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Mostrando postagens de Fevereiro, 2018

MELHOR ESPERAR >> Carla Dias >>

Escutou alguém dizer, fofoca de especialista de fila de casa lotérica. Quem não quer ganhar uma bolada e realizar sonhos? Se bem que ele morre de medo de ganhar uma bolada e, em vez de realizar sonho, dar uma enlouquecida e não saber ser milionário. Tem coisa pior do que não saber ser o que se tornou? E se sair por aí cometendo bobagens que somente um milionário que não sabe ser milionário cometeria?

Também tem medo de atravessar a rua, com o sinal vermelho, quando não há um carro sequer na rua. Ele fica lá, esperando a hora certa.

Esperar a hora certa é sua especialidade. Não que tenha desejado se especializar nisso. Aconteceu, assim, acontecendo. Tem até quem se consulte com ele a respeito. E ele, sentindo-se muito desconfortável com a função, faz cara de sábio, enquanto pensa na lista do supermercado.

No final do monólogo do outro, responde a mesma coisa de sempre:

- Melhor esperar.

Ele nunca disse ao consulente que desse as caras, descesse a ladeira, subisse nas tamancas; que fos…

DESCULPA, MAS O ASSUNTO PODE SER DESAGRADÁVEL >> Clara Braga

Sempre gostei de acompanhar as novidades no mundo das dietas. Já fui a louca que logo que lia algo novo que prometia emagrecer rápido começava a fazer e vivia no tal do efeito sanfona. Hoje me livrei dessa paranoia (digam amém) mas continuo gostando de ler a respeito.
O que venho percebendo é que o nome dieta já ficou ultrapassado tem um tempo, hoje em dia o lance é manter um hábito alimentar saudável, que dependendo da linha que você vai seguir pode ou não significar comer de 3 em 3 horas, aliado a exercício físico, que dependendo da linha que você seguir pode ou não ser feito em jejum e outras variedades mil. É, basicamente tem para todos os gostos, mas me parece que a maioria vem evitando mais e mais a lactose e o glúten. Esses vieram para ficar, não foi uma dieta passageira, até porque muitas pessoas de fato têm intolerância e, se algum dia a dieta foi criada só para virar moda, essas pessoas agradecem, pois se beneficiaram bastante.
Logo que essas dietas (ou hábitos alimentare…

2500, TALVEZ... >> Sergio Geia

Fui tomar a vacina. Você que me lê, talvez em 2040, 2100 ou 2500, fique sabendo que aqui, no ano de 2018, houve uma grande campanha de vacinação contra a febre amarela. Então uma doença longe da cidade, tipicamente silvestre, o vírus sofreu mutações, pegou um aviãozinho em Manaus, aterrissou em Sampa, com escalas no Rio, Minas, Bahia. Não fiz como Lucas que, sabendo da morte do primeiro macaquinho com febre amarela, tratou de pegar a família e se vacinar. Se bem que Lucas não conta. Na época da falta d’água, por exemplo — sim, amigo do 2040, 2100 ou 2500, falta d’água; aliás, você tem água aí? —, tratou de encher garrafas pets e acumular em seu quarto, por isso, faltou pouquinho para perder a mulher; o amor quase virou água. Não me vacinei como Lucas, e diante das notícias animadoras sobre a doença, da grande campanha que as autoridades organizaram, eu fui. Sabe que teve gente que se recusou? Tia Adélia, minha mãezinha, elas nem quiseram saber. Há contraindicações. Em Sampa ouvi dizer qu…

A HORA DOS MORTOS - 1a parte >> Zoraya Cesar

Era madrugada quando ele, das profundezas do sono, sentiu a cama sacudir e tremer fortemente, como se quisesse jogá-lo para fora. Cansado, crendo se tratar apenas de um sonho por demais realista, decidiu, em sua semiconsciência, permanecer de olhos fechados e tentar voltar ao Reino de Hypnos. 
A cama, porém, não desistiu de acordá-lo e a ela juntaram-se as portas do armário, que batiam estrepitosamente; as cortinas esvoaçavam, flap-flap, flap-flap, como asas de um pássaro frenético batendo, agoniado, dentro de uma gaiola apertada; sombras e luzes dançavam nas paredes ao som de alguma música inaudível, formando estranhas figuras que se transformavam e se fundiam umas nas outras, como um quadro vivo de Escher.
Convencido, enfim, de que aquela agitação toda era bastante real, e nauseado pelo tremor da cama, Lucrécio Lucas abriu os olhos, agora bem desperto e atento.
Imediatamente, tudo se aquietou. Um silêncio escuro e denso tomou conta do ambiente. Mas que droga, pensou. Será que não feche…

