segunda-feira, 24 de abril de 2017

AMÉRICA ALTERNATIVA >> André Ferrer

Sob o estrondo da Lava Jato e da Reforma Previdenciária, marulha o desejo governamental por redefinir as leis que regem a imigração. Em outras palavras: há uma vontade atropelada de facilitar o acesso de estrangeiros num contexto geopolítico merecedor de uma cuidadosa e profunda análise. Os defensores da ideia, rasteiros e populistas, alegam que tal reforma alavancará a nossa economia. Será? É disso mesmo que a nossa economia precisa?

Logo nos primeiros anos desta colônia, a questão do estrangeiro já foi resolvida. Com ou sem facilitadores legais, o futuro destas praias, como paraíso e refúgio, apenas replicará um passado cheio de cancelas gentilmente levantadas.

Muito em breve, os principais países da Europa estarão fechados. Assim, a América do Sul, de novo, brilhará como o melhor destino para toda e qualquer criatura.

Na França, alvo sistemático do terrorismo islâmico, é inevitável que se abaixem os ferros. Há tanto pânico nas ruas, que até a esquerda já admite restrições - se bem que algumas horas atrás, nas eleições de 23 de abril, o Partido Socialista ficou fora do pleito presidencial numa derrota histórica. Para o segundo turno: Le Pen e Macron. Este, ainda que se apresente menos endurecido que Le Pen, é um liberal e pensa como um banqueiro. Macron é o sócio francês da família Rothschild.

Logo, os expatriados não contarão mais com a Europa. Fugirão, às grandes levas, para uma América alternativa, isenta de Trump - este Shangri-La situado abaixo da Linha do Equador. Consequentemente, como povo hospitaleiro e pimpão - que já recebeu nazistas, terroristas italianos e carniceiros vindos de ditaduras africanas -, aqui estaremos com os nossos braços abertos.

Em 2015, autoridades espanholas flagraram
 o menino marfinense Abou, que
chegava à Europa dentro de uma mala
Fora de dúvida, o que o governo pretende afrouxar no papel, o povo brasileiro já afrouxou na prudência e na sensatez há décadas. Gente que não se questiona. Gente que não questiona a moral e a ética das pessoas que governam o seu próprio país. Gente que aceita qualquer vara no traseiro! De fato, uma gente assim jamais questionará a qualidade de quem chega de um mundo tão injusto e assassino. Terreno fértil para radicalismos, país nenhum está livre de ser. Nesse jogo de conspirações e inimigos sem rosto em que, nas últimas décadas, o nosso planeta se tornou, temeridade é mesmo quando se deixa tudo ao deus-dará.

Com ou sem reforma, sempre haverá pouco discernimento e muito "boboalegrismo" brasileiro no ato de identificar e apartar indivíduos criminosos da massa de verdadeiros pobres coitados. Afinal, ter um pouco de razão e cautela é pedir muito para o nosso caloroso e relaxado caráter. 


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sábado, 22 de abril de 2017

LA BARCA >> Sergio Geia



O mexicano Roberto Cantoral Garcia, como qualquer artista, imaginou muita coisa boa e deu vida a elas. Como todos nós, porém, é bom que se diga, não imaginou outro tanto de coisa também, algo absolutamente normal. Não imaginou, por exemplo, que um dia seria reconhecido como o autor de uma música eterna (e poucas são as músicas eternas). Não imaginou que muitos casais se tornariam parceiros de vida, graças às boas doses de romantismo encontradas em sua bela La Barca. Não imaginou que a música ganharia o mundo com mais de mil versões (inclusive uma de Caetano). Não imaginou que ainda hoje, em 2017, mais de cinquenta anos depois, fosse existir um quarentão que tivesse um som que toca CD em casa, e que de vez em quando gosta de beber um uísque ouvindo La Barca, sem, também, é bom que se diga, alimentar qualquer sonho romântico, mas pelo simples prazer de ouvir um bolerão.
Aliás, eu tenho esse hábito não apenas com os boleros do Cantoral. É sempre um prazer ouvir música. Céu, Oasis, Chico, Skank (tem um show deles em Ouro Preto que começa num fim de tarde e avança noite adentro que é uma beleza), Bebel Gilberto, Jack Johnson e tantos outros já me fizeram voar em companhia do velho de guerra Jack Daniels. Mas por que, então, La Barca?
Porque La Barca é uma ótima metáfora sobre o amor, e eu aprecio ótimas metáforas. Porque o dedilhado de um violão choroso me entorpece. Mas também porque outro dia eu assistia a um show do Luis Miguel, de 2012, em Viña del Mar, no Chile, e, de repente, ele começou a cantar La Barca e eu senti uma coisa boa.
Foi no Festival de Viña del Mar, que Xuxa se apresentou em 2000 (viveu maus bocados lá, um público exigente, batizado pelos próprios chilenos de El monstruo, que cantou um pedaço do Ilariê mudando a letra, de ô-ô-ô para chu-pa-lo, com evidente conotação sexual), lugar a que, conforme disse na época sua fiel escudeira Marlene Mattos, não retornaria jamais. Mas Luis Miguel retornou (ele já tinha se apresentado em Viña del Mar em 1999), fez um show sofisticado, cantou La Barca e outros boleros, e recebeu, não vaias da plateia, mas gritinhos animados de uma mulherada em êxtase.
Foi quando lembrei que em outros tempos (e bota outros tempos nisso), eu tinha uma fita cassete do Luis Miguel no carro. Era uma fita original, comprada numa loja de discos, bem diferente das dúzias de fitas que tinha e que foram gravadas num três-em-um. Os mais jovens não devem saber o que é um três-em-um (um aparelho de som que tinha rádio, toca-discos e toca-fitas), mas lembro que muitos desses equipamentos me acompanharam em boa parte da juventude. Lembro também que ficava horas ouvindo rádio para gravar uma ou outra música e assim criar minha playlist em simplórios cassetes.
Naquela época, pelo menos pra mim, era muito caro comprar o disco (no caso, fita) de todos os artistas que eu curtia, sem contar que era uma diversão ficar ouvindo rádio com o gravador preparado pra fisgar essa ou aquela música. Mas eu tinha uma original do Luis Miguel, que, depois veio a sumir. Não sei se alguém levou ou se foi emprestada.
Muitos anos depois eu adquiri o mesmo álbum, agora em CD, com as mesmas músicas do show de Viña del Mar, que às vezes me faz companhia ao lado do Jack, e que também serviu pra criar um clima outro dia aqui em casa, num jantar que eu esperava fosse romântico, mas que infelizmente não foi, sem contar que o CD não durou nem três minutos no som, considerado brega e velho pela minha parceira da época. 

Ilustração: Javi GJ “El atardecer y la barca
www. flickr.com/photos/pajavi/26655773252


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sexta-feira, 21 de abril de 2017

AMOR E MORTE EM FAMÍLIA - 2a e última parte >> Zoraya Cesar


Resumo: Manipuladora das mais competentes, Felícia destruía tudo à sua volta. Instaurava a discórdia e a desconfiança de tal forma que ninguém percebia ser ela a fonte das intrigas. Pouco a pouco, e diligentemente, minha família estava sendo desestruturada por aquela calamidade chamada Felícia. E só eu via o que estava acontecendo. Resolvi tomar uma atitude, antes que fosse tarde. Uma atitude definitiva.

Caí de amores pelo meu cunhado, Toni Illuso, irmão de meu marido, assim que o vi. Resolvi casar com Taviano por dois motivos: para pertencer a uma família (eu era sozinha no mundo) e para ficar perto de Toni.

Pertencer a uma família era o que eu mais queria na vida. Faria qualquer coisa por eles. Faria qualquer coisa por Toni.

Sou por demais tímida e reservada. Com isso, apesar de me tratarem carinhosamente, os familiares não prestavam muita atenção em mim. Nunca me importei, sempre há vantagens em se passar despercebido.

Estava satisfeita com o quinhão de afeto que recebia dos Illuso, e ver Toni nos almoços de domingo me bastava. Toni, Toni... não digo que, à noite, não me revirasse por ele, sôfrega de desejos picantes e pecaminosos -, mas eu o amava verdadeiramente e queria que fosse feliz. Quando Felícia chegou, arrombando a porta, sofri muito. Percebi, de cara, que aquela mulher era uma emissária do Demo, enviada para destruir tudo o que eu mais amava: os Illuso e Toni.

Perfídia rima com Felícia e não deve ser coincidência. Ter rosto de boneca e grandes e inocentes olhos azuis só aumentava sua credibilidade. Imagina se eu, baixa, rechonchuda e míope, expusesse seus ardis? Acusar-me-iam de invejosa e ciumenta.

Como não invejar uma mulher que se equilibra 
em finos saltos de uma sandália vermelha? 
E que tinha todos os homens debaixo de seus pés?
Invejosa? Sim. Como não invejar uma mulher sexy e esperta? E que, ainda por cima, equilibrava-se em sandálias vermelhas de salto alto. Ciumenta? Também. Ela casara com o meu amado. Roubara o pouco de atenção que eu recebia da família – que recorria a ela para tudo; a mim, nunca pediram opinião para nada.

