quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

FELIZ CADA DIA DA SUA VIDA >> Carla Dias >>


Último, não o primeiro, aquele que deixa o frescor perambulando na alma da gente. O último, já com o saudosismo temperando - com o condimento da distância - os cometimentos menos palatáveis, dos quais fomos autores durante os dias anteriores.

O último dia calcado em contagem regressiva, calendário pronto para ganhar o lixo, champanha, refrigerante, branco: olhar para peneirar fogos de artifício. As listas que reverenciam o ano que chega com questões ancestrais, dependuradas no varal do esquecimento, pela quarta, quinta vez? Não há como passar a borracha e chamar de começo, mas é possível falsificar resolução e determinar recomeço.

Como se já não recomeçássemos a cada tombo.

Não é lamento, mas sim prefácio, meus caros. A minha lista de Ano Novo vem repleta de afazeres percussores de regalos, que desejo a todos que se tornem capazes de reconhecerem – sem medo, pudor ou enfeites – o que lhes aproxima da realização de um sonho.

Para a busca por outras realizações, temos o horário comercial.

Ouvi alguém dizer que o sonho de outro alguém era dormir até ao meio-dia. Esse é tipo de sonho realizado na preguiça. Não, nem é sonho. O que é sonho digno de realização? Qual? Por quê? Não deve ser dormir até descansar a mente. Na minha tradução displicente, seria justamente o contrário: não pregar os olhos, ainda que lhe doa o cansaço, até o sonho tornar-se fato. Porque, não se iludam, meus amigos... Aquela lista de “a fazer” para Ano Novo do daqui a pouco, requer trabalho árduo, mesmo parecendo tão, mas tão simples o desejo, que a consciência permite, sem a brutalidade do enquadramento em urgências estrambóticas, a procrastinação do tal.

Cada item tem o peso de um sonho.

Veja bem, peço-lhe gentilmente que revire a sua percepção. Que a permita embrutecer, se for necessário, até que ela lhe diga, a honestidade gritante, o que lhe apetece de fato, e de um jeito que não há virada de ano que mande esse o quê para os arrabaldes do esquecimento, ou do mais descarado descaso, tampouco para a repetição indolente grafada nas agendas, de janeiro 1 a dezembro 31.

Para mim são as pessoas. Meu sonho é entender o que elas desejam, sem ofendê-las ao não atender as suas expectativas, elas proibidas de sofrerem reajustes. Os reajustes me agradam, o que posso fazer? Há adaptações que enobrecem e enriquecem o original. Minhas pessoas, eu que lhes respeito profundamente, peço que me entendam em contrapartida, que tenho de ser capaz de contrariar a magnitude dos fogos de artifício e dos sorrisos ébrios, e a espontaneidade de distribuir abraços inspirados por um afeto que é para quem desejá-lo, na efemeridade desse momento em que, ao deixar de ser hoje, o dia se torna o primeiro amanhã das nossas vidas.

Para mim, pouco muda com a troca de calendário. Por isso mesmo, eu posso desejar que, se for desejo seu, essa mudança aconteça. Mas se houver dúvida, que a mudança seja da sua consciência sobre a vida. Sobre a sua vida. E que assim, a mudança não descarte experiências, nem sonhos, nem realizações pequenas e necessárias para a sua jornada. Que você celebre cada dia com a mesma alegria e desvelo com que celebrar o último dia até ele se tornar o primeiro.

Feliz cada dia da sua vida.


Imagem © Mônica Côrtes



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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

SOMOS TODOS BRINCANTES >> Clara Braga

Escolhi o dia de hoje, penúltimo dia ano para assistir a um filme que há muito eu vinha querendo assistir e acredito que não poderia ter tido um dia mais propício para isso do que hoje. Depois de acompanhar algumas retrospectivas do ano marcado por momentos bons, mas, essencialmente tragédias, mortes e doenças causadas principalmente pela tristeza, o filme Tarja Branca nos faz refletir e lembrar da importância de um poderoso remédio: a brincadeira!

Não entendo como podemos ter tanto preconceito com algo tão natural ao ser humano. As pessoas não brincam mais por serem forçadas o tempo todo a serem sérias, mas será que ninguém nunca observou a seriedade com que uma criança leva o seu momento de se divertir? Alegria e trabalho, alegria e seriedade, brincadeira e produtividade, quando foi que esquecemos que todas essas coisas andam juntas e não separadas? Afinal, não é brincando que aprendemos a solucionar nossos primeiros problemas? Não é brincando que começamos a aprender o que é pesquisar? Não é brincando que temos acesso ao nosso lado mais espontâneo? E não são todas essas qualidades que são exigidas de nós o tempo todo?

