores da droga dos Estados Unidos. Depois descobri que a série é de 2008, que passou no Brasil até em tevê aberta, e eu, nada. Tá, eu sempre dei de ombros para as séries, e, convenhamos, ela só começou a passar no Brasil em junho de 2010 pelo canal pago AXN.
Tudo bem, mas e o que o Mackenzie, o Oasis e as séries têm em comum? Eu. Na verdade, não necessariamente eu, mas um sentimento que brota de vez em quando e que me diz que eu tenho um problema, digamos, de natureza temporal, e de que estou virando meu nariz sempre no tempo errado e pro lugar errado. E uma sensação de que isso é péssimo. E uma sensação de que a vida tá passando e que ela é muito rica pra ser desperdiçada assim. E uma sensação estranha que me remete a um carro que vive andando em marcha à ré. E uma sensação de que sou incapaz de encontrar a sintonia fina do hoje.
Decerto agora, agorinha mesmo, uma cena está rolando (na verdade, milhões de cenas estão rolando em todos os lugares), que seria fantástico conhecer, mas eu tô aqui fazendo um tour pela memória, acarinhando a incúria que o Mackenzie me desperta, vibrando com o Oasis, assistindo séries de 1995. O que tá rolando agora eu vou descobrir quem sabe daqui a uns vinte anos. Quem sabe...


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sexta-feira, 14 de julho de 2017

O AMOR ENTRE O JASMIM E O MAR >> Zoraya Cesar

Ela entrou, elegante, charmosa. Não era jovem. Chegara àquela idade em que as mulheres tornam-se invisíveis aos homens comuns, interessados apenas em pernas, carnes e coxas. Ela, porém, não era mulher para homens comuns. 

Era para ser apreciada ao som de música clássica nas noites de frio, íntimas, quando as vozes ficam baixas e os toques são suaves; ao som do jazz de New Orleans nos dias de verão, alegres, quando as vozes tilintam ao borbulhar do champagne. Uma mulher de classe. Uma mulher para a vida inteira.

Pequena, rechonchuda, lisos cabelos castanhos cortados estilo Chanel. O vestido cinza chumbo, o casaco de lã azul, os escarpins e bolsa pretos, o andar, os maneirismos, tudo nela era pura elegância. Uma bonequinha, não de luxo, mas de outono. No rosto gentil, a maquiagem realçava a beleza, sem tentar esconder os traços do tempo, deixando que as rugas se expressassem livremente. Uma mulher sem artifícios. 

Ela entrou, pois, no restaurante; este, uma raridade não encontrada em qualquer lista de estabelecimentos, sequer no Google. Um clube seleto, criado por um grupo de amigos e aberto apenas para os sócios e seus convidados. Um lugar para encontros secretos, de amor ou de negócios, ou, simplesmente, para fugir do mundo, descansar, apreciar a vista e a boa comida em silêncio. 

A iluminação era natural, vinda das largas janelas pelas quais se via o mar, o céu e o infinito. O salão, amplo, decorado como um convés de alto luxo; havia doze mesas, espalhadas de forma a que não se ouvisse a conversa entre os clientes de uma mesa para outra. Podia-se circular sem receio de esbarrar em outrem. Serviço de linho e prata, copos de cristal e, ao fundo, a voz suave de Sam Cooke. 

De repente, as faces da mulher se rosearam, fazendo-a parecer uma menina. Com as rugas, o ligeiro sobrepeso, as vicissitudes da vida – ainda assim, uma menina. Uma menina feliz. 

Ao fundo do salão, um homem se levantara. Tinha, pelo menos, dez anos a mais que a mulher. Os cabelos brancos, cortados rentes à escovinha, encimavam um rosto severo e sofrido, no qual se viam as marcas típicas de quem trabalhou durante anos ao ar livre. Alto, espadaúdo, forte, um homem no inverno da vida, mas ainda em plena forma. Sua postura ereta e seu porte não deixavam dúvidas de que fora militar. Tudo nele transmitia poder e segurança. Um forte, dir-se-ia, de quem o tempo e o destino não tiveram muita clemência. 

E eis que, ao vê-la, ele, também, rejuvenesce, o coração cheio das esperanças de quem tem a vida toda pela frente, confiante de que sempre terá as mãos da mulher amada entre as suas. Disciplinado por toda uma vida, só Deus sabia o quanto lhe custou não correr até a mulher e apertá-la em seus braços, nunca mais deixá-la ir. Aguardou, silencioso e firme, que sua dama chegasse, flutuando, à mesa. 

Mergulharam nos olhos um do outro por tempos infindáveis, apreciando o momento único, o perfume, as covinhas no rosto, os olhos azuis-céu da manhã, a delicadeza dela; o cheiro de sol e mar, as sobrancelhas hirsutas e graves, a força dele. 

Ele beijou-lhe a mão, longa e apaixonadamente, puxou a cadeira para que ela sentasse. O maître trouxe os pedidos antes mesmo de ser chamado, sabendo bem as preferências de cada um.

Durante todo o almoço conversaram em voz baixa, olhando-se, sorrindo, e, de vez em quando, entrelaçando as mãos suave, suave, suavemente, como temerosos que, a um gesto mais brusco, o outro se desvanecesse, como uma ilusão. Não havia dos arroubos típicos dos apaixonados, só contentamento intenso, profundo, gratos por estarem, mais uma vez, juntos. 

Ao terminarem, ele acenou sutilmente para o maître, que, logo depois, veio à mesa, avisar que o carro da senhora havia chegado.

Um gentleman até a última célula, até o final dos tempos, ele a acompanhou e, mesmo não precisando, olhou para o motorista como se dissesse:“Essa pessoa é muito preciosa para mim. Cuide que ela chegue em segurança, ou é comigo que você vai se haver”. E tenham certeza que o motorista sabia disso. 

Antes de ela entrar, o homem segurou-lhe ambas as mãos, os olhos cheios de mar e solidão. Ela se soltou, mais gentilmente que uma fada, e passou os dedos no rosto dele, puxando as lágrimas para si, como se dissesse não fique assim, meu Amado, as coisas são como são e nós temos a fortuna de, após todos esses longos anos, ainda nos vermos, tocarmo-nos, sentirmo-nos. Eu te amarei até o final dos dias, dos tempos, da eternidade. Não perca as esperanças. 

Quando ele perdeu o carro de vista, voltou para o restaurante. Ficaria a tarde ali, a pensar na sorte madrasta que o impedira de se unir à mulher de sua vida, no sofrimento dela quando obrigada a se separar dele, nos rumos estranhos que suas existências tomaram. Ficaria a tarde ali, a sonhar acordado com a possibilidade de, antes de morrer, passar um dia, um dia apenas, seu último dia sobre a Terra e o Mar, que fosse, ao lado de sua Amada da Vida Inteira, sem segredos, livres das amarras sociais, livres das responsabilidades familiares, livres.

Sentou-se de frente para o mar, seu outro amor. O maître pigarreou baixo, para chamar-lhe a atenção. Entregou-lhe um envelope, pequeno e perfumado a jasmim – o perfume dela! -, sussurrando, a senhora deixou isso sobre a mesa, creio que para o senhor. E afastou-se.

As mãos grandes e nodosas do homem abriram o envelope com a delicadeza de quem manuseia um bibelô de porcelana chinesa. Dentro, havia um bilhete, onde ele leu, com um sorriso escondido no fundo da alma:

- Um dia, em breve...


