sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

PIPA >> Paulo Meireles Barguil


Segurar ou soltar pipa: como é mesmo o nome da brincadeira?

Quem segura a pipa: a mão ou a linha?

Quem solta a pipa: a mão ou a linha?

O que acontece quando ela encontra outra pipa?

O cerol é para defender ou atacar?

Ele está na mão ou na linha?

Como é que você brinca com a sua pipa?

Como é que a sua pipa brinca com você?

É você quem segura a pipa ou é ela quem lhe segura?

É você quem solta a pipa ou é ela quem lhe solta?

O que acontece quando você solta a linha que segura você a pipa?


[Foto de Ana Beatriz Peixoto Barguil. 24 de fevereiro de 2017]

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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

FILME DELICADO SOBRE ASPEREZAS >> Carla Dias >>


Nesse feriado, enquanto enfurnada em casa, que meu espírito carnavalesco é inexistente, assisti a um filme muito interessante. Delicado, apesar de o personagem coadjuvante lidar com as pessoas somente no modo grosseria no talo.

Eu conheci pessoas assim. Algumas delas continuam na minha vida. Leva-se tempo para entender que não tem a ver com você. Nem todos têm paciência para viver esse tempo.

A propaganda do filme é feita como “um conto de fadas contemporâneo”. Acho que devo ser bem chata no quesito, mas títulos em português e sinopses quase sempre me incomodam. Raramente retratam o filme.

Uma Beleza Fantástica (This Beautiful Fantastic/2016) é também um filme de fantasia, o que se destaca pelos efeitos especiais que remetem aos contos de fada. Por sorte, eles são poucos e servem ao roteiro, não o contrário.  Escrito e dirigido por Simon Aboud, o filme foi gravado em Londres, Inglaterra.

Não é por ter romance que o filme se fia somente nisso. Sim, há a moça que se apaixona pelo moço, só que, mais interessante ainda, há pessoas que se apaixonam pelo quem são as outras.

Bella Brown (Jéssica Brown Findlay) sonha em se tornar uma escritora de livros infantis. Enquanto a história não vem, ela trabalha como bibliotecária. O narrador do filme, o observador de Bella, é seu vizinho, Alfie Stephenson, interpretado pelo extraordinário Tom Wilkinson.

Alfie é um viúvo com problemas de saúde, que tem como companhias ocasionais a enfermeira e o cozinheiro e as filhas dele. É rude com eles, irônico e se sente extremamente ofendido com a vizinha, Bella, por ela não cuidar do jardim, que está morto.

Abandonada, Bella cresceu em uma instituição e surpreendia as pessoas com a sua capacidade de organizar coisas, o que às vezes era um pouco exagerado. Adulta, mora sozinha e convive bem com sua solidão. Sua rotina se fia em suas compulsões. Um de seus medos é da natureza, por isso o abandono total do jardim de sua casa. Ela não consegue sequer sair e colocar os pés nele.


O roteiro de Uma Beleza Fantástica é delicado com a severidade das questões que acometem as pessoas das duas casas. Cada personagem se mostra importante para a trama, mas o relacionamento turbulento entre eles leva Alfie a criar uma situação na qual Bella é obrigada a recuperar seu jardim, e ela tem de enfrentar uma novidade arrebatadora.

A metáfora está ali, no que acontece entre Alfie e Bella. O aprendizado, também. Como eu já disse, cada personagem tem sua importância. Durante a trama, as mudanças para Bella são muitas e claras. Porém, elas não influenciam somente a vida dela, mas a dinâmica entre todos ao redor e de uma forma mais abrangente, profunda.

Para mim, filmes como  Uma Beleza Fantástica celebram a capacidade do ser humano de descartar rótulos e observar o outro com atenção e gentileza, encontrando nele mais do que a distração criada por equivocadas definições.