A SALADA DO BRUNCH>>Analu Faria

Bastaria uma chamadinha de lado. Um delicado, educado "Can I talk to you for a minute?", talvez imitando a entonação ascendente dos britânicos quando eles fazem perguntas delicadas. Quando morei na Inglaterra, aprendi que essa entonação denota polidez. Para uma coisa daquelas era preciso muita polidez. Então talvez eu usasse daquela entonação para avisar à simpática chefe da delegação inglesa, assim, num cantinho da sala, que ela tinha um pedaço de alface no dente.
Depois de ver aquele verdinho no sorriso de alguém a gente não consegue se concentrar em mais nada. A moça era articulada e muito profissional, mas, meu Deus, ela tinha alface no dente! Lembro-me também de achá-la despojada demais para uma inglesa, porque usava vestido vermelho, levemente colado, que eu não costumava ver nas mulheres executivas que via na rua em Londres. Mas será que as executivas de Londres também andavam por lá com um pedaço de alface no dente?
Na época em que vivi naquele país, eu trabalhava n…

SUJEITOS >> Carla Dias >>

E o tempo de amadurecer o trato com o mundo? Com o outro?

Mundo que vem sendo subjugado por projetos e alvejado por projéteis. Suas pessoas sendo empilhadas, sangue e confetes, porque adoçar o olhar de quem sente a fome comê-lo por dentro é projeto de resistência daquele que mantém para si o poder de reduzir aos seus a meros serviçais dos próprios desmandos.

E por onde anda a liberdade? Que a cada quarteirão a violência nos acua. Dobramos as esquinas do absurdo com mais frequência. A alma da gente vai se esgarçando de um jeito triste de se ver. De se sentir.

Apesar das alegrias que as oportunidades nos servem, daquelas de surpreender, os despautérios andam mais afiados do que nunca. A vida se protege como pode, curvando-se, indócil, às tentativas ostensivas de ser violada, amortecida, extirpada.

Sobreviver anda sendo tarefa árdua. Sobreviver não deveria ser coisa de diariamente. Quem vive tão somente de sobreviver?

Ainda assim, sobrevive-se. Sobrevivem, Sobrevivemos. E talvez a única…

A CULPA NÃO É MINHA >> Clara Braga

Hoje em dia o acesso ao conhecimento está um tanto facilitado, a informação está a um clique de distância, mas tenha muito cuidado, tão fácil quanto o acesso ao conhecimento é o acesso ao desconhecimento.
Se você está infeliz no emprego, hoje em dia as oportunidades profissionais são amplas e cada vez mais ajustáveis aos diferentes perfis. Parece que estamos finalmente superando a era na qual felicidade profissional caminhava de mãos dadas com estabilidade profissional. Experimentar, mudar, tentar e descobrir que na verdade você quer aproveitar o acesso às várias ferramentas que te auxiliam a ser empreendedor e cuidar do seu próprio negócio não é mais coisa de pessoa bipolar ou difícil de lidar, muito menos de pessoa que sonha demais.
E se ainda assim, com conhecimento em várias áreas e dono do seu próprio negócio, você ainda não estiver feliz pois não gosta desse país que para você só vai de mal a pior, parabéns, você escolheu a época certa para não querer morar nesse país. Cada dia…

PIPA >> Paulo Meireles Barguil

Segurar ou soltar pipa: como é mesmo o nome da brincadeira?

Quem segura a pipa: a mão ou a linha?

Quem solta a pipa: a mão ou a linha?

O que acontece quando ela encontra outra pipa?

O cerol é para defender ou atacar?

Ele está na mão ou na linha?

Como é que você brinca com a sua pipa?

Como é que a sua pipa brinca com você?

É você quem segura a pipa ou é ela quem lhe segura?
É você quem solta a pipa ou é ela quem lhe solta?
O que acontece quando você solta a linha que segura você à pipa?