Sam Cooke
You're always on my mind







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quinta-feira, 13 de julho de 2017

DOCE, DOCE... >> Analu Faria

Eu sou dessas que olha um Querer com a impaciência de quem olha um gato preguiçoso. Eu sou daquelas que só nota que o  Querer se fez carne depois que Ele já anda e fala. Funciona assim: aciono um Querer e O desejo na mesa para ontem. Ele cozinha ali na alma (na cabeça?), às vezes uma vida inteira. Quando vejo,  já está servido.

Foi desse jeito com um louco vício em açúcar, que eu tenho desde que me chamaram pelo nome (e eu respondi). De uma hora para outra, o vício tomou seu rumo, como eu Queria (mas não quando eu Quis).

O vício em doces pode ser até que volte, apesar de um sumiço passageiro já ser impressionante. De qualquer forma, o Querer-gato me assusta. Cozinha tão devagar que às vezes o considero desandado. Aparece pronto quando menos se espera.

É claro que isso aconteceu com coisas mais sérias da vida, principalmente depois que fiz o Caminho de Santiago, mas o que parecia impossível mesmo é eu deixar de ser a louca do doce.



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quarta-feira, 12 de julho de 2017

MELANCOLIA >> Carla Dias >>


É que eu não entendo direito. Tento, mas o essencial me escapa. Talvez eu seja – ou esteja – muito distraída para compreender o linguajar que tenta enredar o outro, a fim de minimizar suas tragédias, humilhar suas buscas, distorcer seus direitos. Talvez seja mesmo do signo, e eu desembeste a dizer bobagens. E não quero ser mais uma a dizer bobagens que ofendam, em vez de trazer para a discussão algo que valha a pena ser compartilhado. Não quero verbalizar a ignorância. Não quero propagá-la.

Posso falar sobre delícias. Mas não o farei usando personagens que adoro inventar, porque, hoje, nenhum deles veio me visitar. Estou eu mesma, então que as delícias têm de ser minhas.

Café. A maior delícia de todas. Começar a escrever um livro assim, colado naquele último que adorei escrever. Folhear catálogo de lojas de material de construção e afins. Essas lojas são para mim o que as de roupas e sapatos são para alguns.

Tem o que engasga, também. Feito aquelas mensagens pedindo para assinar petições, que trazem todo tipo de problema que você até tenta, mas não tem o poder de resolver. A impotência me estressa, enverga mesmo. Coloca-me de cara com a vontade de chorar feito criança. Queria poder dizer aos que me mandam tais petições que sinto muito por eles terem de passa por isso. Sinto por seus filhos não resistirem a um sistema que se debruça somente em estatísticas; que lida com a urgência como se ela pudesse prolongar seus prazos e adiar seus desejos.

Sinto mesmo.

Uma pena que eu não entenda direito. Isso não significa que não esteja escutando, observando, tentando mesmo compreender esse imbróglio. Clareza me remete ao justo. Será que é uma percepção equivocada a minha?

Ainda sobre delícias: cultivar aquele afeto que dará em nada, que você sabe que vive da invencionice, mas que ajudou aí na criação de uns poemas daquele livro nascido há pouco. Melhor manter o afeto respirando.

Na falta de conhecimento para me posicionar; de energia para tentar compreender, finalizo essa crônica destrambelhada com um poema de amor que nunca será.

É o que posso oferecer nesse hoje.



Imagem: Melancholy © Jan Zrzavý

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terça-feira, 11 de julho de 2017

PARA SEMPRE >> Clara Braga

Todo mundo, em algum momento da vida, já teve que lidar com o tal do para sempre.

Confesso que, no geral, acho que as pessoas lidam até muito bem com essa conversa de eternidade.

Quem nunca fez uma jura de amor eterno até que conheceu outra pessoa e percebeu que amor eterno é muito mais do que aquilo que se tinha antes?

Ou então jurou que o melhor lugar do mundo para se passar o resto da vida era aquele em que se estava, porém, decidiu olhar para o lado e descobriu que naquele outro lugar poderia ser muito mais feliz.

Tem também as pessoas que dividiram aquele colar de amigas para sempre com a amiga da escola e hoje em dia não fazem ideia do que aconteceu com a outra metade.

E as promessas de que aquele vício ficou para trás para sempre até o fim de semana? Ah, mas fim de semana não conta vai, afinal, ninguém é de ferro.

A verdade é que lidar com o para sempre é relativamente mais fácil do que se parece porque desde cedo aprendemos com nossa querida Cássia Eller que para sempre é uma coisa que sempre acaba.

Eu também já joguei nesse time do que seja eterno enquanto dure, afinal, abrir mão de algo me parece um ótimo caminho para que novas portas se abram, mas há sete meses toda a minha teoria mudou. Fiz um exame de sangue e descobri que seria mãe. Nunca me senti tão confusa, feliz, triste, assustada, indefesa, com medo e destemida antes em minha vida, e o nome disso sabe qual é? Para sempre! 

De agora em diante serei para sempre mãe desse pequeno. E não é só esse laço que é para sempre, uma criança une pessoas que muitas vezes nem escolheram estar juntas ou dividir algo na vida, mas não é uma opção, elas estão conectadas para sempre, gostem ou não.

Não gosto de discordar de grandes ícones e sei que falando isso não estou discordando só de um ou dois, mas de muitos. Mas agora, só agora, entendo que para sempre é algo tão grandioso que nunca vão conseguir definir, pois algo só é para sempre quando a gente sabe onde começa, mas daí para frente só Deus sabe no que vai dar.


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segunda-feira, 10 de julho de 2017

CORAGEM! EU ESTOU AQUI >> Albir José Inácio da Silva

Cresceram juntos, mais que irmãos. Nunca pararam pra combinar coisa alguma, mas a sobrevivência impunha a sociedade. Fazia cada um o que sabia no negócio de porcos. Zé do Porco matava porco e Magrelo fazia contas e negócios.

Zé do Porco matava porco desde que se lembra. Como seu pai e, talvez, seu avô, mas não tem certeza. Memória, aliás, ele não tem muita, de nada. Nada dessas coisas de lembrar, pensar,  resolver. Sabia ir vivendo, forte como um touro. Gostava de trabalhar, de comer e de Nalva.

Nalva namorava Zé do Porco há muito tempo, meio desesperançada porque ele era Zé do Porco.

Magrelo era magrelo mesmo. Seco e ágil, não gostava de trabalho duro, mas era manhoso na barganha e nas contas. Fazia, segundo ele mesmo, milagre nas contas.

A questão é que não tinham porco pra matar. Alugavam o trabalho do Zé quando alguém precisava. Mas quem tinha porco matava seu próprio porco. Ficavam na dependência de algum idoso ou viúva que precisasse.

Foi Nalva que teve a ideia, Magrelo gostou, e Zé do Porco não queria.

- Não gosto de cidade! E não quero ficar longe de tu, Nalva.

Mas a coisa estava mesmo ruim. Ninguém matava porco, ninguém vendia porco porque ninguém comprava porco. Comprava-se fubá, farinha, feijão, ovo - quando muito. Pra isso que tomaram o governo? – perguntava-se.

Zé acabou concordando quando Nalva falou que ia junto. Reuniram as economias, e Magrelo partiu na frente pra arrumar lugar. Depois foram Zé, Nalva e as trouxas que pegaram ônibus pro Rio de Janeiro. Alugaram uma casa no subúrbio distante, com um quintal pra Zé do Porco trabalhar.

