quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

MELHOR ESPERAR >> Carla Dias >>


Escutou alguém dizer, fofoca de especialista de fila de casa lotérica. Quem não quer ganhar uma bolada e realizar sonhos? Se bem que ele morre de medo de ganhar uma bolada e, em vez de realizar sonho, dar uma enlouquecida e não saber ser milionário. Tem coisa pior do que não saber ser o que se tornou? E se sair por aí cometendo bobagens que somente um milionário que não sabe ser milionário cometeria?

Também tem medo de atravessar a rua, com o sinal vermelho, quando não há um carro sequer na rua. Ele fica lá, esperando a hora certa.

Esperar a hora certa é sua especialidade. Não que tenha desejado se especializar nisso. Aconteceu, assim, acontecendo. Tem até quem se consulte com ele a respeito. E ele, sentindo-se muito desconfortável com a função, faz cara de sábio, enquanto pensa na lista do supermercado.

No final do monólogo do outro, responde a mesma coisa de sempre:

- Melhor esperar.

Ele nunca disse ao consulente que desse as caras, descesse a ladeira, subisse nas tamancas; que fosse ousado nas suas decisões.

- Melhor esperar. É sempre melhor esperar.

Ele não pediu para se tornar referência em se tratando de esperas. Sendo assim, adotou a regra de que a coisa toda deve correr por conta e risco do freguês.

Veja bem, ele é especialista reconhecido pela Associação dos Moradores da Vila do Tempo, grupo formado por pessoas muito interessantes, que realmente acreditam que ele seja um extraordinário filósofo contemporâneo. Durante as reuniões - que acontecem na varanda dele, em dia em que ele não consegue escapar do grupo, que acampa por lá, quando precisa de um silêncio sábio -, todos se sentam ao redor dele e esperam.

E ele pensando naquele episódio da série preferida que irá ao ar em dez minutos.

Ele esconde muito bem a indignação pelo reconhecimento dedicado à sua pessoa, porque acredita que, ao rejeitar o que lhe oferecem, ofenderá o outro pela sua crença. Não é partidário das ofensas. Então, aceita.

E espera...

Espera que as pessoas saciem a necessidade que sentem de quem lhe diga para esperar. Espera pelas contas extraviadas, pela realização de desejos secretos, pelos temporais.

Esperar não significa cultivar paciência. Então que passou mal anteontem, foi parar no hospital, numa fadiga do inferno, de tantos que ele tem recebido, a contragosto, em sua varanda. Tem gente que vem de outra cidade para pedir um pouco dessa sabedoria sobre esperar.

De filósofo a praticamente santo. Evolução? Sabe nada sobre isso, apenas que os pés doem e quer se deitar um pouco, mas as pessoas, todas aquelas pessoas hospedadas em sua varanda o impedem de relaxar, acompanhado de uma cerveja bem gelada.

Ele ainda não sabe como reagiria se ganhasse na loteria. Seria mesmo um péssimo milionário ou simplesmente não se importaria com aonde esse dinheiro o levaria? O que compraria? Espera... Tem de pensar.

Melhor esperar.

Sai da fila da lotérica, segurando o dinheiro do mês que lhe resta. Coloca o tal no bolso e diz, bem baixinho, que prefere passar despercebido:

- Melhor esperar, esperança.


Imagem: The Table © Joan Eardley


carladias.com



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terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

DESCULPA, MAS O ASSUNTO PODE SER DESAGRADÁVEL >> Clara Braga

Sempre gostei de acompanhar as novidades no mundo das dietas. Já fui a louca que logo que lia algo novo que prometia emagrecer rápido começava a fazer e vivia no tal do efeito sanfona. Hoje me livrei dessa paranoia (digam amém) mas continuo gostando de ler a respeito.

O que venho percebendo é que o nome dieta já ficou ultrapassado tem um tempo, hoje em dia o lance é manter um hábito alimentar saudável, que dependendo da linha que você vai seguir pode ou não significar comer de 3 em 3 horas, aliado a exercício físico, que dependendo da linha que você seguir pode ou não ser feito em jejum e outras variedades mil. É, basicamente tem para todos os gostos, mas me parece que a maioria vem evitando mais e mais a lactose e o glúten. Esses vieram para ficar, não foi uma dieta passageira, até porque muitas pessoas de fato têm intolerância e, se algum dia a dieta foi criada só para virar moda, essas pessoas agradecem, pois se beneficiaram bastante.

Logo que essas dietas (ou hábitos alimentares) surgiram eu pensei: lógico que a pessoa emagrece, tudo no mundo ou tem glúten ou tem lactose, se ela para de comer os dois vira uma samambaia e emagrece enquanto aprende a fazer fotossíntese. Hoje já existe uma variedade gigantesca de produtos que dificultam a vida de quem quer emagrecer e ajudam aqueles que vinham fazendo fotossíntese por necessidade e não opção.

Bom, mas o curioso mesmo nisso tudo é que sempre que sai uma matéria nova a respeito do glúten e da lactose existe uma preocupação com os termos que serão usados para falar dos sintomas que os intolerantes têm. Gases virou inchaço na barriga, é mais bonito, não remete a cheiros ruins e não constrange ninguém, afinal, os únicos que arrancam sorrisos dos outros quando soltam pum são os bebês, aliás, pum não, flatulência (outra palavra que só é usada em casos de emergência, já que não é muito bonita). O vômito fica nas entre linhas da náusea ou da azia. Constipação também passou a ser mais usada. A única que parece não ter um substituto agradável é a diarréia, que no máximo aparece como desarranjo, mas também não gera uma imagem mental muito bonita, então, como quem não tem cão caça com gato, usa a palavra rapidamente no meio do texto e reza para ninguém se apegar muito a ela.

O problema é que nem todas as pessoas estão no mundo jornalístico escrevendo sobre o assunto para saber que algumas palavras não são interessantes de serem usadas várias vezes e, muito menos aprofundadas. Imagino que essa tenha sido a informação que faltou para a moça da vendinha em pleno sábado de manhã. Lá fomos nós comprar mamão (logo mamão!) e então encontramos alguns produtos sem lactose. Compramos animados, então a dona da vendinha perguntou: vocês têm problemas com leite? Quando recebeu uma resposta afirmativa parecia que finalmente havia encontrado pessoas que a entenderiam, então foi logo contando animada: nossa, eu também tenho. E parece que vem piorando, antes ficava um pouco mal, hoje em dia é automático, eu como e já tenho uma diarréia horrorosa, saio correndo pro banheiro, é horrível.