[Foto de Ana Beatriz Peixoto Barguil. 24 de fevereiro de 2017]

FILME DELICADO SOBRE ASPEREZAS >> Carla Dias >>

Nesse feriado, enquanto enfurnada em casa, que meu espírito carnavalesco é inexistente, assisti a um filme muito interessante. Delicado, apesar de o personagem coadjuvante lidar com as pessoas somente no modo grosseria no talo.

Eu conheci pessoas assim. Algumas delas continuam na minha vida. Leva-se tempo para entender que não tem a ver com você. Nem todos têm paciência para viver esse tempo.

A propaganda do filme é feita como “um conto de fadas contemporâneo”. Acho que devo ser bem chata no quesito, mas títulos em português e sinopses quase sempre me incomodam. Raramente retratam o filme.

Uma Beleza Fantástica (This Beautiful Fantastic/2016) é também um filme de fantasia, o que se destaca pelos efeitos especiais que remetem aos contos de fada. Por sorte, eles são poucos e servem ao roteiro, não o contrário.  Escrito e dirigido por Simon Aboud, o filme foi gravado em Londres, Inglaterra.

Não é por ter romance que o filme se fia somente nisso. Sim, há a moça que se apaixona pelo moço, …

CHAPÉUS E... NOVELAS? >> Sergio Geia

Assistia à TV Globo, uma reportagem sobre chapéus. Por falar em TV Globo, depois de muitas séries e séries da Netflix, voltei às novelas. Culpa de Ubatuba, culpa do apartamento não ter tevê a cabo. Voltei porque já fui muito. Novelas de antigamente tinham uma pegada diferente. Julia Mattos em “Dancin’ Days”, aquela abertura deliciosa com “As Frenéticas”, o todo-poderoso Felipe Barreto, personagem de Antonio Fagundes em “O Dono do Mundo”, a linda Marcia de Malu Mader, a abertura genial com trilha de Tom Jobim, todas do craque Gilberto Braga. “Roque Santeiro”, trilha musical das mais bacanas (tenho o vinil aqui), “A senhora do destino”, Wilker, sempre Wilker, “A próxima vítima”, maravilhas criadas pelo talento do artista brasileiro, e outras tantas. Novela de hoje não gosto, nem nome de novela tem, nome forte, que já conquista na primeira chamada. “Amor à vida”, “Sol nascente”, “Tempo de amar”, “Joia Rara”, “Além do horizonte”, “Sangue bom”, “Velho Chico”, “A lei do amor”, fraquinhos de …

SÁBADO DE CARNAVAL >> Zoraya Cesar

Noite de sábado. Carnaval. Galeria de arte. 
Tal combinação pode parecer estranha, mas essa é uma cidade onde coisas estranhas acontecem. Pois em plena noite de sábado de carnaval diversas pessoas circulavam com intimidade e desenvoltura por entre os quadros pintados pela celebrity da vez, nova rica no auge de seus 15 minutos de fama. 
Um homem elegante olhava cinicamente os quadros da pretensa artista. Alexandre não diria que seu filho de cinco anos faria melhor, nem que um macaco poderia tê-los pintado. Primeiro, porque não tinha filhos; depois, porque, conhecedor de arte que era, sabia que, efetivamente, um macaco pintaria melhor. 
Pegou o copo de whisky oferecido por um garçom indiferente e distante. Deu um único e último gole. Tinha gosto de mijo com suor. Deve ter sido feito no fundo de um quintal durante a lei seca, pensou, a garganta queimando. Temendo adquirir cirrose caso as outras bebidas tivessem igual qualidade, optou por um copo de água. Teve a impressão de que saíra de uma…

MAR CALMO, MARINHEIRA>> Analu Faria

Se ao menos voltasse a dormir, poderia ter de novo um daqueles pesadelos controláveis. Sonhos conscientes, em que escapava dos assaltos e saía com vida dos escombros, repetindo para o eu-no-sonho que ali ela podia o que quisesse. E desviava dos tiros antes do disparo e abria buracos no concreto, como se já tivesse ensaiado o desvio, a fuga.

Comprou uma imagem de São Judas Tadeu. Preparou também uma oferenda para Oxalá, seu orixá de cabeça. Era hora de se proteger, que antes da tempestade vem calmaria. Não que morasse num castelo, vivesse com um príncipe, tivesse o emprego dos sonhos. Mas não tinha um contratempo há meses, a saúde ia muito bem, obrigada, tinha perdido peso, ganhara um aumento, a família estava em paz, a pele e o cabelo tinham brilho, seu time vencera o campeonato e os problemas do ano anterior haviam se resolvido todos a seu favor.