Falta brincadeira, falta riso, falta a não seriedade, falta espontaneidade e falta, principalmente, lembrarmos que somos seres sociais, e a brincadeira nos permite esse contato tão escasso com outras pessoas. Se nos tornamos seres tristes e deprimidos um dos motivos é o fato de termos esquecido que somos seres sociais e, então, não nos sentimos mais pertencentes a nada, nem a nós mesmos.

A sociedade com certeza não se incomoda com isso, afinal, parece que mais e mais as pessoas temem aqueles que possuem auto conhecimento, que são donos do próprio nariz, que são felizes com o que trabalham e temem, principalmente, aqueles que tem humor, até porque a comédia tem um poder gigante! Tentam nos convencer de que brincar é coisa de criança, então cabe a nós nos lembrarmos que depende apenas de nós mesmos nunca deixarmos o nosso lado criança morrer. Ninguém pode nos tirar o direito de sermos felizes, de nos divertirmos, de brincar! 

Concordo com uma das entrevistadas do filme, sou a favor da revolução que está faltando: a das crianças! E essa seria muito bem vinda no nosso país, pois é inimaginável que em um país tão festivo como o Brasil, ainda possa haver tanta dificuldade e falta de brincadeira no nosso dia a dia. Para 2015 eu desejo a todos que nos tornemos grandes brincantes!


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sábado, 27 de dezembro de 2014

MIGALHAS >> Sergio Geia

Parafuso

Sou tomado por uma inspiração das mais elevadas, chego a dizer quase divina. Sinto meu pensamento, minhas ideias, meu modo de ver o mundo sendo lavados por uma máquina lavadora gigante, dessas que você não encontra nas Casas Bahia, e que só pode ser coisa do céu. Sabe aquela história de criança que escuta o estrondo do trovão, e a mãe vem dizendo que São Pedro tá arrastando os móveis e lavando o céu? Daí o barulho? Pois é. Só pode ser coisa do céu. Só pode ser máquina de São Pedro. Sinto — aliás, não sinto; ou sinto depois, isso sim — que a cabeça viaja e se desliga do mundo. Sabe quando você está dirigindo por uma estrada conhecida, a música do rádio tomando conta, e você simplesmente desliga? O Nirvana? Não sei. Só sei que é assim. E quando acordo tudo está diferente. Mas o pensamento, ah!, o pensamento, é a melhor parte. O pensamento está leve como um graveto. Límpido, arejado, como boiar no mar. E você descobre que a vida é muito simples de ser vivida. Mas dura pouco esse estado, meu amigo. E não existe um botão pra gente apertar. De repente, eu sou o de sempre. Bate o desespero. Entro em parafuso.
 

A panela da vizinha

A panela da vizinha cozinha. Tudo bem a panela da vizinha cozinhar. Mas a panela da vizinha cozinha agora. E agora não é hora. Agora é hora de as vozes calarem, de os ruídos sumirem, de os mugidos morrerem, de as pessoas dormirem. E esse chiado de chaleira, esse chiado mequetrefe de chaleira que mais parece um raquetada na bolinha do meu silêncio, esse chiado de chaleira que não me deixa dormir. Mas que raios levam a vizinha à cozinha? Mas que raios levam a vizinha à cozinha pra cozinhar? Agora?
 

O vigia

Tem um solzinho. Ele atravessa a rua, acende um cigarro, fica a se esquentar na manhã fria. Quando passa um conhecido, tenta puxar conversa, mas o conhecido tem pressa, afinal, as horas voam e o dia apenas começa. Não pra ele, pensa, que está quase no fim da jornada. Noite dura, sem grandes emoções.
 

Sempre

Lá vem ele de novo com a camisa verde. Sempre. A camisa, eu quero dizer. Ele está sempre de camisa verde. Se bem que ele sempre vem também. Ele sempre vem de camisa verde. Sempre. Ora, o sempre está certo, mas chega de sempre. A camisa, como eu estava falando, é sempre a mesma. Ai... Quer dizer: é igual. Mas eu não sei se são sempre as mesmas. Ele pode ter umas quatro, com as lavagens alternadas, até que dá pra tocar. E se forem duas? Daí a coisa é feia. Pode ser que use uma durante uns três dias e a outra durante os outros quatro dias. Ou vai alternando, cada dia uma. Mas que mania de sempre ficar se metendo na vida dos outros! O que você tem a ver com a camisa dele? Nada. Mas sempre se metendo! Sim... Sempre...
 

Insônia

 Agora vejo de cima a cidade dormindo. Um clarão apenas. Num prédio longe, lá na Independência. Alguém como eu. Madrugada quente essa. Acordei com a testa molhada. Acho que tava sonhando. Pego no violão e dou uma arranhada, uma música nova que eu tô tirando do Nando Reis. Daqui a pouco meu novo vizinho vem reclamar na minha porta.


