quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

TORTA DE SARDINHA >> Carla Dias >>


Não sou uma pessoa que embarca no Natal. Ainda ontem, falando com minha mãe ao telefone, lembrei a ela que o que mais gostava do Natal era a torta de sardinha, e no dia seguinte. Café da manhã.

Não me levem à mal, que aprecio a felicidade do outro. O Natal lhe faz bem, fico feliz por ele lhe fazer bem. E não, eu não me esqueci do que realmente significa a data. Porém, acho que sou desconfiada desde lá, de quando era menina de tudo, escondendo-me nos cômodos livres da casa em festa. Louca para assistir a um filme qualquer na televisão, no silêncio, mas sem sucesso, que Clara Nunes e Peppino di Capri disputavam o palco da sala de estar.

Eu sempre torcia pela Clara, porque, depois que o mar serenou...

Mas essa sou eu, que tenho lá minhas questões com o calendário.

Não falo da questão religiosa, que cada um abraça a crença que lhe toca. Falo de todo o resto: as quinhentas prestações que fazemos para comprar coisas que não precisaríamos adquirir de imediato. A imagem de Papai Noel vestido com aquela roupa, quando os dias aqui estão quentes pra dedéu. Só de olhar para ele, suamos. A conexão duvidosa que estabelecemos com caixas de presente que custam quase que o valor do presente. As roupas...  Mais prestações. Mais roupas usadas somente uma vez.

A rotina é abatida por uma pressa que não consigo entender, que supera dia de final de campeonato de futebol e véspera de feriado prolongado. Dezembro é o mês em que me transformo na pessoa mais mal-humorada que conheço. Tudo fica gritante, impaciente, deslocado. Os motoristas reinventam as leis de trânsito e os transeuntes se adaptam a elas, como se nada de estranho estivesse acontecendo. Como se fosse natural se safar de acidentes, com mais frequência do que a usual.

E os presentes...

Nem pensem o contrário: eu adoro presentear. Gosto ainda mais quando consigo encontrar algo que se encaixe na história das pessoas. Presentear com a intimidade do conhecimento a respeito do outro. Eu sei...  As lembrancinhas, para aquelas pessoas que, apesar de não conhecermos tão bem, foram gentis conosco. Merecem um agrado.

Confesso que não comprei presente pra ninguém. Meus sobrinhos vão ter de esperar eu respirar, dezembro passar, a vida ficar menos insana. Ainda bem que eles já me conhecem, sabem que tenho dificuldade imensa de me adequar ao gosto do calendário.

Claro que tenho apreço pela felicidade deles, assim como respeito a sua, porque se o Natal lhe faz feliz, eu fico feliz por isso. Minhas questões a respeito do Natal englobam esse barulho todo. Quando dezembro chega, já estou no ponto de necessitada de silêncio interno, e as buzinas não ajudam. A correria, nem. A inflação não colabora em nada. As mil parcelas para adquirir um possível agrado, já sabe.

Além disso tudo, dessas banalidades que são minhas, que em nada interferem no seu apreço pelas celebrações ou o dezembro, há o fato de que eu adoraria poder celebrar mais, muito mais do que o meu Natal, meu panetone, minha comida delícia, minha roupa nova. Eu gostaria muito, mas muito mesmo, de comemorar uma conquista coletiva, que tornasse a nossa vida mais descomplicada. Que abrandasse os discursos unilaterais e nos colocasse do mesmo lado. Aquele lado que nem lado é. Trata-se apenas do justo e de direito. Eu gostaria muito, mas muito mesmo, que não nos tratassem como se não valêssemos nada. Como se não soubéssemos de nada. Como se não sentíssemos nada. Gostaria do tipo de presente que Papai Noel e magazines não podem oferecer. Nem mesmo o empréstimo pré-aprovado no banco ou a promessa que já chega anunciando que não será cumprida. O presente que só nós podemos dar a nós mesmos ao compreendermos que temos de nos unir para celebrar, mas também para mudar as coisas que precisam ser mudadas.

Mas essa sou eu, quem faz festa com uma torta de sardinha, amanhecida, e um bom gole de café, em qualquer dia do ano.

Imagem: Il risveglio © Angelo Morbelli

carladias.com

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3 comentários:

Anônimo disse...

Mas eu quero lhe dar um presente de Natal. O único que pode ser dado de bem longe e espero que não vá rejeitá-lo. É um abraço!

Junto a esse abraço, também, o meu agradecimento pelas emoções que você me fez sentir com a sua escrita mágica. Foram tantas crônicas gostosas neste 2017 que ajudou a saciar a minha fome de leitura que fico mui grato. Junto a esse abraço quero desejar que o seu Natal seja feliz e que o Ano Novo que está chegando venha carregado de saúde, paz e alegria, juntamente com o seus familiares e amigos.

Então, aqui vai o meu ABRAÇO!!!

Enio.

Zoraya Cesar disse...

Concordo com o Enio: sua escrita é mágica. E, apesar de eu vivenciar o Espírito de Natal, confesso que a maneira como o mundo circundante se comporta também me deixa irritada e mal-humorada. É muito barulho feito por gente que nem sabe o que e Natal, mas balburdia assim mesmo. Como se já nao tivéssemos barulho o suficiente...

Carla Dias disse...

Enio e Zoraya, obrigada, de coração. Bom tê-los por aqui.
Beijos!