quinta-feira, 21 de setembro de 2017

HOMENS OPACOS>> Analu Faria


Homens que não falam, aparentemente não sentem, homens que não discutem, homens de salão. Homens cordiais demais (cercados de mulheres assustadas demais ou acomodadas demais) para afrontar as atrocidades de outros homens que, nesses mesmos salões, dizem violências em tom de piada, com naturalidade. Homens que se dessensibilizam em dinheiro, status, álcool, religião. Homens que, em meninos, fecharam-se e jogaram as chaves de si mesmos fora.

Fantasmas. Vagando pelo limbo casa-trabalho-happy-hour-fim-de-semana, em busca de uma masculinidade perdida, isenta de memória, isenta de criatividade, isenta de qualquer traço florido. Bolsonaros-wanna-be e suas versões mais light, deixando-se levar apenas pela sensibilidade das crianças. Só delas.

Crianças crescidas. Com grossas capas amarelas que os protegem contra uma chuva que não vem. A vontade de gritar quando criança, a diferença enxergada desde cedo – repelida - , a violência que não se desvê e outros porcos selvagens grunhindo no porão estão todos dentro de casa, mas a proteção é usada para o exterior, mesmo em dias ensolarados: longas capas de chuva grudadas à pele embranquecida e desnutrida.

Animais doentes, que atacam insetos como quem caça javalis e deixam-se pisotear por leões mansos de jubas grandes. Perderam o contato com o espírito selvagem e sábio que os alimentava. Homens com medo de serem monstros, homens que temem deixar de sê-lo.


Uma reflexão sobre alguns homens que conheço e sobre a dor de linhagens e linhagens de mulheres aparentemente condenadas a viver com homens fechados, sempre encapuzados, desnutridos, sensíveis apenas a crianças e olhe lá. Uma reflexão de fim de semana, motivada pelo belíssimo “Sete minutos depois da meia noite”, filme em que um garotinho tem que admitir para si mesmo que queria que a mãe morresse logo, porque assim, pelo menos, ele não sofreria mais com a dor de não saber se iria ou não perde-la para o câncer. No filme, o garoto é procurado por um monstro que o força a admitir essa verdade dolorosa. Pareceu-me que depois de dizê-la em voz alta o garoto se transformou, toda a fotografia do filme mudou de cor, deixando o menino finalmente visível em tons brilhantes, acabando com a opacidade que o caracterizava.


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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

QUEM É? >> Carla Dias >>


Mantém tudo em ordem, que não vai deixar problema a ser herdado. Tem horror à ideia de entregar seus fantasmas aos que esperam recebê-los, apenas para se dizerem gentis ao acudirem ser tão complexo. Não se importa se herdarão seu dinheiro, seus imóveis, sua coleção de quadros, seus discos do Frank Sinatra. O que não deixa de herança é a sua história.

Os mais próximos, como gostam de se colocar, são apenas transeuntes na estrada da história dele. Sim, por mais respeitoso que ele seja com seu semelhante, generoso, até, há esse limite estabelecido em nome da intimidade consigo mesmo. Ninguém ultrapassa a linha que o defende da intimidade com o outro. Tem uma preguiça... sim, meus caros, é preguiça mesmo. Tem uma preguiça imensa de se mostrar ao outro. Imaginem o tempo gasto a contar lorotas, antes de entregar verdades? Não tem paciência para isso, nunca desejou conquistá-la. É absolutamente contra qualquer redenção que exija prefácio.

A casa grande, de cômodos a ecoarem o silêncio. Ali vive a versão oficial dele, entre móveis que moram lá desde sempre, a poeira muito bem-comportada debaixo de tapetes que já foram apreciados por olhares deslumbrados, quando estavam no ápice de sua juventude. Ninguém dá muita atenção aos tapetes que resistem, quando suas cores desbotam sob os pés do tempo. As janelas protegidas do lá fora por leves cortinas, porém ótimas bloqueadoras de olhares curiosos vindos lá rua.

O perfume do café se espalha pela casa. Às vezes, gosta de quebrar o silêncio com uma e outra canção do Frank. Não que ele seja cool, habituado à finesse do cantor. É acomodamento necessário, entende? A alma se entrega à melodia, ainda que lhe dê certa agonia abrandar espírito desejoso por sons mais escandalosos.

Há dias em que o desejo é pelas gritantes guitarras.

Toma seu café a apreciar janela cortinada. Vento entrando pela humilde abertura e levantando suas saias drapeadas. Frank canta as palavras como se elas fossem realidade inquestionável, ainda que, para ele, elas soem mesmo feito invencionice sem fim: You learn from every lonely day/I've learned and I've come back to say/let me try again. Ele sorri, como quem diz ao Frank que há quem aprenda mais do que reconhecer necessidade de companhia, em dias de solidão. Aprende-se o desapego ao desejo do outro em nos transformar em seus sonhos realizados. Aprende-se a aceitar a própria companhia sem o peso de quem não escuta outra voz ecoando pela casa.

Aprende-se que, antes só do que desacompanhado na presença de alguém.

Ele tem consciência do que falam sobre ele por aí. Os que orbitam sua existência, divertem-se e irritam-se com a ironia que ele destila. Acostumados a ela, eles não percebem os entretons, e assim ele se defende do desejo alheio de se alcançar os arrabaldes do ser que ele é. Sabem dele o que ele permite. Recebem dele o que ele permite. E ele, tolamente, acredita que está no comando de si, porque tudo o que quer é que herdem seus fantasmas, e os dispam, e os cutuquem com curiosidade programada, de acordo com o que já foi decidido por pura possibilidade de se emitir uma opinião. Que inventem para ele problemas dramáticos, sentimentos profundos, limitações comoventes. A barbárie do clichê.

Porém, uma dessas revistas de traçar perfil o definiria em um teste. Uma das canções de Frank o faria sem grandes complicações. O que ele faz é distrair as pessoas para que elas não percebam o raso do que ele representa. Porque ele acredita, equivocadamente, que não há forma mais eficiente de se sair ileso dessa vida do que abster-se de seus rompantes. Permanecer à deriva dela.

Raso, apesar do desejo de mergulhar.

Frank para de cantar. Acabou o café. O vento partiu e a saia da cortina despencou sua beleza. Sentado em sua confortável poltrona, ele arrasta pés descalços em seu tapete de muito antes de hoje. A poeira sobe, estreando a mirrada luz do sol como seu holofote. O silêncio de lá fora se acopla ao silêncio daqui de dentro. As paredes parecem gritar a mudez definitiva. Por um segundo, ele se desespera, mas passa. Nada de deixar seus fantasmas de herança. Eles são o seu segredo.

O telefone toca e ele atende. Uma voz que ele não reconhece pergunta quem é? E ele é tomado por um desespero incomum, de quem perdeu o rumo diante de um questionamento nunca feito. Não sabe o que responder.

Silencia.




Imagem: The musings of the solitary walker © Rene Magritt



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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

JÁ? >> Paulo Meireles Barguil

— Já? 
 
Esse vocábulo é utilizado para expressar alívio ou tristeza em relação a algum acontecimento, seja em virtude do seu término ou do seu início.
 
Cada pessoa e seus padrões: ora segue o relógio externo — regulado por dispositivos mecânicos, elétricos... — ora pactua com o marcador interno — guiado por sentimentos e imagens, cujas conexões escapam do seu desejo de compreendê-las na totalidade.
 
Um beijo, uma refeição, um filme, uma viagem, um curso, uma vida, um aconchego, uma crônica...


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quarta-feira, 13 de setembro de 2017

DANOU-SE >> Carla Dias >>


Danou-se, meu caro.

Eu pensei que, finalmente, a liberdade de ser estivesse ali, na esquina das nossas buscas. Não se tratava mais de uma estrada a ser percorrida, mas de destino acenando, nos dando boas-vindas.

Estradas a serem percorridas perderam até o quê poético para mim. Veja, percorremos estradas bem longas, até aqui. Ser tem sido o desafio mais complexo que já encaramos. Ser sem medo de sê-lo. Ser com direito a sê-lo.