O jogo de manipulação de Felícia era sofisticado. Falava a palavra certa no momento perfeito, inflava egos, instilava veneno nos ouvidos de um, lançava areia nos olhos de outro, despertava mal-quereres e desavenças. E saía como se nada tivesse a ver com aquilo tudo. Iago era um aprendiz perto dela. 

Talvez Felícia só tenha conseguido seus intentos porque, no fundo, os irmãos eram ingênuos e nem tão unidos assim; ou, quem sabe, guardassem sentimentos sórdidos no coração. Pode ser. Mas nunca subestime o poder devastador de uma intriga bem feita, uma insídia, uma fofoca bem engendrada. 

Meu mundo estava sendo destruído por aquela belzebenta. A coisa piorou quando ela começou a se insinuar para Taviano. 

E eu sabia que, se eles transassem, perderia meu marido. Minha família. Minha casa, meu sustento e também o Toni, a quem, provavelmente, nunca mais veria. O homem que cai nas garras de uma Felícia nunca sai por vontade própria. 

Ser feiosa tem suas vantagens. Felícia nunca viu em mim uma antagonista a ser destruída. Confundia minha timidez com idiotia. Do alto de suas sandálias vermelhas, desfilando sua sensualidade e seu jeitinho de boneca desassistida, ela me olhava com desprezo mal disfarçado. Achou que eu não seria páreo para ela, e que só me daria conta do que estava acontecendo quando minhas malas fossem jogadas no meio da rua. Víbora! 

Não podia confrontá-la abertamente – ou aquelas sandálias de salto alto me esmagariam como a uma lesma. Só havia uma saída. Não uma saída honrosa, mas a saída possível. E no amor e na guerra... bem, vocês sabem.

Foi fácil. Tão fácil, aliás, que hoje em dia tenho até um certo medo de mim. 

Felícia gostava de álcool. Gostava de álcool, sauna e banho de espuma. E havia disso tudo na casa de D. Rosa. Domingo, depois de almoço, era de lei: Felícia fazia sauna e, após, tomava banho de espuma na banheira de hidromassagem (que D. Rosa jamais permitira que nora alguma usasse). Sempre bebendo vinho, e sozinha. Alegava que não ficava bem um casal ter essas intimidades na casa da sogra. Toni obedecia, claro, como sempre fazia, e D.Rosa louvava o comportamento pudico de sua nora preferida. 

Num desses domingos, diluí na garrafa de vinho o sonífero que ela usava.  Aguardei alguns bons minutos e aumentei quase ao máximo a temperatura da sauna. A pressão de Felícia caiu – como era de se esperar numa hipotensa -, deixando-a semi-inconsciente. Carreguei sem dificuldades seu corpo
Felícia não resistiu à mistura
de calor, sonífero e álcool.
E eu cuidei para que tudo parecesse
um lamentável acidente.
pequenino e leve para a banheira e enchi de espuma, tendo o cuidado de deixar o vinho ao seu lado e limpar minhas digitais. Sauna e hidromassagem compartilhavam o mesmo ambiente, o calor estava quase insuportável (por isso aquela diaba era magra, derretia todo domingo). Calor. Álcool. Soníferos. Saí sem olhar para trás.

Felícia morreu, como eu planejara, não vindo ao caso se por afogamento ou parada cardíaca. Importante mesmo é que aquela representante das Trevas foi ao encontro de seus irmãos no Inferno, de onde nunca deveria ter saído. 

Consternação, lamúrias e profusas lágrimas... a família cumpriu seu papel nessa peça onde todos os personagens – excetuando o de Felícia e o meu – eram ingênuos. A polícia também participou, concluindo que a morte se deu por um infeliz acidente. 

Caso encerrado. Morto enterrado. As hostes do Tártaro deviam estar felizes em receber tão competente súcuba. Eu, certamente, estava. Sepultei-a com suas sandálias vermelhas de salto alto. Tenho a firme convicção que Felícia vai precisar delas na sua nova morada.

A vida seguiu. A família voltava ao normal; continuei casada com Taviano. E apaixonada pelo meu cunhado. 

Quero que Toni seja feliz, que se case com uma mulher decente e que eu possa adorá-lo e desejá-lo à distância. Ninguém jamais descobrirá meu segredo. Também eu, como Felícia, sei ser muito ladina. E paciente. 

Quando Taviano morrer, darei um jeito de ficar com Toni, meu cunhado, meu amor. Ora se vou. E é bom que ninguém se meta no meu caminho.



foto banheira: @noorelhage☼ in Pinterest

foto sandália - clshoes.endofscott.com in Pinterest




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quinta-feira, 20 de abril de 2017

UM ALGORITMO PARA CHAMAR DE SEU>>Analu Faria

Algoritmo é um conjunto de medidas/passos a serem tomados para a realização de alguma coisa. Tipo uma receita de bolo. Por conta deles, por exemplo, uma rede social aparentemente pode predizer que preço o fabricante de roupa pode te mostrar no site que você acessa para comprar a roupa ou o Netflix  pode decidir o tema e o roteiro da próxima série que renderá alguns milhões.

Lembrei-me do quanto se fala do "poder" dos algoritmos enquanto lia hoje sobre a Análise Econômica do Direito, uma disciplina pouco estudada no Brasil e com uma quantidade considerada de adeptos nos Estados Unidos, cuja razão de ser é aplicar as premissas de economia clássica ao estudo do comportamento humanos considerando as leis. Para a AED, mulheres e homens são seres individualistas, racionais, com desejos ilimitados e enfrentam a escassez de recursos do meio em que vivem. Aplicam isso ao direito considerando que as escolhas humanas são feitas na base do custo/benefício, o que poderia explicar, por exemplo (segundo os teóricos de AED), porque o sujeito X cometeu um crime ou não delatou seu comparsa.

No meio da leitura, já misturando AED com algoritmo, lembrei-me (e comecei a rir) da "Teoria da Vaca Velha", inventada pela personagem Jane Goodale (interpretada por Ashley Judd) em um filme pop-sessão-da-tarde (bom, talvez nem tão sessão da tarde por conta da classificação indicativa) chamado "Alugém Como Você". No filme, Jane leva um pé na bunda e inventa uma teoria para justificar o fora: segundo ela, bois não gostam de acasalar repetidas vezes com a mesma vaca; o mesmo aconteceria com os homens. O mais engraçado não é a analogia, mas o fato de que Jane conta para uma amiga sobre a invenção da teoria e, juntas, elas criam o cenário para que a tal teoria vire um hit, por meio, inclusive, da invenção de uma suposta cientista indiana de prestígio que seria a autora da teoria (o que, é claro, é completamente fake). Jane e a amiga levam a mentira até as últimas consequências, quando são obrigadas a contar a verdade, em cadeia nacional.

Em algum ponto do filme (não me lembro qual), o personagem de Hugh Jackmann (Eddie Alden), em um dos poucos momentos em que o personagem mostra alguma sensatez , decide dar uma dura na colega Jane (os dois trabalham na produção de um progama de TV), dizendo que homens não são bois e que o ser humano é muito mais complexo que um animal, o que é absurdamente irônico, porque Eddie é o mulherengo da história.

Vou dar um spoilerzinho agora: como todo filme água com açúcar, "Alguém como você" mostra, ao final, que Eddie tem sentimentos, sim senhora, e por isso se ofendeu tanto com a teoria de Jane. Eu às vezes sou meio Eddie com relação a essa gente que acha que a probabilidade vai nos salvar das incertezas inexoráveis de nossa humanidade.









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quarta-feira, 19 de abril de 2017

A CULPA NÃO É DA CANÇÃO >> Carla Dias >>


Talvez seja mesmo mais simples do que você imagina. Menos complexo do que aquela canção que marcou a sua juventude, e que não desperta mais tantas urgências em você. Lembre-se: não era a canção que o bagunçava por dentro, mas as urgências que você insistia em cultivar.

A canção apenas aguçava os seus sentidos.

De todas as vezes em que lhe disseram que a vida ficaria mais fácil, a sua resposta foi a mesma: que não aceitaria isso dela. Seus amigos agora podem endossar essa sua certeza, mas com um adendo: não aceitar certas levezas oferecidas pela vida, isolou-o do mundo e da pior forma. Você está por aí, tem endereço fixo, paga contas, tem diploma, às vezes é visto no supermercado. Ainda assim, é como se não existisse.

Aliás, amigos você tem só porque a vida é insistente e os colocou na sua biografia. Dependesse de você cultivá-los – com a dedicação com a qual você costumava cultivar aquelas vãs urgências – sua coleção de afetos seria insignificante, até mesmo para você. Seria uma coleção de abandonos.

Mas, pense bem...  Pode mesmo ser mais simples do que você imagina, apesar de você acreditar que melhor era quando as urgências existiam. Não por causa da canção. Ela era trilha sonora. As urgências? Era você quem dava vida a elas.

