terça-feira, 5 de dezembro de 2017

SOU INOCENTE, EU JURO! >> Clara Braga

Aí você reencontra aquele amigo que não via tinha tempo. Logo percebe que estão se falando diariamente sobre tudo quanto é assunto. Sendo assim, melhor começar a sair.

As saídas se tornam frequentes e quando você menos espera já está namorando. Então um começa a frequentar a casa do outro, apresenta pra família, leva no almoço de domingo e, sem que desse tempo de planejar alguma coisa, já estão viajando para passar ano novo juntos na praia.

Depois da primeira viagem pouquíssimo tempo se passa e, sem que percebam estão morando juntos.

Uns meses a mais e descobrem que um filho está a caminho.

O menino nasce e muda a vida de todos os envolvidos, transforma todo mundo em um poço de nostalgia. E é exatamente nesse momento da nostalgia dos avós e bisavós que você descobre algo importantíssimo que por algum motivo esconderam de você: esse cara com quem você dorme todos os dias, mais conhecido como seu marido pai do seu filho e que você jurava que conhecia muito bem, fez o Denis O Pimentinha parecer um santo quando era criança.

Você descobre que esse ser de luz que parece tão tranquilo ao seu lado fugia e se escondia em lugares inimagináveis só para deixar os pais procurando por ele por muito tempo. Praticava bullying com os irmãos mais novos antes mesmo do bullying ser inventado. Subia na janela do apartamento para fazer xixi nas pessoas que estavam passando embaixo do prédio. Colocou fogo no cabelo de um irmão e ensinou o outro a chamar a empregada de prostituta dizendo que isso era algo legal.

Essas são só algumas das histórias que tiveram coragem de me contar nesses curtos dois meses de vida do meu filho. Desde então começo a suar frio toda vez que alguém da família dele vem falar comigo e começa o assunto com a seguinte frase: é minha filha, reza para não puxar o pai, pois ele quando era criança... 

Me pergunto se guardaram essas informações com medo de que ele nunca arrumasse alguém que tivesse coragem de se relacionar com ele a ponto de ter filhos. Agora que não tem mais motivo para esconder as histórias, todos compartilham suas lembranças quase como um desabafo e eu fico só rezando diariamente e pedindo a Deus que lembre que eu não tive nada a ver com isso. 


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Um comentário:

Anônimo disse...

Clarinha querida, se me permites a intimidade, é sempre dessa forma que as coisas acontecem. Somente quando descobrimos nossos verdadeiros sentimentos é que passamos a reparar nos detalhes que levaram a construí-los. Todos tivemos nossos momentos de molecagem. Xixi pela janela não fez parte de meu repertório mas bombas de fumaça jogadas, substituíram. O importante é a índole construída no entorno dessas artes realizadas. Podes não ter culpa nenhuma pelos fatos relatados mas tens a felicidade de ter conquistado alma e ser tão puros.