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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

LIMPEZA CEREBRAL >> Paulo Meireles Barguil


Que o cérebro consome lixo, eu já sabia.

Para evitar tal tipo de contaminação, várias estratégias são possíveis, de modo especial, evitar contato com tais fontes radioativas.
 
Ciente também eu era de que sentimentos, pensamentos e comportamentos também podem ser nocivos à nossa saúde, motivo pelo qual precisamos, continuamente, nos purificar, adotando as práticas com que mais nos identificamos: atividade física, meditação, oração, passeios na natureza, respiração, terapia...
 
Eu ignorava, contudo, o fato de que o cérebro também produz imundície e de que no sono ocorre a limpeza do mesmo, via sistema glinfático — em referência às células da Glia, nele localizadas, que funciona de maneira similar ao sistema linfático, responsável pela purificação do corpo.
 
Há dois anos, cientistas da Universidade de Rochester, que fica no Estado de New York, publicaram um artigo na Science Translational Medicine, sobre a descoberta de um sistema de asseamento do cérebro, que consiste na retirada com o fluido cerebrospinal de proteínas acumuladas no espaço entre as células, de modo especial da beta-amiloide, relacionada à doença de Alzheimer.
 
Outro aprendizado: muitas das doenças neurodegenerativas estão associadas à acumulação de lixo celular nos tecidos cerebrais.
 
Tendo aprendido isso ontem de noite, no horário habitual da escrita da crônica, é que decidi dormir: é melhor manchar levemente minha ficha com o Editor chefe, em virtude de um singelo adiamento, do que atrasar a minha limpeza cerebral.
 
[Reportagens sobre o artigo americano podem ser encontrados , ali e acolá.]

[Registro minha gratidão ao meu cunhado Evando Jr, pai do Benjamim, que hoje está fazendo 06 meses, pela indicação da temática] 


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quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

NATAL, PANETONE, HOT WHEELS E SABONETE >> Mariana Scherma


Natal não é dos meus feriados preferidos, nem de longe. Sou meio do contra, um pouco Grinch e considero ser muito mais romântico e agradável um domingo chuvoso, preguiçoso, meio sem ter o que fazer, meio sem ter que confraternizar. Natal é o feriado da gulodice, dos presentes pra quem você, por várias vezes, falou ou pensou mal durante o ano, mas aí dá uma caixa de sabonete e beleza, sua barra está limpa. Ou você pensa que está.

Natal é o dia de fazer velhinhos barbudos sofrerem embaixo daquela roupa quente que é o caramba. Aliás, cada dia mais eu tenho dó do bom velhinho. Você já reparou que os enfeites com o Papai Noel estão cada vez mais perigosos? Toda vez que me deparo com um Noel pendurado em uma janela de um andar bem alto do prédio (mesmo sendo um brinquedo) fico com vontade de ligar para os bombeiros. O velho não tem mais idade (nem porte físico, nem dons de Homem-Aranha, veja bem...) para essas estripulias, coitado.

Não acredito que as pessoas são quem realmente são no Natal. Elas fingem. Fingem uma simpatia que não têm, uma alegria disfarçada de excesso de álcool, uma bondade que beira o irreal pra ganhar seu Hot Wheels novo. Natal é uma grande festa à fantasia com ares de realidade. Ok, ok, nem todo mundo encara um Natal assim, fantasiado de sua melhor versão, mas uma boa maioria veste a carapuça.

Meus pais nunca me ensinaram que você-precisa-ser-boazinha-pra-ganhar-presente-no-dia-25. Eles só me ensinaram que você precisa ser honesta porque é o melhor caminho. E pronto. Eu fico pensando no tanto de criança sendo educada só pra constar na lista do seu Noel no fim do ano. Eu não tenho filhos, mas acho esse tipo de educação bem errado. Se tivesse pequenos, eu os ensinaria que ser bonzinho é a melhor forma de dormir gostoso, de ter sonos leves, coisa e tal. Diria que ser honesto vai ajudar o universo ser honesto com você – pensando que, no fim, tudo dá voltas. Jamais mandaria minha filhota ser gente boa porque, senão, Papai Noel vai esquecer seu brinquedo do filme Frozen. Alô, mundo!


Então, já que é Natal, vamos dar sorrisos sinceros e presentes que nosso coração nos peça para dar, não nossa consciência mais pesada que o peru da ceia. Vamos nos fartar de bons sentimentos, não de pavê. Vamos nos lembrar de fazer o bem no dia 26, 27, em janeiro, em fevereiro e assim vai, não apenas nos dias 24 e 25 de dezembro. Ah, só pra não parecer que sou totalmente anti-Natal, gostaria de deixar claro que escrevo esta última coluna de 2014 com os dedos sujos de panetone. 