E você gostava disso, não?

Viciou-se em urgências que testavam limites. Ultrapassou vários deles, sem se importar se as consequências o quebrassem física e emocionalmente. Permanecia lá, sujeito ao tombo, ao rechaço, ao distanciamento. Submisso ao desinteresse do outro, ainda que ruminando curiosidade cortante sobre o motivo de, eventualmente, os envolvidos nesse seu projeto pessoal, simplesmente se rendessem ao seu desejo e partissem, mergulhando em um esquecimento composto em sua homenagem.

Uma canção silente. Uma ode ao desolamento.

Sua mãe tecia elogios a sua pessoa, orgulhava-se de sua inteligência, mesmo você cometendo torpes deselegâncias, tantas dirigidas a ela. A mulher pensava que se tratava de uma fase, e que ela passaria, quando o adulto se apossasse do jovem. Houve dia em que ela engoliu seco a certeza de que era culpa daquela canção. Claro que, em algum momento, essa certeza foi afrouxada pela constância dos seus rompantes.

Porque, eu já disse, não tinha a ver com a canção... As urgências... Foram elas que nublaram sua percepção sobre pertencer ao mundo.

Há quem fale sobre você como se tivesse participado do seu enterro. Outros gostam de citar seu nome, durante conversas com temas existenciais, como exemplo de como não se viver a vida.  Então, que aí mora a ironia, porque não sei se há como chamar sua existência de viver a vida. Talvez, no máximo, sobreviver a ela.

É mais simples do que você pensa. Abrir a porta de casa e encarar o mundo. Talvez você se surpreenda com a capacidade da vida de nos enredar em situações que lhe causariam frenesi maior do que aquelas urgências que você arquivou na memória. Elas que já não mantêm beat ou fazem sentido. É que até as urgências caem em desuso, quando são desnecessárias.

Insisto: não tem a ver com a canção. Essa apenas embalou a sua jornada de desencontros e uma infrangível insistência em se desviar do desejo natural de ver-se no mundo. Porque também já comentaram, na roda de amigos que você descartou, e daqueles que ainda insistem permanecer por perto, que o mundo se beneficiaria da sua presença, e você das experiências que se espalham por ele.

Abra a porta e venha para o mundo. A juventude já se foi e outras canções foram compostas. E, sim, é mais simples do que você imagina.

Nunca foi a canção, meu caro, tampouco a enfastiosa realidade que o cercava. Foram as débeis urgências que o aprisionaram. As certezas que o serviram.


Imagem: De violiste © Kees van Dongen 



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terça-feira, 18 de abril de 2017

A VIDA EM PIXELS >> Clara Braga

Não tenho boa memória, mas me lembro bem de um período na escola em que tínhamos aula de etiqueta. Não era aula de etiqueta propriamente dita, era alguma outra disciplina que não vou me lembrar qual, mas que a professora aproveitava para tratar do assunto. Talvez fosse até português, pois me lembro de ler um livro sobre atitudes que eram consideradas corretas e incorretas em diferentes contextos.

Lembro que entre as lições aprendíamos a respeitar o lugar do outro na fila, o que sempre gerava revolta naqueles colegas que adoravam guardar dianteira ou traseira na fila da cantina para comprar o lanche. Não pegar o material do colega sem autorização também era outro assunto polêmico, toda turma tem aquele aluno que começa o ano com o material escolar correto e termina tendo que pedir lápis emprestado e aquele que nunca se deu ao trabalho de comprar nada mas termina o ano com o estojo cheio. Coitada da diretora que tem que mediar os pais revoltados que buscam pelo material comprado. Mas não era só sobre situações escolares que estudávamos, também tinham as lições sobre como se comportar quando fosse para a casa do colega fazer trabalho: não colocar o braço inteiro na mesa de comida na hora da refeição, não começar a comer antes que todos estivessem servidos, não falar de boca cheia, oferecer ajuda para lavar a louça, arrumar o quarto depois de brincar e todas essas coisas que nunca vamos saber se aprendemos de fato nas aulas ou na vida passando pelas situações.

Hoje em dia não sei se esse tipo de aula ainda é dada nas escolas, mas com certeza estamos todos, não só as crianças, precisando de aulas de etiqueta voltadas especificamente para o uso de redes sociais. É cada absurdo que fica difícil saber como agir. Se eu fosse consultada sobre o conteúdo dessas aulas, com certeza começaria pelas marcações das fotos em instagram e facebook. Não é possível que seja tão complicado: se eu estou vesga, com pedaço de comida no dente ou apenas em um ângulo muito pouco favorável, não coloque a foto na rede. Mas, se ainda assim sua vontade de colocar aquela foto for muito grande e você não consegue se controlar, pelo menos não me marque na foto, é tão simples. Sim, eu sei que eu posso bloquear marcações, mas bom senso cabe em qualquer lugar, até nas redes sociais.

A segunda lição seria sobre discussões sobre assuntos polêmicos. Por algum motivo aquela máxima que diz sobre política e religião não se discute foi totalmente ignorada quando o assunto é rede social. Bom, essa lição seria complicada pois exige primeiro que as pessoas entendam que para discutir sobre algo é preciso se informar sobre esse assunto, se não não é discussão é apenas repetição de opiniões vazias. Segundo seria interessante arrumar um jeito de explicar que não é porque você não está na frente da pessoa que você tem o direito de xingar ou ser extremamente rude e, por favor, entendam que o fato de você ser rude com alguém no facebook não faz com que você possa passar por essa pessoa na rua e falar com ela normalmente como se nada estivesse acontecido, não é como se o que acontecesse no facebook ficasse apenas ali. E por último eu iria propor uma aula que explicasse que se você colocou sua opinião publicamente no facebook, você está sim abrindo espaço para discussão, você não pode dar sua opinião e querer proibir os outros de comentarem, seria como chamar alguém na sua casa, dar sua opinião polêmica e proibir a pessoa de falar, pois ela está dentro da sua casa. Não quer debater, não puxe assunto! É mais simples do que a gente imagina.

Bom, ainda iria propor várias outras coisas como: se eu saí do grupo foi porque eu quis, não me coloque de volta. Se não te respondi foi porque não deu, não insista. Não é porque é mensagem que você pode mandar a qualquer hora, todo mundo gosta de dormir sem ser interrompido por uma mensagem. Rede social não é lugar para indiretas, resolva seus problemas sem envolver todas as pessoas que nada tem a ver com isso. Se eu parei de te seguir ou desfiz a amizade é porque algo no conteúdo que você compartilha não me agrada. Se não aceitei seu convite pare e pense: somos mesmo amigos ou pelo menos conhecidos? Compartilhamos algum interesse que faz uma amizade na rede valer a pena?

Enfim, poderia ficar horas falando sobre o que penso sobre a vida nas redes sociais mas não quero me alongar, até na vida virtual é bom saber a hora de parar!


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segunda-feira, 17 de abril de 2017

E AGORA, JOSEFA? >> Albir José Inácio da Silva

- E agora, Josefa? – perguntou Padre Antônio, sempre fã de Drummond.

Amor e ódio. É assim que se alternaram sempre os sentimentos de Josefa pelo seu país. Não lhe faltava patriotismo, mas sobrava paixão.

Às vésperas da redentora marchou com Deus e a família pela liberdade e comemorou a prisão e o expurgo dos terroristas. Sonhou com masmorras, paus-de-arara e suicídios que eliminassem o mal da pátria amada.

Comemorou o tricampeonato -  eu te amo meu Brasil! Festejou o milagre econômico, impaciente com quem dizia que a bênção não chegava para todos – era preciso esperar o bolo crescer para então dividir.  Vibrou com o massacre do Araguaia. Idolatrou Ustra, Amílcar Lobo e Fleury. Defendeu o pacote de abril que fechava o Congresso ainda cheio de comunas travestidos de democratas.

Desesperou-se com a abertura política e a volta dos banidos - então não sabem que essa gente não tem cura?

Foi assim a década de oitenta, pouca gente lúcida, como Josefa, alertava para o perigo vermelho. Foram toleradas reuniões com toda espécie de gente. Mulheres, negros, índios, gays, lésbicas, macumbeiros, nordestinos, todos se achavam no direito de influir na nova armadilha para o país que se chamava carta magna.

Não deu outra coisa. Aquela constituição trazia direitos humanos para os bandidos e a possibilidade de os comunistas tomarem o poder. Ainda demorou algum tempo, alguma resistência, mas aconteceu. Primeira providência deles? Inauguraram a corrupção neste país de probos líderes e elite respeitosa com a coisa pública.

Segunda providência, instituíram a distribuição de peixes sem ensinar a pescar. Com a ajuda do comunismo internacional, conseguiram premiar, e exaltar na imprensa  de todo o mundo, a humilhação de bolsas-esmolas, médicos cubanos e universitários sem mérito e sem vestibular. E deram de graça a luz e a água, os remédios e todas as mercadorias que poderiam alavancar o capitalismo patriota.

