sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

UM VISITANTE INESPERADO NA FESTA DE NATAL DO VELHO PADRE >> Zoraya Cesar

Comecemos pelo quintal – Uma acácia (contemporânea, diziam,  daquela que servira para fazer a Arca de Noé), uma mangueira, um carvalho mais antigo que o céu e incontáveis pés de lavanda e alecrim. Não esqueçamos do lago, também, quase uma poça em sua pequenez, mas cujas águas já refrescaram muitos pés cansados. E, por fim, o caramanchão, coberto de maracujás. Sem falar dos pássaros. Assim era o quintal escondido na parte de trás de uma igreja. 
Flores e frutos de maracujá
cobriam o
caramanchão

Debaixo do caramanchão havia um Presépio. Bom, ao menos, essa era a idéia. Uma cadeira cheia de almofadas macias, um berço e um banco rústicos, todos de madeira, feitos e entalhados à mão. Mas, onde as pessoas que deveriam estar a completar o Presépio?

Um instante. Primeiro, vamos ao anfitrião (ou anfitriões, que não estou para me indispor com o gato preto) – Vestia a batina de linho preto que só usava em ocasiões especiais, calçava sandálias franciscanas e trazia um sorriso que iluminaria a mais negra escuridão.

Sua idade era imprecisa; seu tempo de vida sobre a Terra não poderia ser contado em anos. Era velho, sim bastante, até - as inúmeras rugas cinzeladas em seu rosto não deixando dúvidas quanto a isso. 

A seus pés, acompanhava-o um enorme gato preto de olhar protetor. E que ouvia pacientemente, pela enésima vez, o Velho Padre dizer o quanto adorava festas de aniversário. 

Os convidados, ah, os convidados – sendo, todos, amigos de longa data (e, quando eu digo “longa data”, por favor, levem ao pé da letra), estavam à vontade, como em suas próprias casas.

Marta e Lourenço cuidavam que ninguém ficasse sem comer ou beber por muito tempo. Antonio ajudava Pedro a encontrar uma chave. Cecília tocava harpa, Anjos cantavam em coro com os pássaros. Pequenos Querubins batiam suas asas douradas em torno dos convidados, para afastar o calor. Maria, Mônica e Benedito brincavam com o Menino. José, sentado ao chão, comia lentilhas e arroz (não me perguntem se tinha passas, não vi), ouvindo Cristóvão relatar suas aventuras de andarilho. Brás e Luzia trocavam receitas para os males dos olhos e da garganta. Sebastião dormitava à sombra da acácia. O Velho Padre conversava filosofias com Teresinha das Rosas. Diversos outros se espalhavam pelo quintal, numa mistura de bençãos, milagres, cores.

Tudo era paz, alegria e amor. 

Pouco depois da meia-noite, porém, algo na delicada dimensão do tempo e espaço foi rompido, repentinamente. Todos silenciaram, entreolhando-se, espantados. Somente o gato, os pelos eriçados,
Algo provocou um distúrbio
na corrente do tempo e espaço:
um visitante inesperado.
miava, enfurecido e estridente. 

Alguém bateu palmas ao portão.

Se já não tivesse visto e vivido tanta coisa, o Velho Padre não teria acreditado. Mas ele sabia de quem se tratava. 

Levantou-se e foi atender. 

O convidado inesperado – um homem alto, de beleza indescritível, esperava junto ao portão. Emanava uma força extraordinária e atemorizadora. Imponente que fosse, no entanto, o visitante era educado. Cumprimentou o Velho Padre gentilmente e falou, a voz profunda e melodiosa:

- Sei que não fui convidado. Não espero ser bem-vindo e peço desculpas por interromper. Mas estou cansado. Muito cansado. E, nessa noite, gostaria de um pouso. Um lugar para descansar. Um lugar para não ser encontrado.

O Velho Padre respeitava o poder do visitante, mas não o temia. Não depois de tantos anos e vidas. Ademais, os outros convidados também eram poderosos. E, por fim, desde quando ele, o Velho Padre, recusava pouso a quem lhe pedia?

Sorriu. Afastou-se para o recém-chegado passar. 