"Aproveita, gata!" dizia o amigo, estatalando os olhos  (a performance da indignação!). Aproveitar o quê? Há anos não sabia o qu…

PODE PARECER QUE NÃO, MAS SIM... >> Carla Dias >>

Escreveu um samba-canção inspirado no gosto dela pelas palavras. Construiu aquela casa, com aquele quintal bonito que só, para que pudessem comemorar aniversários e eclipses. Onde os amigos chegam hoje e só vão embora amanhã, forçados pela segunda-feira que será no depois de amanhã.

Caso contrário, continuariam ali: prosa correndo solta. Gargalhadas até na hora em que encaram tristezas.

Escreveu um manifesto sobre benquerenças e revides. Sempre se sentiu desafiado a explicar o inexplicável. Claro que, nem sempre, chegava a algum lugar. Mas adorava o olhar dela dedicado a observá-lo, enquanto o pobre tentava descomplicar o que nasceu para ser complicado. Não sabe ser diferente. Nem vai tentar ser diferente. Tem jeito, não.

Há sim o que não tem jeito. Melhor aceitar o fato.

De tudo que conheceram juntos, jamais se esquecerá daquela cafeteria, que fica em uma cidade da qual ele não consegue pronunciar o nome. Lugar bonito, de tão singelo. Que ela gosta dessa coisa de aconchego oferecido…

BEM VINDO À SELVA >> Clara Braga

Olhando da janela dava para dizer que era um dia como outro qualquer. A chuva havia dado trégua e amenizado o calor, o que deixava o clima muito agradável para um belo passeio de carrinho. Decidimos ir até um café que fica a menos de 2km de distância de casa, tomaríamos um café e voltaríamos, cumprindo tanto nossa cota diária de cafeína quanto a cota diária de vitamina D do nosso filhote.
Tudo ia bem quando menos de 500 metros depois eu ouvi um latido desesperado de um cachorro. Queria não acreditar, mas quanto mais rápido eu empurrava o carrinho mais próximo parecia o latido. Tomei coragem e olhei para trás apenas para chegar à conclusão esperada: um cachorro corria em nossa direção enquanto seu dono olhava tudo de longe e ria alegremente ao telefone. Para nossa sorte o cachorro estava em paz e se contentou em apenas cheirar nossos pés sem se aproximar do carrinho, que nesse momento já estava com a frente toda levantada caso o cachorro tentasse pular.
Quando estava quase recuperada …

PARA 2018 >> Cristiana Moura

Um abraço reconfortante de reencontro não planejado na escadaria do metrô.
— Que bom te ver!
Ele sorriu um sorriso com cheiro de flor de laranjeira que só tem quem cresceu no interior. 
— Bom demais!
— E aí? Quais os desejos para 2018? 
—Ah, quero fazer cocô todos os dias.
— Como?
— É. A vida é tão cheia de vida para andar pelas ruas enfezado...
Mais uns dois minutos de prosa e nos despedimos. Fiquei a matutar sobre as voltas da minha lista de quereres e na simplicidade do amigo de passos lentos.
—Deus, que meus desejos sejam mais simples!

ABANDONO >> Paulo Meireles Barguil

"“Meu Deus, meu Deus!  Por que me abandonaste?” (Mt 27, 46b)

Dilacera a alma perder o aconchego que acreditávamos eterno.

A separação propicia morte e nascimento, em escalas imperceptíveis.

Durante a nossa vida, inúmeras vezes, sentiremos e proporcionaremos desamparo: seremos, inexoravelmente, vítimas e algozes.
Um relacionamento é para dar ou para receber?

É possível usufruí-los simultaneamente?

Será que as pessoas conhecem as suas intenções e as das outras?

Até que ponto elas são corajosas para enunciá-las?

Será que as pessoas identificam as suas limitações e as das outras?

Até que ponto elas são honestas para verbalizá-las?

Afastar-se pode ser um ato de coragem... ou de covardia.

A análise do ocorrido depende do papel de cada pessoa na cena – seja vivenciando-a, seja assistindo-a – e do momento em que a avaliamos.
O que dizer do abandono de si mesmo?

Do silencioso suicídio diário, em que não conseguimos falar, ouvir e seguir a nossa voz interna e, assim, murchamos nossa alma…