- Não foi por falta de aviso! – esbravejava a incansável Josefa.

Mas ela não se deixou abater. Mais uma vez o amor à pátria falou mais alto. De novo as ruas, as bandeiras, o hino nacional. De novo perfilou-se para as tropas, agora com uma novidade:  uniforme da CBF - instituição íntegra que honra o futebol brasileiro. E Josefa não estava sozinha – eram milhões de cidadãos do bem.

Como em 64, a vitória foi rápida e sem derramamento de sangue. Era a segunda vez que Josefa ajudava a salvar o país! Merecia uma estátua na Praça dos três Poderes – e a teria se o reconhecimento fizesse parte da cultura brasileira.

Mas as desgraças nunca separam os bons dos maus na hora do castigo. A herança comunista exigiu providências amargas dos vitoriosos para sanear a economia que sustentava vagabundos e incentivava a preguiça.  Os novos governantes prescreveram trabalho, paciência e orações para a travessia do deserto que se avizinhava. E Josefa orou todos os dias.

Mas isso não impediu que seu marido, funcionário estadual, sofresse infarto fulminante depois de devolver o carro e o apartamento, cujo aluguel já não conseguia pagar. Josefa foi morar com a irmã na Baixada Fluminense, na mesma casa em que viveu com a mãe quando era pobre.

Josefa tentava ainda defender o governo, embora a voz saísse cada vez mais baixa. Até que a reforma da previdência cortou pela metade  a pensão das viúvas.

E nada está tão ruim que não possa piorar, descobriu Josefa quando o governo estadual parou de pagar pensionistas e inativos.

Desgraça pouca é bobagem, pensou ela ao ver o filho chegando da Alemanha depois que acabou o Ciência Sem Fronteiras. O garoto passa as tardes fumando maconha e sente muita fome, o que agora é um problema.

A última que chegou foi a filha. Bem empregada em São Paulo, foi dispensada com a terceirização, mas fica aguardando recontratação – ótima funcionária que é - quando a firma precisar.

Casa cheia. Água, luz e comida pra pagar. Mas Josefa é mulher guerreira. Vai sair dessa. Por enquanto a irmã sugeriu Padre Antônio, que tem lá umas cestas-básicas para os necessitados. Josefa sobressaltou-se com a palavra “necessitados”, mas não estava em condições de sobressaltar-se.

Não gostava daquele padre. Desde a juventude achava que ele tinha inclinações comunistas e misturava a caridade de Cristo com a igualdade vermelha. Entretanto, não era momento para ideologias.

Resumiu sua história tentando adivinhar o que dizia o rosto impenetrável à sua frente. O sacerdote saiu e voltou com a caixa de papelão. Josefa ainda falou da crise, mas estava desconfiada do silêncio do padre. Até que ele falou:

- A soberba precede à ruína; e o orgulho à queda. Mais vale ser modesto com os humildes que repartir o despojo com os soberbos. Provérbios, capítulo 16, versículos 18 e 19.

Josefa tinha certeza de que não estava gostando, mas ainda não sabia de quê. Ele só citou a Bíblia! E o padre prosseguiu, agora com Drummond:

-E agora, Josefa?

Josefa abraçou a caixa e foi saindo da sacristia, preferia não responder. De repente identificou claramente o tom do cura bolivariano – um misto de ironia e satisfação. Já na porta, não se conteve:


- Agora, Seu Padre? Agora o senhor vai pra puta que o pariu!


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sábado, 15 de abril de 2017

VÔO LIVRE >> Cristiana Moura


Liberdade, num olhar sartreano, é condição. Somos livres. Escolhemos e somos responsáveis por estas escolhas. Liberdade é uma dádiva e uma condenação. Há de ser livre toda a pessoa. Nesta manhã experimentei uma tal liberdade no corpo cujas palavras de dizê-la me escapolem com a brisa. Fora liberdade tátil, cinestésica, de um lugar corpo-a-dentro, lugar corpo-a-fora. Coisa de ser mundo que voa e sobrevoa o mundo que é.

Já experimentaram não ter os pés no chão? Pois é diferente. É a sensorialidade de parte alguma do corpo tocando o chão. Disseram-me: — Você foi livre como um pássaro! Talvez. É que o pássaro, coitado, ele tem que voar. Eu não. Poderia ter ido à praia, lido um livro, ficado no hotel, visitado um museu. Mas eu escolhi saltar da Pedra da Gávea de asa delta. Fui eu e o mundo planando sobre a vida vivida. É como se todos meus póros tivessem se dilatado e o mundo me invadisse de tal forma que o tempo parasse.

Sim, houve sim um frio na barriga. Durou dois segundos apenas. Deve ser por isso que chamamos vôo livre: porque a pele ganha uma temporalidade única de um voar — um parar do tempo em uma pele-corpo-só. Ah, e a beleza vista lá de cima... Foi como se eu virasse toda aquela beleza — é muito mais que contemplar — é ser.

São tantas as aventuras cotidianas: passear com os amigos, apresentar trabalho em congresso, perder-me na urbanidade entre carne e pedra das grandes cidades, encontrar-me num sorriso que me mira, dançar o samba a dois entre passos íntimos e outros desconhecidos em pernas que se misturam, ser avó o mês que vem quando Miguel chegar.

Habita-me uma gratidão leve por ter voado livremente. Uma gratidão por, em todos os outros dias, apenas andar. Para que eu possa, assim, reconhecer a diferença e caminhar... E voar...



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sexta-feira, 14 de abril de 2017

GALÉS E BOTES >> Paulo Meireles Barguil


"'Eu posso estar completamente enganado
Posso estar correndo pro lado errado'
Mas 'A dúvida é o preço da pureza'
E é inútil ter certeza"
(Humberto Gessinger, Infinita Highway)
 
Entre remar uma galé e um bote, escolho o segundo.
 
Na primeira, embora viaje com outras pessoas, raras vezes me sinto acompanhado.
 
O ritmo é frenético: estamos sempre atrasados!
 
Na galé, não opino sobre o destino, o qual é determinado por outro, que sequer sabe que eu existo...
 
No segundo, nunca estou sozinho, pois, a cada dia, meu corpo e minha alma aumentam a intimidade.
 
A cadência é suave: até parece que o tempo não existe!
 
No bote, embora continue ignorando para onde estou indo, o capitão considera o que sopro...


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quarta-feira, 12 de abril de 2017

CUIDADO COM O OLHAR DAQUELA AO LUAR
>> Carla Dias >>

 
O talento nasceu com ela. A irmã mais velha, que a criou desde pequena, teve de aprender a lidar com a habilidade da irmã-filha de maneira imposta. Queria não... Rezou muito, apegou-se a umas novenas, bateu tambor, compartilhou corrente, leu livros proibidos, despachou à beça, fez oferenda e nada. A menina continuava a aprontar suas maluquices.

Durante muito tempo, a irmã-mãe acreditou que a irmã-filha tivesse com a cachola avariada. Preocupou-se sobre o que faria se a maluquice da menina tomasse conta dela, de um jeito que seria necessário viabilizar companhia 24 horas para evitar coisa pior.

Pior do que o quê?

Do que a reclamação constante dos vizinhos, que corriam da menina ao vê-la na rua, como o diabo corre da cruz. E o padre da paróquia do bairro, que decidiu brincar de exorcista e jogava água benta nela, toda vez que ela caminhava rumo à escola.

Teve um dia em que uns políticos, temerosos do que ela poderia revelar sobre eles, sequestram-na do jardim, enquanto ela brincava de amarelinha, sozinha, e a levaram até o cemitério. Apontaram uma cova vazia e disseram, usando vozes guturais e meias-finas na cabeça, que se ela continuasse a fazer o que andava fazendo, acabaria ali, debaixo de sete palmos de terra. A menina, mais curiosa do que atemorizada, entrou na cova, deitou-se lá e ficou olhando para os marmanjos a sua volta. Mas foi ao olhar para o céu, aquelas estrelas todas, que ela se distraiu de um jeito, que eles pensaram que a menina estava possuída por algum espírito maligno que rondava o lugar. Saíram correndo e a deixaram lá... A observar estrelas e se apaixonar por lua cheia.

Voltou para casa sozinha, de madrugada. Quando chegou lá, a irmã-mãe, que já estava desesperada com o sumiço da irmã-filha, berrando sua aflição aos policiais aliviados de não encontrar a menina, pegou-a no colo e chorou, durante muito tempo. Desde então, a irmã-mãe não sente agonia com o talento da menina. Aceitou o tal assim, encarando o fato de que se livraria dele somente se sua irmã-filha deixasse de existir, o que ela nunca desejou.

A paixão da menina pela lua cheia, que ela expressava sem pudores, inquietou os moradores do bairro. Essa coisa “bruxesca”, inclinada aos desmandos do capeta, que deixava tudo mais misterioso, fez com que as pessoas a temessem tanto que decidiram se comportar melhor. Assim, ao encontrá-la na rua, sorriem para ela e seguem seu rumo, bem rápido.