Nunca me considerei uma pessoa fresca para esses assuntos, mas confesso ter ficado um tanto incomodada com a quantidade de detalhes que, claro, não vou incluir nesse texto. Não preciso nem dizer que comi meu mamão (sim, eu ainda comprei o mamão e comi) acompanhada de uma desagradável imagem mental de um senhora correndo para o banheiro e me perguntando: será que no mundo da intolerância à lactose falar sobre “inchaço na barriga”, “constipação”, “náusea” e “flatulência” de uma forma bem direta é a nova conversa de elevador? O que aconteceu com o bom e velho: será que vai chover hoje?



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sábado, 24 de fevereiro de 2018

2500, TALVEZ... >> Sergio Geia



Fui tomar a vacina.
Você que me lê, talvez em 2040, 2100 ou 2500, fique sabendo que aqui, no ano de 2018, houve uma grande campanha de vacinação contra a febre amarela. Então uma doença longe da cidade, tipicamente silvestre, o vírus sofreu mutações, pegou um aviãozinho em Manaus, aterrissou em Sampa, com escalas no Rio, Minas, Bahia.
Não fiz como Lucas que, sabendo da morte do primeiro macaquinho com febre amarela, tratou de pegar a família e se vacinar. Se bem que Lucas não conta. Na época da falta d’água, por exemplo — sim, amigo do 2040, 2100 ou 2500, falta d’água; aliás, você tem água aí? —, tratou de encher garrafas pets e acumular em seu quarto, por isso, faltou pouquinho para perder a mulher; o amor quase virou água. Não me vacinei como Lucas, e diante das notícias animadoras sobre a doença, da grande campanha que as autoridades organizaram, eu fui.
Sabe que teve gente que se recusou? Tia Adélia, minha mãezinha, elas nem quiseram saber. Há contraindicações. Em Sampa ouvi dizer que três morreram por causa dos efeitos da vacina. Agora, dois irmãos de Natividade da Serra morreram, dizem, por causa da vacina. Sim, amigo, você leu isso mesmo, morreram por causa da vacina. Não me pergunte. Eu não sei explicar.
Ah, não acredite naquela história de que a vacina traz um PEQUENO risco de efeitos colaterais. Fique esperto, se houver algo parecido aí. Dizem que 3 a cada 1 milhão de pessoas vão sofrer algum tipo de reação. Na região do Vale do Paraíba deverão ser vacinadas cerca de 1 milhão de pessoas. Faça as contas, é matemática pura. Pois um desses três do Vale, um desses três sortudos, muito prazer, sou eu! (que felicidade!) Também sou eu o “um ou outro”. É que a menina que me aplicou a dose, perguntada, disse: “Imagina, pode ficar tranquilo, só um ou outro sofre a reação”. Esqueci de dizer que esses sou eu. Mas não morri.
Não acredite também, amigo (isso é muito importante), na história de que resolvendo o problema da previdência, vão resolver o problema do Brasil (a propósito, você sabe o que é previdência? Ainda existe aí?). Eles sempre dizem isso, de década em década mexem na previdência com esse discurso, massacram em cada mexida os coitados que pensam um dia em se aposentar, e o Brasil continua o mesmo. Sabe por quê? Essa eu sei. Porque o problema do Brasil não é a previdência, o problema são eles. Só que neles eles não mexem, e ninguém mexe, tipo não tem mais jeito, povão, mídia, judiciário, MP, tudo mundo se acostumou. Então precisam arrumar um bode expiatório, precisam encontrar alguma coisa para justificar a falência do país.
Aliás, não acreditem em nada do que eles dizem. Quase todos são mentirosos e com a maior cara de pau. Mentem descaradamente, na frente dos holofotes, milhões de câmeras, milhões de pessoas. Tem um ex-governador do Rio que foi condenado a milhares de anos, e se o Brasil fosse um país sério, morreria na cadeia. Se você assistir a uma entrevista do cidadão antes dos processos e da verdade vir à tona, você vai se convencer que o cara era uma madre Teresa de tão honesto.
No meio desse fel, algo doce eu quero pedir. Nesse país de horrores, no Estado de São Paulo, região do Vale do Paraíba, existe uma cidadezinha pequena e interiorana chamada Taubaté. Nessa Taubaté, bem no centro da cidade, existe uma praça aprazível chamada Praça Santa Teresinha. Um lugar adorável, com um santuário branquinho e gótico no meio, com centenas de espécies nativas plantadas no entorno, com crianças brincando e famílias zanzando, corredores e caminhantes, barzinhos e vida boêmia.
Não sei no que se tornou nesse 2040, 2100 ou 2500, mas muito da minha vida eu passei no seu chão. Se puder, veja pra mim, mande uma carta, conte em detalhes, escreva. Sim, claro que recebo.


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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

A HORA DOS MORTOS - 1a parte >> Zoraya Cesar

Era madrugada quando ele, das profundezas do sono, sentiu a cama sacudir e tremer fortemente, como se quisesse jogá-lo para fora. Cansado, crendo se tratar apenas de um sonho por demais realista, decidiu, em sua semiconsciência, permanecer de olhos fechados e tentar voltar ao Reino de Hypnos. 

A cama, porém, não desistiu de acordá-lo e a ela juntaram-se as portas do armário, que batiam estrepitosamente; as cortinas esvoaçavam, flap-flap, flap-flap, como asas de um pássaro frenético batendo, agoniado, dentro de uma gaiola apertada; sombras e luzes dançavam nas paredes ao som de alguma música inaudível, formando estranhas figuras que se transformavam e se fundiam umas nas outras, como um quadro vivo de Escher.

Convencido, enfim, de que aquela agitação toda era bastante real, e nauseado pelo tremor da cama, Lucrécio Lucas abriu os olhos, agora bem desperto e atento.

Imediatamente, tudo se aquietou. Um silêncio escuro e denso tomou conta do ambiente. Mas que droga, pensou. Será que não fechei os portais corretamente? Esqueci de bloquear todas as fendas astrais? Tô ficando descuidado?

Sentou-se e repassou, mentalmente, os rituais que fizera antes de deitar. Não viu falhas. Se os fenômenos cinéticos pararam e eu não fui atacado diretamente, nada penetrou nas defesas da casa. Olhou o relógio. 

Três horas da manhã. 
A Hora Morta. A Hora do Diabo.  A Hora dos Mortos.


Lucrècio Lucas custou a despertar de um sono profundo e bom.
Seu inconsciente viajava, descansado, até ser bruscamente despertado.
A hora da plena atividade do mundo espiritual, na qual demônios menores (mas não menos perniciosos) e magos negros praticavam seus ataques espirituais mais letais. A hora em que Anjos e Guardiões estão mais ocupados, e, os médiuns, mais vulneráveis, se dormindo, ou mais fortes, se acordados. 