E Zé trabalhou como nunca antes em sua vida de homem que gostava de trabalhar. Raramente o porco era entregue em sua casa. Procurando preços melhores, Magrelo comprava porcos distantes e sem entrega. Ia o Zé buscar porco nas costas.

Também não pôde mais matar porco no quintal. Os bichos guinchavam muito alto na hora final, de madrugada, e os vizinhos ameaçaram denunciar. Agora Zé carregava porco nas costas até uma clareira afastada, matava o porco, e depois trazia de volta em sacos que pesavam muitas arrobas. Às vezes já era noite quando terminava de cortar a carne que seria entregue no dia seguinte.

E a entrega também era ele que fazia. Magrelo era franzino, não aguentava peso e além disso estava sempre envolvido em negociações, compras e vendas. Mas Zé do porco não reclamava. Não faltava trabalho, então tudo estava bom.

Magrelo comprou umas roupas porque precisava tratar com as pessoas, os comerciantes, os fazendeiros, e não podia se apresentar de qualquer jeito. Deu dinheiro pra Nalva também comprar porque “sabe como é mulher, né?”. Zé disse que pra ele não precisava:

- Só uso roupa de trabalho, suja de sangue, qualquer pano velho serve. Gasta dinheiro com isso não.

Zé do Porco pensou que estava tudo bem. Magrelo não prestava contas porque Zé nunca gostou, não entendia, cansava e dizia pra fazer o que precisasse. Por isso ficou surpreso com a conversa de Magrelo.

 - As coisas tão ruins, Zé. Dinheiro só dá pra pagar, sobra nada. O porco em pé tá muito caro e, na hora de vender, não querem pagar muito. Os frigoríficos vendem mais barato e com documentos, certificados.


(2ª e última parte em 24 de julho)


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sexta-feira, 7 de julho de 2017

QUANDO O DEPOIS É AGORA >> Paulo Meireles Barguil


"Todos os dias quando acordo
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo"
(Renato Russo, Tempo perdido)

Uns falam: "Não deixe para amanhã  o que você pode fazer hoje!".

Outros provocam: "Não faça amanhã  o que você pode deixar para depois de amanhã!".

Qual sábio conselho adotar?

Há quem siga o primeiro para o lazer e o segundo para o trabalho.

Quem prefira o contrário: adia o prazer e antecipa o labor.

E quem, com gosto eclético, que ora escolhe o primeiro, ora escorrega para o segundo...

Diante da vida tão sutil e efêmera, a Humanidade criou vários formas de medi-la.

Relógios diversos — solar, de água, de areia, mecânico, digital... — e calendários variados  — Chinês, Judaico, Maia, Juliano, Islâmico, Gregoriano...

Mas a dúvida persiste: antecipar ou procrastinar?

Para resolver esse dilema, acho que, por ora, vou esconder — jogar fora seria muita estripulia! — o ponteiro das horas...


Em breve, vou surrupiar, também, o dos minutos...


[Relógio da Torre Bissara — Vicenza — Itália]
 
[Foto de minha autoria. 12 de março de 2013]
 
 
[Relógio da Torre de Mangia — Siena — Itália]
 
[Foto de minha autoria. 16 de março de 2013]


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quarta-feira, 5 de julho de 2017

UM DIA E MEIO >> Carla Dias >>


Nasceu há uns bons pares de décadas. Porém, somente há pouco sentiu o tempo a lhe desfalecer a pele, feito um abate. Como se ele tivesse fechado os olhos jovem e ao abri-los, fez-se outro, mais cansado. Tão mais existido.

Nunca foi obstinadamente vaidoso, mas sempre apreciou a jovialidade de seus desejos. Eles que se deitaram com ele ontem, atiçadíssimos. Nem todos acordaram com ele hoje. Foi um funeral dramático, durante o café da manhã, enquanto a rotina acontecia sem dar a menor atenção à ausência de seus audaciosos bel-prazeres.

Viveu muitas histórias. Algumas ele decidiu guardar para si, apesar de ser conhecido por compartilhar suas pessoalidades sem qualquer cerimônia. Apreciava como os espectadores reagiam às suas loucuras íntimas, independente do tema. Mas veja bem, ele nasceu ontem, ainda que a certidão de nascimento insista que foi há bons pares de décadas.

Sente que o tempo o enganou. Passa as mãos trêmulas pela cabeça nua, como que explorando o improvável, observando o que lhe aconteceu por erro de um Deus que não prestou atenção nele como deveria. Porque ainda há tanto o que realizar. São muitas as histórias para concluir. Não é justo que o tempo, mancomunado com alguma divindade que não tem mais o que fazer, além de garantir que ele passe, o impeça de seguir adiante com suas vontades.

Onde estava quando a vida aconteceu? O que fazia que nem percebeu que nada ficou? Ninguém ficou. O que pensava, enquanto ruminava a certeza de que amanhã resolveria isso, depois de amanhã, aquilo outro? Não que seja um ignorante das ciladas existenciais. Leu livros sobre o tempo que passa sem que as pessoas percebam. Assistiu a filmes e documentários a respeito. Conversou com as vítimas dele. Ainda assim, parecia tão distante tal cilada. Parecia que ela jamais caberia em sua biografia.

Então, o dito popular assumiu seu posto de verdade: a vida passa mais rápido do que imaginamos. Contudo, muitas vezes ela passa rápido justamente porque a imaginamos demais. Pobre de nós que vivemos do prospecto dela, do que será dela no amanhã, dos sonhos nascidos para a mais pura protelação.

Ele não é dado às lamentações, por isso amarga essa necessidade no seu hoje. Lamentar-se é a forma que encontrou de manter sua voz ativa. As pessoas – aquelas às quais o tempo ainda não açoitou para valer –, elas o escutam, mas já não se interessam tanto sobre o que ele tem a dizer. As suas aventuras não atendem mais à curiosidade daqueles que o cercam.

Talvez ele entenda, nesse agora, aquela história que seu pai lhe contou, quando ele ainda era menino. Era sobre a importância de se cercar de pessoas que não somente nos ouçam, mas que ousem nos fazer escutar o que não queremos. São elas que permanecem, quando permitimos. Sim, mais um clichê. Hoje ele sabe o quanto eles são importantes. Eles são verdades tratadas com distância, de tão complexas, difíceis de se encarar, torturantes.

Passou rápido, nem deu tempo para ele se acostumar com a fragilidade das pernas, com a geografia das rugas, com os nomes dos genéricos sobre o criado-mudo, tampouco com a falta de graça em suas piadas ensaiadas. Talvez more aí o problema, não deveria ter ensaiado, mas sim abraçado o improviso. Imagine quantos o teriam odiado e amado e intrigado.

Deseja, enquanto se engasga por conta da tosse insistente, que o tempo não lhe arranque as memórias que ainda acalentam sua existência. Já aceitou Deus, com a aspereza de quem não quer abrir mão do direito de não acreditar. Enveredou-se pelo desespero daquele que, na solidão dos afetos, apega-se aos santos. Nasceu ontem, logo depois de se decretar um devoto, digno de receber o benefício de uma vida depois dessa.

Na ausência de fome, na necessidade de permanecer onde está, ele espera por essa outra vida, na qual desfiará inquietações, respirará intrigas, discursará sobre a necessidade do improviso. Reza o terço que ganhou da enfermeira, quem o ajudou a nascer desse jeito novo. Na terceira Ave-Maria, ele já se perdeu da reza, rendido que está à cadência dos quadris da santa enfermeira que lhe salvou a alma.