Duro mesmo foi quando a menina se tornou mulher, e das que não têm medo de lidar com situações escabrosas. Os políticos que a levaram ao cemitério quando criança, fundaram uma sociedade secreta, só para discutirem formas de se protegerem. Por ali passou de tudo: capangas disponíveis para, a qualquer hora, darem cabo dela. Não deu muito certo, pois quando sabiam de quem se tratava, davam no pé. Temiam que, ao executarem o serviço, o diabo em pessoa - e maledicência - colheria suas almas. Benzedeiras, mães de santo, líderes de outras sociedades secretas, e por aí vai. Se houvesse uma chance de derrubá-la, os tais tentavam.

A irmã-mãe se apaixonou e mudou não só de cidade, mas de país. Aquele estrangeiro que bandeou lá pela sua terra a fez sentir amor tão poderoso, que ela, apesar de sofrer com o feito, não teve dúvidas de que seu destino era partir com ele. Chorou demoradamente em um abraço com a irmã-filha, que a entendia e queria mais é que a irmã-mãe fosse feliz.

E lá se foi a irmã-mãe ser feliz no estrangeiro.

Viu-se sozinha pela primeira vez, mas não desalentada. Tocou a vida com a certeza de que a irmã merecia felicidade, depois de tantas tristezas inspiradas pela sua existência.

Transformou o quarto da irmã em ateliê. Colocou uma foto delas na parede, garantindo que ali elas sempre estariam. É muito boa na sua função, e mesmo que as pessoas a temam, desde sempre, acabam por procura-la, quando precisavam de uma roupa nova. É a única costureira da cidade e das talentosas. Em nome de uma boa veste, engole-se o medo. Exceto os políticos. Esses mandam dublês de corpo para experimentarem os panos.

Algumas pessoas não falavam com ela, depois de expressarem seus desejos sobre a roupa. Outras, bem, elas conseguiam ficar somente alguns minutos, depois saiam, dizendo que o mal morava naquela casa. Ela entendia o medo das pessoas, mas não elas pensarem no mal vivendo em uma casa que sempre foi repleta de amor, habitada pelo respeito.

E havia as outras pessoas...

As que contratavam seus serviços, apenas para estarem no mesmo cômodo que ela, e a observarem de perto. Teve quem concluísse, entre um corte e uma pence, que ela não parecia tão diabólica quanto diziam. E quem oferecesse muitos dinheiros para dormir com a meretriz do Belzebu. O padre a contratou para remendar uma de suas batinas, só para dar continuidade a sua necessidade de jogar água benta nela. Ela remendou, serviu um café a não cobrou pelo serviço. Ele disse que a água benta estava funcionando.

Deitada no jardim de sua casa, vendo lua cheia ser de lindeza brutal. Dizem que ela faz isso para se energizar e dar continuidade ao seu plano de levar a cidade ao fim. Teve escritor que a observou pelo muro e escreveu um romance sobre a mulher que falava com a lua.

O que as pessoas negam é a importância dela nesse lugar. Seja a temendo ou a odiando profundamente, elas sempre batem à sua porta. O serviço que ela oferece é escasso, nem bem-visto o tal é, mas é dos essenciais. Ela acha um tanto irônico que, sendo capaz de descobrir os segredos das pessoas, apenas de olhar para elas, não importa quão bem elas os escondam, inclusive de si mesmas, ninguém seja capaz de olhar para ela e enxergá-la na crueza de quem é.

Para facilitar a aproximação dos temerosos, e ajudá-los com suas encruzilhadas, aceita a definição que eles adotam para recorrer aos serviços dela, que não o de costureira. Assim, dizem que ela lê cartas, borra de café, nuvens. Desvenda os mistérios dos sonhos, da intuição, do próprio medo que conduz a tantos de forma nebulosa no trato com a verdade.

Ninguém aprecia quem pode ler verdades apenas ao olhar para alguém. Imagine se essa pessoa decide contar a todos o que nem o próprio quem reconhecer. Ela nasceu com essa facilidade. Quando menina, não entendia a necessidade de respeitar o medo do outro e era língua solta, saindo por aí a dizer verdades. Mas aquele dia no cemitério mudou isso.

Para descansar seu olhar, proteger o próprio espírito, encanta-se com a lua cheia, enquanto sonha com o dia em que a verdade será nítida a quem quiser enxergá-la.

Imagem: Sunrise Water Nymphs © Arthur Prince Spear 

carladias.com



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terça-feira, 11 de abril de 2017

EM BUSCA DA LEVEZA PERFEITA >> Clara Braga

Esses dias me assustei com a repercussão da notícia do tal desafio da baleia azul. Têm sido difícil acreditar que existam jovens aderindo a um desafio que consiste em se torturar por mais ou menos 50 dias e no final tirar a própria vida! Mas a verdade é que o mundo está tão doido, a cada dia vemos ao nosso redor situações tão inacreditáveis acontecendo que passa a ser bem real o fato de jovens estarem querendo tirar a própria vida.

Realmente passei uns dias tentando digerir essa tal nova moda do momento e não sei se como uma forma de revolta ou de desespero ou apenas uma tentativa de deixar nossos dias mais leves, resolvi lançar meu próprio desafio.

Meu desafio, em homenagem à um filme sobre o qual já falei em outro momento, irá se chamar Tarja Branca e funciona da seguinte forma: serão 15 desafios para você realizar na ordem e no tempo que bem entender. Não precisa registrar nada do que fizer nem comprovar nada, é mesmo um momento seu para ser compartilhado apenas com quem realmente importa. Vamos aos desafios:

1- Ligue para alguém de quem gosta muito mas não encontra tem tempo e marque um café ou uma cerveja. Aqui o importante é ligar de verdade, nada de whatsapp ou mensagem. E, claro, comparecer ao encontro, nada de marcar aqueles encontros que não acontecem nunca.

2- Comece a fazer algo novo. Vale qualquer coisa como aprender um instrumento, fazer aula de línguas, não sei, use a criatividade. Dê preferência para atividades feitas em grupo, é sempre bom conhecer gente nova.

3- Diga eu te amo para alguém que você realmente ama.

4- Exclua do seu facebook todas aquelas pessoas que só compartilham conteúdos que te irritam. Não ache que seu facebook vale pela quantidade de amigos, valorize sempre a qualidade. Ah, isso inclui família!

5- Leia um livro e depois "esqueça" esse livro em alguma praça para que outra pessoa encontre e possa desfrutar da mesma experiência que você.

6- Assista novamente aquele filme que você ama e nunca mais assistiu.

7- Veja o pôr do sol

8- Veja o nascer do sol

9- Ouça o CD do seu artista favorito do início ao fim sem pular nenhuma música e sem fazer outras coisas enquanto escuta, apenas curta a música.

10- Vá ao cinema.

11- Coma naquele restaurante que você já está querendo conhecer tem tempo e por algum motivo que nem você entende ainda não foi!

12- Dance!

13- Veja fotos suas antigas.

14- Sorria para as pessoas.

15- Tome um banho de cachoeira ou de mar.

Bom, está lançado o desafio. Sintam-se livres para realizar ou não as tarefas, para registrar ou não os resultados, para incluir ou excluir atividades, enfim, façam como bem entenderem, mas lembrem-se sempre que o objetivo é deixar nossos dias cada vez mais leves.


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sábado, 8 de abril de 2017

WALTER WHITE OU MICHAEL SCOFIELD? >> Sergio Geia

 

