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ARMADILHAS EXISTENCIAIS >> Carla Dias >>


Há intranquilidade aqui. Observe de perto… Mais de perto. Aproxime-se sem medo. Intranquilidade. Um profundo questionamento, talhado em silêncio, sobre um infinito de observações descartáveis, que não podemos reciclar, feito copos de plástico. Não podemos aceitar, feito desastres naturais.

Abra a porta de logo ali, onde jazem nossos planos. Quantos foram, ano passado? Quantos serão, amanhã? Deixe entrar a importância imposta das coisas que se sobrepuseram às pessoas e escandalizaram religiosos ao anteverem fins de mundo que só fazem falhar. Temo que deuses imaginados jamais nos abençoarão com fim de mundo que nos valha. Continuaremos assim, andando em círculos, anestesiados por sonhos débeis e o gosto medíocre de doce mofado na boca.

Achegue-se aqui, nessa imensa sala de aula que é a semana. Seus sete dias que passam sem nos dar importância. Que desejávamos amanhecer às segundas, abençoados com delícias. Deu errado. Amanhecemos solitários e displicentes. Ansiávamos por sextas reverberando paixões, mas vestimos as roupas da desolação. Elas nos apertam, afiadas, suas lâminas de verdades evitadas.

Até tentamos nos distrair com belezas possíveis. As flores a enfeitarem a casa. O perfume delas a disfarçar o odor do medo.

À frente: cenários desinteressantes. Um quadro em 3D de desconforto. Onde estão os acontecimentos prometidos, enquanto éramos educados por criaturas decididas a domesticar nossos instintos? Não era aprendizado, não. Tinha nada a ver com iluminação intelectual. Era servidão, curvar o espírito ao conhecimento em escombros. Era amputação da capacidade de pensar.

Não é ausência que nos agonia. Na ausência, sentimos falta. E a falta nos impulsiona a buscar por saídas, a repensar o cenário, a desejar companhia. É algo muito mais cruel. É abstinência, sabe-se lá do quê. É agonia pautada pela incapacidade de decifrarmos o que seria se não estivéssemos tão vazios de nós mesmos. Quem seríamos? A quem serviríamos? Para que serviríamos?

É abstinência, sabe-se lá de quem. Talvez o quem seja um resumo dessa nossa história em desuso. O quem nos criou? À sua imagem e imperfeição, e em bailes mal frequentados, aos sábados à noite; na conta das correrias diante da violência anunciada. No bojo das solidões irremediáveis e do desespero que se molda em nossa alma, em dias em que não temos energia para acreditar que pode ser diferente.

Diferente seria serenar o pensamento equivocado. Acalmá-lo até que ele se calasse de vez. Seria bom aproveitar essa quarta a aprender uma esperança e outra. Não das ocas, criadas para ocupar espaços que deveriam ser preenchidos com desejos que fossem desejos, não ecos de um comportamento que exige comedimento, quando a paixão é requisitada e necessária.

Que essa intranquilidade, ela que nos parece soberba ao primeiro olhar; ela que avilta nossa digesta rotina de “tudo no lugar onde deveria estar”, que ela possa nos guiar ao encontro de nós mesmos. Tenho por certo que não será um encontro pacífico. Ainda assim, seremos nós. A intranquilidade de quem busca a mudança a nos acompanhar.

Imagem © Herbert Draper

carladias.com

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