Morreu jovem, nascido há apenas um dia e meio. E feliz, porque driblou o tempo e partiu, mas não sem antes cometer um último pecado.

Imagem © Kahlil Gibran

carladias.com

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terça-feira, 4 de julho de 2017

ACHARAM QUE EU CASEI >> Clara Braga

Essa semana me diverti lendo comentários de uma foto no facebook! A foto? Eu e meu namorado abraçados, vestidos formalmente para sermos padrinhos de casamento do meu irmão. O problema? Meu namorado adora inventar palavras estranhas e decidiu colocar na legenda da foto a seguinte palavra: casamentchucos. O que essa palavra significa? Pra mim e para poucas pessoas significa que estávamos indo a um casamento, mas para várias outras significou que nós tínhamos casado!

Foi impressionante, nunca uma foto minha tinha tido tantas curtidas. E os comentários? Muita gente parabenizando, algumas pessoas que eu nem conheço direito, e chegaram até a cobrar o chá de panela! Como casou e não fez chá?

Imagino a decepção quando descobrirem que não foi nada disso, mas posso imaginar o motivo das pessoas terem chagado a essa conclusão: de fato estamos morando juntos, mas isso não significa que casamos.

Somos companheiros em todos os momentos, nos apoiamos e ajudamos. Quando passo por qualquer situação, seja boa ou ruim, é pra ele que eu ligo para conversar, mas não casamos.

Dormimos juntos todos os dias e quando me levanto para ir ao banheiro ele logo acorda para saber se está tudo bem. E se demoro para pegar no sono de novo ele faz carinho para me embalar. Mas ainda não casamos.

Dividimos o armário da forma mais desigual possível, mas eu acho justo, afinal, eu tenho muito mais coisa, preciso de espaço! Sem contar as prateleiras que podiam ter livros meus, mas eu deixei para a coleção de bonecos dele. E na rotina a gente vai se entendendo. Tira uma coisa daqui, encaixa outra ali, combina o que ele gosta com o que eu gosto e a gente vai se entendendo, mas não casamos.

Ah, claro! Daqui 2 meses nasce nosso filhote que está no forno. E do mesmo jeito que vamos nos ajustando com nossas coisas, vamos nos ajustando pra preparar o mundo pra chegada do nosso pequeno.

Pensando bem, realmente não fomos a um cartório, não assinamos nada, não somos religiosos para irmos a uma igreja e nem contratamos um juiz de paz para ir a lugar nenhum. Mas se parar para pensar, somos muito mais casados do que muita gente que casou só no papel e deixou a rotina de lado.

Acho que no final as pessoas que comentaram a foto é que tinham razão, acabou que eu casei e nem notei. 


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sábado, 1 de julho de 2017

FILOSOFIA DE BOTEQUIM >> Sergio Geia



Tem uma frase do Fernando Pessoa que me toca muito. Dizem que, perguntado sobre o que deveria ser escrito na sua lápide depois que partisse, o poeta português respondeu: “Fui o que não sou”. Desde que li esse aforismo, ele ficou gravado nas entranhas ecoantes do meu cérebro, e reverbera todo dia como um sino, pra me levar a atitudes que talvez eu nunca tomasse na vida.
A última coisa que quero é ser quem eu não sou. Na verdade, quero ser eu, e, em minha lápide, quero cunhado o alegre comentário: “Esse aí foi quem verdadeiramente era. O Geia... Viveu...”. Saber quem somos, talvez, filosoficamente falando, seja o maior problema de todos.
O contrário é mais fácil. Tenho experiências suficientes pra dizer que em muitos momentos da vida, fui quem eu não era.
Fui quem eu não era parte 1.
Estava no lançamento de um livro quando cumprimentei uma conhecida que mora aqui perto de casa, que sempre vejo na rua, que sei quem é, mãe de quem, parente de fulana, amiga de sicrana, trabalha com beltrana. Meu conhecimento sobre ela, contudo, é comezinho e pobre, e para aí. Pois não é que ela veio me cumprimentar toda sorridente, me deu um caloroso abraço, me disse que estava com saudades, que havia tempos não me via, que eu tinha sumido, que onde eu me metera, o que estava fazendo etc., etc., etc. (Não era assédio; não era, eu lhe garanto; era confusão mental mesmo, pura confusão).
Confesso que tenho problemas com situações assim. Em vez de deixar as coisas às claras, dizendo “Querida, você tá me confundindo com alguém, não?”, “Alôô, sou seu vizinho, lembra? Vizinho, moramos perto, nos esbarramos de vez em quando, nos cumprimentamos, lembrou agora?”, eu vou deixando rolar, mesmo sem querer vou dando linha, torcendo pra que chegue alguém, um conhecido, que me tire daquela enrascada. Eu não consigo me livrar sozinho.
Fui quem eu não era parte 2. 
Foi no velório da mãe de um amigo. Dei-lhe um abraço afetuoso, rezei por aquela senhorinha que conheci pouco, mas que quando me via sempre me chamava pelo nome e dizia que se lembrava de mim, depois, me acomodei numa sala anexa e ali fiquei um tempo. De repente, uma moça chega assim do nada e me cumprimenta; eu, educadamente, respondo ao cumprimento. Ela vem:
“Oi, como você está? Há quanto tempo?” – me beija no rosto, me dá um abraço.
“Bem, e você?”, eu respondo.
“E as crianças, como elas estão?”
“Bem também.”
“Devem estar enormes...”
“Sim, João está com 20, a Chiara com 15.”
“Nossa, eu me lembro deles pequenininhos.”
Até aí, tudo bem. A única coisa estranha é que eu não me lembrava dela. Será que a conhecia? Mas de onde? Do trabalho não podia ser. Da igreja, do tempo em que eu frequentava? Será?
Mas a coisa foi se revelando aos poucos.
“Faz tanto tempo que não vou a Ubatuba, você tem ido?”
Opa, pensei, tá começando a ficar estranho.
“A última vez foi em janeiro”, eu disse.
“Então, eu lembro deles, correndo no apartamento, brincando com meus filhos.”
Fodeu, pensei. Tá me confundindo. Eu não tenho apartamento em Ubatuba, meus filhos nunca correram num apartamento, nunca brincaram com os filhos dela, ela nunca deve ter me visto na vida. Será que tá me confundindo com o meu tio?
O problema é que a conversa continuou, eu devia estar escarlate, roxo, vai, e fui tentando levar o papo sem me comprometer (muito), até que ela viu uma amiga (ufa!), me deu outro beijo, e foi.
Alívio.
Que não durou muito. Ela voltou. E desta vez, com o marido. Fodeu de vez, pensei. Na minha cabeça o negócio já se desenrolava como uma cena de teatro: “Olha, bem, quem eu encontrei!” O cara ia olhar pra mim, e um oceano de pontos de interrogação iria aparecer na sua cara. A situação seria muito constrangedora.
Não perdi tempo. Achei um amigo no meio daquela gente toda e fiz dele o meu escudo. Me escondi literalmente atrás dele. Foi constrangedor também, confesso. Mas nem tanto, diante do que estava por acontecer.
Moral da história: seja você! Sempre! 

Ilustração: https://gz.diarioliberdade.org.



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sexta-feira, 30 de junho de 2017

OS DESSEPULTOS - 2a PARTE >> Zoraya Cesar

Leia OS DESSEPULTOS – 1ª PARTEO professor Barain Samd e seus alunos precisavam de corpos, muitos corpos. Roubados de necrotérios e também de cemitérios. Farley, o assistente, não se incomodava em receber tal material, desde que seu pagamento estivesse em dia. Até que ele percebeu algo muito estranho em um dos cadáveres... 