Ele concluiu que, devido à hora e ao fato de nada ter sofrido, só podia ser uma coisa: uma força astral extraordinária - de um ser que nunca tivera forma corpórea ou de um espírito humano que já vivera sobre a Terra - tentara entrar em contato. 

Lucrécio Lucas resmungou. Preferia enfrentar feiticeiros vodus, vampiros, demônios e assassinos astrais, qualquer coisa, a lidar com gente morta. Mesmo que fossem entes queridos. “Deixe que os mortos enterrem seus mortos”, vivia dizendo seu velho amigo Padre Tércio, e Lucrécio não poderia concordar mais. No entanto, o quanto antes ele soubesse do que se tratava, melhor. 

Pegou o copo de água (que sorte não ter derramado) e o terço que sempre ficavam ao lado da cama. Rezou sobre a água e bebeu-a, acalmando seu coração ainda acelerado pelo susto do despertar abrupto e inusitado. 

E (no mundo dos espíritos não existem coincidências), sendo aquela também a hora em que, pela Medicina Tradicional Chinesa, a energia Chi dos pulmões está no seu ápice, ele resolveu meditar, a fim de captar, com clareza, o que estava acontecendo. “A respiração é a base da meditação”, dizia a Sra. Majo ao menino Lucrécio Lucas tantos anos atrás.

Inspire profunda e lentamente. Expire... ele ouviu, em sua mente, a voz doce e firme da Sra. Majo a ensinar-lhe os segredos da yoga e da mística zen budista - incluindo a exortação, o controle e o combate aos demônios - quando ele tinha apenas oito anos. Oito. O número do equilíbrio cósmico. Do milagre da Ressurreição. Para os japoneses, o mais perfeito número da sorte. 

A Sra. Majo. Uma senhorinha frágil, de pele macia, cujo rosto, de tão engelhado, parecia um papel de arroz amassado por uma criança travessa. Seus olhos puxados e miúdos brilhavam como diamantes, negros e impressionantes. 

Tradicionalista ao extremo, praticava os rituais japoneses com rigor, encantando o menino Lucrécio com suas histórias. Mesmo criança, ele já pressentia nela um mistério sobrenatural.

E não estava enganado. 

Descendente de uma antiquíssima e poderosa linhagem de feiticeiras Kitsune, a Sra. Majo fugiu à perseguição de um rival temível e cruel. Escondeu-se na pequena cidade de Lucrécio Lucas, trabalhando como florista, e, reconhecendo nele um ocultista em potencial, nem se preocupou em saber qual lado do Caminho ele escolheria mais tarde. Tinha o dever cármico de passar adiante seus conhecimentos. Só. Sem julgamentos. 

E, se pareço tergiversar, peço desculpas. Mas a Sra. Majo é parte integrante de todos esses acontecimentos, como logo veremos. 

Lucrécio Lucas entrou numa espécie de transe mediúnico dentro da meditação, abrindo-se para ver o que precisava ser visto. E o que viu não foi agradável. 

Um espectro manchado de sangue pairava em sua mente. Os dedos ossudos rasgavam as vestes à altura do peito, em desespero. Tentava falar, mas nenhum som saía de sua boca escancarada, qual um buraco negro. O rosto, irreconhecível, retorcia-se de angústia.  

Ainda assim, ele soube, com indiscutível certeza, do que se tratava. A Sra. Majo, morta há vários anos, presa no Waru, o Labirinto do Terror, pedia sua ajuda. 

Continua dia 2 de março

Outras aventuras de Lucrécio Lucas

Os Caçadores - um dia da caça, outro do caçador

I Maledetti - todos malditos: vítimas e algozes

O Gato - parte 1 - nem durante as férias ele descansa

O Gato - parte 2 - mas a vida e a morte são assim mesmo

Caçadas noite adentro - nem tudo é o que parece; aliás, nada é o que parece

Viúva Negra - nem sempre o mau se dá mal

A Amante - a origem do nome de Lucrécio Lucas


Foto: kjpargeter / Freepik  - https://br.freepik.com/index.php?goto=74&idfoto=1807379

'Deixe que os mortos enterrem seus mortos" - MT 8,22




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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A SALADA DO BRUNCH>>Analu Faria

Bastaria uma chamadinha de lado. Um delicado, educado "Can I talk to you for a minute?", talvez imitando a entonação ascendente dos britânicos quando eles fazem perguntas delicadas. Quando morei na Inglaterra, aprendi que essa entonação denota polidez. Para uma coisa daquelas era preciso muita polidez. Então talvez eu usasse daquela entonação para avisar à simpática chefe da delegação inglesa, assim, num cantinho da sala, que ela tinha um pedaço de alface no dente.

Depois de ver aquele verdinho no sorriso de alguém a gente não consegue se concentrar em mais nada. A moça era articulada e muito profissional, mas, meu Deus, ela tinha alface no dente! Lembro-me também de achá-la despojada demais para uma inglesa, porque usava vestido vermelho, levemente colado, que eu não costumava ver nas mulheres executivas que via na rua em Londres. Mas será que as executivas de Londres também andavam por lá com um pedaço de alface no dente?

Na época em que vivi naquele país, eu trabalhava no McDonalds, em restaurantes, fazendo fund raising na rua etc., então eu via todo tipo de gente, reparava em todo mundo, afinal eu havia saído de uma cidade interiorana no Brasil para viver num dos lugares mais cosmopolitas do mundo. Não diria que era uma coisa muito inglesa um vestido como o da moça da reunião. Mas ela, que tinha um pedaço de alface no dente, também devia estar achando muito esquisito o meu terninho azul cobalto, que eu havia comprado em seis prestações, especialmente para o evento. Talvez eu quisesse parecer meio inglesa. Talvez ela quisesse parecer meio brasileira. De qualquer forma, a mulher tinha um pedaço de alface no dente.

Ela também respondia a todas as perguntas com certa condescendência, o que me irritava um pouquinho, mas aí eu lembrava que ela tinha um pedaço de alface no dente, ficava com dó e a irritação passava. O que mais me surpreendia era que não dava sinais de cansaço e, apesar de ser apenas um dos membros da delegação, as respostas eram quase exclusivamente dela. Às vezes a moça sorria condescendentemente e mostrava ainda mais o pedaço de alface no dente. Eu ficava me perguntando se esse ela achava que nós, brasileiros, não sabíamos nada sobre o assunto da reunião. Tudo bem que os ingleses já tinham experiência em regular um setor que nós apenas naquele momento havíamos começado a querer regular, mas também não era para tratar nossas indagações como se fôssemos crianças. Um comportamento desses, de alguém que sorria com um pedaço de alface no dente, era, como se diz em inglês, "awkward".