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sábado, 10 de fevereiro de 2018

CHAPÉUS E... NOVELAS? >> Sergio Geia

 
 

Assistia à TV Globo, uma reportagem sobre chapéus.
Por falar em TV Globo, depois de muitas séries e séries da Netflix, voltei às novelas. Culpa de Ubatuba, culpa do apartamento não ter tevê a cabo.
Voltei porque já fui muito. Novelas de antigamente tinham uma pegada diferente. Julia Mattos em “Dancin’ Days”, aquela abertura deliciosa com “As Frenéticas”, o todo-poderoso Felipe Barreto, personagem de Antonio Fagundes em “O Dono do Mundo”, a linda Marcia de Malu Mader, a abertura genial com trilha de Tom Jobim, todas do craque Gilberto Braga. “Roque Santeiro”, trilha musical das mais bacanas (tenho o vinil aqui), “A senhora do destino”, Wilker, sempre Wilker, “A próxima vítima”, maravilhas criadas pelo talento do artista brasileiro, e outras tantas.
Novela de hoje não gosto, nem nome de novela tem, nome forte, que já conquista na primeira chamada. “Amor à vida”, “Sol nascente”, “Tempo de amar”, “Joia Rara”, “Além do horizonte”, “Sangue bom”, “Velho Chico”, “A lei do amor”, fraquinhos de dar dó.
Mas acabei vendo um capítulo de “O outro lado do paraíso” (desse nome eu gosto) em Ubatuba, depois outro, outro, e o peixão aqui caiu na rede. Nessa última semana ela foi só emoção. Fernanda Montenegro, sempre um monstro de atriz; Marieta Severo, idem; Lima Duarte; são tantos. Glorinha Pires (da lindinha, na cena de topless com Maria Padilha em “Água Viva”, à atriz maiúscula de hoje), Sérgio Guizé, a Grazi Massafera, que atriz se tornou, my God!, e essa menina chamada Bella Piero, não conhecia, Laura, que atriz fantástica, que emoção ela passa, Walcyr Carrasco conduzindo tão bem a trama.
Deu até para abandonar (temporariamente) “Suits”, a Meghan Markcle (sempre uma princesa), e olha que eu estava amando.
Mas voltemos ao chapéu, que é o assunto de hoje, não novelas.
Como dizia, assistia à TV Globo, uma reportagem sobre chapéus. Eram muitos chapéus, de todos os modelos, formatos, cores. Nesse Brasil que massacra sua gente, a família se viu em desespero, sem emprego, sem dinheiro, sem perspectiva. Daí a artista da família (como é bom toda família ter uma artista) resolveu criar chapéus. A coisa deu tão certo, mas tão certo, que a família toda prosperou no negócio, e hoje, a vida sorri a eles mais alegre, sempre com um belo adereço na cabeça.
Na hora, minha vontade foi me teletransportar, como naqueles filmes de ação de antigamente, entrar numa máquina, apertar uns botões, sair aquela fumaça branca e espessa, de repente, aparecer na lojinha da família no Rio, comprar um chapéu.
A empresa-família não fabrica chapéus, depois vi, apenas os enriquece com arte pura, transforma um simples chapéu num chapéu personalizado. Usando lã, Emília pinta corações de vermelho, escreve abstrações como “paz”, “amor”, “união”, “sorte”, ou nomes de gente, Fê, Julia, Patrícia, ou coisas do tipo “sou carioca”, junto com um desenho do Cristo Redentor de braços abertos, ou “sou mãe”.
Na semana passada, em Ubatuba, quase comprei um panamá. Na praia, o vendedor passou, mas estava longe, fiquei com preguiça de chamar.
Sempre que vejo alguém de chapéu, me dá vontade de ter um. Num carnaval, anos atrás, Ayl Godinho usava um alegre (e há chapéu triste?), Paulo Pereira sempre que pode tem um, Haley Carvalho postou fotos em Arraial D’Ajuda com um pequeno e lindíssimo.
Mateus Solano usava um chiquérrimo em “O menino no espelho”, Johnny Depp tem uma coleção. Aliás, há personagens aclamados no cinema que não largavam um chapeuzinho. Heisenberg, por exemplo, com aquela cara de mau em “Breaking bad”, um pork pie preto bacanérrimo; Jack Sparrow e Willy Wonka, do próprio Depp, Indiana Jones, do Harrison Ford,  Charles Chaplin e seu Carlitos, Don Draper, de Jon Hamm, em Mad Men. Tantos, tantos, lindos, gosto até da ushanka (mas só se eu fosse para a Rússia no inverno).
Chapéus, chapéus, chapéus.
Minha vontade de comprar um chapéu hoje me tirou do prumo, me fez levar você às novelas e aos chapéus.
Sorry, de coração.
Mas neste carnaval preciso de um chapéu.