Farley olhou pelo rasgão no plástico, surpreso. Podia jurar que era seu amigo Patrick, com quem, havia poucos dias, bebera aguardente até caírem. Ali, à luz difusa dos faróis da Ranger e da luminária que pendia à porta do laboratório, ele parecia tão... vivo!

O motorista que trazia os cadáveres grunhiu, impaciente com a demora. Era um tipo esquisito, assemelhava-se a um lobisomem, baixo, atarracado, musculoso e peludo, a bocarra cheia de dentes grandes e amarelados. Farley sentia arrepios perto dele. Apressou-se a tirar o cadáver da caçamba e a pagar ao sujeito o estipulado. Só entrou quando, aliviado,  viu os faróis se afastarem na escuridão.

Lá dentro, olhou melhor. Era mesmo Patrick! Mas, como? Patrick era saudável e forte como uma mula. Farley tocou em sua pele – estava quente e macia, mais se assemelhava a quem caíra no sono e não na morte. Não havia batidas de coração. Então, estava morto. Mas não parecia morto. Farley tremia, nervoso. Ainda pensou em sair antes do amanhecer, mas, apavorado com os estranhos sons que vinham da floresta naquela noite - uma mistura de uivos e terra revolvida - resolveu esperar.

Quando voltou ao laboratório, na tarde do dia seguinte, Farley não encontrou o corpo de Patrick, mas nada perguntou ao professor. Os dias passaram, os cadáveres continuaram a ser entregues periodicamente, cadáveres decentes, pensou Farley, evidentemente roubados de cemitérios e necrotérios. E ele debitou o estranhamento com o cadáver de Patrick a algum problema nos nervos, provocado pelo excesso de aguardente e pelas noitadas de jogatina. Afinal, porque Patrick não morreria? Não morríamos todos? Vai ver, pensou, aquele era um cadáver muito normal, não sou médico, que sei eu de cadáveres?

Uma noite, porém, foi trazido um pacote que também não parecia ter sido roubado de cemitérios ou necrotérios. Assim que os faróis da Ranger sumiram na noite, Farley trancou o laboratório e abriu o pacote na altura do rosto do cadáver. Não reconheceu a quem pertencia o corpo, mas tinha as mesmas características do cadáver de Patrick: quente, macio, sem batimentos cardíacos.

Tomado por um pânico irreprimível, impensadamente resolveu entrar no lugar que lhe era interdito: o sótão, onde eram dissolvidos os cadáveres inservíveis. Não encontrando o interruptor que ligava luz do sótão, pegou uma lanterna e subiu. 

O silêncio era opressivo. As mãos de Farley tremiam e suavam tanto que ele teve dificuldades em segurar a lanterna. O raio estreito e difuso de luz não iluminava a totalidade do ambiente, formando sombras indistinguíveis e aterrorizantes para sua mente já abalada pela suspeita de que algo terrível e pervertido acontecia ali. Derrubou um recipiente, cujo conteúdo rolou pelo chão com um ruído úmido e macabro. Farley não teve coragem de olhar para ver o que derrubara.

Vislumbrou, mais do que viu, restos de velas; a banheira; potes cujo conteúdo amarelado e denso lembravam gordura animal; esquisitos tapetes em variados tons de pele; escalpos sem cabeça e cabeças sem escalpo... E uma cabeça destacada do corpo, sobre uma mesa, que Farley reconheceu como sendo de Patrick. 

Movido por uma irresistível morbidez, Farley aproximou-se, sentindo seus pés pisarem em coisas que estalavam como tomates esmagados, ploft, ploft. Sentiu engulhos, e fixou os olhos à frente, para não ver no que pisava. Provavelmente o conteúdo do pote que caíra.

O couro cabeludo de Patrick tinha sido recortado e depois recosturado de volta à cabeça. O ‘serviço’ ainda não havia sido terminado, deixando à mostra pedaços caídos de pele, o osso do crânio e partes de músculo. Farley molhou as calças, descontrolado. Viu, nos restos da face de Patrick, sangue fresco e – horror dos horrores - teve certeza de que os olhos do morto se voltaram para ele, num mudo pedido de socorro. Sua mente entrou num looping descendente para um território infernal, no qual ele pensava sem parar: ‘o sangue continua pingando, ele morreu há dias e o sangue continua pingando, ele morreu há dias e o sangue continua pingando, ele olhou para mim, ele olhou...’.

Num frenesi, Farley desceu correndo, tropeçando pelos degraus, apenas para seu coração quase sair do corpo ao encontrar o Dr. Barain Samd esperando por ele. 

De braços cruzados, vestido com seu jaleco imaculadamente branco, sorrindo sardonicamente, sim, o Dr. Barain Samd esperava por ele.

Antes que ele pudesse pensar ou reagir, num movimento rápido e calculado o professor passou as mãos nos braços de Farley, esfregando-os com uma gosma verde-escura, que cheirava a pântano. Em alguns segundos as batidas do coração de Farley diminuíram e ele ficou paralisado, sob o efeito da droga que o médico passara em sua pele.

- Você pisou em olhos e testículos que serviriam para meus rituais e para o estudo de meus alunos. Esse material custa caro. Estou pensando em usar os seus olhos e testículos em substituição àqueles. E deixá-lo em estado latente, como seu amigo.

A casa onde se localizava o laboratório.
Qualquer que fosse a decisão de Farley,
ele estaria eternamente aprisionado
ao professor Barain Samd,
amaldiçoado para todo o sempre. 
A mente de Farley congelou. O medo era grande demais para que ele absorvesse todo o horror da situação: o ex-médico e seus alunos estudavam em cadáveres roubados de cemitérios e necrotérios, mas também faziam experiências e rituais diabólicos com corpos em estado de hibernação. Seu subconsciente compreendeu tudo, mas sua mente tentava se refugiar num estado de loucura irreversível. 

- Mas, se me trouxer corpos dessepultos ou em estado vivo-morto, como posso te ensinar a fazer, você escapa de virar um espécime do meu laboratório. Ou a se parecer com o meu motorista. De qualquer forma, será meu prisioneiro. O efeito da droga passará em alguns minutos, preciso saber qual sua escolha... 

Farley desmaiou. Quando acordou, estava amarrado a uma das macas, com vários alunos em volta, olhando-o com curiosidade. E, ao seu lado, sorrindo com seus dentes ebúrneos e cruéis, segurando um bisturi, o professor Barain Samd pergunta, um laivo de cinismo na voz:

- Então, o que vai ser?



Foto: Tristine Penderson in Pinterest


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quinta-feira, 29 de junho de 2017

ALEJANDRA, CONFEITARIA, TEQUILA>>Analu

Eu não sabia da existência de Alejandra Pizarnik  até esta semana, quando li o texto de uma das cartas que ela enviou a seu psicanalista. Descobri que ela era poeta e tradutora, argentina (ninguém é perfeito) e que morou em Paris, num quartinho na casa de uma família para a qual fazia uns trabalhos de babá. Alejandra Pizarnik cuidava de uma criança enquanto pensava coisas como :

"Minha única súplica constante é que a fé não me abandone em alguns valores espirituais (poesia, pintura). Quando ela me deixa temporariamente vem a loucura, o mundo se esvazia e soa como um casal de robôs copulando".