A culpa não era inteiramente dela. Foi ideia de jerico do órgão público brasileiro oferecer um brunch e não dar nem um minutinho para que a gente fosse ao banheiro, escovar os dentes. Mas acho que ingleses também não são de escovar os dentes depois do almoço. Se alguém falou para a moça de vestido vermelho que as executivas brasileiras usam vestidos vermelhos levemente colados, também deveria ter dito a ela que escovamos os dentes depois de todas as refeições. Isso evitaria aquele pedaço de alface no dente. Também não era preciso oferecer um prato com folhas, ninguém decente come salada no brunch. E olha que a saladinha tinha outras folhas, talvez agrião e rúcula, não sei dizer. Imagina a moça com um pedaço de agrião no dente? Agrião é mais escuro, contrastaria ainda mais com a cor do vestido.

Fim de dia, lá estou eu morrendo de dó da inglesa. Certamente todo mundo viu que ela tinha um pedaço de alface no dente e ninguém teve a pachorra de contar a ela. Eu teria contado, se tivesse a oportunidade, mas nem um intervalo foi feito depois do desastroso brunch. Entendi, no apagar das luzes daquela exaustiva reunião, que eu não havia comprado aquele terninho caríssimo por nada. O Universo havia me dado a oportunidade de ter uma valiosa lição ali: estamos todos sujeitos a reter pedaços de salada na boca contra a nossa vontade e isso vale até para experientes chefes de delegação que se sentem à vontade em um vestido vermelho levemente colado, num país estrangeiro.   Sempre escove os dentes depois de comer.







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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

SUJEITOS >> Carla Dias >>


E o tempo de amadurecer o trato com o mundo? Com o outro?

Mundo que vem sendo subjugado por projetos e alvejado por projéteis. Suas pessoas sendo empilhadas, sangue e confetes, porque adoçar o olhar de quem sente a fome comê-lo por dentro é projeto de resistência daquele que mantém para si o poder de reduzir aos seus a meros serviçais dos próprios desmandos.

E por onde anda a liberdade? Que a cada quarteirão a violência nos acua. Dobramos as esquinas do absurdo com mais frequência. A alma da gente vai se esgarçando de um jeito triste de se ver. De se sentir.

Apesar das alegrias que as oportunidades nos servem, daquelas de surpreender, os despautérios andam mais afiados do que nunca. A vida se protege como pode, curvando-se, indócil, às tentativas ostensivas de ser violada, amortecida, extirpada.

Sobreviver anda sendo tarefa árdua. Sobreviver não deveria ser coisa de diariamente. Quem vive tão somente de sobreviver?

Ainda assim, sobrevive-se. Sobrevivem, Sobrevivemos. E talvez a única esperança válida seja que, durante essa batalha a que fomos submetidos, possamos encontrar uma forma de reaver a vida, com nossos direitos respeitados, respeitadores dos direitos dos outros. Com oportunidades não somente de ficarmos bem, mas de ficarmos bem em um mundo mais justo, no qual sobreviver não se torne rotina. No qual a violência não seja vista com naturalidade.

Imagem: Children at Play © Asgrimur Jonsson

carladias.com



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terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

A CULPA NÃO É MINHA >> Clara Braga

Hoje em dia o acesso ao conhecimento está um tanto facilitado, a informação está a um clique de distância, mas tenha muito cuidado, tão fácil quanto o acesso ao conhecimento é o acesso ao desconhecimento.

Se você está infeliz no emprego, hoje em dia as oportunidades profissionais são amplas e cada vez mais ajustáveis aos diferentes perfis. Parece que estamos finalmente superando a era na qual felicidade profissional caminhava de mãos dadas com estabilidade profissional. Experimentar, mudar, tentar e descobrir que na verdade você quer aproveitar o acesso às várias ferramentas que te auxiliam a ser empreendedor e cuidar do seu próprio negócio não é mais coisa de pessoa bipolar ou difícil de lidar, muito menos de pessoa que sonha demais.

E se ainda assim, com conhecimento em várias áreas e dono do seu próprio negócio, você ainda não estiver feliz pois não gosta desse país que para você só vai de mal a pior, parabéns, você escolheu a época certa para não querer morar nesse país. Cada dia vemos mais oportunidades de estudo e trabalho no exterior. Quem larga tudo para morar em outro país não é mais um louco que provavelmente vai voltar para a casa dos pais com uma mão na frente outra atrás, é apenas mais um que não teve medo de ir atrás do seu sonho, seja lá onde esse sonho esteja. E o melhor é que o mundo anda tão globalizado que se bater uma saudade, dependendo de onde você estiver, não vai demorar muito para encontrar restaurantes brasileiros, festas com temática brasileira e, quem sabe, você não acaba até indo a um show da Anitta ou da Ivete Sangalo?

Mas vamos com calma para depois não saírem por aí dizendo que eu estou fazendo propaganda enganosa. Mais facilidade em todas essas áreas citadas não significa menos trabalho. As pessoas têm mania de esperar que com a mesma facilidade que as oportunidades aumentam seus objetivos serão alcançados, então ficam na frente da televisão esperando tudo acontecer como em um passe de mágicas enquanto a vida vai só passando. Depois de muito tempo se percebem espectadoras da própria vida e aí, para não dizer que já é tarde demais, resta ainda uma coisa para ser feita: encontrar um culpado e xingar muito no twitter.


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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

PIPA >> Paulo Meireles Barguil


Segurar ou soltar pipa: como é mesmo o nome da brincadeira?

Quem segura a pipa: a mão ou a linha?

Quem solta a pipa: a mão ou a linha?

O que acontece quando ela encontra outra pipa?

O cerol é para defender ou atacar?

Ele está na mão ou na linha?

Como é que você brinca com a sua pipa?

Como é que a sua pipa brinca com você?

É você quem segura a pipa ou é ela quem lhe segura?

É você quem solta a pipa ou é ela quem lhe solta?

O que acontece quando você solta a linha que segura você à pipa?


[Foto de Ana Beatriz Peixoto Barguil. 24 de fevereiro de 2017]

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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

FILME DELICADO SOBRE ASPEREZAS >> Carla Dias >>


Nesse feriado, enquanto enfurnada em casa, que meu espírito carnavalesco é inexistente, assisti a um filme muito interessante. Delicado, apesar de o personagem coadjuvante lidar com as pessoas somente no modo grosseria no talo.