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quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

NÃO SOMENTE PARA AMANHÃ >> Carla Dias >>


Sopa quente em dia frio. Dinheiro achado nos bolsos dos casacos, antes de dia de pagamento. Espaço vazio onde deslizar de meias e dançar, sentindo-se o Mikhail Baryshnikov ou o Sidney Magal. Fim de tarde a observar horizonte. Fim de espera a abraçar quem estava além do horizonte, mas voltou. Cinema às quatro da tarde de uma quarta-feira. Televisão em dia em que necessitamos do abraço dos cobertores. A celebração de um nascimento. O primeiro dia de escola do filho. O casamento do filho. Os netos a brincarem no quintal. A viagem dos sonhos. Sonhar a viagem dos sonhos. A palavra certa, dita no momento certo por alguém que você não faz a menor ideia de quem seja. Esbarrar com um dos seus ídolos na rua. Escutar aquela música... Sabe qual? Aquela... Escutá-la tocar durante a festa do vizinho. Vinho. Casa iluminada por velas, em dia de jantar especial. Chá de camomila, sempre. Se não de camomila, chá, o seu preferido. A roupa mais confortável, raramente a mais apresentável. Gargalhada de bebês. Sorriso dos avós. Perfume de café fresco feito pela mãe. Conversa fiada com o pai. Discussão acalorada, e extremamente engraçada, com as irmãs e irmãos, com os amigos. A história de vida de um gênio. O som do mar, o seu movimento. A bravura de quem se impõe em benefício do coletivo. A coletividade dos que sabem reconhecer a felicidade na realização do outro. Avizinhar-se de jardins. Cercar-se de pessoas e suas ideias sobre evolução. Evoluir a cada erro. Amplificar sabedoria a cada acerto. O templo. O silêncio. O espírito. A boca dizendo fascínios. Os ouvidos escutando fascínios. O corpo fascinando-se, permissivo ao abrir caminhos aos toques e deslumbres. E a libertar gemidos, que música é sempre bem-vinda para se seduzir os sentidos. Casa que abriga família. Casa que abriga quem precisa de família. Pessoas que recebem e cuidam de quem precisa de família. Lua cheia em céu estrelado. Pés se tocando no inverno. A delicadeza das orquídeas. A alegria dos girassóis. Sapatos confortáveis para correr na rua. Give peace a chance, can you? Você quer? O balanço que parece ter brotado no quintal. Poesia. Aquela mensagem em música linda que só: qualquer maneira de amor vale a pena. Cumplicidade. A contemplação: cidade na madrugada, ondas quebrando, elipse inspirada pelo eclipse. Comida em prato vazio. Teto sobre cabeças pensantes. Ensinamento que oferece aprendizado. O misticismo, a sensibilidade, saraus e serenatas. E você? Então? Eu lhe desejo o tudo que lhe cabe, e que não seja somente para amanhã, embrulhado e com laço pomposo, entre um gole e outro de espumante dali ou da França. Que navegue pelo seu espírito com a ousadia das descobertas. Para você eu desejo, no amanhã e no depois de amanhã - ainda que não tenha cartão brilhante, que não seja o último modelo - a percepção sobre a vida, oriunda das entrelinhas, da franqueza das entressafras, das conversas silenciosas que dão no antes, no durante ou no depois da meia-noite.



Imagem: freeimages.com



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terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Á minha nutricionista >> Clara Braga

Sempre gostei desse clima de renovação e recomeço que o ritual do ano novo nos proporciona. Somos seres cíclicos, esse recomeço faz parte de nossas vidas e, por mais que digamos que não, gostamos disso, é uma oportunidade de nos reinventarmos. O que eu sempre questionei é a necessidade de se deixar tudo para o próximo ano e só ter esse espírito esperançoso perto do natal. 

Não podemos procurar um novo emprego esse ano? Não podemos começar a academia esse ano? Não podemos ser mais amigáveis? Não podemos ir atrás dos nossos sonhos? 

Acho que podemos nos reinventar sempre que sentirmos necessidade, a não ser quando o assunto é dieta! Fui quebrar os meus próprios paradigmas e comecei uma dieta com o acompanhamento de uma nutricionista no mês de novembro, e agora me pergunto se não seria melhor ter deixado a dieta como uma promessa para 2015. Tudo bem que eu prometo isso todos os anos e não começo, por isso comecei ainda em 2014, mas quem consegue manter uma dieta em dezembro?

Por isso, hoje venho aqui, na véspera de natal, pedir desculpas á você, minha nutricionista, por ter mentido para você. Disse que não comeria muito, que não abusaria, mas quem estávamos enganando? Nós duas sabíamos, lá no fundo, que isso ia acontecer. 