Não sou muito dado a essas séries da Netflix. Mas minha filha é e vive me mandando assistir a alguma coisa. Como os gostos de uma adolescente certamente não se equiparam aos gostos de um quarentão, um dia resolvi dar uma espiada, mas não sem antes pedir a indicação a um amigo.
A qualidade é indiscutível, os episódios são curtos, as histórias são bem boladas. Assisti a toda a primeira temporada de House Off Cards, mas depois cansei. Na verdade, era tanta engenharia de enganação política (não mais que a política brasileira) que resolvi abandonar. Talvez seja isso: overdose. Leio diariamente os jornais, sempre carregados de falcatruas de nossos representantes; não daria certo ter como diversão de final de dia a síntese do que há de mais vil na política. Enjoei. Mas não foi isso não; foi algo mais estético, eu diria. Acho que senti a falta da Zoe Barnes, a quem me afeiçoei logo à primeira olhada. Ela sumiu da história, e eu sumi também.
Fiquei algum tempo sem voltar à Netflix, até que outro dia, o mesmo amigo de House Off Cards me indicou Spartacus. Trata-se de uma série criada em 2010 por Stven S. Deknight que conta a história do gladiador trácio que chega a liderar um exército contra Roma. Assisti a todos os episódios de todas as temporadas. Gostei. Triste com o fim e animado com a descoberta de uma nova forma de entretenimento, emendei com Spartacus, Breaking Bad, Narcos  e Prison Break; foi quando me deparei com Walter White e Michael Scofield.
Scofield, que protagoniza Prison Break, é um jovem gênio, que comete um crime apenas para ser preso na mesma penitenciária onde seu irmão cumpre pena, injustamente condenado, prestes a ser morto na cadeira elétrica, e que está no centro de uma trama diabólica que envolve até a presidente dos Estados Unidos; Scofield tem tudo planejado para tirar o irmão de lá. White, que protagoniza Breaking Bad, foi eleito o melhor personagem de séries de todos os tempos, numa pesquisa realizada pela revista Empire. Professor de química, comum, inexpressivo, com sentimento de inferioridade, mas gênio em sua matéria (o desenrolar da série vai mostrar que o White Heisenberg é muito mais que isso), condenado à morte por um câncer no pulmão, passa a produzir metanfetaminas, e se torna um dos maiores produtores da droga dos Estados Unidos. Diversos fóruns discutem quem é o personagem mais inteligente: Walter White ou Michael Scofield?
Ambos, na verdade, são gênios e conseguem superar situações limites apenas com o uso da genialidade. White parece ter uma inteligência mais sutil e refinada; Michael tem um conhecimento denso sobre todos os assuntos (sabe aquela frase “todos somos ignorantes, porém em assuntos diferentes”?; pois é, Michael foge dessa regra; sobre todas as áreas do conhecimento humano, ele tem dados, elementos, informações), e uma capacidade incomum de planejamento. Scofield, como disse um amigo, trabalha num emaranhado muito mais complexo de relações do que Walt; por isso, a sensação que Prison Break passa, de que sempre as coisas não saem conforme planejado. O número de pessoas envolvidas e situações limites são muito maiores e exigem muito mais de Scofield. Talvez por isso eu diria que, se tivesse que apostar em um, apostaria em Michael Scofield.
Mas o que importa também saber quem é o mais inteligente? Ambos são personagens complexos, densos, as séries são ótimas, justificam o tempo gasto na frente da televisão.
Em alguns dias da semana é assim: eu chego em casa, tomo um uisquinho e antes de comer — e quem sabe terminar a noite com um bom Philip Roth nas mãos —, dou uma espiada em Prison Break .
P.S. Na semana passada eu acabei a quarta temporada; nem preciso dizer que na terça eu fiquei grudado na Fox, certo?


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sexta-feira, 7 de abril de 2017

AMOR E MORTE EM FAMÍLIA - 1a parte >> Zoraya Cesar

Felícia era ladina. Sonsa. Pérfida. Insidiosa. Linda, delicada e loura, mais parecia uma fada, os olhos azuis lânguidos, a boca pequena e rósea. Usava, sem pruridos morais, os mais cavilosos ardis para conseguir o que queria e poucos resistiam à sua fala macia, sua lábia, seu sex appeal. Uma vez fazendo sexo com um homem, este jamais a largaria por vontade própria.

Seu charme era parecer bondosa e vulnerável, sempre tão indefesa, tão inadequada para viver nesse mundo cruel. Certos homens se rasgavam para oferecer-lhe amor e proteção. 

Toni Illuso era um desses. Conheceram-se na academia; ele, noivo da mulher que amava desde a adolescência, Janine - uma pessoa íntegra e maravilhosa, perfeita para qualquer homem com juízo na cabeça. Esqueçamos Janine, no entanto, porque ela foi expulsa da vida de Toni assim que Felícia entrou. 

A família ficou estarrecida. Como assim? Largou a noiva – que, até então, era a mulher de sua vida – para casar-se, sem cerimônia ou aviso prévio, com uma sirigaita que acabara de conhecer? A mãe de Toni não se conformava. O que dera naquele menino, pra agir assim? Sexo. Só podia! A decepção de D. Rose foi enorme. Nunca pensara que seu caçula fosse desses homens que se deixam levar pelo sexo. E, mesmo antes de conhecê-la, detestou Felícia. 

Curiosas são as pessoas. E perigosas, outras tantas. 

A velha D. Rose, por experiente que fosse, por contrariada que estivesse, por raiva que sentisse, por isso, por aquilo... não resistiu aos encantos da irresistível Felícia. 

Que, aos poucos, ganhou um espaço discreto, mas fundamental. Era a nora, a cunhada preferida. Confidente, conselheira, equilibrada, ponderada... adjetivos não lhe faltavam.

Nem malícia, nem talento para infiltrar o veneno da discórdia no cerne de uma família que, até então, fora unida, honesta e amorosa. Ninguém percebeu como tudo começou, mas o fato é que os almoços de domingo, antes encontros felizes, passaram a sediar batalhas verbais de acusações veladas, mágoas nunca antes sentidas, desconfianças mútuas. A sociedade entre irmãos na vidraçaria fundada pelos bisavós e passada pelas gerações estava ameaçada de partir-se em cacos afiados e mortais. 

Os cunhados e a matriarca da família procuravam Felícia em busca de apoio e solidariedade. Ela os ouvia, compungida e compreensiva, para, ao final, oferecer-lhes um conselho edulcorado de sensatez, no qual escondia-se uma pequena semente de desconfiança. Voltavam dessas conversas, sem perceber, ainda mais irados, mais ciosos de suas razões, mais convencidos da deslealdade uns dos outros. D. Rose, por exemplo, passou a suspeitar que, à exceção de Toni e Felícia, os outros filhos e noras desejavam que ela morresse, para herdarem sua parte do negócio. 

Felícia usava sandálias
de salto alto vermelhas.
Que homem resiste a uma mulher que
usa sandálias assim?
Toni Illuso não resistiu.
Felícia manobrou tão bem, que Toni passou seus bens e os direitos que tinha sobre a empresa para o nome da mulher, a fim de preservar o patrimônio da sanha gananciosa dos irmãos. Sagaz, Felícia deu um jeito de a notícia da doação se espalhar, aumentando a dissensão na família. 

E por que tudo isso? Há quem perpetre esse tipo de manipulação para sentir-se como um deus – um deus menor, todavia, que nada cria, apenas destrói. Ou pelo prazer de assistir o mundo ruir à sua volta, dançar sobre os escombros, abandonar suas vítimas à miséria emocional, quando não financeira, e partir. E Felícia? O que a movia?

Talvez tudo isso e algo mais. Uma coisa era certa: cupidez fazia parte indissolúvel da personalidade de Felícia. Desde o início planejara minuciosamente sua estratégia - provocar o cisma entre os irmãos, deixá-los todos vulneráveis e suspeitos uns aos olhos dos outros e ficar com o dinheiro de Toni - que não era muito, mas estava longe de ser pouco.

ninguém percebeu suas artimanhas e intentos? Ninguém se deu conta de que, desde que ela chegara, a família Illuso se desfazia? Nem mesmo D. Rosa, a esperta D. Rosa, pressentiu a fina teia de dissentimentos e cizânias que a ‘nora preferida’ urdia?

Oh, não. Na verdade, alguém percebeu quem era Felícia desde o inicio. 

Eu. 

A cunhada menos valorizada daquela família que era tudo para mim. 

Continua dia 21 de abril a 2a e, prometo, última parte.

Foto: Salvo de i-jaqueline-posts.tumblr.com in Pinterest






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quarta-feira, 5 de abril de 2017

MENINA >> Carla Dias >>

Minha sobrinha faz aniversário hoje. Eu sei que há tempos não escrevo sobre essa coisa de ser tia, mas é que as crianças crescem, e depois têm outras crianças. Assim, chegamos à sobrinha em questão: Duda.

Eu sou uma tia bacana, apesar de não comparecer às festas de aniversário dos sobrinhos, raramente atender à agenda padrão dos presentes. Eu disse que sou uma tia bacana, não perfeita. Apesar de distante, geograficamente, estou sempre presente.

Duda é agridoce. Para convencê-la de que eu tenho o direito de pegá-la no colo, porque, afinal, eu sou tia... Tia-avó dela, enfim, não é fácil. Uma menininha de quatro anos – completando hoje! -, cheia de personalidade. Um pouco mal-humorada para a idade, mas é justamente isso que a torna tão interessante. Por sorte, sou uma tia que entende desse negócio de agridoce. Que, na verdade, respeita muito esse negócio de agridoce.

Com a Duda | 2013

O mais interessante foi encontrar ali, na pós-careta, desfeita, indiferença falseada, um desejo de ser conquistada. A cada visita, sou obrigada a cortar um dobrado para convencê-la a vir no meu colo. Porque, meus caros, eu não fico sem beijar e abraçar muito meus sobrinhos, quando vou visitá-los. Todos eles. Os nove.

Outro dia, eu falava com minha irmã pelo WhatsApp e chegou essa mensagem da Duda. Durante a conversa, eu a chamei para morar comigo. Falei um pouco sobre minha casa, vendi o peixe e tal. A resposta dela foi: ah, não... Pra dormir, não. Eu quero dormir na minha casa. Foi assim que eu descobri que nós temos essa afinidade, porque voltar para casa para dormir, também é essencial para mim.