Talvez, tenhamos nos deslumbrado com perspectivas e perdemos a noção da força daquele que prefere ecoar um outro alguém. Um alguém oco, destinado a sobreviver feito reservatório de percepções obsoletas. Porque, se o ser humano tende a evoluir, nada mais natural do que seu olhar se apurar, certo? Suas percepções se aprumarem.

Na minha cabeça – e no meu coração, na minha alma, ou sabe-se lá em que lugar do dentro você entende como sensível ao mundo -, o futuro seria o tempo no qual compreenderíamos que somos seres humanos; que nos trataríamos, primeiramente, como pessoas. Que cortejaríamos as diferenças. Que nos despiríamos da necessidade de nos provarmos superiores. Que nos conheceríamos profundamente e, assim, seríamos capazes de nos reconhecermos em mais, muito mais do que nos permitem as regras empoeiradas às quais nos acostumamos a cumprir.

Esse futuro foi ontem e isso não aconteceu.

Talvez, por conta da nossa curiosidade a respeito do tudo e de todos, sejamos mais dedicados ao provocador. Observá-lo tem se mostrado uma forma efetiva de aprender pessoas, obras, mudanças. Mas danou-se, meu caro. Teremos de encarar outras estradas desacreditadas e batalhas vencidas, com vitórias descartadas, apesar de legítimas. E quando traímos a legitimidade, damos muitos passos para trás. O tempo dedicado à evolução é descartado como se tempo nenhum tivesse acontecido. Como se tivesse sido um sonho com a brevidade de décadas. Séculos.

Assim, diminuímos as chances de alcançarmos a nós mesmos.

Eu compreendo sua apreensão. É começar de novo um novamente que tem jeito de ciclo vicioso. Gostaríamos de fazer a roda girar, mas que não fosse para nos enganar, dizendo que nos leva a algum lugar, quando, na verdade, nos mantêm prisioneiros de tradições que nada significam, além de correntes.

Eu realmente pensei que seríamos melhores no tempo-hoje. Então, que acordei desacreditada nesse meu pensamento. Senti uma desolação digna de quem se esvaziou daquela esperança sobre a qual falamos ontem. Foram muitas doses de café, livros folheados, roupas lavadas, contemplação de rua, lá da janela. Tentei me distrair de mim, exercendo a rotina. Então, dei-me conta de que, apesar da desolação, danou-se, meu caro, mas vou continuar a buscar um mundo onde caiba o entendimento sobre o significado do que é oferecido e do que é imposto. Da importância de podermos escolher, de termos opções disponíveis, de assumirmos o que não é suscetível à mudança, porque é essência.

Danou-se, meu caro.

Imagem: Midday Sorrow © Angel Planells

carla.dias.com



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terça-feira, 12 de setembro de 2017

ORGANICAMENTE GRATA >> Clara Braga

Há alguns anos abandonei o curso de letras faltando apenas um ano para me formar. Muitos acharam que fiz uma loucura e confesso até que cheguei a ir a uma dessas mulheres que fazem leitura de borra de café e perguntei o que ela achava da minha decisão, ela me orientou a voltar atrás da minha decisão ou eu iria me arrepender. 

Resultado: não voltei atrás e não me arrependi. E continuo achando que não preciso ser formada em letras para gostar de ler, não preciso ser formada em letras para gostar de escrever e não preciso ser formada em letras para ser uma curiosa da língua, ou seja, estava no curso pelos motivos errados. Acabei me arrependendo de gastar uma grana tomando um café ruim e ouvir a mulher falar um monte de coisas que nunca aconteceram, mas de largar o curso não.

Enfim, mas foi exatamente o fato de continuar sendo muito curiosa que digo que venho percebendo uma mudança na nossa escolha de palavras, uma mudança na nossa forma de falar. Agora você deve estar pensando que eu não deveria ter largado o curso, pois assim saberia que a língua está em constante mudança, mas não é essa a questão. 

A primeira questão é que eu nunca tinha me observado no meio dessa mudança, só percebia que ela havia acontecido depois de um tempo, quando todo mundo já estava comentando sobre termos e frases que já não eram mais utilizados e haviam sido trocados. A segunda é que as palavras que estamos trocando são um tanto curiosas.

Por exemplo, o obrigado/obrigada foi trocado pela gratidão. Ser trocado por uma palavra tão leve faz mesmo o obrigada parecer uma palavra sem jeito, até quase mal educada. Talvez a forma como falamos, já quase sem perceber, tenha esvaziado a palavra de significado e, embora possam ter abrangências diferentes, fez-se necessária a substituição de uma pela outra.

Outra palavra que foi comprar um cigarro e nunca mais voltou foi a compaixão. Nunca se falou tanto nela para dizer que ela está em falta ou não existe mais. E de tanta falta que ela faz, agora é necessário que sinônimos sejam usados, mas não sinônimos perfeitos e sim palavras com significado próximo que servem para situações específicas, como é o caso da sororidade.

A diversidade se tornou extremamente diversa, se antes parecia abranger poucos grupos hoje já precisa vir acompanhada de alguma outra palavra para que se possa entender de qual diversidade estamos falando, o que é ótimo.

E o orgânico? Já entendi que comer comidas orgânicas é mais saudável, embora por algum motivo seja muito mais caro, mas estou tendo muita dificuldade em lidar com o fato das coisas e das pessoas também serem mais orgânicas, até onde eu pude entender isso parece ser algo bom, mas ainda é o tipo de palavra que eu não sei aplicar em uma frase.

É isso, as palavras estão se modificando e se adaptando a um novo mundo, o problema é que esse mundo parece doente e a necessidade da mudança de palavras é só um reflexo da necessidade urgente de mudança de atitudes. De nada adianta a gratidão se ela for tão vazia quanto o obrigada que a gente diz sem nem olhar na cara da outra pessoa. 


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sábado, 9 de setembro de 2017

BANALIDADES >> Sergio Geia

 