Para seguir a dieta preciso não ter um emprego e nem amigos, assim não sou chamada para nenhuma confraternização. Não posso ter família, pois a ceia de natal é a maior comilança. Não posso ter namorado, pois o número de ceias de natal dobra. Enfim, ou é isso ou é uma força de vontade gigante, que eu não sei de onde tirar, pois forte mesmo é a pessoa que consegue fazer cara de feliz enquanto come uma salada durante aquela confraternização na qual todos estão se acabando no rodízio de pizza.

Vou continuar seguindo a dieta o quanto posso, e nesse natal me proponho, nutricionista, a incluir em minhas preces todas as pessoas que conseguem olhar uma rabanada e não comer! Sei que isso inclui você. Quer dizer, você diz que inclui você, mas eu tenho minhas dúvidas. Não que você seja gorda, sabemos que você não é, é que rabanada é a melhor sobremesa de natal que existe, e ao mesmo tempo a mais calórica do mundo, eu desconfio. Será que existe algo mais calórico do que uma sobremesa feita de pão e frita com açúcar? Valor nutricional zero, mas em todos os outros quesitos, a rabanada é a grande vencedora do desfile de natal!

Peço desculpas, sei que falei que não iria comer, que seria forte, mas preferi ser um pouco mais feliz nesse fim de ano. Sim, eu sou fácil desse jeito, fico feliz apenas comendo rabanada, não preciso de muito. Pode dizer que sou fraca, mas ano que vem, quando passar toda essa fase e eu já estiver esbelta, te convido para um almoço na casa da minha vó e você vai entender tudo! Pode deixar, peço para ela fazer rabanada de sobremesa, sei que você disse que não come, mas isso nós vamos ver quando a rabanada estiver na nossa frente, afinal, eu também disse que não comeria. As pessoas dizem cada coisa, não é mesmo?


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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

MAIS UM NATAL ESTRANHO >> Zoraya Cesar

Àquela hora tardia da véspera de Natal, pelas ruas quase desertas circulavam apenas os perdidos, os avessos à festa e os poucos que ainda voltavam para casa. 

Vamos nos ater aos perdidos. Desses, alguns procuravam um lugar, um alguém, um milagre, qualquer coisa que transformasse aquele Natal numa ocasião feliz.

Bem vestido, bem apessoado, bem abatido e acabrunhado, o homem caminhava lentamente, arrastando, como bolas de ferro presas aos pés, o peso de uma decisão desesperada. Tão despercebido estava, imerso em pensamentos sombrios, que nem se deu conta de que entrara em uma Igreja.

Era uma construção antiga, de pedra e madeira, pouco iluminada, cheirando a sândalo e rosas. O homem despertou de si mesmo. Que estranho, notou. Os altares estavam vazios de santos, e os bancos, de fieis. Por que estaria aberta?

Porque, certamente, o padre ceava com os paroquianos, concluiu, ao ouvir vozes vindas da sacristia. Virou-se para ir embora, seu lugar não era ali.

– Entre, meu filho, coma alguma coisa antes de sair – convidou-o a mulher que aparecera à porta. 

Fosse o jeito suave dela, a fome que lhe bateu de repente, ou um impulso irresistível, o fato é que ele aquiesceu e entrou. 

A sacristia era espaçosa. Cabia uma mesa grande, caprichosamente feita, e uma dezena de pessoas, que conversavam animadamente. A mulher oferecia comidas a uns, bebidas a outros, numa azáfama interminável. Colocou-lhe nas mãos um copo de vinho e um prato de rabanadas. Tome, disse, vai se sentir melhor. Ele se sentou a um canto, como um menino obediente em meio a adultos, comeu, bebeu e, verdade seja dita, sentiu-se melhor.

Olhou em volta com olhos menos famintos. Devem ser os atores do auto de Natal, pensou, vendo as roupas extravagantes dos outros convivas. Um Padre, de idade avançada, andava de lá para cá, conversando aqui e ali, sempre acompanhado por um enorme gato preto. “Festa estranha com gente esquisita”. A música veio repentinamente em sua mente. “Eu não tô legal”... e levantou-se para fugir discretamente.

Nesse momento, porém, um senhor alto, de cabeça tonsurada e olhos brilhantes, interpelou-o, sem a menor cerimônia:

– Não faça bobagens. Vai cometer um erro enorme. Tenha fé – sua voz era profunda, e, inexplicavelmente, o homem sentiu que obedeceria a qualquer comando daquele estranho. 

– Os papeis que comprovam sua inocência estão em um envelope no fundo falso da sua bolsa de viagem. Ligue para casa.