Duda | 2017

Descobrir as crianças que são meus sobrinhos, e então, os adultos que se tornaram é uma aventura. Não pensem que, só porque alguns deles são adultos, que eu não os encha de carinho. Também não sou a tia que só faz as vontades, só diz levezas e sim para tudo. Querer bem, vai além de agradar, não é mesmo?

Então, essa crônica é para celebrar a Maria Eduarda, a Duda, minha menina agridoce preferida, que depois de fazer sua parte, e dificultar o meu trabalho, permite que eu a encha de beijos... Por dois segundos.

carladias.com



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terça-feira, 4 de abril de 2017

SELO "HOMÃO DA PORRA" >> Clara Braga

Bonito? Demais! 

Loiro? Sim. 

Olhos azuis? Não, mas são lindos do mesmo jeito pois combinam com todo o resto. 

Rico? Não, mas isso nunca nos impediu de fazer nada, diria até que é bom sair na rua sem a preocupação de saber que podem estar de olho na gente já que todo mundo no mundo sabe que ele é rico. 

Famoso e global? De jeito nenhum, e confesso que sair na rua no anonimato sempre foi algo que me interessou bastante. 

Chef de cozinha? Não, mas sempre faz pra mim as comidas que eu mais gosto de comer, afinal, de que adianta ser gourmet com uma pessoa que se realiza comendo abacate com sal? 

Lava roupa e louça? Sim! 

É bom pai? Estamos muito perto de descobrir, mas eu coloco minha mão no fogo sem medo. 

Faz crochê? Não, mas não vejo de que forma isso poderia influenciar nossas vidas.

É, parece que meu “Rodrigo Hilbert” não alcançou o tal padrão Rodrigo Hilbert de “homão da porra” que está rolando na internet e deixando alguns homens preocupados, afinal, como dividir o mundo com alguém que eleva tanto o padrão? Mas sinceramente, que bom! 

Vou explicar meu ponto de vista com três argumentos. Primeiro: o Rodrigo Hilbert não canta, toca e compõe como o meu, ou seja, perdeu pontos comigo. Segundo: eu duvido que ele conte as piores piadas do mundo que de tão ruins acabam ficando engraçadas. Menos pontos ainda. E terceiro, só para terminar, o primeiro dia que ele chegasse em casa dizendo: querida, cheguei para cozinhar essa rã que eu cacei ali no brejo antes de buscar as crianças na escola, eu pegava meus filhos, dava meia volta e ia comer no Mc’donalds.

Antes que digam que isso tudo que eu estou falando é discurso de mulher recalcada, entendam: não estou dizendo que o Rodrigo Hilbert não é um “homão da porra” nem nada do tipo. Ele é sim muito habilidoso e muito bonito, um verdadeiro homem multifuncional como estão falando por aí. Mas pra mim “homão da porra” é aquele que deixa e contribui para que você seja e se sinta cada vez mais uma “mulher do caralho”, mesmo que você não tenha metade das habilidades da Fernanda Lima.


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sexta-feira, 31 de março de 2017

AUTÔNOMO OU AUTÔMATO? >> Paulo Meireles Barguil


– Eu quero tudo pronto! – falou-me uma professora, num tom que demonstrava súplica e irritação.

Olhando para ela, respirei lentamente, e expliquei-lhe, pacientemente, que seu pedido contrariava meus princípios pedagógicos, os quais expressam minhas concepções de Homem, de Cosmos.
 
Conforme o dicionário Houaiss, autônomo é um indivíduo "[...] dotado da faculdade de determinar as próprias normas de conduta, sem imposições de outrem.".
 
O autômato, por sua vez, é um "[...] indivíduo de comportamento maquinal, executando tarefas ou seguindo ordens como se destituído de consciência, raciocínio, vontade ou espontaneidade.".

Na natureza, a vida é construída lentamente, com dedicação, cuidado, fé e perseverança.

Vivemos, todavia, numa época em que a aceleração é a característica central do mundo, a qual profana a nossa sutil condição humana, que demanda sensibilidade e, portanto, olhos e ouvidos atentos: frutos de um coração acolhedor.

Essa velocidade empreendida tem nefastas consequências para o nosso equilíbrio pessoal e social, que se manifestam de várias formas, dentre as quais destaco a falta de conexão, consigo e com os outros.

A pressa, ao contrário de nos possibilitar o encontro, que é o bálsamo da vida, quase sempre, nos distancia dessa oferenda divina.

Frustrados com os resultados obtidos, ao invés de mudarmos a estratégia, optamos, insanamente, não somente por mantê-la, mas aumentá-la!

É-me desalentador ver o discurso em vários documentos educacionais, nacionais e internacionais, em prol da constituição de sujeitos críticos e capazes de transformar a sociedade aliado à práticas que possibilitam o contrário: indivíduos alienados, que ignoram a complexidade da vida e a percebem de modo fragmentado, em partes isoladas.

Em virtude do meu desejo de colaborar por uma Educação que seja, efetivamente, transformadora, que possibilite o desenvolvimento de cada pessoa, nego-me a empreender práticas milenares que, ao sufocarem tristezas, medos, inseguranças, vergonhas e culpas, perpetuam e aprofundam momentos de muito sofrimento individual e coletivo.

As nossas maiores feridas são oriundas da falta de aconchego da alma, motivo pelo qual entendo ser essa a maior, senão a única, lição a ser aprendida por cada um de nós na convivência com os outros.
 
Acredito que as pessoas são capazes de aceitar que a vida as convida, sem cessar, para ampliarem a sua consciência, transmutando sentimentos, requisito indispensável para ser alguém mais hospitaleiro, empático e harmônico.

A todo momento, dedico-me para ser coerente com as minhas crenças, mas reconheço, com humildade, o quanto meus sentimentos e meus agimentos precisam, além daquelas, de muita luz!

Agradeço a todos que, com amorosidade ou não, me ajuda(ra)m a ser uma pessoa melhor.

Aceito os ônus referentes às minhas escolhas: conforta-me, parcialmente, saber que eles são bem menores se eu decidisse me negar a cada dia.

Compreendo e aceito que os outros queiram algo diferente e, às vezes, antagônico do que eu, motivo pelo qual, por vezes, opto por me calar e sair de cena, quando percebo que o outro está apegado às suas ideias, manifestação cristalina de quem não quer mudar.

A vida é uma mestra muito melhor do que eu, tosco aprendiz!


[Pintura de Jean-Marc Côté, intitulada Na escola (At School), que faz parte da coletânea Visões do ano 2000, produzida por vários artistas na virada do século XIX para o século XX]


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quarta-feira, 29 de março de 2017

CASA PRÓPRIA >> Carla Dias >>


Teve dois sonhos em uma mesma noite. Eles tinham tudo a ver, apesar dos cenários diferentes. E tinham tudo a ver com um assunto que sempre o incomodou, mais do que o atemorizou.

No primeiro sonho, ele visita uma casa. Um homem, que não lhe convence ser corretor de imóveis, mostra o lugar como se apontasse um palácio no meio da cidade. O olhar dele, acostumado a se desviar das lorotas, observa o óbvio. A casa é antiga, deve haver muitas histórias ali. Enquanto o improvável corretor de imóveis desfila adjetivos infundados, ele observa os cômodos como quem deseja escutar seus segredos.

É a primeira casa de um quintal no qual se enfileiram mais cinco. Em um salto de um cenário a outro, o corretor canastrão mostra as casas por detrás do bem cuidado quintal da casa. Lá atrás, apinhadas casas de concreto sem reboco, cômodos minúsculos, mal iluminados, conversas sussurradas. Há algo tão ruim ali, que lhe arrepia os pelos e dá nó na garganta. O vendedor de ilusões diz lindezas diversas a respeito de tal lugar. O positivismo dele é indigesto.

É assaltado por uma angústia. Não quer viver naqueles cômodos escondidos do olhar de quem passa. Não quer ser limitado aos metros quadrados daquela tristeza assumida e consagrada. Ali, o ruim parece brotar de escolhas.

Outra mudança de cena, e lá estão: ele, o corretor de móveis picareta e várias pessoas que ele não sabe quem são. Estão em frente à casa principal, aquele palácio embelezado pelo quintal espaçoso. Ah, os filhos que ainda não teve brincariam ali, aprenderiam sobre flores e árvores, seriam pessoinhas do vento, do tempo, das corridas no quintal. Mas, então, seu olhar se nubla. E apesar de ainda ver a beleza naquele quintal, também enxerga adiante, onde criaturas tristes, esboçadas em fumaça, arrastam seus corpos entre bem-me-queres e ipês. Seu coração se compadece de tal tristeza transitando por tal beleza.

Ele pergunta ao corretor de imóveis falacioso se a casa para ele alugar é uma das escondidas lá no fundo. A ideia de levar uma vida naquele viveiro de mágoas o atormenta. O vendedor de conversa para boi dormir diz que de jeito nenhum. Para ele, a casa da frente, do quintal que é só espaço e cor. Com a varanda gigante, das janelas escancaradas para o belo.