Deitado, meio dormindo, me lembro da afta debaixo da língua. Achei que ela não iria pra frente; foi. Levanto. Vou ao banheiro e pego um cotonete. Olho no espelho, ergo a língua, começo a cutucar. Cutuco, cutuco, cutuco. Levo o cotonete mais a fundo. Cutuco, cutuco, cutuco e encontro a danada. Viro o cotonete e, a ponta ainda seca, encharco com Omcilon. Vou deitar com a boca cheia de pomada, o estômago esquisito, um gosto de tempero pronto na boca. Na tevê, passa um documentário legal sobre o Jards Macalé. 
Uma vez ouvi alguém dizer que homem não consegue organizar nem o bolso da calça. Na frente da minha porta, vasculhando o meu bolso, a sacolinha do supermercado pesando nas mãos, tento encontrar a chave. São várias chaves no bolso, uns papeizinhos, um pen drive, um halls preto, um clipe de papel. Me irrito profundamente. Acho que pouca coisa me irrita mais que isso. Tiro um molho de chaves, cai um comprovante de débito no chão, o halls também cai, pego outro molho de chaves, mudo ele de mão, até que depois de tirar quase tudo, eu consigo pegar a chave da porta. Dou uma virada, tiro-a da porta, volto pro bolso, puxo a maçaneta pra baixo e entro. Ou tento. A porta não abre. Estava com duas voltas, o dedão do pé doendo. 
Levanto, vou ao banheiro, pego um cotonete. Cutuco, cutuco, cutuco. O tubo da pasta está de cabeça pra baixo. Sonolento, a primeira impressão é de estranhamento. Depois, a ficha cai. É a nova técnica para tubos quase vazios. Em pé, o creme fica embaixo, você aperta, ele não sai. De cabeça pra baixo você resolve o problema. Aperta, sai. A técnica é simples, mas funcional. Olho pro espelho. O cabelo desgrenhado me força a tomar banho. Quando eu cortava à máquina não precisava. Tá frio e desisto de caminhar. Mais uma vez. Sempre que isso acontece, me bate uma melancolia. Na janela, um alvorecer lindo.
Enjoado de hambúrguer industrializado, converso com o Julio, e decido criar o meu. Pego a carne moída já descongelada e a divido em três. Ponho uma porção nas mãos e começo a modelagem. Meio imberbe no processo, fabrico três bolotas disformes. Tempero por fora com um temperinho pronto e jogo na panela. Aumento o óleo, diminuo o fogo. Descubro que o sabor é bom, muito melhor que um Sadia, embora tenha carregado no tempero. No quarto, vejo os sapatos enfileirados debaixo da cama. Honestamente, não me incomodo. Deveria? A primeira faxineira que teve aqui guardava tudo no guarda-roupa. Falei pra parar. 
A amiga que me ajuda na limpeza do apartamento vem. Me lembro dos produtos de limpeza que ela me pediu e que esqueci de comprar. Vou a pé até o Extra que fica na avenida de casa. No caminho, me arrependo de ter ido de havaianas. Tenho o segundo dedo do pé encavalado sobre o dedão, isso nos dois pés, um pequeno defeito de fabricação. A tira do chinelo se infiltra entre o dedão e segundo dedo, e vai detonando os dois. Chego ao supermercado e ainda consigo manter a pose, tentando esquecer o ménage que acontece entre a tira, o dedão e o segundo dedo. A faxineira vem. Penso que tenho que separar as roupas pra lavar, algumas camisas pra passar, anotar instruções, deixar o dinheiro debaixo da tartaruga. Chego com o dedão doendo, e não encontro a chave da porta.  
O cabelo desgrenhado me força a tomar banho. Quando eu cortava à máquina não precisava. Lembro que a resistência do meu Lorenzetti queimou. Vi um vídeo no YouTube outro dia e fui à luta. Trocar a resistência de um chuveiro é um ato prosaico. Basta saber qual é o conector “a”, o conector “b” e o conector “c”. No chuveiro, tem marcado as bases “a”, a “b” e a “c”. E só encaixar e dar uma apertadinha usando um alicate. O problema é que não sou muito habilidoso com essas coisas; além do mais, tenho que fazer a troca lá em cima mesmo, com o chuveiro instalado; não quero retirá-lo, mexer com a parte elétrica. Meus dedos são grossos, os espaços que tenho pra trabalhar são estreitos. Tá frio e desisto de caminhar. Mais uma vez.
Entro debaixo do edredom. Desejo descansar os dedos, o dedão detonado por um ménage com a tira das sandálias e o segundo dedo. Ponho os óculos, pego o livro. Antes, olho as anotações à mão, que encabeçam umas páginas. Faço assim: quando encontro uma palavra bonita, escrevo na parte superior da página. Tem livros com muitas palavras bonitas. Açular, por exemplo. Açular significa provocar, estimular, excitar. Açular é uma palavra linda. A sensação é tenra, um céu todo feito de rosa dúbio e vagaroso, outra lindeza que encontro. Não a sensação, que é minha mesmo, mas o céu, que é do Raduan. E são muitas, mas nada que impeça esse mesmo céu de escurecer, o corpo lasso acusando a semana. Fecho a janela, não sem antes dar uma espiada nas plêiades, que descobri outro dia lendo um conto do Caio Fernando Abreu. Apago a luz. Ligo a tevê. Passa um documentário legal sobre o Jards Macalé. Deitado, meio dormindo, me lembro da afta debaixo da língua... 


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sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A TEIA DE IRENE >> Zoraya Cesar

Vivíamos isolados, numa chácara modesta, nem três alqueires. Nossos únicos parentes eram dois primos de caráter duvidoso.

Durante o dia, eu cuidava da terra, ou ia à cidade tratar dos negócios e comprar novelos de lã; durante a tarde lia os clássicos – sempre no original, claro. Minha irmã Irene cuidava dos afazeres domésticos pelas manhãs e, após o almoço, tricotava. Só nos encontrávamos à noite, para jantar e contar como fora nosso dia. Nossos dias eram sempre iguais, mas contávamos assim mesmo. Antes de nos recolhermos, eu ficava a bebericar meu xerez preferido, o Tio Pepe, e a fumar meu cachimbo, absorto em ver Irene tricotar. As mãos de Irene tricotando eram pura arte em movimento.

Era um ás das agulhas. Podia fazer qualquer coisa com linhas e lãs e creio que nem mesmo Aracne, em sua melhor performance, seria páreo para ela. Doce e meiga Irene. Pequena, magra, pálida. Seus grandes e espantados olhos azuis faziam-na parecer uma frágil boneca de louça. Mantinha cortados rentes os cabelos negro-corvo, e digo, orgulhoso, que era tão inteligente e sagaz quanto a ave que lhe dava cor às madeixas. Todos se enganam com a aparência infantil de Irene. Os primos cometeram esse erro. 

Numa tarde especialmente modorrenta, recebemos um telegrama desanimador, anunciando sua visita. Ora, vejam! Típico deles fazer isso. Nem perguntaram se seria conveniente recebê-los. Desde crianças eram inoportunos, buliçosos e amigos do alheio, se me faço entender. Por que mudariam depois de adultos? Confesso que fiquei nervosíssimo. Não gostava deles nem da confusão que sua estada provocaria em nossa rotina. Irene manteve a calma – como sempre – e deu-me um cálice de Tio Pepe. Tudo daria certo, disse. Senti-me um tolo. Devia saber que Irene cuidaria de tudo.

Foi nessa época que a aranha apareceu. Apesar de vivermos no meio do mato, Irene nunca tolerou a entrada de qualquer inseto, cobra, aracnídeo em casa. Por isso estranhei quando ela não só aceitou a presença da aranha como permitiu que construísse uma teia na parede da sala. Para pegar moscas, explicou-me, sorrindo. Sorri também, sem entender nada. Mas, à noite, distraía-me em vê-las a tecer. Uma lindeza que só!

Ao cabo de alguns dias, percebi que o tricô de minha irmã estava cada vez mais parecido com a trama da aranha. Não poucas vezes Irene levava seu trabalho para a aranha examinar; de outras, sua nova amiga descia elegantemente em seu fino fio até Irene e posso jurar a vocês que elas conversavam.

Então, nossos primos chegaram. Eram irmãos e se odiavam com ferocidade. Só não se matavam porque uniam forças por um objetivo comum: herdar nossa chácara. Irene e eu antevíamos dias difíceis. Não nos enganamos. Comiam e bebiam à nossa custa, bisbilhotavam e desarrumavam tudo. Diziam claramente que a casa um dia seria deles, portanto, não fazíamos favor algum em recebê-los. A coisa tomou um rumo mais sério quando, uma noite, a aranha trouxe, para Irene, um fio de teia vindo do quarto onde os primos dormiam. E foi pelo fio que ouvimos o horror, o horror: estavam falidos. Perderam tudo na jogatina. Não tinham onde morar ou quem os acolhesse. Ficariam conosco até a nossa morte. E se demorássemos a morrer...

Desesperei-me. Irene e eu já não éramos crianças. A presença odiosa deles nos acuava em nossa própria casa. Tinham a maldade e a força ao seu lado. E nós? O que tínhamos?
Eu já não distinguia mais onde terminava a teia da aranha,
onde começava a de Irene.
Sei apenas que elas teciam, teciam, teciam
sem parar.
A aranha, disse-me Irene. E, dando-me uma dose dupla de Tio Pepe, afiançou-me que tudo ficaria bem. Pediu-me que, no dia seguinte comprasse novelos de linhas de seda. Muitos. Dezenas deles. Nunca a vira fiar com linhas de seda, mas nada perguntei; saberia quando chegasse a hora.

A partir daquele dia, Irene e a aranha passaram a tecer ininterruptamente, teias finas e fortes, que se misturavam, formando uma única trama. Irene nem comia, o que me preocupava profundamente, mas ela apenas sorria e tecia, tecia, tecia. Eu não via a aranha pegar mosca alguma, e isso também me preocupava, não fosse ela morrer e causar sofrimento em Irene. Incansáveis, elas apenas teciam, teciam, teciam. Eu não conseguia dormir. Passava as noites insone, observando-as trabalhar. Não entendia nada, mas vê-las juntas era a única coisa que me trazia alguma paz.

Uma noite – tempestuosa e fria, lembro-me bem – elas, repentinamente, param. Teias enormes se espalhavam pelo aposento, indistinguíveis as feitas por Irene das tecidas pela aranha. Silenciosa e delicada como uma sombra, Irene se encaminha até o quarto onde os primos dormiam, roncavam e babavam após a bebedeira, e recobre-os com uma teia, estendendo-a por todos os cantos e com ela vedando a porta. Findo o trabalho, ela, finalmente, dorme. Dormi também.

