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MAR CALMO, MARINHEIRA>> Analu Faria

Se ao menos voltasse a dormir, poderia ter de novo um daqueles pesadelos controláveis. Sonhos conscientes, em que escapava dos assaltos e saía com vida dos escombros, repetindo para o eu-no-sonho que ali ela podia o que quisesse. E desviava dos tiros antes do disparo e abria buracos no concreto, como se já tivesse ensaiado o desvio, a fuga.

Comprou uma imagem de São Judas Tadeu. Preparou também uma oferenda para Oxalá, seu orixá de cabeça. Era hora de se proteger, que antes da tempestade vem calmaria. Não que morasse num castelo, vivesse com um príncipe, tivesse o emprego dos sonhos. Mas não tinha um contratempo há meses, a saúde ia muito bem, obrigada, tinha perdido peso, ganhara um aumento, a família estava em paz, a pele e o cabelo tinham brilho, seu time vencera o campeonato e os problemas do ano anterior haviam se resolvido todos a seu favor.

"Aproveita, gata!" dizia o amigo, estatalando os olhos  (a performance da indignação!). Aproveitar o quê? Há anos não sabia o que era mar calmo.  Agora aquela marolinha, aquele céu de brigadeiro... Dava medo de atrofiar a mão que segura o leme e, logo, perdê-lo, como a colega desesperada que não sabe o que fazer com a doença - plenamente tratável - da mãe.

A quietude daqueles meses lembrava o tempo quando pequena, em que ela se mudara com a família de um prédio movimentado na cidade para um casa longe do centro. À noite, a ausência de som fazia uma leve pressão nos ouvidos e era impossível dormir. Hoje o que lhe tirava o sono era pensar nos sortudos deste mundo,  se aprendiam assim de pronto a lidar com a sorte que tinham ou se já se nasciam com genes específicos que ativam instintos capazes de manter a cabeça no lugar quando tudo ao redor é tão bom. A continuar daquele jeito, talvez houvesse um futuro no qual os sonhos dela se realizassem e aí seria preciso muito mais reza para aguentar  a onipresença da felicidade.

Ah, mas o mundo não é feito de sortudos! Havia machismo, racismo, corrupção, pedofilia, ignorância. Enquanto um irmão fosse vítima, ela também não poderia estar em paz. Pensou em armar-se de palavras e raiva, ambas genuínas, e, quando amanhecesse,  procurar uma causa a que se dedicar um pouco mais. Sentiu aquela fincada no baixo ventre, como um toque de agulha de tricô no útero, dor aguda, quatro dedos abaixo do umbigo, e soube que o mundo ainda estava no lugar, masturbou-se e voltou a dormiu, sem precisar de pesadelos aquela noite.













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