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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

SÁBADO DE CARNAVAL >> Zoraya Cesar

Noite de sábado. Carnaval. Galeria de arte. 

Tal combinação pode parecer estranha, mas essa é uma cidade onde coisas estranhas acontecem. Pois em plena noite de sábado de carnaval diversas pessoas circulavam com intimidade e desenvoltura por entre os quadros pintados pela celebrity da vez, nova rica no auge de seus 15 minutos de fama. 

Um homem elegante olhava cinicamente os quadros da pretensa artista. Alexandre não diria que seu filho de cinco anos faria melhor, nem que um macaco poderia tê-los pintado. Primeiro, porque não tinha filhos; depois, porque, conhecedor de arte que era, sabia que, efetivamente, um macaco pintaria melhor. 

Pegou o copo de whisky oferecido por um garçom indiferente e distante. Deu um único e último gole. Tinha gosto de mijo com suor. Deve ter sido feito no fundo de um quintal durante a lei seca, pensou, a garganta queimando. Temendo adquirir cirrose caso as outras bebidas tivessem igual qualidade, optou por um copo de água. Teve a impressão de que saíra de uma bica suja e enferrujada. Decidiu não beber mais nada. Melhor morrer sedento que envenenado.

O som ambiente era torturado pela música - uma espécie de techno-lounge com decibéis a mais e qualidade de menos – e pela garrulice estridente de uns e risadas altissonantes de outros. 

Cansado de fingir interesse por aquelas pinturas horrendas, que, sabia, dar-lhe-iam pesadelos, dedicou-se a observar os convidados.

A mulher bonita e esquelética, de cabelos lisos e vestido vermelho decotado até o limite do bom gosto, jogava charme para um homem alto de barba escura e cerrada, que, sem lhe dar atenção, paquerava outras mulheres.

As outras mulheres... cópias quase fieis da modelo de vestido vermelho e semblante triste. Todas sorrindo com a boca escancarada, mostrando seus dentes perfeitos; todas fingindo alegria desmedida; todas vestidas para seduzir. Uma jovem de ar cansado, tez emaciada e pálida, mal disfarçada pela maquiagem, olhava-se constantemente no espelho, como se a verificar que ainda ela estava ali, que era real, e não, assim como os outros, uma ilusão.

Alguns rapazes pavoneavam-se pelo salão, tentando impressionar a anfitriã, conhecida devoradora de frangotes, ou arranjar alguém para o sexo da madrugada. Dois homens estavam, obviamente, dividindo a mesma escort girl, uma moça mal saída da adolescência, que ainda estava aprendendo a representar seu papel de prostituta disfarçada de amiga. Constrangedor. Alexandre teve vontade de agarrá-la, sacudi-la e jogá-la porta afora, gritando ‘fuja, fuja antes que seja tarde’. Mas ele sabia que já era tarde. 

Sua esposa aproximou-se. Amiga da celebrity, e, também ela, um engodo. Cheia de silicone nos seios e nos glúteos, de botox no rosto e de vaidade na cabeça. Há muito não era uma pessoa, mas uma persona: a mulher aristocrática e arrogante que só fazia sexo movida a cocaína. Não nutria sentimentos por nada que não tivesse grife ou pedigree.