Acordei com sons abafados e desesperados vindos do quarto dos primos. Tentei entrar, mas a teia transformara-o numa cela impenetrável. Irene interrompeu-me.

- A aranha tem fome – disse, simplesmente – foram muitos dias de jejum.

Nunca abrimos aquele quarto; a aranha sumira. Encomendei outra garrafa de xerez, fumo para meu cachimbo, e voltamos à nossa rotina. Irene, no entanto, continuou a tricotar com fios de seda.

Tempos depois, um policial bateu à nossa porta, perguntando pelos primos. Dissemos a verdade (Irene e eu jamais mentíamos): que não os víamos nem deles tínhamos notícias havia muitas semanas. O rapaz foi embora, mas Irene e eu sabíamos que ele retornaria com mais perguntas e, quiçá, com um mandado para revistar a casa.

Nessa noite, a aranha regressou ao nosso convívio, e as duas voltaram a tecer freneticamente. Teciam uma enorme teia que recobriu a casa toda. Estávamos, agora, em uma fortaleza inexpugnável. Ninguém entrava. Ninguém saía. Nem mesmo nós.

Irene deu-me uma espécie de pijama de teia de seda que me envolvia inteiramente, da cabeça aos pés, e vestiu um igual. Notei que a aranha se enrolava em seus próprios fios. Parecíamos três larvas de borboleta no casulo final. Múmias a se eternizarem pelos anos vindouros.

Senti-me confortável. Um leve torpor me tomava aos poucos. Ouvi, como se de uma longa distância, Irene dizer que nunca mais seríamos perturbados, poderíamos viver em paz novamente. Antes de cair num profundo sono reconfortador, ainda pensei em como era afortunado por ter uma irmã como Irene.






Foto: TRAPHITHO in Pixabay

Mitologia grega - o mito de Aracne - resumo resumidíssimo de uma das versões: Aracne era uma mortal, tecelã cujos trabalhos eram reconhecidos como perfeitos. E que cometeu a imprudência de desafiar a Deusa Atena para uma competição. Ao ver que o trabalho de Aracne ficara excepcional, Atena, tomada pela fúria, destruiu-o. Deprimida, Aracne tentou se enforcar. Compadecida, Atena resolveu transformá-la em aranha, para que nunca deixasse de tecer. 


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quinta-feira, 7 de setembro de 2017

OS REIS DO DRAMA>>Analu Faria

Olho pro garotinho com uma casca de ferida enorme no joelho e digo: ai, isso deve doer. "Dói nada, quer ver?" E arranca um pedacinho da casca, expõe uma pele quase em carne viva, a ferida sangra. A mãe do garoto me olha com cara de poucos amigos e dá bronca no filho. Maroto, o menino esconde da mãe um sorrisinho transgressor, que reserva para mim. Penso que o garoto pode ter tendências psicopatas, talvez fosse bom uma avaliação psiquiátrica, psicológica... melhor não ficar perto, vai que ele tem um canivete, um estilete ou algo assim escondido, meu Deus, eu posso ser morta por um menininho!

Minha mãe costumava dizer para os filhos: "Não corram na sala, que eu tô vendo a hora de vocês racharem a cabeça na quina da mesa", colocando uma ênfase especial em "racharem a cabeça". Talvez um "... que vocês vão se machucar." fosse suficiente. Lembro-me de que, já mais velhos, a frase virou motivo de piada para mim e meu irmão: "Cuidado que você vai RACHAAAAAAAR A CABEÇAAAAA na quina da mesa."

Meu pai nunca deve ter chegado atrasado a qualquer compromisso que tenha marcado. Isso porque toda vez que íamos viajar, ele chegava umas duas horas antes no aeroporto ou na rodoviária. Se a viagem era de carro e saíamos de madrugadinha, ele já começava a acordar com as galinhas, uma semana antes, "para acostumar". Já melhorou: hoje ele chega uma hora e meia antes da partida do vôo, mesmo já tendo feito check-in e sem mala para despachar.

Percebe-se que o drama corre na família. O único que não endrameava as coisas era meu irmão, mas o garoto também era alto (o resto da família é de baixinhos) e todo paz e amor (o resto da família é meio briguento), ou seja, um ponto fora da curva. Se não se parecesse com meus pais, eu diria que foi trocado na maternidade. Tive a felicidade de conviver com ele durante 25 curtos anos e sinto sua falta só quando eu respiro. Ele faleceu deixando um rastro de tranquilidade suficiente para que, ao pensar em seu sorriso, eu aceite com mais compaixão a natureza hiperbólica dos meus pais e a minha própria. Louvo o exagero desta minha família de reis do drama quando penso que é essa explosão de coisas do espírito que me faz pensar no meu irmão como o melhor irmão de todos os tempos, desde os primórdios da existência até depois do infinito. É também o que me faz gargalhar, mesmo estando em público, ao lembrar das piadas que fazíamos sobre nossos pais.










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quarta-feira, 6 de setembro de 2017

O ANDAMENTO DO TEMPO >> Carla Dias >>


Há o que já não fazemos, porque esgotamos a capacidade de nos dedicar ao feito. Há também o que abandonamos, nem sempre por vontade própria, quase sempre por conta dos acontecimentos que não temos como comandar.

Olhamos para a juventude com certa distância. Ainda a achamos atraente, a desejamos – metafisicamente – com certa elegância. Porém, concordamos que seria um fardo viver a eternidade, não é mesmo? As urgências, aquelas urgências que perdem o valor com o tempo. Tivemos de vivê-las para reconhecermos que a utilidade delas não é nos levar às conclusões, mas ao questionamento.

Levamos uma vida para entendermos que as perguntas, ainda que desprovidas de respostas, contam histórias. Mais do que isso, acontece de elas mudarem essas histórias.

Olhamos para a juventude com certa intimidade, quando se trata dos nossos afetos. Chegamos mesmo a nos emocionar com a forma como eles descobrem a vida. Como não observar o tempo acontecendo a eles e torcer para que o processo seja menos complexo quanto foi para nós? Porque pode acontecer de a complexidade não apenas desnortear, mas também doer, enfraquecer, desesperar. E se há algo que a vida nos ensinou é que sempre desejaremos mais leveza à vida dos que amamos.

Até chegarmos aqui, muito foi incluído nesse currículo existencial: nascimentos, abandonos, descobertas, perdas, conquistas e muitas canções, que nossa vida jamais seguiria inspirada se não fosse a música.

A partir de um momento, variando de acordo com o freguês, observar-se é mais complexo, e não apenas no espelho. Aceitar a efemeridade de quem somos não é das coisas mais fáceis, tampouco deleitáveis. Mas não vivemos apenas dos prazeres, certo? Nossas dores e tristezas nos acompanham e nos moldam e nos abraçam e nos sustentam e nos inspiram. As alegrias, idem, mas não com tamanho poder de nos fazer escutá-las. Felizes, acabamos distraídos das pequenas tragédias. Essas fugazes distrações não são somente bem-vindas, mas necessárias.

Precisamos de pausas.

Não vamos cair naqueles clichês que resumem o que não pode ser resumido. Envelhecer é aprendizado árduo, porque o processo chega com a necessidade do desapego, e não é por objetos que adoramos, dos quais não queremos nos desfazer. É por aquela pessoa que imaginávamos ser, sendo que, hoje, percebemos que aquelas eram identidades forjadas na espera pela conquista mais importante. Aquela conquista que nunca veio, como aquele evento especial no qual usaríamos roupas especiais que nunca saíram do guarda-roupa.

Envelhecemos, então. Sei que muitos dirão que ainda é cedo para falar a respeito, outros darão a sugestão de mantermos a máscara da juventude por mais algum tempo, até que seja impossível usá-la.

Não enxergamos outro caminho. Despir-se dessa máscara é o que temos feito, porque as outras opções em nada nos agrada. Talvez haja alguma beleza em se entender com essa versão de nós, que não se fia mais pela possibilidade de deslumbramentos vazios, pela forçada adequação, pela necessidade de se identificar com todos, exceto consigo mesmo. As outras identificações precisam da honestidade do querer.

