quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

NADA TALENTOSA LEITORA DE MAPAS >> Carla Dias >>


Não vou lhe desejar as mudanças que você contempla há tempos, interpretando o papel de quem as repele, enquanto as deseja. Desapeguei-me de lhe indicar caminhos, depois de a vida me desqualificar para tal função.

Que sou péssima em definir itinerários, atirando-me, envolvida por uma coragem desmiolada, às trilhas que levam aonde jamais chegaria, fosse apegada à sanidade dos meus desejos.

Bem que me disseram que desejo é bicho difícil de se domar, que mora em alguns uma rebeldia que torna a busca pela realização uma estrada longa e complicada. Como quando eu insistia que sabia qual era o melhor caminho a se seguir, sem me ater ao fato de que não tenho talento para ler mapas.

Principalmente os que levassem ao lugar que eu desconhecia.

Não vou lhe desejar um ano novo em folha, para servir de cenário a uma vida nova em folha, cercado por pessoas de sempre, arrebatadas por um comportamento novo em folha. Esse frescor do novo em folha nunca me convenceu. Pode me chamar de péssima delineadora de itinerários, incapaz leitora de mapas, mas não me acuse de ignorar a importância do que foi vivido, no bom tom da elegância existencial ou na esbórnia da vida jorrando a indecência de acontecer, apesar da insistência em se permanecer em silêncio, na quietude do raso, à mercê da insignificância.

Não vou lhe desejar um tempo de paz, se ela for apenas um cartaz para se grudar na parede da sala de estar, porque fica simpático entre um e outro quadro. Tampouco forjarei verdades para agradar ao seu paladar emocional.

Não vou lhe desejar, não daqui em diante. Não vou traçar caminhos para levá-lo aonde você não desejaria chegar, não fosse minha conversa fiada, essa afinada convencedora de que, depois do ali, daquele lugar onde dormem seus segredos, onde permanecem seus silêncios mais significativos; aquele espaço no qual pequenas revoluções antecedem grandes transformações, você encontrará mais do que um ano novo trazendo empoeiradas propostas, habilmente apresentadas como novidades.

Que nunca fui hábil em traçar caminhos, tampouco ler mapas. Vivo a me distrair com esses lugares nos quais escolho permanecer. Vivo a me dedicar às pessoas que me dizem, com a honestidade no desejo, para eu ficar. Assim, os mapas me confundem. Os calendários, também.

Você está por conta própria, já que sou a pior leitora de mapas que você poderia ter. Enquanto você busca caminhos, eu: livros.

Imagem © George Cochran Lambdin

carladias.com




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2 comentários:

Zoraya Cesar disse...

"Tampouco forjarei verdades para agradar ao seu paladar emocional.". Você e suas frases maravilhosas. Tenho estado em falta nos comentários, mas você continua perfeita!

Carla Dias disse...

Zoraya, você nunca está em falta. :)
Beijo.