Eu também, pensou, desgostoso, sou fake. Uma farsa infeliz. Casado com uma mulher que não amava há mais tempo do que podia lembrar. Diretor de um escritório que ajudava clientes a lavar dinheiro e a escapar do Fisco. Morando numa cidade que odiava, cercado por pessoas que viviam de aparências. 

Afetação. Falsidade. Arrogância. Ignorância. Solidão. Mentiras. Adulação. Sempre detestara tudo isso. O que estou fazendo, afinal?

Aqui só tem gente morta, inclusive eu. Deus, o que estou fazendo? Me diz! É sábado. Carnaval. E eu, um morto entre os mortos.

Ele vê, entre os presentes, nesse momento, uma mulher para a qual não há outro adjetivo que não o mais simples: feia. Seu rosto parecia um dos quadros da mostra, uma mistura de cara de cavalo com escovão de cozinha. Estava até bem vestida, mas destoava do ambiente fashion. Tinha o olhar assustado de quem entrara na festa por engano, numa festa para a qual jamais seria convidada - se não fosse prima da artista... 

Alexandre cruzou o salão em sua direção, agarrou-a e beijou-a lascivamente, língua com língua, pélvis contra pélvis.

Ela não rejeitou a abordagem selvagem e retribuiu com o mesmo vigor. Era carnaval, tudo era possível, até ser agarrada pelo homem mais bonito que já vira. 

O tempo parou, ninguém se mexia, sequer respirava. Apenas a mulher de Alexandre, boquiaberta e atônita, escorregou pela parede até cair sentada, em choque. E os fotógrafos, claro, satisfeitos por terem, enfim, algo interessante para registrar.

Largando a estranha - não sem antes, homem educado que era, agradecer-lhe – voltou-se para a esposa: 

- Ela é mais bonita que esses quadros horrorosos. E mais verdadeira. Estou saindo. Não me espere antes de Quarta-Feira de Cinzas. – deu uma pausa e completou:

- Ela beija melhor que você.

E saiu, feliz por deixar para trás aquela farsa toda, livre, procurando um bloco de rua para se perder. Pela primeira vez, em anos, o homem lindo, rico e charmoso sentiu-se verdadeiramente vivo.



Não se liguem na letra. A mensagem está no filme. 
Solidão é o preço cobrado para quem vive de aparências, 
um preço alto, frustrante, exaustivo.

Dica de Carnaval: jogar fora a fantasia e viver na própria pele.

vídeo 

Rihanna - Love On The Brain [Video Unofficial]




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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

MAR CALMO, MARINHEIRA>> Analu Faria

Se ao menos voltasse a dormir, poderia ter de novo um daqueles pesadelos controláveis. Sonhos conscientes, em que escapava dos assaltos e saía com vida dos escombros, repetindo para o eu-no-sonho que ali ela podia o que quisesse. E desviava dos tiros antes do disparo e abria buracos no concreto, como se já tivesse ensaiado o desvio, a fuga.

Comprou uma imagem de São Judas Tadeu. Preparou também uma oferenda para Oxalá, seu orixá de cabeça. Era hora de se proteger, que antes da tempestade vem calmaria. Não que morasse num castelo, vivesse com um príncipe, tivesse o emprego dos sonhos. Mas não tinha um contratempo há meses, a saúde ia muito bem, obrigada, tinha perdido peso, ganhara um aumento, a família estava em paz, a pele e o cabelo tinham brilho, seu time vencera o campeonato e os problemas do ano anterior haviam se resolvido todos a seu favor.

"Aproveita, gata!" dizia o amigo, estatalando os olhos  (a performance da indignação!). Aproveitar o quê? Há anos não sabia o que era mar calmo.  Agora aquela marolinha, aquele céu de brigadeiro... Dava medo de atrofiar a mão que segura o leme e, logo, perdê-lo, como a colega desesperada que não sabe o que fazer com a doença - plenamente tratável - da mãe.