Eu conheci pessoas assim. Algumas delas continuam na minha vida. Leva-se tempo para entender que não tem a ver com você. Nem todos têm paciência para viver esse tempo.

A propaganda do filme é feita como “um conto de fadas contemporâneo”. Acho que devo ser bem chata no quesito, mas títulos em português e sinopses quase sempre me incomodam. Raramente retratam o filme.

Uma Beleza Fantástica (This Beautiful Fantastic/2016) é também um filme de fantasia, o que se destaca pelos efeitos especiais que remetem aos contos de fada. Por sorte, eles são poucos e servem ao roteiro, não o contrário.  Escrito e dirigido por Simon Aboud, o filme foi gravado em Londres, Inglaterra.

Não é por ter romance que o filme se fia somente nisso. Sim, há a moça que se apaixona pelo moço, só que, mais interessante ainda, há pessoas que se apaixonam pelo quem são as outras.

Bella Brown (Jéssica Brown Findlay) sonha em se tornar uma escritora de livros infantis. Enquanto a história não vem, ela trabalha como bibliotecária. O narrador do filme, o observador de Bella, é seu vizinho, Alfie Stephenson, interpretado pelo extraordinário Tom Wilkinson.

Alfie é um viúvo com problemas de saúde, que tem como companhias ocasionais a enfermeira e o cozinheiro e as filhas dele. É rude com eles, irônico e se sente extremamente ofendido com a vizinha, Bella, por ela não cuidar do jardim, que está morto.

Abandonada, Bella cresceu em uma instituição e surpreendia as pessoas com a sua capacidade de organizar coisas, o que às vezes era um pouco exagerado. Adulta, mora sozinha e convive bem com sua solidão. Sua rotina se fia em suas compulsões. Um de seus medos é da natureza, por isso o abandono total do jardim de sua casa. Ela não consegue sequer sair e colocar os pés nele.


O roteiro de Uma Beleza Fantástica é delicado com a severidade das questões que acometem as pessoas das duas casas. Cada personagem se mostra importante para a trama, mas o relacionamento turbulento entre eles leva Alfie a criar uma situação na qual Bella é obrigada a recuperar seu jardim, e ela tem de enfrentar uma novidade arrebatadora.

A metáfora está ali, no que acontece entre Alfie e Bella. O aprendizado, também. Como eu já disse, cada personagem tem sua importância. Durante a trama, as mudanças para Bella são muitas e claras. Porém, elas não influenciam somente a vida dela, mas a dinâmica entre todos ao redor e de uma forma mais abrangente, profunda.

Para mim, filmes como  Uma Beleza Fantástica celebram a capacidade do ser humano de descartar rótulos e observar o outro com atenção e gentileza, encontrando nele mais do que a distração criada por equivocadas definições.







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sábado, 10 de fevereiro de 2018

CHAPÉUS E... NOVELAS? >> Sergio Geia

 
 

Assistia à TV Globo, uma reportagem sobre chapéus.
Por falar em TV Globo, depois de muitas séries e séries da Netflix, voltei às novelas. Culpa de Ubatuba, culpa do apartamento não ter tevê a cabo.
Voltei porque já fui muito. Novelas de antigamente tinham uma pegada diferente. Julia Mattos em “Dancin’ Days”, aquela abertura deliciosa com “As Frenéticas”, o todo-poderoso Felipe Barreto, personagem de Antonio Fagundes em “O Dono do Mundo”, a linda Marcia de Malu Mader, a abertura genial com trilha de Tom Jobim, todas do craque Gilberto Braga. “Roque Santeiro”, trilha musical das mais bacanas (tenho o vinil aqui), “A senhora do destino”, Wilker, sempre Wilker, “A próxima vítima”, maravilhas criadas pelo talento do artista brasileiro, e outras tantas.
Novela de hoje não gosto, nem nome de novela tem, nome forte, que já conquista na primeira chamada. “Amor à vida”, “Sol nascente”, “Tempo de amar”, “Joia Rara”, “Além do horizonte”, “Sangue bom”, “Velho Chico”, “A lei do amor”, fraquinhos de dar dó.
Mas acabei vendo um capítulo de “O outro lado do paraíso” (desse nome eu gosto) em Ubatuba, depois outro, outro, e o peixão aqui caiu na rede. Nessa última semana ela foi só emoção. Fernanda Montenegro, sempre um monstro de atriz; Marieta Severo, idem; Lima Duarte; são tantos. Glorinha Pires (da lindinha, na cena de topless com Maria Padilha em “Água Viva”, à atriz maiúscula de hoje), Sérgio Guizé, a Grazi Massafera, que atriz se tornou, my God!, e essa menina chamada Bella Piero, não conhecia, Laura, que atriz fantástica, que emoção ela passa, Walcyr Carrasco conduzindo tão bem a trama.
Deu até para abandonar (temporariamente) “Suits”, a Meghan Markcle (sempre uma princesa), e olha que eu estava amando.
Mas voltemos ao chapéu, que é o assunto de hoje, não novelas.
Como dizia, assistia à TV Globo, uma reportagem sobre chapéus. Eram muitos chapéus, de todos os modelos, formatos, cores. Nesse Brasil que massacra sua gente, a família se viu em desespero, sem emprego, sem dinheiro, sem perspectiva. Daí a artista da família (como é bom toda família ter uma artista) resolveu criar chapéus. A coisa deu tão certo, mas tão certo, que a família toda prosperou no negócio, e hoje, a vida sorri a eles mais alegre, sempre com um belo adereço na cabeça.
Na hora, minha vontade foi me teletransportar, como naqueles filmes de ação de antigamente, entrar numa máquina, apertar uns botões, sair aquela fumaça branca e espessa, de repente, aparecer na lojinha da família no Rio, comprar um chapéu.
A empresa-família não fabrica chapéus, depois vi, apenas os enriquece com arte pura, transforma um simples chapéu num chapéu personalizado. Usando lã, Emília pinta corações de vermelho, escreve abstrações como “paz”, “amor”, “união”, “sorte”, ou nomes de gente, Fê, Julia, Patrícia, ou coisas do tipo “sou carioca”, junto com um desenho do Cristo Redentor de braços abertos, ou “sou mãe”.
Na semana passada, em Ubatuba, quase comprei um panamá. Na praia, o vendedor passou, mas estava longe, fiquei com preguiça de chamar.
Sempre que vejo alguém de chapéu, me dá vontade de ter um. Num carnaval, anos atrás, Ayl Godinho usava um alegre (e há chapéu triste?), Paulo Pereira sempre que pode tem um, Haley Carvalho postou fotos em Arraial D’Ajuda com um pequeno e lindíssimo.
Mateus Solano usava um chiquérrimo em “O menino no espelho”, Johnny Depp tem uma coleção. Aliás, há personagens aclamados no cinema que não largavam um chapeuzinho. Heisenberg, por exemplo, com aquela cara de mau em “Breaking bad”, um pork pie preto bacanérrimo; Jack Sparrow e Willy Wonka, do próprio Depp, Indiana Jones, do Harrison Ford,  Charles Chaplin e seu Carlitos, Don Draper, de Jon Hamm, em Mad Men. Tantos, tantos, lindos, gosto até da ushanka (mas só se eu fosse para a Rússia no inverno).
Chapéus, chapéus, chapéus.
Minha vontade de comprar um chapéu hoje me tirou do prumo, me fez levar você às novelas e aos chapéus.
Sorry, de coração.
Mas neste carnaval preciso de um chapéu.