Então, aquele engasgo lá do começo do sonho se torna um desejo imenso de sair correndo.

Percebendo como ele se sente, o corretor de imóveis se arma de um sorriso largo e falso, e em falsete, canta que ali é o lar perfeito para se passar eternidade. Que fim de semana, férias, ano sabático, nada disso bastaria. A eternidade, ela sim se sentiria em casa naquele lugar.

Não ele...

O medo que se apossa dele é dos escancarados e tremeluzentes. Faz seu estômago revirar, o silêncio pesar, o espírito estremecer. Trata-se disso, então? Chegar ao lugar onde se passar a eternidade?

De repente, muda o cenário. Muda o sonho. O nefasto corretor de imóveis desaparece.

Agora, ele está dentro de um ônibus em movimento, indo para algum lugar que ele não sabe qual. São poucas as pessoas que o acompanham, mas todas ele reconhece: tias, primos, mãe, pai, irmãos.

Sua alma se enche de uma paz da qual nunca experimentara. É bom estar entre os seus, não importa o destino. Eles conversam entre si, comedidos, mas conectados. Ele não sente vontade de interferir e os observa, o coração repleto de um amor que ele nunca sentiu tão justo.

É noite e lá fora é tudo vasto. Não há casas na beira da estrada. Lá fora a escuridão é clareada pela luz de lua cheia. Ele sempre gostou dessas noites, apesar de lhe trazerem visões. Quando menino, viu muitas dessas visões. Elas o assustavam, mas quase sempre, elas o encantavam, também. Eram sopros de vento desmanchando os cabelos-folhas das árvores. Eram bichos fascinantes caminhando lento, observadores, atentos. Contornos de corpos que dançavam aos deuses que ele nem conhecia. Era um misto de medo e satisfação por enxergar além.

O ônibus para e todos desembarcam. Chegaram a uma fazenda, com alguns casebres ao redor e a casa principal, grande e bonita. Demora um pouco a reconhecê-la, e então percebe: é a casa da fazenda onde passou sua infância e adolescência. Ali aprendeu quase tudo que o definiu, que o moldou.

Corre em direção a sua mãe e pergunta o que fazem ali. Ela continua a abraçar a irmã, que ficou com a propriedade, depois de a família dele se mudar para a cidade. A mãe não o escuta. Fala com cada um deles, sem que lhe percebam a presença.

Algum tempo depois, distraído com as lembranças da pessoa que foi quando vivia ali, já não escutava mais palavras. Sentados na sala, em uma longa conversa regada a café, eles falam sobre acontecimentos que desencadearam o destino dele. Apesar da angústia de não ser ouvido, sente-se protegido pela presença deles.

Talvez já tenha entendido a mensagem, mas prefira protelar mais um pouco, até quando possível. Percebe-se sortudo por não ter caído na lábia daquele corretor de imóveis de araque. O que ele estava negociando ali era algo mais profundo e muito mais importante do que uma casa de aluguel onde se viver. Ao assistir os seus a contemplarem passado, dá-se conta de que, finalmente, conseguira sua casa própria.

Quando menino, costumava fugir de casa, de madrugada, para dar longas caminhadas pela fazenda. Era tanto espaço, tantos passos. Perdia-se naquela imensidão, banhava-se com aquele céu, perdia-se na escuridão quebrada pela luz da lua. Sua vida, depois de lá, não foi tão diferente. Ousou estar onde poucos estiveram. Aprendeu nas sombras o valor da alumiação.

Um de seus maiores medos, agora parece uma escolha justa. Seu espírito se compadece dos que ficarão remoendo lembranças sobre ele. Mas o que fazer? O que um homem que passou a vida a lutar pelo justo, mesmo tendo cometidos seus pecados, pode desejar mais do que sua casa própria?

Os quintais sempre o deslumbraram. Há flores e árvores para serem plantadas. Não há nesse a tristeza oferecida como diamante pelo corretor de imóveis charlatão. Na casa, ainda há cômodos para serem decorados.

Despede-se dos seus e parte para mais uma caminhada pelo quintal da vida que viveu. Uma revisitação, antes do adeus. Antes de se mudar, de vez, para sua casa própria.

Imagem © Thomas Kinkade

carladias.com

Até mais ver, João Gilberto Noll!

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sábado, 25 de março de 2017

ALMOÇO DE DOMINGO >> Sergio Geia



Imagino o que você, leitor, deva estar esperando desta crônica: muita gente à mesa, muita comida, conversas inteligentes e animadas, estimuladas por doses de álcool, gargalhadas, crianças brincando e muita alegria; enfim, a expressão mais colorida da família feliz, pois família que se preza não despreza almoços de domingo.
Realmente o quadro é bonito e poderia ser assim; não é. Sinto desapontá-lo, mas o almoço é solitário mesmo, sem conversas inteligentes ou gargalhadas, sem fartura de comida e crianças brincando, mas, honestamente, e em absoluto minto a esse respeito, nem por isso desagradável ou que represente a expressão mais cinzenta da solidão; enfim, estar sozinho num domingo de verão estranhamente chuvoso e frio, não significa de maneira alguma estar sofrendo de solidão.
Normalmente saio para comer fora. A chuva, porém, fria e recorrente, os últimos dias, que me foram bastante molhados diante da falta de um simples guarda-chuva, mas especialmente, uma vontade caseira de cozinhar, me arregimenta a não pôr os pés na rua, mas fincá-los na cozinha.
O que sei de cozinhar é comezinho e ruim, o suficiente para não passar aperto. Não imagine você que desfilo com habilidade pela cozinha, que invento pratos mirabolantes, que me deleito por horas na frente de um fogão. De maneira alguma. Portanto, pode soar estranho o aparecimento de uma “vontade caseira de cozinhar”. Não para este cronista, acostumado a comer na rua; de vez em quando, dá vontade de comer em casa.
À mente me surge uma refeição bastante simples, mas digna: uma porção de arroz, salada e um bom bife; simples, barata, saborosa e sedutora. Pois vou lhe ensinar a fazer a iguaria, pedindo desculpas desde já pelo atrevimento. De repente você está careca de saber o que fazer na cozinha. Se for o caso, despreze essa receita vagabunda disfarçada de crônica (ou seria uma crônica vagabunda disfarçada de receita?). Se não for desse tipo de sujeito gourmet, e se qualquer dia desses estiver em apuros e só, pode procurar “Almoço de domingo”, e estará conferindo a essa crônica uma finalidade não imaginada pelo seu autor; pelo menos até agora.
De início, sugiro que se sirva de um bom uísque. Tenho aqui um Jack Daniels. Sirvo uma dose com duas pedras de gelo. Música é sempre inspiradora. Ligo a tevê e sintonizo um show do Oasis. Dou uma olhada na rua molhada enquanto degusto da bebida, na chuva caindo fina, nas pessoas se deslocando com dificuldade. Depois, já sentindo palpitar um desejo inspirador de criar, me mando pra cozinha. A receita, como falei, é simples, mas o resultado, compensador. Anote aí.
Arroz
Gosto daqueles saquinhos de arroz integral. Deposito o saquinho na panela com água fervente e um pouco de tempero e deixo lá; depois de algum tempo ele está pronto. Mas não vai bem arroz integral num domingo, certo? Abro o saco de 1 kg que tenho na despensa e coloco uma porção num copo americano, ao mesmo tempo em que coloco dois copos e meio de água pra ferver; tenho um bom tempero aqui, já pronto, comprado em Ubatuba. Enfim, um arroz básico, que, imagino, o amigo saiba fazer.
Salada
A minha salada combina uma porção de cenouras e repolho (ambos picados) que você encontra pronta em qualquer gôndola de supermercado, um ovo cozido e maionese a gosto. Tempere o repolho e a cenoura apenas com sal; acrescente, picando, o ovo, e, por fim, misture a maionese.
Bife
Pode ser filé, contra ou alcatra; o meu é filé. Tempere moderadamente e depois frite-o na frigideira.
Tudo pronto, finalize com delicadeza o prato (delicadeza quer dizer sem exagero), colocando umas duas colheres e meia de arroz, uma pequena porção de salada e um bife generoso, e está pronto o seu almoço de domingo. Bom, preço razoável, delicado e saboroso. Eu garanto.
Anotou? Se não anotou, não se preocupe; a crônica sobreviverá eternamente, diferentemente de seu autor; quando quiser, é só procurar nesse oceano de dados chamado web e certamente achará.
Se eu fosse um crítico de gastronomia desses que estampam suas opiniões em jornal, diria que o arroz está perfeito: soltinho, bem temperado, ao dente; que exagerei um pouco na maionese da salada, que o bife ficaria melhor se fosse menos passado. Avaliação? Bom. Apenas bom. Nada, entretanto, que me tire o prazer de degustar uma refeição feita em casa.
Como na frente da televisão (um vício difícil de largar), bebendo cerveja, assistindo a um show magnífico do Oasis, em Manchester.

Ilustração: www.taringa.net


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