A entrada da Estrela da Manhã (pois não era outro o visitante) - não causou qualquer constrangimento aos presentes, alegro-me em dizer. Logo alguém colocou em suas mãos um prato de salada de castanhas, que ele comeu sentado à beira do lago, as pernas mergulhadas na água fria. Depois, recostou-se, suspirou e fechou os olhos, descansando como não fazia desde o início dos tempos. 

Ao acordar, viu que Miguel lhe oferecia um sorvete - estava muito quente aquela noite. Encetaram uma conversa amena sobre as coisas de um outro mundo, e deve ter sido interessante, pois, em diversos momentos, sorriram. De vez em quando, o visitante acenava com as mãos, fazendo soprar uma brisa fresca e suave e espalhando, no ar, cintilantes e pequeninas estrelas, embelezando ainda mais o ambiente. O único que parecia desassossegado era o gato preto. Conhecia Estrela da Manhã há mais vidas do que poderia contar. A humanidade os associara tempo demais e isso não lhe trazia, absolutamente, boas lembranças.

Tudo continuava em paz, alegria, amor.

Ouviu-se, então, o primeiro cantar do galo. O inusitado convidado respirou fundo, e, levantando-se, apertou a mão do Velho Padre, revelando que, em agradecimento à acolhida, enquanto estivera ali nenhum mal ocorrera no mundo. 

Ao segundo cantar do galo, virou-se para Maria, José e o Menino, curvando-se profunda e respeitosamente.

Ao terceiro cantar, ele abriu gigantescas asas prateadas e desapareceu, voltando ao mundo que tentava conquistar desde sempre. 

A festa continuou normalmente, como se fosse muito natural que o Portador da Luz procurasse abrigo entre Santos, Anjos e a Sagrada Família para descansar e confraternizar em paz. 

O Velho Padre sentou, acariciando o gato, pensando que, realmente, não há nada tão emocionante quanto festas de aniversário. E que o Natal era, mesmo, uma data afeita ao extraordinário.

Outras histórias de Natal do Velho Padre e do gato preto


Que o Espírito de Natal permaneça em suas vidas por todo o ano de 2018, trazendo momentos extraordinários e abençoados. Que todos tenham uma vida por inteiro!
São os votos do Velho Padre, do gato preto... e os meus!


E obrigada pela leitura e comentários, compartilhamentos, por tudo!

Ah, sim, para não deixar dúvidas, Estrela da Manhã é um dos nomes de Lúcifer, também conhecido como Portador da Luz. É. Ele mesmo.

Fotos:
Flor de Maracujá: pace52 on Pixabay
Maracujá: disoniador on Pixabay
Distúrbio espaço-temporal:Tobias Polinder on Unsplash


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5 comentários:

Alexandre Durão disse...

Querida Zoraya. Obrigado por compartilhar conosco aquilo que vai dentro de você, aquilo que te habita. Obrigado, também, por amassar, pôr no forno, dourar e nos servir um pouco desse pão feito de palavras. Continue nos alimentando, por muitos anos. É disso que precisamos. Um Novo Ano repleto de boas idéias, de saúde e de paz.
Beijão.

Unknown disse...

Ainda bem que você explicou no finalzinho, porque fiquei mesmo na dúvida de quem era a Estrela da Manhã rs. Até Lúcifer anda cansado. Ele tem trabalhado muito mesmo kkk Ainda bem que as forças do bem também! Esses tem trabalhado em dobro! Rs Anjos e Santos, todos de prontidão em 2018! Continuaremos precisando de vocês. :-)

Marcio disse...

Mais um encontro com o sublime universo ficcional da autora!
O Velho Padre sempre nos traz bons momentos nessa época do ano.
E a Zoraya traz bons momentos a cada duas semanas.
Gostaria de comentar tão bem quanto o Alexandre Durão. Se eu escrevesse bem, teria me expressado de maneira semelhante à dele.
Feliz 2018!

Anônimo disse...

Gostei muito!!!

Zoraya Cesar disse...

Melhor presente de Natal eu não poderia receber: palavras gentis. Muito obrigada!