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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

SÁBADO DE CARNAVAL >> Zoraya Cesar

Noite de sábado. Carnaval. Galeria de arte. 

Tal combinação pode parecer estranha, mas essa é uma cidade onde coisas estranhas acontecem. Pois em plena noite de sábado de carnaval diversas pessoas circulavam com intimidade e desenvoltura por entre os quadros pintados pela celebrity da vez, nova rica no auge de seus 15 minutos de fama. 

Um homem elegante olhava cinicamente os quadros da pretensa artista. Alexandre não diria que seu filho de cinco anos faria melhor, nem que um macaco poderia tê-los pintado. Primeiro, porque não tinha filhos; depois, porque, conhecedor de arte que era, sabia que, efetivamente, um macaco pintaria melhor. 

Pegou o copo de whisky oferecido por um garçom indiferente e distante. Deu um único e último gole. Tinha gosto de mijo com suor. Deve ter sido feito no fundo de um quintal durante a lei seca, pensou, a garganta queimando. Temendo adquirir cirrose caso as outras bebidas tivessem igual qualidade, optou por um copo de água. Teve a impressão de que saíra de uma bica suja e enferrujada. Decidiu não beber mais nada. Melhor morrer sedento que envenenado.

O som ambiente era torturado pela música - uma espécie de techno-lounge com decibéis a mais e qualidade de menos – e pela garrulice estridente de uns e risadas altissonantes de outros. 

Cansado de fingir interesse por aquelas pinturas horrendas, que, sabia, dar-lhe-iam pesadelos, dedicou-se a observar os convidados.

A mulher bonita e esquelética, de cabelos lisos e vestido vermelho decotado até o limite do bom gosto, jogava charme para um homem alto de barba escura e cerrada, que, sem lhe dar atenção, paquerava outras mulheres.

As outras mulheres... cópias quase fieis da modelo de vestido vermelho e semblante triste. Todas sorrindo com a boca escancarada, mostrando seus dentes perfeitos; todas fingindo alegria desmedida; todas vestidas para seduzir. Uma jovem de ar cansado, tez emaciada e pálida, mal disfarçada pela maquiagem, olhava-se constantemente no espelho, como se a verificar que ainda ela estava ali, que era real, e não, assim como os outros, uma ilusão.

Alguns rapazes pavoneavam-se pelo salão, tentando impressionar a anfitriã, conhecida devoradora de frangotes, ou arranjar alguém para o sexo da madrugada. Dois homens estavam, obviamente, dividindo a mesma escort girl, uma moça mal saída da adolescência, que ainda estava aprendendo a representar seu papel de prostituta disfarçada de amiga. Constrangedor. Alexandre teve vontade de agarrá-la, sacudi-la e jogá-la porta afora, gritando ‘fuja, fuja antes que seja tarde’. Mas ele sabia que já era tarde. 

Sua esposa aproximou-se. Amiga da celebrity, e, também ela, um engodo. Cheia de silicone nos seios e nos glúteos, de botox no rosto e de vaidade na cabeça. Há muito não era uma pessoa, mas uma persona: a mulher aristocrática e arrogante que só fazia sexo movida a cocaína. Não nutria sentimentos por nada que não tivesse grife ou pedigree.

Eu também, pensou, desgostoso, sou fake. Uma farsa infeliz. Casado com uma mulher que não amava há mais tempo do que podia lembrar. Diretor de um escritório que ajudava clientes a lavar dinheiro e a escapar do Fisco. Morando numa cidade que odiava, cercado por pessoas que viviam de aparências. 

Afetação. Falsidade. Arrogância. Ignorância. Solidão. Mentiras. Adulação. Sempre detestara tudo isso. O que estou fazendo, afinal?

Aqui só tem gente morta, inclusive eu. Deus, o que estou fazendo? Me diz! É sábado. Carnaval. E eu, um morto entre os mortos.

Ele vê, entre os presentes, nesse momento, uma mulher para a qual não há outro adjetivo que não o mais simples: feia. Seu rosto parecia um dos quadros da mostra, uma mistura de cara de cavalo com escovão de cozinha. Estava até bem vestida, mas destoava do ambiente fashion. Tinha o olhar assustado de quem entrara na festa por engano, numa festa para a qual jamais seria convidada - se não fosse prima da artista... 

Alexandre cruzou o salão em sua direção, agarrou-a e beijou-a lascivamente, língua com língua, pélvis contra pélvis.

Ela não rejeitou a abordagem selvagem e retribuiu com o mesmo vigor. Era carnaval, tudo era possível, até ser agarrada pelo homem mais bonito que já vira. 

O tempo parou, ninguém se mexia, sequer respirava. Apenas a mulher de Alexandre, boquiaberta e atônita, escorregou pela parede até cair sentada, em choque. E os fotógrafos, claro, satisfeitos por terem, enfim, algo interessante para registrar.

Largando a estranha - não sem antes, homem educado que era, agradecer-lhe – voltou-se para a esposa: 

- Ela é mais bonita que esses quadros horrorosos. E mais verdadeira. Estou saindo. Não me espere antes de Quarta-Feira de Cinzas. – deu uma pausa e completou:

- Ela beija melhor que você.

E saiu, feliz por deixar para trás aquela farsa toda, livre, procurando um bloco de rua para se perder. Pela primeira vez, em anos, o homem lindo, rico e charmoso sentiu-se verdadeiramente vivo.



Não se liguem na letra. A mensagem está no filme. 
Solidão é o preço cobrado para quem vive de aparências, 
um preço alto, frustrante, exaustivo.