O homem assim o fez. Poucos depois, começou a chorar. Os papeis foram encontrados, estava salvo. Não mais iria  à falência, não mais seria  acusado de roubo e fraude, não seria preso, não envergonharia a mulher e os filhos. Não mais pensaria  em se matar na noite de Natal. 

Impulsivamente, abraçou o estranho. Como sabia? Como agradecer? O ator – devia ser um ator – levou-o até a porta.

–  Sou bom para encontrar coisas perdidas. Me agradeça doando alimento aos pobres. Agora vá comemorar com sua família.

E sumiu por entre os convidados.

– Antonio – avisou alguém, aos risos – Francisco e o Padre estão acabando com o tiramisù que Marta fez em sua homenagem você não vai nem saber o gosto!

...


A jovem entrou, trôpega de angústia. O plano de saúde não queria aprovar a cirurgia do pai, internado no hospital, nem permitir acompanhantes. E ela ali, sozinha na noite de Natal, sem ter a quem recorrer. Nem mesmo aos santos, que a Igreja estava com os nichos todos vazios. Que estranho, pensou.

Queria sossego e reza, não festas, mas a luz e os sons vindos da sacristia a atraíram, irresistivelmente.

Mal entrou, uma mulher entregou-lhe um copo de vinho e um prato com bolo de nozes.

– Coma – disse – você vai se sentir melhor. 

Assim como todos os outros que lhe antecederam e os que lhe sobrevieram naquela noite, ela obedeceu. E, assim como eles, sentiu-se melhor. 

Reparou, então, nas roupas usadas pelos convidados, no Velho Padre, no gato preto, na calma alegria do ambiente. Certamente o pai gostaria muito de estar ali com ela. Teve vontade de chorar. 

–  Por que, perguntou-lhe um homem negro, vestido de túnica marrom, você não atende o celular? 

Ela se assustou. O celular não funcionara o dia inteiro, mas agora estava tocando. Que esquisito. Atendeu. Era do hospital, comunicando que, inexplicavelmente, o plano de saúde voltara atrás: autorizara todos os procedimentos e também a presença de um acompanhante.

A jovem olhou, extasiada, para o homem à sua frente. Ele sorriu, sem responder às perguntas que ela balbuciava em meio às lágrimas, e levou-a até a saída:

– Acho que você deveria ir ao hospital agora, ficar com seu pai e descansar. 

Ela agradeceu e saiu correndo, mas ainda conseguiu ouvir que o chamavam:

– Benedito, corre aqui pra ver o Menino brincando. 

Que coincidência, pensou, ele tem o mesmo nome do meu avô.

...


Quase amanhecia. Santos, santas e anjos comportadamente instalados em seus respectivos altares, o Velho Padre, com o gato preto ao colo, finalmente descansava, sentado em frente ao presépio. 

Sempre gostara de festas de aniversário. O Natal era mesmo uma data muito especial, disse a si mesmo, sem medo da rima pobre. A única festa na qual o aniversariante é quem dá os presentes. E, feliz por todos os milagres que presenciara, entrou em adoração.

Mais aventuras de Natal do Velho Padre: 

Minuetos de Natal



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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

PREZADO 2014 >> Fernanda Pinho

Sei que nossa convivência já está caducando, mas ainda sigo a te dispensar um tratamento polido, posto que não consegui estabelecer um grau mínimo de intimidade com você. E nem pretendo fazê-lo nos 14 dias que nos restam. Aliás, não pretendo mais nada com você e antes que me acuse de ingrata já me adianto nas explicações. 

Não acho que você tenha sido um péssimo ano. Aliás, nunca tive um péssimo ano. Sempre que eu chegar viva e com saúde ao final de mais um dezembro, considerarei o ano acabado como, no mínimo, “ok”.

É isso. Você, 2014, foi um ano ok. E não sou eu quem estou dizendo. Quer dizer, eu também estou dizendo, mas para não ser leviana (para usar um termo muito repetido nos seus dias) consultei várias outras pessoas. E, sem querer te desanimar nem nada, muitas concordaram comigo. Você foi um ano pesado. Difícil de carregar, difícil de empurrar. Passar pelos seus dias foi como atravessar campos de areia movediça usando salto alto. 

Talvez seja por isso que, em alguns pontos do caminho, fui obrigada a me desfazer de algumas bagagens. Ou de pessoas, caso esteja complicado acompanhar a metáfora. Ok. A quem eu quero enganar? Não somos íntimos mas convivemos intensamente nos últimos 300 e tantos dias. Eu não me desfiz. Se desfizeram de mim. Mas no caminho que a vida é, somos todos bagagem uns dos outros. E, ao ser abandonada à beira da estrada por algumas pessoas, a viagem acabou se tornando mais leve para mim também. Para quem isso foi bom ou ruim, só um tempo que já não cabe mais em você, 2014, é que dirá. Por isso continuo te considerando um ano ok.