A honestidade do querer é parecida com o tempo. Ela nos ajuda a compreender o que importa, o que de fato faz parte de quem somos.

As histórias de quem fomos convergem nesse ponto. Então, envelhecemos. Ainda somos os mesmos de antes, mas o antes já não nos toca mais como antigamente.

Imagem: Femme au miroir © Pablo Picasso


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segunda-feira, 4 de setembro de 2017

ANJOS E PARAÍSOS >> Albir José Inácio da Silva

Toda vez que Stepan Nercessian aparece na televisão, acabo transportado ao personagem  Marcelo Zona Sul naquele cinzento ano de 1970.

Um tempo em que não cabiam aquelas suaves transgressões adolescentes, mas, como meu coração ainda não enxergava as cinzas, eu só via o paraíso em que se espalhavam e, às vezes, se entediavam aqueles jovens.

Enquanto diplomatas estrangeiros eram sequestrados, o Brasil virava tricampeão e eu sonhava com o mundo de Marcelo. Não era apenas inveja que eu sentia, era uma espécie de reverência.

Copacabana, Lagoa e Alto da Boa Vista eram muito mais do que minha imaginação dizia sobre o pobre Éden com suas árvores, cobras e maçãs. Era lá, na zona sul, que a vida devia acontecer de fato para os que merecessem.

Eu achava que não merecia porque fazia coisas abomináveis, até que vi, ou imaginei, que Marcelo fazia tudo aquilo com a naturalidade de um anjo. Isso servia como anistia geral, mas não se aplicava a tudo. Algumas transgressões só podiam ser cometidas por ele. Pra mim seriam heresias.

Eu também não encontrava respostas para algumas perguntas. Havendo um ator lourinho feito querubim, por que ele não fazia o papel de Marcelo? Louro não fica melhor como protagonista?

Outra questão que me confundia a cabeça era a indignação de Marcelo ante a ameaça do pai de obrigá-lo a trabalhar num escritório. Filho de operário, trabalhar num escritório era o meu sonho mais acalentado. Como podia isso ser castigo? Parece até condenação de juiz corrupto no Brasil - ganhar salário sem trabalhar pelo resto da vida, numa espécie de enriquecimento sem causa autorizado por lei.

A música que termina o filme, “Canção da Volta” de Denoy de Oliveira, parece que ainda nos define a vida tanto quanto naquela época:
“E assim termina a nossa história. Que será de Marcelo? E o que será da gente triste que trabalha sem amor? Aonde irá teu sonho, louco por voar?”

Quase cinquenta anos depois, não acho mais que louros são melhores que morenos e fico entediado com trabalho sem amor.


E sou tentado a dizer, parafraseando Drummond, que “eu não sabia que minha história” em Madureira era tão bonita quanto a de Marcelo Zona Sul.


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sexta-feira, 1 de setembro de 2017

HOMO SAPIENS IGNORANS >> Paulo Meireles Barguil


Sem os sentidos, como sentimos?

Sem sentirmos, como vivemos?

Sem vivermos, o que somos?

Dentro de diferentes caixas – de osso, madeira, papelão, cimento, plástico, ferro, verdade, metal, transistor... – estamos.

Fora dessas caixas, somos.

Ignorar os limites implica sermos deles reféns.

Identificá-los nos enseja tatear grades invisíveis e, assim, atravessar incontáveis portais.

Sapiens é quem se reconhece ignorans.

Ignorans é quem se crê sapiens.

Palavras e silêncios são matérias-primas que modelam fortalezas e pontes.

Usá-las é uma arte, cujo aprendizado está relacionado à qualidade da nossa vida.


[A Cabeça Quadrada, Nice – França]

[Foto de minha autoria. 02 de março de 2013]

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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

PERTENCIMENTO >> Carla Dias >>


Aqui não é lugar para ele. Ele não pertence ao aqui. Mesmo que apresentem uma lista de sedutores motivos, na tentativa de provar que aqui combina com ele, e vice e versa, ah, se pudessem sentir o quão sofrível é para ele estar aqui, desistiriam desse desejo de convencimento.

Aqui pode ser bom e saudável para muitos. Para ele, é prisão. E traz esse silêncio que ele não consegue calar, ainda que já tenha se aventurado a tentar quebrá-lo aos berros. Você já tentou abandonar um aqui onde foi colocado? Tentou redesenhar o cenário? Reescrever a trama?

Aos poucos - tão lentamente que o tempo passa lerdo, mas é como se ele passasse desesperadamente -, ele vem construindo a coragem necessária para despir-se do aqui. Tem sua própria lista, na qual anotou tudo o que fará nesse dia de catarse providencial. Depois que se livrar dessa prisão – ela que tem design de vida promissora –, ele não voltará mais ao aqui. Porque aqui tem feito a tantos felizes, mas a ele, nem a chance de tentar essa tal de felicidade tem sido oferecida.

Contudo, não é tão fácil se desvencilhar dessa história. O aqui não pertence a uma geografia. Não há como resolver a partida somente com um novo logradouro, a emissão de um visto, mudança de continente. Não tem a ver com idioma, cenário financeiro, o quanto de mar há entre a pessoa e o aqui.

A complexidade se esbalda no aqui ao qual ele foi conectado.

Ele se ressente de si a cada dia. Para ele, abandonar esse lugar é realizar um feito, no qual moram tantos desejos, cultivados ao longo de anos orbitando o aqui, sentindo-se desprovido de identidade, enquanto os que o têm acompanhado o aplaudem.

Por quê? Qual o mérito de ser sem ter sido? Revolucionar desinteresses?

Há quem escolheria se beneficiar de uma biografia feito a dele. Quem se voluntaria a viver algumas de suas histórias. Quem aproveitaria melhor o aqui onde ele nem cabe, mas foi competentemente anexado.

Não que ele tenha se tornado uma pessoa vazia, incapaz de se envolver com o oferecido, de cativar afetos, de vivê-los. O aqui não tem a ver com a honestidade de seus sentimentos, mas com a inexpressiva atuação de seus libertários desejos.

Quando sair do aqui, ele deixará muito para trás. Deixará muitos. Para ele, sempre tão bem-comportado no seu aqui, não é decisão fácil, de se tomar na rebeldia das emoções. Seria tão mais simples se assim fosse. Ele vem planejando isso, desde há muitas escolhas. Foi desafixando o olhar do óbvio que se percebeu encaixado, não pertencente.

O aqui de cada um, o tal lugar onde nos permitimos ser. Há quem leve uma vida nessa busca, sem nunca alcançar destino. Há quem a esqueça em minutos, depois de percebê-la, tamanho incômodo chega com tal percepção. Há quem, feito ele, gaste todo seu tempo arquitetando uma saída que não fira aos que aprendeu a amar. Ainda que, intimamente, ele saiba que alguém sempre sairá ferido de uma empreitada desse naipe.

Mudar desarranja o hábito, e, nesse momento, desarranjos o encantam.

Cansou-se de protelar. Desejou pertencer, mas não a esse aqui no qual foi encaixado por conveniência. No qual aprendeu a existir segurando o grito.

Gritou.

Imagem: A friend of order © René Magritte

carladias.com

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terça-feira, 29 de agosto de 2017

PLANEJANDO O QUE NÃO SE PODE PLANEJAR >> Clara Braga

Na vida, é normal planejarmos determinadas coisas. Uma viagem, por exemplo, normalmente é planejada de acordo com os dias que temos de férias, já o destino é definido pelo nosso poder aquisitivo. Mas já repararam que quando viajamos ninguém pergunta: a viagem foi planejada?

Também podemos planejar um jantar romântico: escolhemos uma data especial, um restaurante que tenha comida que agrade o casal, podemos até fazer uma surpresa comprando flores ou algo do tipo. Mas acho quase impossível você estar no meio do jantar e ser interrompido pelo seu parceiro: esse jantar foi planejado?

Tem também aqueles trabalhos que exigem bastante planejamento, como o meu. Não posso entrar em sala de aula sem saber o que devo ensinar, planejo a matéria que vou passar de acordo com o tempo que tenho com cada turma. Tenho ainda que planejar os dias para preencher diário, elaborar provas, corrigir trabalhos e outras tarefas que a vida de professor exige e tudo antes de cada bimestre acabar. Mas nunca um aluno me perguntou se aquela aula foi planejada.