Dica de Carnaval: jogar fora a fantasia e viver na própria pele.

vídeo 

Rihanna - Love On The Brain [Video Unofficial]




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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

MAR CALMO, MARINHEIRA>> Analu Faria

Se ao menos voltasse a dormir, poderia ter de novo um daqueles pesadelos controláveis. Sonhos conscientes, em que escapava dos assaltos e saía com vida dos escombros, repetindo para o eu-no-sonho que ali ela podia o que quisesse. E desviava dos tiros antes do disparo e abria buracos no concreto, como se já tivesse ensaiado o desvio, a fuga.

Comprou uma imagem de São Judas Tadeu. Preparou também uma oferenda para Oxalá, seu orixá de cabeça. Era hora de se proteger, que antes da tempestade vem calmaria. Não que morasse num castelo, vivesse com um príncipe, tivesse o emprego dos sonhos. Mas não tinha um contratempo há meses, a saúde ia muito bem, obrigada, tinha perdido peso, ganhara um aumento, a família estava em paz, a pele e o cabelo tinham brilho, seu time vencera o campeonato e os problemas do ano anterior haviam se resolvido todos a seu favor.

"Aproveita, gata!" dizia o amigo, estatalando os olhos  (a performance da indignação!). Aproveitar o quê? Há anos não sabia o que era mar calmo.  Agora aquela marolinha, aquele céu de brigadeiro... Dava medo de atrofiar a mão que segura o leme e, logo, perdê-lo, como a colega desesperada que não sabe o que fazer com a doença - plenamente tratável - da mãe.

A quietude daqueles meses lembrava o tempo quando pequena, em que ela se mudara com a família de um prédio movimentado na cidade para um casa longe do centro. À noite, a ausência de som fazia uma leve pressão nos ouvidos e era impossível dormir. Hoje o que lhe tirava o sono era pensar nos sortudos deste mundo,  se aprendiam assim de pronto a lidar com a sorte que tinham ou se já se nasciam com genes específicos que ativam instintos capazes de manter a cabeça no lugar quando tudo ao redor é tão bom. A continuar daquele jeito, talvez houvesse um futuro no qual os sonhos dela se realizassem e aí seria preciso muito mais reza para aguentar  a onipresença da felicidade.

Ah, mas o mundo não é feito de sortudos! Havia machismo, racismo, corrupção, pedofilia, ignorância. Enquanto um irmão fosse vítima, ela também não poderia estar em paz. Pensou em armar-se de palavras e raiva, ambas genuínas, e, quando amanhecesse,  procurar uma causa a que se dedicar um pouco mais. Sentiu aquela fincada no baixo ventre, como um toque de agulha de tricô no útero, dor aguda, quatro dedos abaixo do umbigo, e soube que o mundo ainda estava no lugar, masturbou-se e voltou a dormiu, sem precisar de pesadelos aquela noite.















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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

PODE PARECER QUE NÃO, MAS SIM... >> Carla Dias >>


Escreveu um samba-canção inspirado no gosto dela pelas palavras. Construiu aquela casa, com aquele quintal bonito que só, para que pudessem comemorar aniversários e eclipses. Onde os amigos chegam hoje e só vão embora amanhã, forçados pela segunda-feira que será no depois de amanhã.

Caso contrário, continuariam ali: prosa correndo solta. Gargalhadas até na hora em que encaram tristezas.

Escreveu um manifesto sobre benquerenças e revides. Sempre se sentiu desafiado a explicar o inexplicável. Claro que, nem sempre, chegava a algum lugar. Mas adorava o olhar dela dedicado a observá-lo, enquanto o pobre tentava descomplicar o que nasceu para ser complicado. Não sabe ser diferente. Nem vai tentar ser diferente. Tem jeito, não.

Há sim o que não tem jeito. Melhor aceitar o fato.

De tudo que conheceram juntos, jamais se esquecerá daquela cafeteria, que fica em uma cidade da qual ele não consegue pronunciar o nome. Lugar bonito, de tão singelo. Que ela gosta dessa coisa de aconchego oferecido pelo rústico, alternativo. Coloque flores em garrafas de vinho, espalhe perfumes e cores. Ela gosta de cores e não se sente à vontade em ambientes planejados para serem caixinhas cinzas a receberem espíritos submissos. Para ela é assim... Não tem cor por fora, ainda que pela sutileza dos tons, no dentro as coisas desabam.

Claro que nem tudo são flores em garrafas de vinho, perfumes e cores. Ela é boa de briga, demanda paciência, quando dá de frequentar seus medos e selvagerias.

Quem não os têm?

Porém, ela gosta de amplificá-los, valendo-se de uma dramaticidade digna de Oscar ao botá-los para fora. Ele se cala diante dos rompantes dela. Eles não são bonitos, mas são dela. São ela. Ele não tem o poder de pacificá-los, já que a própria aprecia cultivá-los e valer-se deles quando arrebatada por certa agonia existencial.

Então, ela se isola, distancia-se dele. Refugia-se no quintal, na estufa que ele construiu para se cultivar as flores que a fazem sorrir tão bonito. Onde ela rumina a infelicidade dos traumas.

Há dias em que ela não vê beleza no fôlego, no toque, na perseverança de se sobreviver aos infortúnios. E que se aprofunda na busca pelo bálsamo, mas de maneira tão dolente, que alcançá-lo nunca é o objetivo. Compreender a necessidade dele é o que a aflige. Como quem não se importa com a cura, mas com uma boa explicação sobre o motivo de sofrer daquilo.

Às vezes, os amigos preferem não frequentar aquele quintal, passar o fim de semana, fiarem-se em conversas. Eles se sentem constrangidos com a incapacidade de lidarem com ela, assim, desconectada deles, como se não conhecessem. E ele sabe que isso é algo que nem todos conseguem fazer.

Ele não é melhor do que ela, apenas mais paciente em relação aos desmandos da vida. Compreende que todos sofremos de tragédias, e que, sim, algumas são avassaladoras e nos roubam afetos e alegrias. Mas o que mais ele poderia fazer a não ser continuar vivendo e apreciando a jornada? Lidando com os incômodos? Cuidando dela, para quem ele compôs um samba-canção. Para quem construiu uma casa com quintal e estufa. Quem entende que eles são diferentes, e que essas diferenças se tornaram a capacidade deles de entendimento.

Ah, não entristeçam com o destino dele... Ter de cuidar de quem nem sempre se lembra do amor que norteia a existência de ambos. Que vai se esquecendo, cada dia um pouco, de quem se tornou na companhia do outro.

Pode parecer que não, mas sim... Essa é uma carta de amor.