Eu tinha planos para nós, sabe. Quando o ano virou naquele 31 de dezembro de 2013 eu tinha desejos sinceros no meu coração, repetidos em cada onda que eu pulei. E você, ao que parece, nem sequer chegou dar uma olhada na minha listinha. Mas, tudo bem, ingratidão foi o sentimento que eu mais abominei nos seus dias e seria muito, digamos, leviana, se eu fosse ingrata também. Você embolou minha listinha de desejos, fez uma bolinha de papel e trinta e uma embaixadinhas com ela mas por outro lado…

… montamos nossa segunda casa com todos os detalhes que imaginamos. Realizei meu sonho antigo de mergulhar em alto mar. Trabalhei cada dia mais intensamente que no anterior. Visitei amigos que moram longe. Recebi amigos que moram longe. Retomei amizades interrompidas por outros anos. Li livros que vão me marcar para sempre. Realizei a vontade de me engajar num projeto solidário. Parei de tomar refrigerante. Não dei um espirro, não tive uma dor de cabeça, nem uma dor de dente. Conheci cidades que eu não conhecia. Me viciei (em novas séries, novas músicas e em novos produtos de maquiagem). Não fiz nenhuma dívida. Aprendi a gostar de sushi. Aprendi a comer linhaça. Vi minha irmã ficar noiva. Vi o Galo ser campeão da Copa do Brasil (o que curou qualquer eventual trauma deixado pela Copa NO Brasil). 


Já prevejo você me questionando: “Mas, então, minha filha? O que mais você queria”? Prevejo e, antecipadamente, me envergonho. Talvez eu seja exigente demais mesmo. Mas é que eu só queria mais uma coisinha e, como eu sei que já não há mais tempo para você, venho por meio desta pedir, encarecidamente, que repasse a 2015 aquele meu bilhetinho. Sim, esse mesmo com o qual você fez uma bolinha de papel. Desamasse, desamarrota. Ainda dá para ler. São só três letrinhas. Nada demais. 





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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

SÓ MAIS UMA PERSONAGEM >> Carla Dias >>


Lá vai ela, arrecadando suspiros, cultivando pensamentos nas cacholas alheias. Andando descalça no jardim da vida, dançando ao som da música que mora em sua memória, enchendo os olhos dos curiosos de delicadeza.

Contadora de histórias experiente, já inventou cento e cinquenta e sete personagens, com os quais convive pacificamente. Uns moram na sala de sua alma, outros na cozinha, há aqueles que, apreciadores profundos de certa mordomia, moram no sofá da sala e adoram assistir novela. Há até poeta que se levanta no meio da noite para resgatar poema ignorado durante o dia, só para poder declamá-lo na boca da madrugada.

Lá vai a moça que aprecia uma boa inquietude, que reage a elas a contento, que tem ciência de que amor dá trabalho, mágoa é desperdício de tempo e acerto nem sempre é resultado da escolha feita. Que os erros nasceram para nos abismar com seu jeitinho de cultivar avessos, e para nos mostrar o que pode ser aperfeiçoado. Ela que não tem problema que seja para assumir o erro, repensá-lo, compreendê-lo para que o acerto venha na próxima.

Há quem se desmanche todo diante do sorriso largo da moça que anda por aí sem dar atenção a quem deseja tolher a sua esperança. Esperançosa assumida, ela leva o diariamente em seu coração, que é um cantinho receptivo, onde também moram aquelas dúvidas danadas. Também não tem medo de encará-las, não. Feito olhar seu se cruzando com olhar seu no reflexo do espelho nem sempre seu.

Lá vai a moça vestida nos panos que lhe apetecem, do jeito que lhe apetece, no ritmo que lhe apetece. Distribuindo cores e desfilando em passarela improvisada pelo desejo de conhecer mais sobre o mundo, geográfica e antropologicamente. Já descobriu, por exemplo - assessorada por agente de viagem, e um plano para pagar sonho em 24 vezes, primeira parcela no Carnaval, abençoada pelos Pierrôs e pelas Colombinas, o Samba Enredo mais inspirador de trilha sonora -, que assim como lugares, as pessoas também podem ser cenários. Sabe como? Aquele lugar que é o outro, no qual você deposita os olhares mais afetuosos e exercita abraços, provoca alguns atos mais levados, dependendo do status do relacionamento. Às vezes, até deseja se mudar de vez para lá, só para se enroscar no cenário.