E não é preciso ir longe, planejamento faz parte do nosso dia a dia. Temos que nos organizar para saber que horas vamos sair de casa para não pegar aquele engarrafamento, quanto tempo vamos ficar fora para saber se temos que levar marmita, observar se o carro tem gasolina suficiente para chegar no nosso destino, enfim, planejamentos rotineiros. Mas duvido que algum frentista já tenha te perguntado se aquela passada no posto foi planejada!

Enfim, com gravidez deveria ser a mesma coisa. Você fala que está grávida e pronto, quem ficou feliz comemora, quem ficou triste reclama e vida que segue. Mas não, as pessoas tem mania de perguntar se a gravidez foi planejada.

Se planejar as outras tarefas já é difícil por termos sempre que lidar com o tal do imprevisto, imagine uma gestação! Entendo que algumas variáveis são bem controláveis, mas não, planejar um filho não é simples e não consigo imaginar exatamente como se faz isso.

Sei que muito dirão que não, filho se planeja sim e ponto final. Não vou entrar nesse mérito, mas uma coisa é preciso esclarecer com urgência: não planejado não é igual a indesejado, muito pelo contrário, curiosamente passo mais tempo planejando coisas que não gostaria de fazer do que coisas que gostaria!


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sábado, 26 de agosto de 2017

#AGROTÓXICOS >> Sergio Geia

 

Estava numa livraria procurando coisas interessantes. Já tinha encontrado uma, moça interessantíssima, morena, pernas longas, grossas, lábios carnudos, cabelos compridos, grandona, uma deusa que, sentada no sofá, folheava um livro. Percebi que, vez ou outra, ela se dirigia a um homem chamando-o de “meu bem”, e juntos trocavam ideias sobre questões relacionadas a agricultura, lavoura, alimentos, agrotóxicos etc.
Eu estava de pé, absorto, ao lado da estante, procurando um livro pra comprar. Aliás, eu e Chiara temos esse hábito: estando em Ubatuba, sempre passamos numa livraria ou sebo pra comprar alguma coisa pra ler. Eu já tinha terminado o livro do Rubem Fonseca que trouxera, e queria um novo. Depois de muito olhar, separei outro de contos do Fonseca, “Calibre 22” (o que eu queria mesmo era “Feliz Ano Novo”, mas não tinha), e “Lavoura Arcaica”, esse clássico do Raduan Nassar, aquele mesmo que disse coisas inamistosas num evento do Ministério da Cultura que desgostou profundamente o então Ministro da Cultura, Roberto Freire. Peguei os dois e me sentei próximo à morenaça.
“Calibre 22” traz 29 contos, curtos, superficiais, que retratam assuntos afetos à obra do autor, como violência, morte, sexo, homofobia, desigualdade social. Dei uma googlada e achei uma crítica duríssima do Sérgio Rodrigues sobre o livro. Do Raduan, li o primeiro capítulo, e me senti realmente adentrando num monumento da nossa literatura contemporânea. Falei pra Chiara sobre Raduan, ela não o conhecia; disse que “Lavoura Arcaica” é uma das nossas obras-primas.
Enquanto folheava os dois livros e me decidia se levava os dois ou apenas “Lavoura Arcaica”, eis que a morena se levantou, dirigindo-se ao seu bem:
“Meu bem, acho que eu não vou dar meu dinheiro pra esse cara, não!”
O comentário atravessou a minha leitura; afinal, quem seria “esse cara”? Fiquei curioso. Esperei que ela se afastasse e peguei da mesinha um livro verde que ela tinha deixado e que antes folheava: “Agradeça aos agrotóxicos por estar vivo”, de Nicholas Vital.
Deu pra perceber que ela era bem natureba. Na certa, sua alimentação era supersaudável, produtos orgânicos, dieta à base de alimentos naturais, muita saladinha e frutas. Óbvio que não iria comprar um livro que a mandava agradecer aos agrotóxicos pela sua vida. Dei uma folheada, e o deixei na mesinha. Fui até o caixa, paguei, e trouxe Raduan e Rubem pra casa.
Depois de alguns dias, me vi pensando no tal livro sobre agrotóxicos. Qualquer pessoa, por mais ingênua ou ignorante que seja, é capaz de formular o raciocínio de que um alimento produzido sem agrotóxicos só pode ser mais saudável para a saúde humana do que um produzido com esses tipos de defensivos, não? Por mais saudável entenda-se que possua quantidade de nutrientes maior que os alimentos convencionais; que proporcione ao corpo uma funcionalidade adequada; que previna doenças etc. Como pode haver um cara defendendo exatamente o contrário? Instigado por essa curiosidade, resolvi pesquisar.
Nicholas Vital tem passagens em diversas revistas como Exame e IstoÉ Dinheiro. Venceu o prêmio Abril de Jornalismo na categoria Economia em 2012 e ficou entre os finalistas na mesma categoria em 2011. E, como ele mesmo diz, não é médico toxicologista nem engenheiro agrônomo e, também, como pode parecer num primeiro momento, não é contra os produtos orgânicos.
E como não sendo médico toxicologista nem engenheiro agrônomo, pode falar com tanta propriedade a respeito desse assunto?
Seu livro é um contraponto ao discurso dos adeptos da linha orgânica, que ele entende como nicho, uma vez que representa apenas 1% do mercado mundial de alimentos. Não há alimentação orgânica pra alimentar 7 bilhões de pessoas no mundo, ele diz. E continua: não há comprovação científica de que o alimento convencional traga algum prejuízo à saúde humana; tanto o alimento convencional como o alimento orgânico podem fazer mal se forem mal manejados; se bem manejados, nenhum deles faz mal; não há comprovação científica de que o alimento orgânico é mais saudável e saboroso do que o alimento convencional (aliás, os estudos realizados por instituições sérias, inclusive nos Estados Unidos, demonstram que esse argumento é mentiroso).
Sua teoria é embasada em mais de 50 estudos científicos, pesquisas, conversas com especialistas. Segundo Nicholas, somente vendendo esse tipo de sofisma, digamos, a indústria dos orgânicos conseguiria convencer alguém a comprar uma alface, ou um tomate, ou batatas, pagando 3 vezes mais.
Talvez esses sejam os pilares de sua tese. No livro, o assunto é esmiuçado e certamente vai render calorosos debates. Os adeptos da alimentação orgânica já estão mostrando as armas: que nojo esse livro sobre agrotóxicos; que a indústria pegou pesado; que as mortes são ao longo do tempo; que a pesquisa é superficial etc.
Como eu estava em Ubatuba, curtindo coisas mais interessantes que mergulhar nesse debate natureba, preferi Raduan, e sua “Lavoura Arcaica”.  

P.S.: Seria desonesto de minha parte não informar a você que dias depois, não resisti a uma passadinha na Nobel, da rua Guarani. De forma que, encabeçando a pilha de livros que tenho aqui pra ler, destaca-se um reluzente e polêmico livro verde. Lembrei-me da morenaça. 

Ilustração: www.fecesc.org.br


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sexta-feira, 25 de agosto de 2017

O AMOR ENCARQUILHADO >> Zoraya Cesar

O entardecer róseo-avermelhado prenunciava uma noite estrelada e morna. Uma noite feliz. 

A casa situava-se perto de um penhasco e, do terraço, podia-se ver e ouvir o mar espancando as pedras, como se quisesse tirá-las do caminho. Portas fechadas e cortinas pesadas separavam e isolavam o terraço do barulho e da música altos vindos do salão. Uma mulher elegante, vestida de preto, brincava com a bengala de madeira de lei e castão de prata que trazia às mãos. Apreciava a paisagem, sozinha, cansada da bagunça. “Como um bando de velhos”, pensava, “podia ser tão barulhento e inconveniente?”.