Imagem: The Ballad ©  Henry Lejeune

carladias.com

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terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

BEM VINDO À SELVA >> Clara Braga

Olhando da janela dava para dizer que era um dia como outro qualquer. A chuva havia dado trégua e amenizado o calor, o que deixava o clima muito agradável para um belo passeio de carrinho. Decidimos ir até um café que fica a menos de 2km de distância de casa, tomaríamos um café e voltaríamos, cumprindo tanto nossa cota diária de cafeína quanto a cota diária de vitamina D do nosso filhote.

Tudo ia bem quando menos de 500 metros depois eu ouvi um latido desesperado de um cachorro. Queria não acreditar, mas quanto mais rápido eu empurrava o carrinho mais próximo parecia o latido. Tomei coragem e olhei para trás apenas para chegar à conclusão esperada: um cachorro corria em nossa direção enquanto seu dono olhava tudo de longe e ria alegremente ao telefone. Para nossa sorte o cachorro estava em paz e se contentou em apenas cheirar nossos pés sem se aproximar do carrinho, que nesse momento já estava com a frente toda levantada caso o cachorro tentasse pular.

Quando estava quase recuperada do susto, observei que a rua na qual andávamos estava suja, um tanto grudenta. Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, meu marido comentou: caramba, olha a quantidade de jaca que caiu dessas árvores e a quantidade de jacas lindas e enormes que estão fazendo sombras refrescantes em nossa caminhada prontinhas para caírem em nossas cabeças! Andamos o mais rápido possível para fugir de um verdadeiro campo minado aéreo, mas não tão rápido a ponto de assustar o cachorro e ter que correr dele novamente, afinal, seu dono ainda estava ao telefone apenas observando tudo de longe.

Ao nos livrarmos do cachorro e das jacas, vi que o chão mais a frente também estava grudento, mas dessa vez dava para perceber claramente que eram mangas. Olhamos para as árvores e a situação não pareceu tão grave, as mangas já estavam no chão, que desperdício! Opá, parece que o desperdício não foi tão grande assim, muitas abelhas faziam a festa em cima de toda aquela manga, por pouco não passamos com o carrinho acidentalmente por cima delas e elas propositalmente por cima da gente.

Desviamos o caminho e, finalmente, chegamos ao café! Ufa, tomar um café nunca foi tão difícil. Mas é melhor não contar vantagem, ainda temos que voltar. E como não podia ser diferente, passamos quase sem respirar por um pitbull fora da coleira observando seu dono fazer flexões, nos assustamos com morcegos que voaram muito mais perto do que o necessário e, já no elevador, quando achamos que estávamos bem, lutamos contra bichinhos de luz que atacavam o carrinho. Quando entramos em nosso quarto estávamos realmente acabados e entendendo todos os pais que não se sentem seguros em passeios de carrinho.

Enquanto ríamos da situação vimos o bebê mais lindo do mundo olhar para a gente e também abrir um sorriso, como se entendesse o que estava sendo dito. O detalhe é que seu sorriso era sonolento, pois acabara de acordar de um passeio que nem sabe que fez de tanto que dormiu, por enquanto é melhor assim.

O pior é saber que esse passeio que mais pareceu fases de um vídeo game foi só uma amostra grátis, quase uma parábola, do que vai ser a vida daqui para frente: ele desbravando o mundo enquanto a gente observa, apoia e morre do coração. A parte cardíaca está em dia, mas para você meu filho, só tenho uma coisa a dizer: bem vindo à selva!


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sábado, 3 de fevereiro de 2018

PARA 2018 >> Cristiana Moura


Um abraço reconfortante de reencontro não planejado na escadaria do metrô.

— Que bom te ver!

Ele sorriu um sorriso com cheiro de flor de laranjeira que só tem quem cresceu no interior. 

— Bom demais!

— E aí? Quais os desejos para 2018? 

—Ah, quero fazer cocô todos os dias.

— Como?

— É. A vida é tão cheia de vida para andar pelas ruas enfezado...

Mais uns dois minutos de prosa e nos despedimos. Fiquei a matutar sobre as voltas da minha lista de quereres e na simplicidade do amigo de passos lentos.

—Deus, que meus desejos sejam mais simples!



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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

ABANDONO >> Paulo Meireles Barguil


 "“Meu Deus, meu Deus! 
Por que me abandonaste?”
(Mt 27, 46b)


Dilacera a alma perder o aconchego que acreditávamos eterno.

A separação propicia morte e nascimento, em escalas imperceptíveis.

Durante a nossa vida, inúmeras vezes, sentiremos e proporcionaremos desamparo: seremos, inexoravelmente, vítimas e algozes.

Um relacionamento é para dar ou para receber?

É possível usufruí-los simultaneamente?

Será que as pessoas conhecem as suas intenções e as das outras?

Até que ponto elas são corajosas para enunciá-las?

Será que as pessoas identificam as suas limitações e as das outras?

Até que ponto elas são honestas para verbalizá-las?

Afastar-se pode ser um ato de coragem... ou de covardia.

A análise do ocorrido depende do papel de cada pessoa na cena – seja vivenciando-a, seja assistindo-a – e do momento em que a avaliamos.

O que dizer do abandono de si mesmo?

Do silencioso suicídio diário, em que não conseguimos falar, ouvir e seguir a nossa voz interna e, assim, murchamos nossa alma e apunhalamos nosso corpo?

Às vezes, devido ao medo de sofrermos novamente e para nos defendermos, fugiremos antes que o outro se aproxime e, assim, permaneceremos presos em laços invisíveis que nos sufocam, ao mesmo tempo em que bradaremos o quão somos livres...

Outras vezes, em virtude da coragem de romper o nó cego, talvez impulsionados pela dor insuportável, abriremos as nossas feridas, principalmente as ignoradas, e ousaremos curá-las.

Uma cicatriz não significa que o processo foi finalizado, mas apenas indica que algo está sendo transformado.

Sucumbimos, muitas vezes, a abusos e assédios, de qualquer natureza, porque a conexão interna – que está relacionada ao autoconhecimento, à autoaceitação e à autoestima – foi pouco desenvolvida.

Para acelerarmos as mudanças, precisamos aceitar que todos somos dignos de navegar no amor – distribuindo e colhendo – mesmo aqueles que, no nosso entendimento, agem de forma cretina.

Cada distanciamento – vindo de dentro ou de fora – é uma oportunidade de nos proporcionarmos a acolhida que gostaríamos de receber do outro, a qual sempre pode ser ampliada.

O mais comovente deste enredo, encenando há milênios pela Humanidade, é que a cura de uma chaga não se limita à pessoa agraciada, mas contempla, de modo incalculável, todos que com ela convivem.


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