sábado, 24 de fevereiro de 2018

2500, TALVEZ... >> Sergio Geia



Fui tomar a vacina.
Você que me lê, talvez em 2040, 2100 ou 2500, fique sabendo que aqui, no ano de 2018, houve uma grande campanha de vacinação contra a febre amarela. Então uma doença longe da cidade, tipicamente silvestre, o vírus sofreu mutações, pegou um aviãozinho em Manaus, aterrissou em Sampa, com escalas no Rio, Minas, Bahia.
Não fiz como Lucas que, sabendo da morte do primeiro macaquinho com febre amarela, tratou de pegar a família e se vacinar. Se bem que Lucas não conta. Na época da falta d’água, por exemplo — sim, amigo do 2040, 2100 ou 2500, falta d’água; aliás, você tem água aí? —, tratou de encher garrafas pets e acumular em seu quarto, por isso, faltou pouquinho para perder a mulher; o amor quase virou água. Não me vacinei como Lucas, e diante das notícias animadoras sobre a doença, da grande campanha que as autoridades organizaram, eu fui.
Sabe que teve gente que se recusou? Tia Adélia, minha mãezinha, elas nem quiseram saber. Há contraindicações. Em Sampa ouvi dizer que três morreram por causa dos efeitos da vacina. Agora, dois irmãos de Natividade da Serra morreram, dizem, por causa da vacina. Sim, amigo, você leu isso mesmo, morreram por causa da vacina. Não me pergunte. Eu não sei explicar.
Ah, não acredite naquela história de que a vacina traz um PEQUENO risco de efeitos colaterais. Fique esperto, se houver algo parecido aí. Dizem que 3 a cada 1 milhão de pessoas vão sofrer algum tipo de reação. Na região do Vale do Paraíba deverão ser vacinadas cerca de 1 milhão de pessoas. Faça as contas, é matemática pura. Pois um desses três do Vale, um desses três sortudos, muito prazer, sou eu! (que felicidade!) Também sou eu o “um ou outro”. É que a menina que me aplicou a dose, perguntada, disse: “Imagina, pode ficar tranquilo, só um ou outro sofre a reação”. Esqueci de dizer que esses sou eu. Mas não morri.
Não acredite também, amigo (isso é muito importante), na história de que resolvendo o problema da previdência, vão resolver o problema do Brasil (a propósito, você sabe o que é previdência? Ainda existe aí?). Eles sempre dizem isso, de década em década mexem na previdência com esse discurso, massacram em cada mexida os coitados que pensam um dia em se aposentar, e o Brasil continua o mesmo. Sabe por quê? Essa eu sei. Porque o problema do Brasil não é a previdência, o problema são eles. Só que neles eles não mexem, e ninguém mexe, tipo não tem mais jeito, povão, mídia, judiciário, MP, tudo mundo se acostumou. Então precisam arrumar um bode expiatório, precisam encontrar alguma coisa para justificar a falência do país.
Aliás, não acreditem em nada do que eles dizem. Quase todos são mentirosos e com a maior cara de pau. Mentem descaradamente, na frente dos holofotes, milhões de câmeras, milhões de pessoas. Tem um ex-governador do Rio que foi condenado a milhares de anos, e se o Brasil fosse um país sério, morreria na cadeia. Se você assistir a uma entrevista do cidadão antes dos processos e da verdade vir à tona, você vai se convencer que o cara era uma madre Teresa de tão honesto.
No meio desse fel, algo doce eu quero pedir. Nesse país de horrores, no Estado de São Paulo, região do Vale do Paraíba, existe uma cidadezinha pequena e interiorana chamada Taubaté. Nessa Taubaté, bem no centro da cidade, existe uma praça aprazível chamada Praça Santa Teresinha. Um lugar adorável, com um santuário branquinho e gótico no meio, com centenas de espécies nativas plantadas no entorno, com crianças brincando e famílias zanzando, corredores e caminhantes, barzinhos e vida boêmia.
Não sei no que se tornou nesse 2040, 2100 ou 2500, mas muito da minha vida eu passei no seu chão. Se puder, veja pra mim, mande uma carta, conte em detalhes, escreva. Sim, claro que recebo.


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5 comentários:

João D'Olyveira disse...

Prezado Geia,
no correr (e no descansar) dos anos, a tal "febre amarela" ganhou novas cores, portanto, tornou-se "nova febre". E nessa sociedade, vc sabe, é preciso reinventar sempre (e acreditar). Aliás, todo brasileiro deve saber bem disso rs O Ministério da Saúde ainda mantém o registro dessa "febre", assim como o de outras, com outras cores. Em referência às outras febres, o destaque, em 2018, era para a "febre azul e amarela", vinculada a uma ave da família Ramphastidae, que vivia nas florestas da América Central e da América do Sul. Uma ave de bico grande e oco. Isto mesmo: " bico grande e oco", típico do bando. Também a "febre verde, amarela, vermelha e preta", que provocou muitas queimaduras a partir de uma "chama vermelha". Isto mesmo: "chama vermelha". Tudo bem que "foi" a "chama vermelha" quem chamou a "verde-amarela" para uma composição. Cruzada de mosquitos aéreos e animais marinhos, deve ser isto! As moscas são as transmissoras número um dessa febre. Outra febre que insistia em permanecer era a "febre vermelha", com ou sem composições. Era um tipo de febre marinha (vinculada também ao exército e à aeronáutica). O foco fazia parte da classe dos cefalópodes ("pés na cabeça"). A "febre verde" estava sempre "marinando". Cruza daqui, cruza de lá; cala daqui, cala de lá. Isto desde o tempo da "sunguinha de crochê" rs. Ainda que "verde", é importante salientar que essa febre sempre foi multicolorida rs Vc sabe bem disso! Então, parceiro, entre febres e reformas febris, o tempo passou. Passou, mas continuou amarrotado rs Hoje não vejo mais cores, vivo em acromatopsia. Antes via tudo "partido". Hoje só vejo "inteiro". Continuo lendo suas crônicas. Divinas e Maravilhosas!!! É crer e tocar adiante, sob as bênçãos de NSJC, Santa Terezinha e São Francisco. Por onde vc anda? Estou de passagem por Taubatexas (e desta para a outra rs), aos 24 de fevereiro de 2040. Abçs.

sergio geia disse...

Pelo jeito a maromba continua, o povo como sempre na maroma. Que viagem, amigo, e que belezura de texto. Gde abraço, João D'Olyveira!!!

Zoraya disse...

Sergio, suas crônicas são sempre um prazer! Ou de estilo ou de narrativa ou ambas. E encontrar um prazer no meio desse momento é um privilégio.

sergio geia disse...

Zoraya, muito obrigado! Para mim, não há maior prazer que parir uma crônica, o dia ganha novas cores, a vida parece ganhar algum sentido. O contrário então, quando não sai nada, ah, isso eu deixo pra lá. E quando o texto traz prazer para o leitor, nossa, é a realização. Grato, mais uma vez.

Anônimo disse...

Gstaria de conhecer seu amigo, Lucas, aparentemente um visionário à frente do seu tempo.