A quietude daqueles meses lembrava o tempo quando pequena, em que ela se mudara com a família de um prédio movimentado na cidade para um casa longe do centro. À noite, a ausência de som fazia uma leve pressão nos ouvidos e era impossível dormir. Hoje o que lhe tirava o sono era pensar nos sortudos deste mundo,  se aprendiam assim de pronto a lidar com a sorte que tinham ou se já se nasciam com genes específicos que ativam instintos capazes de manter a cabeça no lugar quando tudo ao redor é tão bom. A continuar daquele jeito, talvez houvesse um futuro no qual os sonhos dela se realizassem e aí seria preciso muito mais reza para aguentar  a onipresença da felicidade.

Ah, mas o mundo não é feito de sortudos! Havia machismo, racismo, corrupção, pedofilia, ignorância. Enquanto um irmão fosse vítima, ela também não poderia estar em paz. Pensou em armar-se de palavras e raiva, ambas genuínas, e, quando amanhecesse,  procurar uma causa a que se dedicar um pouco mais. Sentiu aquela fincada no baixo ventre, como um toque de agulha de tricô no útero, dor aguda, quatro dedos abaixo do umbigo, e soube que o mundo ainda estava no lugar, masturbou-se e voltou a dormiu, sem precisar de pesadelos aquela noite.















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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

PODE PARECER QUE NÃO, MAS SIM... >> Carla Dias >>


Escreveu um samba-canção inspirado no gosto dela pelas palavras. Construiu aquela casa, com aquele quintal bonito que só, para que pudessem comemorar aniversários e eclipses. Onde os amigos chegam hoje e só vão embora amanhã, forçados pela segunda-feira que será no depois de amanhã.

Caso contrário, continuariam ali: prosa correndo solta. Gargalhadas até na hora em que encaram tristezas.

Escreveu um manifesto sobre benquerenças e revides. Sempre se sentiu desafiado a explicar o inexplicável. Claro que, nem sempre, chegava a algum lugar. Mas adorava o olhar dela dedicado a observá-lo, enquanto o pobre tentava descomplicar o que nasceu para ser complicado. Não sabe ser diferente. Nem vai tentar ser diferente. Tem jeito, não.

Há sim o que não tem jeito. Melhor aceitar o fato.

De tudo que conheceram juntos, jamais se esquecerá daquela cafeteria, que fica em uma cidade da qual ele não consegue pronunciar o nome. Lugar bonito, de tão singelo. Que ela gosta dessa coisa de aconchego oferecido pelo rústico, alternativo. Coloque flores em garrafas de vinho, espalhe perfumes e cores. Ela gosta de cores e não se sente à vontade em ambientes planejados para serem caixinhas cinzas a receberem espíritos submissos. Para ela é assim... Não tem cor por fora, ainda que pela sutileza dos tons, no dentro as coisas desabam.

Claro que nem tudo são flores em garrafas de vinho, perfumes e cores. Ela é boa de briga, demanda paciência, quando dá de frequentar seus medos e selvagerias.

Quem não os têm?

Porém, ela gosta de amplificá-los, valendo-se de uma dramaticidade digna de Oscar ao botá-los para fora. Ele se cala diante dos rompantes dela. Eles não são bonitos, mas são dela. São ela. Ele não tem o poder de pacificá-los, já que a própria aprecia cultivá-los e valer-se deles quando arrebatada por certa agonia existencial.

Então, ela se isola, distancia-se dele. Refugia-se no quintal, na estufa que ele construiu para se cultivar as flores que a fazem sorrir tão bonito. Onde ela rumina a infelicidade dos traumas.

Há dias em que ela não vê beleza no fôlego, no toque, na perseverança de se sobreviver aos infortúnios. E que se aprofunda na busca pelo bálsamo, mas de maneira tão dolente, que alcançá-lo nunca é o objetivo. Compreender a necessidade dele é o que a aflige. Como quem não se importa com a cura, mas com uma boa explicação sobre o motivo de sofrer daquilo.