Rebecca nem sabia o que fazia ali. Que lhe interessava encontrar sua turma da faculdade e respectivas famílias e descendências? Alguns bons amigos já tinham morrido; outros, não puderam ir; e ela detestava a maioria dos que compareceram. Pessoas que conhecera há quase 50 anos, e que agora lhe eram indiferentes. Só fora mesmo por muita insistência de Úrmtia, uma grande amiga, é certo, mas uma cretina. Que estava, nesse momento, lá dentro, bêbada de gim e dando em cima de um antigo affair

A porta abriu e alguém entrou, interrompendo os devaneios de Rebecca. Que maldisse o intruso, e, torcendo para que ele não demorasse muito, escondeu-se no fundo do terraço, atrás de uma pequena sebe. 

homem, encurvado e careca, dava um passo seguido cuidadosamente pelo outro, vagarosamente, como se em dúvida de onde deveria pisar. Chegou à beira da mureta, que batia um pouco abaixo de seus quadris, um tanto trêmulo, como se o esforço de chegar até ali tivesse sido demasiado para ele. Fumava, e o odor doce e levemente apimentado de um Dunhill chegou às narinas de Rebecca, despertando-lhe memórias que ela já cria mortas.

Silenciosa como a neve caindo, Rebecca olhou para o homem, sem ser pressentida. O nariz adunco, a marca do cigarro, o jeito de segurá-lo... Mesmo após tantos anos, mesmo com várias camadas de rugas e flacidez pelo rosto, em qualquer época, em qualquer encarnação, ela o reconheceria.

Era mesmo ele! 

Roberto! Seu grande amor, ali, naquela festa, como? Só o Destino podia explicar a coincidência. Mas o Destino, como sabemos, é um senhor discreto, pouco afeito a dar satisfações, e nada explicou. 

Ela fechou os olhos e lembrou, com uma vividez absurda, de todo o amor que sentira por aquele homem. Seu corpo reagiu em consonância: seu útero estéril latejou até doer, e mesmo sua buceta, desusada e desidratada há mais tempo do que ela ousaria admitir, umedeceu-se. Sua buceta, sua vagina, sua pepeca, sua ‘porta do prazer’, como ‘ele’ a chamava, umedeceu-se! Rebecca sentiu o líquido escorrer em sua calcinha. 

Não tinha mais idade para aquilo. Seus joelhos mal se aguentavam, o coração veio-lhe à boca. E a maldita umidade a escorrer-lhe pelas pernas. Agora, até o bico dos peitos flácidos e caídos estavam duros. 

Um amor lindo. Um tesão quase incontrolável, companheirismo, planos, risadas, cumplicidade. Eram um casal! Ela trabalhou para sustentá-los até que ele terminasse a faculdade. Quando arranjasse um emprego, seria a vez dele pagar as contas. Para Rebecca, ele sempre vinha em primeiro lugar. 

O filme continuou rodando em sua mente, o corpo acompanhando as emoções despertas. Como à época, o coração caiu a seus pés, em finas lâminas cortantes; sentiu a ânsia de vômito e o mesmo gosto de fel na boca que a acompanharia durante vários anos. Viu-se esparramada no chão da sala, em choque, uma boneca de pano desmantelada, sem controle sobre pensamentos ou músculos, um pássaro abatido em pleno voo.

Veio-lhe, nesse momento, depois do tesão, do amor e da decepção, o último dos sentimentos. Ódio.  

Ódio por aquele sacripanta filhodaputa traidor. Investira juventude, dinheiro, suor, sonhos, lealdade, apenas para ser trocada pela cretina da Cecília, podre de rica. Roberto preferiu garantir dinheiro fácil e estabilidade. Pelo resto da vida que passasse com Cecília, bem entendido. E ele passou. Rebecca soube que ele nunca precisou trabalhar, mas à custa de humilhações constantes, vigiado 24 horas por dia por uma vaca ciumenta, escandalosa, possessiva e doentia, que controlava a mesada dele com mão de ferro. 

De que adiantou tudo aquilo, hein? De que adiantou me abandonar, seu idiota? Eu também fiquei bem de vida. Depois, claro, de passar anos com síndrome do pânico, anorexia, insônia; de ficar quase à míngua, penando para me livrar dos credores, vendendo o almoço para comprar o jantar, estudando e trabalhando para pagar sozinha as dívidas que contraímos juntos, o aluguel e a faculdade... a faculdade que você, seu merda, ficou de pagar para mim. 

Sua jugular latejava. O ódio circulava em suas veias.  Foi até ele. 

- Roberto?

Ele se virou, sobressaltado, um velho aparkinsoniado, tão mais velho que ela, e extremamente bem vestido. Tanto sofrimento, tantos anos perdidos por causa de um merdalhão que nem mais homem era, amargou-se ela. Pelos hirsutos e grisalhos ponteavam aqui e ali, na pele flácida e amarelada. A boca, murcha, em nada lembrava os lábios carnudos e gulosos do homem que um dia a beijara apaixonadamente, com sabores de eu te amo. Manchas senis recobriam rosto e mãos. Olhos despestanados baços, abrigados sob uma inchada ptose palpebral olharam para Rebecca. 

E reconheceram-na imediatamente. Os amantes sempre se reconhecem, mesmo passados os anos,
O entardecer não se desmentiu.
Para Rebecca, aquela fora uma noite feliz. 
mesmo com as pesadas mudanças impostas pelo tempo. Os amantes se reconhecem.

Ele deu um passo claudicante para trás, chegando perto da mureta baixa demais. 

- Durante muito tempo esperei por esse momento, Roberto.

O homem balbuciou algo meio indistinto, mas que ela compreendeu perfeitamente: ‘que momento?’

- Esse – disse ela – O de te dizer adeus.

E, com a bengala, empurrou-o mureta abaixo, em direção às pedras que beijavam o mar. 



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quinta-feira, 24 de agosto de 2017

O AMOR QUE EU NÃO SOUBE OUVIR>>Analu Faria

De todos os quase-amores que tive, S. talvez tenha sido o mais ardiloso. Não ele, a pessoa, o homem S., mas o afeto que a vida me oferecia através dele. Naqueles dias, carinho e atenção pareciam uma peça estranha num quebra-cabeças que eu não sabia montar: S estava mais distante do atavismo que me viciara do que eu de sua doçura.

Eu pouco falava e ele pouco ouvia. A audição reduzida - a parte dele -  e uma voz afetada por uma infecção horrível  - a parte minha -   pareciam a receita irônica para um relacionamento fadado ao nada. Para minha vergonha, a serenidade de S. - talvez fruto dos seis anos de fonoterapia, dos seis anos aprendendo a falar por meio da vibração dos ossos -  era absoluta e, para ele, pouco importava que nunca visse a cor da minha fala.

S. lia meus lábios perfeitamente e eu não nunca soube decifrar os seus. Também não pude entender o que me pareceu gentileza em abundância, algo fora do lugar para uma mulher tão acostumada com o pouco que a convinha.

Ele se fazia entender muito bem, mas eu, talvez atraída por aquele perfil bem desenhado pela barba por fazer, acabei alongando aquele quase-amor por mais tempo do que eu podia traduzir. Mesmo não sendo numerosos os dias que passamos juntos, talvez eles fossem suficientes para compor uma sinfonia silenciosa de afetos, se eu ao menos soubesse captar as filigranas do inaudível. Mas àquela altura da minha história, eu tinha os ouvidos embotados pelos meus próprios gritos. E acabei fazendo de S. o amor que eu não soube ouvir.




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quarta-feira, 23 de agosto de 2017

INSÔNIA >> Carla Dias >>


Vai dormir, menina! Já passou da hora. Tem mais nada aí, não.

Ainda assim, eu gastava um bom tempo encarando as barras coloridas estampadas na tela da televisão. O volume eu zerava, que aquele era um som que não cabia na noite de uma casa cheia de pessoas prontas para cair no sono.

Eu as observava com certo pesar. Era sinal de que a tevê demoraria a devolver a programação. Então, eu encarava aquelas barras e jurava para mim: quando eu crescer e tiver um emprego, vou comprar um videocassete e não serei mais prisioneira da vontade das barras coloridas e daquele som invariável.

Naquela época, eu não tinha ideia de como a tecnologia inventaria mil formas de se passar uma noite de insônia. Tampouco imaginei uma programação na tevê sem a indigesta interrupção das barras coloridas e sua trilha sonora chatinha, chatinha. Porém, antes de descobrir, eu encontrei os livros.