Se for pensar bem, tem um monte de gente por aí que é comum e grande ao mesmo tempo. Olha isto: uma mulher que fala do quartinho onde mora e de loucura, fé, robôs copulando. Bendita Internet que me mostra Alejandras.
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Fui fazer um bolo de coco, porque a faxineira me desafiou a fazer um e eu, que não gosto de desafios, resolvi aceitar aquele, considerando que na mesma semana minha regra de "não-competição" já tinha ido para as cucuias quando cedi a pressões para virar um shot de "tequila golden" (vejam bem, este foi um desafio com perspectivas de enjoo e vexame bem maiores que aceitar uma provocação do estilo  "você faz bolo? é sério?"). 

O bolo ficou ótimo, modéstia à parte. Cremoso, que nem aqueles que serviam em festa de criança, quando eu era uma. Bendita Internet que me mostra receitas de bolo de coco. Agora sou alguém que se arrisca na cozinha e faz um lanchinho relativamente respeitável. Enquanto batia a massa, eu pensava: de Alejandra Pizarnik a confeitaria, passando por um negócio demoníaco chamado tequila golden, ainda tem tanta coisa pra eu conhecer...




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quarta-feira, 28 de junho de 2017

ONDE ESTÃO OS PÁSSAROS? >> Carla Dias >>


Parada no meio da rua, enlouquecendo motoristas e atiçando buzinas. Quem é essa que se coloca dessa forma em uma avenida?  Não importa a aparência dela, mas a de seu gesto. Em menos de um minuto, muitas são as teorias a respeito dessa insana a atropelar a rotina das pessoas, a sujeita-las à possibilidade de terem de pagar franquia no caso de uma avaria em seus automóveis, e de atraso cumulativo, que atrasados todos sempre estamos nessa metrópole. Quanta dor de cabeça por causa de uma mulher qualquer cometendo a loucura de ficar assim, parada, à mercê dos possantes e dos olhares dos frequentadores de calçadas.

Nas avenidas, as línguas não são domesticadas, tampouco educadas. São bichos soltos, desavergonhadas com a benção da propriedade. Ninguém pode julgar aqueles que estão em suas casas de duas ou quatro portas. É propriedade ambulante, e há daquele que se coloque em seu caminho. Dependendo do desânimo, do grau de complexidade do sentimento vigente, nem mesmo o mais cuidadoso transeunte escapa de um possível acidente. Não importam os semáforos. Não importa o cuidado dos sem-carro. Transgredir em avenidas, às vezes abraça o sentido de fuga, e fugas são estopins de imprevistos.

E essa mulher? O que diabo ela faz ali, parada no meio da avenida, via de mão dupla, um vai e volta enlouquecedor, típico de cidade desvairada?

Chamem o resgate que o estrago vai ser dos grandes.

E muitos já escutam, imaginariamente, o som dos ossos dela sendo quebrados no impacto dos carros com seu corpo. Da carne sendo esfolada ao deslizar com violência na tez do asfalto. Muitos já formulam seus monólogos da hora do almoço, quando, alvoroçados e excitados, irão relatar aquele acidente lá na avenida, dos quais foram espectadores Vips. Falarão do sangue espalhado, ainda quente, sobre o cinza estriado do asfalto.

Ela caminha a passos ralentados pela avenida, ziguezagueando, colocando-se em perigo em ambas as vias. Os pés descalços, alguém os percebeu? Os pés descalços sangram alguma tragédia anterior. Contudo, ninguém está preocupado com tragédias anteriores. A que importa é a vigente, aquela que os telejornais alcançam em minutos, com a ajuda de dedicados informantes-espectadores e seus celulares dinâmicos, parcelados em dez vezes ou importados por dez salários mínimos.

Não demora e os helicópteros tomam conta daquele pedaço de céu.

As buzinas enlouquecidas, uma sinfonia de desespero sendo amplificada pelos gritos. Os gritos enlouquecidos, uma sinfonia de intolerância sendo amplificada pela incapacidade de se observar, antes de se render ao desejo desenfreado de criar enredo para a história que não nos pertence.

Logo ali, alguns carros adiante, uma senhora assina a autoria da biografia da mulher, enviando mensagens a um amigo que trabalha em um site de notícias. De acordo com ela, a mulher está atrapalhando o trânsito, colocando a vida dos motoristas em risco. Provavelmente, é uma dessas aí que gostam de uma boa bebida e um sexo selvagem com direito a cachê no final da performance. Essas sempre endoidecem, se dão mal. Ela fecha seu depoimento ao suposto repórter com o que se tornará a manchete do artigo que ele publicará daqui a cinco minutos:

Mulher insana desfila na marginal para enlouquecer motoristas do bem.

A questão é simples, ao menos nesse caso. Ninguém sabe por que a mulher se colocou em tal posição. Talvez, nem mesmo ela saiba, porque os distraídos, com a excitação e o deleite de presenciar um absurdo, sequer atentaram para o fato de que os cabelos dela estão coloridos pelo sangue vindo de um ferimento causado por uma pancada na cabeça. Que seu vestido está rasgado, de tal forma, que nem mesmo a moda contemporânea pode explicar. Os olhos dela? Um deles está fora de órbita.

Os pés descalços sangram de um jeito que não há como entender como ela ainda caminha.

Longos artigos foram escritos sobre a insana da avenida. Ela ficou famosa nos meios de comunicação como aquela que se impôs ao trânsito. Dizem por aí que foi protesto, que ela queria mostrar a imprudência dos motoristas e dos transeuntes. Porém, a versão da amiga do suposto jornalista é a que prevalece.

Alguns dias depois, foi inaugurada uma estátua da mulher insana na calçada da avenida onde ela se atreveu a caminhar. O artista concedeu várias entrevistas para elucidar a inspiração que o tomou ao ver aquela cena na tevê, captada em vários ângulos, por vários helicópteros. O prefeito da cidade se mostrou compadecido por aqueles que tiveram de assistir a tal espetáculo.

Antes que o resgate chegasse, que a polícia intervisse, que aquele meio de comunicação sempre atrasado soltasse uma nota a respeito, a mulher foi atingida não por um, mas por dois carros. Alguns escutaram o som dos seus ossos quebrados no impacto. Alguns viram a cena de sua carne deslizando com violência no asfalto. Alguns observaram o sangue quente dela se espalhando pelo cinza estriado do asfalto.

O corpo foi retirado e o trânsito voltou a fluir na sua anormalidade rotineira, aquela que todos reconhecem, da qual reclamam, mas com a qual convivem em paz. Helicópteros tomaram outros espaços do céu.

Uma hora depois, o auê era pelo ator de novela que entrou nu em um shopping center para comprar roupas novas em uma loja de puro requinte.

Para os não tão distraídos, sim, houve tragédia anterior. Não vamos debulhá-la, que já passou do momento. Mas fica a curiosidade sobre como tudo teria ocorrido se, antes de tomar para si a autoria da história daquela mulher, alguém a tivesse observado e perguntado:

Como posso ajudá-la?

Há uma pergunta que um astuto transeunte escutou a mulher fazer, um pouco antes do seu último suspiro. Ele se sentiu atormentado com aquele questionamento e comentou sobre sua agonia a um dos repórteres que chegaram, pouco depois. Qual será o significado de tal reflexão às margens da morte? Afinal, por que ela perguntaria:

Onde estão os pássaros?

Após um longo e confuso debate, eles concluíram que ela morreu com o desejo de voar de helicóptero.

A insana da avenida tinha um sonho.

