quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

MELHOR ESPERAR >> Carla Dias >>


Escutou alguém dizer, fofoca de especialista de fila de casa lotérica. Quem não quer ganhar uma bolada e realizar sonhos? Se bem que ele morre de medo de ganhar uma bolada e, em vez de realizar sonho, dar uma enlouquecida e não saber ser milionário. Tem coisa pior do que não saber ser o que se tornou? E se sair por aí cometendo bobagens que somente um milionário que não sabe ser milionário cometeria?

Também tem medo de atravessar a rua, com o sinal vermelho, quando não há um carro sequer na rua. Ele fica lá, esperando a hora certa.

Esperar a hora certa é sua especialidade. Não que tenha desejado se especializar nisso. Aconteceu, assim, acontecendo. Tem até quem se consulte com ele a respeito. E ele, sentindo-se muito desconfortável com a função, faz cara de sábio, enquanto pensa na lista do supermercado.

No final do monólogo do outro, responde a mesma coisa de sempre:

- Melhor esperar.

Ele nunca disse ao consulente que desse as caras, descesse a ladeira, subisse nas tamancas; que fosse ousado nas suas decisões.

- Melhor esperar. É sempre melhor esperar.

Ele não pediu para se tornar referência em se tratando de esperas. Sendo assim, adotou a regra de que a coisa toda deve correr por conta e risco do freguês.

Veja bem, ele é especialista reconhecido pela Associação dos Moradores da Vila do Tempo, grupo formado por pessoas muito interessantes, que realmente acreditam que ele seja um extraordinário filósofo contemporâneo. Durante as reuniões - que acontecem na varanda dele, em dia em que ele não consegue escapar do grupo, que acampa por lá, quando precisa de um silêncio sábio -, todos se sentam ao redor dele e esperam.

E ele pensando naquele episódio da série preferida que irá ao ar em dez minutos.

Ele esconde muito bem a indignação pelo reconhecimento dedicado à sua pessoa, porque acredita que, ao rejeitar o que lhe oferecem, ofenderá o outro pela sua crença. Não é partidário das ofensas. Então, aceita.

E espera...

Espera que as pessoas saciem a necessidade que sentem de quem lhe diga para esperar. Espera pelas contas extraviadas, pela realização de desejos secretos, pelos temporais.

Esperar não significa cultivar paciência. Então que passou mal anteontem, foi parar no hospital, numa fadiga do inferno, de tantos que ele tem recebido, a contragosto, em sua varanda. Tem gente que vem de outra cidade para pedir um pouco dessa sabedoria sobre esperar.

De filósofo a praticamente santo. Evolução? Sabe nada sobre isso, apenas que os pés doem e quer se deitar um pouco, mas as pessoas, todas aquelas pessoas hospedadas em sua varanda o impedem de relaxar, acompanhado de uma cerveja bem gelada.

Ele ainda não sabe como reagiria se ganhasse na loteria. Seria mesmo um péssimo milionário ou simplesmente não se importaria com aonde esse dinheiro o levaria? O que compraria? Espera... Tem de pensar.

Melhor esperar.

Sai da fila da lotérica, segurando o dinheiro do mês que lhe resta. Coloca o tal no bolso e diz, bem baixinho, que prefere passar despercebido:

- Melhor esperar, esperança.


Imagem: The Table © Joan Eardley


carladias.com



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2 comentários:

Zoraya Cesar disse...

Que lindo, Carla, que triste, que delicado... E sempre aprendemos algo a mais com vc, né? Amei o artista, nao conhecia. Obrigada por 'aternurizar" minha manhã de sábado. Beijos mil

Carla Dias disse...

Zoraya, também gostei do artista. Aprecio procurar essas obras para ilustrarem os textos, porque acho que alguém pode se deslumbrar por elas, como eu me deslumbro.
Sempre disponível para 'aternurizar' manhãs. Beijos.