Às vezes, os amigos preferem não frequentar aquele quintal, passar o fim de semana, fiarem-se em conversas. Eles se sentem constrangidos com a incapacidade de lidarem com ela, assim, desconectada deles, como se não conhecessem. E ele sabe que isso é algo que nem todos conseguem fazer.

Ele não é melhor do que ela, apenas mais paciente em relação aos desmandos da vida. Compreende que todos sofremos de tragédias, e que, sim, algumas são avassaladoras e nos roubam afetos e alegrias. Mas o que mais ele poderia fazer a não ser continuar vivendo e apreciando a jornada? Lidando com os incômodos? Cuidando dela, para quem ele compôs um samba-canção. Para quem construiu uma casa com quintal e estufa. Quem entende que eles são diferentes, e que essas diferenças se tornaram a capacidade deles de entendimento.

Ah, não entristeçam com o destino dele... Ter de cuidar de quem nem sempre se lembra do amor que norteia a existência de ambos. Que vai se esquecendo, cada dia um pouco, de quem se tornou na companhia do outro.

Pode parecer que não, mas sim... Essa é uma carta de amor.

Imagem: The Ballad ©  Henry Lejeune

carladias.com

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terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

BEM VINDO À SELVA >> Clara Braga

Olhando da janela dava para dizer que era um dia como outro qualquer. A chuva havia dado trégua e amenizado o calor, o que deixava o clima muito agradável para um belo passeio de carrinho. Decidimos ir até um café que fica a menos de 2km de distância de casa, tomaríamos um café e voltaríamos, cumprindo tanto nossa cota diária de cafeína quanto a cota diária de vitamina D do nosso filhote.

Tudo ia bem quando menos de 500 metros depois eu ouvi um latido desesperado de um cachorro. Queria não acreditar, mas quanto mais rápido eu empurrava o carrinho mais próximo parecia o latido. Tomei coragem e olhei para trás apenas para chegar à conclusão esperada: um cachorro corria em nossa direção enquanto seu dono olhava tudo de longe e ria alegremente ao telefone. Para nossa sorte o cachorro estava em paz e se contentou em apenas cheirar nossos pés sem se aproximar do carrinho, que nesse momento já estava com a frente toda levantada caso o cachorro tentasse pular.

Quando estava quase recuperada do susto, observei que a rua na qual andávamos estava suja, um tanto grudenta. Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, meu marido comentou: caramba, olha a quantidade de jaca que caiu dessas árvores e a quantidade de jacas lindas e enormes que estão fazendo sombras refrescantes em nossa caminhada prontinhas para caírem em nossas cabeças! Andamos o mais rápido possível para fugir de um verdadeiro campo minado aéreo, mas não tão rápido a ponto de assustar o cachorro e ter que correr dele novamente, afinal, seu dono ainda estava ao telefone apenas observando tudo de longe.

Ao nos livrarmos do cachorro e das jacas, vi que o chão mais a frente também estava grudento, mas dessa vez dava para perceber claramente que eram mangas. Olhamos para as árvores e a situação não pareceu tão grave, as mangas já estavam no chão, que desperdício! Opá, parece que o desperdício não foi tão grande assim, muitas abelhas faziam a festa em cima de toda aquela manga, por pouco não passamos com o carrinho acidentalmente por cima delas e elas propositalmente por cima da gente.

Desviamos o caminho e, finalmente, chegamos ao café! Ufa, tomar um café nunca foi tão difícil. Mas é melhor não contar vantagem, ainda temos que voltar. E como não podia ser diferente, passamos quase sem respirar por um pitbull fora da coleira observando seu dono fazer flexões, nos assustamos com morcegos que voaram muito mais perto do que o necessário e, já no elevador, quando achamos que estávamos bem, lutamos contra bichinhos de luz que atacavam o carrinho. Quando entramos em nosso quarto estávamos realmente acabados e entendendo todos os pais que não se sentem seguros em passeios de carrinho.