Imagem: The Pretty Bird © Bernardus Johannes Blommers

carladias.com

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sexta-feira, 23 de junho de 2017

LUA DE MEL, SOL DE FEL, LUA DE MEL... >> Paulo Meireles Barguil


Parece que algumas relações afetivas são baseadas na brincadeira bem-me-quer, malmequer, bem-me-quer...
 
As margaridas, tão singelas e belas, merecem melhor destino do que terem as suas folhas arrancadas por mãos negligentes.
 
O que dizer, então, dos deslumbrantes seres humanos?
 
Impacientes, só queremos o mel e que esse seja trazido, quando o desejamos, pelo outro!
 
É por isso que muitos de nós vagueamos entre lua de mel e sol de fel, sendo esse bem mais frequente do que aquela.
 
Verdades sejam ditas: o mel não está na lua, nem o fel está no sol.
 
Somos nós que criamos a realidade, pessoal e social.

Essa gestação, tal como as demais, é influenciada por vários aspectos e tem ritmo peculiar. 
 
Quem quer conhecer e transformar a sua matriz?
 
A natureza nos convida a assumir a responsabilidade pelo cultivo de jardins internos e externos.

Necessário, pois, revolver as entranhas e a terra, retirar delas o que impede o desabrochar da vida e nelas colocar insumos indispensáveis para que a metamorfose aconteça.
 
Quem tem coragem de sair da Matrix?
 
Podemos aprender tanto sobre a vida com as plantas!
 
Amanhar margaridas, ao invés de desfolhá-las, é um bom começo.

Bem eu quero, Bem me quero, Bem te quero, Bem eu quero...


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quarta-feira, 21 de junho de 2017

AOS LETÁRGICOS >> Carla Dias >>


Não despertar sentimentos incômodos. Mantê-los ressonando em tom de resistência profunda. Evitar barulhos dissonantes e palavras irreverentes. Paz na terra aos homens e às mulheres que costumam debulhar cansaços próprios. Permitir ao silêncio ser a canção das vinte e quatro horas de cada dia mergulhado em esperas.

Que os relógios se libertem de nós, amém.

Alhear-se das saídas de emergência, entregando-se ao balé das portas e janelas, eles já entregues – corpos e dobradiças –  à irreverência do vento. Coabitar salas interiores das quais os fascínios indesejados são os proprietários. Render-se ao escapismo pontual. Nublar diálogos complexos ao meditar sobre o episódio de ontem da novela.

Caminhar sobre o piso frio da indiferença, ignorando os abismos que ela tece com tanta elegância arrependida. Tatear a escuridão das presenças ignoradas, para sentir a frigidez de suas vontades. Acumular manuais de instruções e roupas que não cabem mais.

Silenciar desejos impróprios para letargia e ruminações. Estender insignificâncias nos varais das intensidades. Jamais se entregar aos devaneios ofertados por troca de olhares.

Crucificar esperanças teimosas e alegrias furtivas. Então, banhar-se em nostalgia sequestrada da biografia de outros. Cometer pequenos delitos emocionais e maldizer margaridas.

Deve-se estabelecer uma longa distância geográfica das flores, seja em vasos ou jardins, para que elas não inventem de inspirar suspiros e atos de rebeldia, como o de se enxergar beleza em fim de tarde, enfeitar-se com a companhia do outro, cantarolar canção que morava no esquecimento. Deliciar-se com perfumes e delírios. Emaranhar-se nos cabelos da esperança. Saciar-se com cores em buquês.

Acordar-se.

Imagem © Henri Fantin-Latour



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terça-feira, 20 de junho de 2017

ENCONTRO INESPERADO >> Clara Braga

Lá estava eu naquele lugar de novo. Já fui lá incontáveis vezes, afinal, ir nesse lugar é rotina de família muito antes de eu pensar em nascer nessa família.

De lá pra cá muita coisa mudou, e de muitas dessas mudanças eu não tenho recordação, mas está tudo registrado. O que não mudou é o fato do local ter várias casinhas coloridas e aconchegantes. Já entrei em todas elas, mas confesso que a que eu menos entrei era a que eu mais deveria ter entrado, afinal, é ela que está ali aberta vendendo aquele monte de coisas para quem quiser comprar.

Para ele era tudo novidade. Já havia ido lá, mas justo no dia que foi ficou entretido com outras coisas e esqueceu de visitar a casa onde funciona o bazar. Imagina, justo ele que não pode nem ouvir a palavra bazar que já começa a se coçar para comprar coisas.

Da segunda vez não poderia haver falhas, a visita na casinha amarela era obrigatória.

E assim aconteceu.

Eu acompanhei. Quase que sem opção, mas acompanhei. Mas de longe já comecei a perceber que aquela não seria uma inocente ida a um bazar, dessa vez algo já estava chamando minha atenção. 

Seria possível?

Fui me aproximando cautelosa, afinal, aquele podia ser um momento importante.

Olhei para ela, ela olhou pra mim. Tive certeza de que era ela, mas preferi não chamar muita atenção, melhor olhar com cuidado.

Me aproximei, segurei com minhas mãos. Era ela! Mas calma, essas coisas são caras, outro dia mesmo eu estava pesquisando por ela na internet e desisti de comprar por causa do preço.

Mentira, está custando apenas isso? Calma! Então só pode ser por não ser ela de verdade, melhor conferir na internet.

Uma pesquisa rápida e tudo se confirmou, era ela! Não estava com as roupas originais, mas quem liga? Quando eu imaginaria que ela ia aparecer ali na minha frente por esse preço?

Segurei, paguei e fui embora feliz com a minha Barbie Spice Girl na sacola! Agora faltam só 4 e a roupa original dessa primeira para completar minha coleção! Se alguém souber onde posso encontrar, não deixe de fazer essa criança feliz! 

Grata!