Livros são meus companheiros de insônia. O videocassete também foi, e durante um bom tempo. Livro eu trago comigo para a cama. Tevê no quarto eu dispensei. Computador, também.

Durante a insônia dessa noite, decidi conferir uma pastinha de documentos. Organizar, sabe? É que o guarda-roupa eu já tinha organizado na insônia passada.

Naquela pastinha, descobri muito sobre do que me esqueci.

Nasci no ano em que gostaria de ter passado a adolescência. E não importa a fragilidade desse meu sonho. Ele me acolhe e isso é mais do que muita realidade já fez por mim.

O documento do hospital diz que cheguei aqui por parto normal em 16 de novembro de 1970, às 3:30. Talvez por isso a noite me seja mais cara do que o dia. Fui aspirada e passei duas noites no quarto 20 do hospital. O número 20 não me diz nada. O número 2, diz. O número 7, idem.

Em 1989, eu me desapeguei do medo de desejar mais do que me era oferecido. Em 1994, experimentei a primeira significativa catarse. Em 2016, veio a catarse parte 2. No momento, aguardo a providencial e, por favor, interessante catarse parte 3. Quem sabe venha com uma boa noite de sono de brinde.

A certidão de nascimento de um dos meus irmãos me faz lembrar, com um pouco mais de clareza, daqueles que meu olhar nunca alcançou e a morte levou. Para mim, a consequência da morte atinge sempre a quem fica. A morte é um assunto da vida, ela que, com seus desfechos inusitados, desocupa espaços dentro da gente que passamos muito tempo tentando preencher.

O tempo brinca de pique-esconde com a gente. Quando o encontramos, entendemos que ele foi mais rápido do que os nossos planos e aconteceu.

Passei a distrair a insônia escutando música. Obviamente, evito cantarolar, no meu nada modesto desafinar. Sempre uso fone de ouvidos, porque os vizinhos precisam dormir, que amanhã eles têm de trabalhar. Quer dizer, hoje.

Já é hoje, novamente.

Primeiro registro na carteira foi em 1987. Não reconheço essa pessoa sobre a qual esse documento trata, mas agradeço a ela por ter me trazido até aqui, quase inteira.

Um quase faz diferença.

Antes que alguém sugira, não tomo remédio, porque tenho medo de não acordar e perder a hora da vida. Também tenho medo de lagartixa e de pessoas que acreditam que valem mais do que as outras. Medos não me faltam, mas isso eu sei que não falta a ninguém.

Passaporte: emissão em 1997. Expirou em 2002. Na ausência de carimbos, percebo-me inexperiente no exercício de colocar os pés em terras estrangeiras. Também me perco, por alguns segundos, na sensação de que é bom saber que há o que ser descoberto, geográfica, emocional ou imaginariamente. Parecem temas distantes, mas não são.

Tudo conectado, não é isso? Todos.

Assim, mantenho, na pastinha de documentos, um passaporte-fetiche.

Fim da organização. Eu poderia continuar a escrever, porque acabei de me lembrar daquele filme, daquele livro, daquela pessoa, daquela dúvida, daquela inquietação. Melhor mesmo seria dormir, mas a insônia, minha amiga íntima, que adora minha companhia, decidiu que, hoje, a noite será de balada. E então, vem essa música de som mais ou menos de mp3 no play do celular. Essa música...

Que fique claro: sempre haverá uma música.

Na impossibilidade de escorregar para debaixo das cobertas e aproveitar uma noite de sono tranquilo, de frio apropriado para, rendo-me à única coisa que uma insone feito eu pode fazer às 2:45 da madrugada, sabendo que o sono não virá:

Dançar na sala como se hoje já não fosse amanhã.





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segunda-feira, 21 de agosto de 2017

AVE, DIVINO! >> Albir José Inácio da Silva

Escultura  do artista dinamarquês Jens Galshiot.
Uma justiça obesa e mórbida que o povo carrega.




“Não há hierarquia nem subordinação entre advogados, magistrados e membros do Ministério Público”, diz a lei. Mas o que importa para os deuses a lei dos homens?

Sua Divindade considerou heresia a roupa com que a advogada ousou comparecer à sua augusta presença e ameaçou abandonar o local para punir os mortais com sua ausência.

Sem ver a imagem, julguei tratar-se de alguma microssaia que subia de encontro ao decote que, por sua vez, descia ameaçadoramente, mostrando o umbigo, e pudesse aguilhoar a libido e atrapalhar a concentração do pudico julgador. Mas não. A inadequação foi corrigida pela infratora apenas cobrindo seus indecorosos braços.

Que tipo de perturbação o decoro pode sofrer com a visão de braços? Sim, porque o vestido ia até os pés e só mostrava os braços. Talvez a mesma que sofria o jovem Inácio no conto de Machado de Assis.

O Tribunal, órgão colegiado a que pertence o divino julgador, simplesmente lamenta. Lamenta o quê? Não disse. Não me surpreendo se lamentar a roupa da advogada.

A OAB protesta. Protesto meio débil, de entidade que às vezes luta bravamente pela justiça e pelo estado de direito, mas outras vezes apoia golpes na democracia e se cala pela manutenção do status quo.

O fato é que a advogada, “indispensável à administração da justiça”, fica humilhada, e com ela todos os brasileiros.

Fato isolado - como gostam de repetir os porta-vozes da polícia ante os casos que se multiplicam.

Mas quem não lembra de outro fato isolado em que uma agente de trânsito foi presa e condenada a pagar indenização porque multou um juiz?

Ou do lavrador impedido de participar de audiência porque usava chinelos, sob a alegação do magistrado de que atentava contra a dignidade do judiciário? Onde reside a dignidade do judiciário? No sapato do jurisdicionado?

É com roupas que se preocupa o Olimpo! Comum a perda de audiências e entrevistas por incautos que comparecem de bermuda, camiseta ou chinelo. Aguardam por mais um ano uma nova intimação e, então, já convencidos de sua inadequação, conseguem emprestada a roupa para, finalmente, verem resolvidas suas questões.

Os assuntos que trazem os plebeus à justiça são irrelevantes: a prisão do filho, os alimentos, o enterro da mãe, o despejo, a ameaça, o tratamento a que se nega o Estado ou o plano de saúde. Tudo isso é bobagem diante da importância da roupa correta para estar em presença da divindade.

Enquanto se preocupam com roupas, não precisam pensar nos salários acima do teto constitucional, que correspondem, por dia, a mais do que o trabalhador ganha por mês.

Nem se lembram dos auxílios-divindade:

- auxílio-moradia, mesmo que o magistrado tenha dezenas de imóveis, que equivale a cinco vezes o que ganha o trabalhador para morar, comer, vestir e cuidar da família, enquanto o governo desmonta programas de casa popular;

- auxílio-creche que abrange do berçário à pós-graduação do Jesusinho - sim, porque só o filho de Deus pra merecer tanto privilégio, enquanto verbas pra educação, cultura e pesquisa científica são desviadas pelo governo para compra de parlamentares;

- aposentadoria como punição máxima, enquanto trabalhadores são punidos com a morte antes da aposentadoria;

- academia de ginástica no fórum para magistrados e familiares. Além de outras benesses que fariam inveja à corte de Luiz XIV, e para as quais não temos tempo nem espaço.

Tudo isso pago pelos trízimos do contribuinte (27,5%), mais taxas e custas processuais.

O Brasil tem duas castas de intocáveis. Os de cima, divindades que não podem ser alcançadas pela lei e pelos mortais. E os de baixo, que não merecem a proteção da lei e são evitados, por medo de contaminação física e social.

No meio, uma classe média que se curva subserviente, com olhos súplices, venerando as divindades e esperando merecer-lhes as sobras, enquanto pisa nauseada nos intocáveis de baixo com medo de que se aproximem.

E para evitar revoltas, uma classe sacerdotal trabalha incansavelmente, abençoando privilégios e chicotadas, e exaltando a meritocracia divina.

O que faz um deus não é a autoproclamação, e sim o reconhecimento, a veneração e o temor dos fiéis.

Simone de Beauvoir já dizia: “O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos”.

Verdade que esses novos deuses são protegidos pelos Lordes e pelo braço armado do Estado, mas não lhes falta apoio, idolatria e genuflexão entre os servos e servidores.





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