Enquanto ríamos da situação vimos o bebê mais lindo do mundo olhar para a gente e também abrir um sorriso, como se entendesse o que estava sendo dito. O detalhe é que seu sorriso era sonolento, pois acabara de acordar de um passeio que nem sabe que fez de tanto que dormiu, por enquanto é melhor assim.

O pior é saber que esse passeio que mais pareceu fases de um vídeo game foi só uma amostra grátis, quase uma parábola, do que vai ser a vida daqui para frente: ele desbravando o mundo enquanto a gente observa, apoia e morre do coração. A parte cardíaca está em dia, mas para você meu filho, só tenho uma coisa a dizer: bem vindo à selva!


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sábado, 3 de fevereiro de 2018

PARA 2018 >> Cristiana Moura


Um abraço reconfortante de reencontro não planejado na escadaria do metrô.

— Que bom te ver!

Ele sorriu um sorriso com cheiro de flor de laranjeira que só tem quem cresceu no interior. 

— Bom demais!

— E aí? Quais os desejos para 2018? 

—Ah, quero fazer cocô todos os dias.

— Como?

— É. A vida é tão cheia de vida para andar pelas ruas enfezado...

Mais uns dois minutos de prosa e nos despedimos. Fiquei a matutar sobre as voltas da minha lista de quereres e na simplicidade do amigo de passos lentos.

—Deus, que meus desejos sejam mais simples!



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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

ABANDONO >> Paulo Meireles Barguil


 "“Meu Deus, Meu Deus! 
Por que me abandonaste?”
(Mt 27, 46b)


Dilacera a alma perder o aconchego que acreditávamos eterno.

A separação propicia morte e nascimento, em escalas imperceptíveis.

Durante a nossa vida,  inúmeras vezes, sentiremos e proporcionaremos desamparo: seremos, inexoravelmente, vítimas e algozes.

Um relacionamento é para dar ou para receber?

É possível usufruí-los simultaneamente?

Será que as pessoas conhecem as suas intenções e as das outras?

Até que ponto elas são corajosas para enunciá-las?

Será que as pessoas identificam as suas limitações e as das outras?

Até que ponto elas são honestas para verbalizá-las?

Afastar-se pode ser um ato de coragem... ou de covardia.

A análise do ocorrido depende do papel de cada pessoa na cena – seja vivenciando-a, seja assistindo-a – e do momento em que a avaliamos.

O que dizer do abandono de si mesmo?

Do silencioso suicídio diário, em que não conseguimos falar, ouvir e seguir a nossa voz interna e, assim, murchamos nossa alma e apunhalamos nosso corpo?

Às vezes, devido ao medo de sofrermos novamente e para nos defendermos, fugiremos antes que o outro se aproxime e, assim, permaneceremos presos em laços invisíveis que nos sufocam, ao mesmo tempo em que bradaremos o quão somos livres...

Outras vezes, em virtude da coragem de romper o nó cego, talvez impulsionados pela dor insuportável, abriremos as nossas feridas, principalmente as ignoradas, e ousaremos curá-las.

Uma cicatriz não significa que o processo foi finalizado, mas apenas indica que algo está sendo transformado.

Sucumbimos, muitas vezes, a abusos e assédios, de qualquer natureza, porque a conexão interna – que está relacionada ao autoconhecimento, à autoaceitação e à autoestima – foi pouco desenvolvida.

Para acelerarmos as mudanças, precisamos aceitar que todos somos dignos de navegar no amor – distribuindo e colhendo – mesmo aqueles que, no nosso entendimento, agem de forma cretina.

Cada distanciamento – vindo de dentro ou de fora – é uma oportunidade de nos proporcionarmos a acolhida que gostaríamos de receber do outro, a qual sempre pode ser ampliada.

O mais comovente deste enredo, encenando há milênios pela Humanidade, é que a cura de uma chaga não se limita à pessoa agraciada, mas contempla, de modo incalculável, todos que com ela convivem.


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