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DESCULPA, MAS O ASSUNTO PODE SER DESAGRADÁVEL >> Clara Braga

Sempre gostei de acompanhar as novidades no mundo das dietas. Já fui a louca que logo que lia algo novo que prometia emagrecer rápido começava a fazer e vivia no tal do efeito sanfona. Hoje me livrei dessa paranoia (digam amém) mas continuo gostando de ler a respeito.

O que venho percebendo é que o nome dieta já ficou ultrapassado tem um tempo, hoje em dia o lance é manter um hábito alimentar saudável, que dependendo da linha que você vai seguir pode ou não significar comer de 3 em 3 horas, aliado a exercício físico, que dependendo da linha que você seguir pode ou não ser feito em jejum e outras variedades mil. É, basicamente tem para todos os gostos, mas me parece que a maioria vem evitando mais e mais a lactose e o glúten. Esses vieram para ficar, não foi uma dieta passageira, até porque muitas pessoas de fato têm intolerância e, se algum dia a dieta foi criada só para virar moda, essas pessoas agradecem, pois se beneficiaram bastante.

Logo que essas dietas (ou hábitos alimentares) surgiram eu pensei: lógico que a pessoa emagrece, tudo no mundo ou tem glúten ou tem lactose, se ela para de comer os dois vira uma samambaia e emagrece enquanto aprende a fazer fotossíntese. Hoje já existe uma variedade gigantesca de produtos que dificultam a vida de quem quer emagrecer e ajudam aqueles que vinham fazendo fotossíntese por necessidade e não opção.

Bom, mas o curioso mesmo nisso tudo é que sempre que sai uma matéria nova a respeito do glúten e da lactose existe uma preocupação com os termos que serão usados para falar dos sintomas que os intolerantes têm. Gases virou inchaço na barriga, é mais bonito, não remete a cheiros ruins e não constrange ninguém, afinal, os únicos que arrancam sorrisos dos outros quando soltam pum são os bebês, aliás, pum não, flatulência (outra palavra que só é usada em casos de emergência, já que não é muito bonita). O vômito fica nas entre linhas da náusea ou da azia. Constipação também passou a ser mais usada. A única que parece não ter um substituto agradável é a diarréia, que no máximo aparece como desarranjo, mas também não gera uma imagem mental muito bonita, então, como quem não tem cão caça com gato, usa a palavra rapidamente no meio do texto e reza para ninguém se apegar muito a ela.

O problema é que nem todas as pessoas estão no mundo jornalístico escrevendo sobre o assunto para saber que algumas palavras não são interessantes de serem usadas várias vezes e, muito menos aprofundadas. Imagino que essa tenha sido a informação que faltou para a moça da vendinha em pleno sábado de manhã. Lá fomos nós comprar mamão (logo mamão!) e então encontramos alguns produtos sem lactose. Compramos animados, então a dona da vendinha perguntou: vocês têm problemas com leite? Quando recebeu uma resposta afirmativa parecia que finalmente havia encontrado pessoas que a entenderiam, então foi logo contando animada: nossa, eu também tenho. E parece que vem piorando, antes ficava um pouco mal, hoje em dia é automático, eu como e já tenho uma diarréia horrorosa, saio correndo pro banheiro, é horrível.

Nunca me considerei uma pessoa fresca para esses assuntos, mas confesso ter ficado um tanto incomodada com a quantidade de detalhes que, claro, não vou incluir nesse texto. Não preciso nem dizer que comi meu mamão (sim, eu ainda comprei o mamão e comi) acompanhada de uma desagradável imagem mental de um senhora correndo para o banheiro e me perguntando: será que no mundo da intolerância à lactose falar sobre “inchaço na barriga”, “constipação”, “náusea” e “flatulência” de uma forma bem direta é a nova conversa de elevador? O que aconteceu com o bom e velho: será que vai chover hoje?

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