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sábado, 17 de junho de 2017

ENVELHECENDO >> Sergio Geia



Pois não é que fui parar num pronto-socorro? Meio sem vontade, claro; aliás, quem vai com vontade a um pronto-socorro? Mas imaginar aquela parafernália toda, a demora, e, geralmente, o resultado, que é quase sempre previsível, pelo menos pra mim, já me serve como um bom desestimulante ou uma boa terapêutica, vai, remedinho da hora pra me deixar novo em folha. No entanto, o dia foi passando, o sol mudando de lado e eu nada de melhorar. De café da manhã, uma maçã; de almoço, uma pera.
No caminho fui fazendo o diagnóstico (eu sempre faço isso): vômito + diarreia + calafrio + desânimo + dor abdominal = intoxicação.
A minha única dúvida era saber a causa. Primeiro pensei nuns salgadinhos que eu tinha comido numa festa sábado à noite. Depois, num frango à parmegiana que tinha comprado no sábado, pra comer no domingo. Por fim, o excesso de estrogonofe do almoço de domingo. Tem também aqueles que falam que não foi a comida, mas eu mesmo que não estava num dia bom, pois é. Mas a vilania mesmo, depois de pensar muito, eu entreguei a esse chocolate dos deuses da indústria brasileira: o Ouro Branco. De quinta a domingo, se não errei a conta, comi uns 25.
Comentário 1. Tá bom, eu reconheço, foi demais. Acontece que hoje, com 48, qualquer coisa que eu coma fora de contexto, e fora de contexto quer dizer tudo o que não seja um arrozinho, feijão, grelhados, saladas, legumes, já causa um terremoto na minha barriga. Antigamente eu chegava meia-noite em casa, comia um x-tudo, depois dormia como um anjo. Não precisa dizer. Eu sei. O tempo passou.
Pois não é que fui fazer xixi e a urina saiu vermelha? Sangue. Parecia uma cerveja bock. Primeiro pensei se tinha comido beterraba. Pensei em hepatite (eu já tive hepatite na infância), infecção de urina, pedra nos rins. A recomendação que dei a mim mesmo naquele momento (eu sempre faço isso) foi beber água, muita água, um caminhão-pipa. E a urina foi clareando, clareando, clareando, até normalizar. No dia seguinte, pela manhã, ela voltou vermelha. Fiz a mesma coisa. Ela normalizou, e já faz dias que está normal. Mesmo assim, procurei um médico. Tô fazendo exames. Já vi que na urina, as hemácias estão elevadas; leucócitos também. Amanhã faço um ultrassom dos rins e das vias urinárias. Hoje estou sentindo um desconforto na bexiga que vai e vem.
Pois não é que acordei com uma mancha nas costas? Assim do nada, de coisa nenhuma, tal como aparecem as dores, o torcicolo, o espirro. Dormi com as costas limpas, acordei com ela manchada. De repente, a mancha se instalou na omoplata e lá ficou; gostou das minhas costas. Uma nuvem escura no céu da minha costela. E como o PSDB, não há nada que a faça desembarcar.
Meio arroxeada, ligeiramente escura, e coça. No começo não liguei. Fiz pouco caso, mesmo porque o incômodo era risível. Achei que fosse como mais uma dessas insignificâncias que aparecem, e tão rápido como aparecem, somem. Não foi o caso. Já fui a três médicos, até biópsia quiseram fazer. O diagnóstico que deram é que não é nada, apenas uma inofensiva manchinha. É da idade, disse-me um deles. No máximo uma pomadinha pra aliviar a coceira e, quem sabe, dar uma ligeira clareada.
Pois não é que outro dia eu não arriei o cóccix? Não conseguia fazer yoga, nem andar de bicicleta, uma simples encostada na parede eu já tremia de dor. Nos exames, nada. Segui as prescrições e nada. Com o tempo a dor sumiu. Misteriosamente. Só que eu já tinha ido num clínico geral, num urologista, num proctologista (não me pergunte o que eu fui fazer lá, ok?), nuns dois ortopedistas, muitos exames pelo caminho até chegar ao cóccix.
Comentário 2. É triste, amigo. E inexorável. A não ser que as ideias do Aubrey de Grey comecem a vingar logo, as visitas a médicos, hospitais, laboratórios, clínicas, farmácias, ocuparão cada vez mais um espação na nossa corrida pela vida.
Pois não é que fui comer um amendoinzinho e o dente quebrou? Enchi um copo de cerveja...

Ilustração: Vincent van Gogh


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sexta-feira, 16 de junho de 2017

OS DESSEPULTOS - 1a PARTE >> Zoraya Cesar

O ‘laboratório’ ficava a alguns quilômetros do vilarejo, afastado de qualquer cidade grande. No meio de uma floresta, acessível apenas de carro. Quando o professor Barain Samd se instalou ali, causou um certo rebuliço nas pessoas simples do lugar. 

Ninguém sabia coisa alguma ao certo, mas dizia-se que fora expulso de uma prestigiosa faculdade de Medicina, onde era titular da cátedra de Anatomia, por práticas pouco ortodoxas. Sua fama como professor, no entanto, não feneceu com o banimento e, ao contrário, pareceu crescer com o opróbrio. Era um chamariz irresistível para os futuros médicos que desejavam fama e conhecimento de qualidade inquestionável – e que não tivessem grandes pruridos morais para consegui-los. Uma dezena de alunos fieis frequentava o laboratório, e cada um deles tinha um cadáver para chamar de seu. Um cadáver periodicamente renovado. 

Os alunos formavam uma irmandade unida por rituais de sangue e morte, na qual imperava a lei da omertà – a lei do silêncio da máfia italiana dos velhos tempos. Pagavam muito dinheiro por essas aulas exclusivas, mas, para eles, valia a pena. Os alunos “especiais” do professor Barain Samd formavam-se com conhecimentos extensos e profundos sobre o assunto, tornando-se exímios legistas, respeitados catedráticos, doutores de renome. 

As aulas extracurriculares eram totalmente ignoradas pela sociedade médica, um segredo passado à socapa, para poucos. Nenhum desses estudantes jamais denunciou a fonte de seus vastos conhecimentos nem os estranhos métodos do professor. Apenas um aluno, não se sabe o motivo, um dia surtou, gritando ‘estavam vivos, estavam vivos’ e atirou-se pela janela do apartamento onde morava, morrendo junto com o significado daquelas palavras. 

E os habitantes do vilarejo, o que tinham a dizer sobre o taciturno professor, sobre seus alunos de olhos sagazes, suas práticas inconfessas? Nada. Eram gente pobre e humilde. Viviam longe de hospitais, escolas, postos de polícia, nem cemitério tinham, seus mortos eram enterrados na cidade vizinha. O professor se ofereceu para levar os corpos em seu próprio carro, dando carona aos parentes chorosos, o que lhes economizava um bom dinheiro – dinheiro que, diga-se, não tinham. Por que se importariam com o que era feito no meio da floresta? Se o dinheiro em excesso tende a tornar as pessoas indiferentes, a necessidade tende a torná-las práticas. 

Por cínico que fosse, de vez em quando
Farley sentia um certo tremor
quando vislumbrava, saindo da noite,
a luz dos faróis da caminhonete.
Mas era seu trabalho  e ele recebia
muito bem para aguardar as encomendas. 
E Farley era muito prático. E endividado. E amoral. E tanto fez que conseguiu ser contratado como assistente do professor. Sua tarefa era manter o laboratório impecavelmente limpo; o material – facas, serrotes, bisturis – afiado; as macas e cadáveres arrumados; os pós e líquidos em ordem. E receber, na inquieta madrugada, o homem que trazia, na caçamba de uma Ranger, cadáveres novos, embalados em plástico. Farley pagava pelas encomendas, arrumava os recém-chegados nas macas e aguardava o amanhecer para ir embora. Ele sabia que os corpos descartados eram dissolvidos numa das misturas ácidas e corrosivas que o professor guardava no sótão, mas a técnica só era ensinada aos alunos; ele mesmo nunca vira. Isso, no entanto, não o agastava. Era interesseiro, não curioso. Amoral, não indiscreto. Desde que continuasse a receber em dia e houvesse o suficiente para pagar mulheres e jogo, tudo bem. Provavelmente os corpos eram de indigentes, roubados de algum necrotério ou cova rasa, ninguém os reclamaria, era melhor que tivessem uma utilidade. Afinal, pensava, cinicamente, melhor um cadáver na mão que dois no caixão. 

Cínico e feliz, realmente, viveu os primeiros meses de sua nova função. 

Até que numa noite sem lua ou estrelas, o homem da Ranger trouxe um pacote que Farley percebeu diferente. Não havia restos de terra úmida, grudados tenazmente no plástico que envolvia o corpo, como se protestando para levá-lo de volta ao lugar que, por direito, lhe pertencia, desde que a alma o abandonara. Não havia, em volta, aquele estranho cheiro de éter. Não parecia, portanto, tirado de alguma cova ou necrotério.

E, por entre um rasgão no plástico, ele percebeu algo mais. 

Continua dia 30 de junho. 
Foto: Sai-Kiran-Anagani - 7490 in Pixabay


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