É sabido que a moça, aquela que lá vai, faz uso da sua liberdade da melhor forma: experimentando-a. Por isso escolhe as escolhas que a seduzem, encarando consequências com muita classe, mesmo quando lhe dá vontade de mudar de planeta. Muda-se, então, para o começo da noite, quando acontece aquele momento em que tudo a sua volta silencia. É silêncio prefaciador de bom agouro, que logo mais, chegarão os amigos para uma Roda de Sonho, tamborins e cuícas a postos.

Imagem: The Acrobat © Marc Chagall | www.marcchagallart.net

carladias.com




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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

AUTORRETRATO OU SELFIE?? >> Clara Braga

Lembro de ter estudado sobre o tal do selfie na faculdade. Não exatamente o selfie, até porque na minha época ele tinha outro nome, era autorretrato, mas o princípio parece ser o mesmo. Mas é só o princípio que parece, pois os fins são bem diferentes. Na minha opinião, até o nome autorretrato é mais poético, selfie soa algo um tanto egoísta, mas pode-se dizer que a carapuça serviu.

Lembro de uma professora falar sobre o autorretrato. Resumindo por alto, é mais ou menos a técnica de se autopintar ou fotografar, enfim, se autorretratar dentro de um contexto significativo para você. Ou seja, o autorretrato está ligado à subjetividade, já que o que é significativo para você não necessariamente é significativo para os outros, está relacionado aos sentimentos. E é exatamente nesse ponto que eu me pergunto, onde foi parar o sentimento dos autorretratos?

Frida Kahlo foi uma grande pintora que criou uma quantidade enorme de autorretratos. Agora eu pergunto, você consegue imaginar a Frida sentada com seu cavalete em frente ao café em Sidney, pintando um quadro enquanto o tiroteio rola solto dentro do café? Enquanto várias pessoas são mantidas como reféns, duas acabam mortas, outras tantas feridas, Frida mistura um pouco mais de preto na cor vermelha, pois o vermelho claro não representa a dramaticidade do momento de forma eficaz! Soa bizarro né? Alguns ainda dirão, soa bizarro pois ninguém anda na rua com um cavalete na mão esperando um bom momento para pintar um quadro. Será que ninguém consegue perceber que a bizarrice da atitude é a mesma independente da técnica?

Não tem a menor graça fazer parte de uma tragédia, não tem a menor graça não ter coração suficiente para se compadecer da dor dos outros e não é tranquilo fazer uma selfie só porque o seu smartphone é tão rápido que ninguém nem vai perceber que você fez a tal da foto. Depois ela vai cair nas redes sociais e todos vão achar você uma pessoa sem a menor noção, e quem não achar é porque é tão sem noção quanto você. 

Definitivamente, os smartphones estão ficando cada vez mais smart, e deixando o povo cada vez mais burro. 


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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

"MEIN KAMPF" >> Albir José Inácio da Silva

“Deste tribuna eu querro hoje mostrar parra vocês o meu luta! O meu luta no vida e nesta parlamento! Cala o seu boca que eu não estar gritando, eu ser veemente, esta é a minha temperramento! E chame aquele senhorra que falou bobagem sobre ditadurra, eu precisa repetir parra ela que não a estupro porque ela não merrece.

Devo informar que essa negócio de estupro é uma vingança, eu explica porquê. No infância, durrante o carnaval, uns garrotos, fantasiados de mulher, se aproveitarram de mim. Na horra eu até gostei da brincadeira. Mas depois descobri que erra pecado e eu ia parra o inferno. Fiquei muito mal e me tranquei no armárrio.

Durrante muito tempo eu sofria. Parreceu que não tinha mais jeito. Isso é que nem mordida de vampirro, depois que acontece, a gente se transforma.  A minha sorte é que eu encontrei um psicólogo, o Dr. Marracutaia, que é especialista em curra gay. Além de me currar, ele ainda me casou com um mulher parra evitar recaídas.

Agorra estou tão currado que estupro mulheres. Dizem que estupro é crime, mas, reparrem, ele é só para quem merrece. É assim como prisão, torturra e execução no regime de segurança nacional, só se aplicam a quem discorda, protesta, desobedece, ou seja, quem merrece.

Compreendem a minha luta tentando defender essa povo de ele mesmo? Querrem distribuição de renda! Que absurdo! Ora, se Deus deu o dinheiro parra alguns, e não parra outros, é para ficar com estes a quem ele deu, e não parra ser distribuído parra os outros a quem ele não deu. É simples questão de lógica!

Mas todos querrem igualdade, contrariando nossas tradições que colocam cada um no seu devido lugar. Ficam por aí judeus, negros, gays e nordestinos reivindicando e se rebelando contra a ordem consagrada e o bom andamento da vida em sociedade.

Dos judeus não preciso falar porque nosso grande führer e pensador do século passado disse tudo. Sobre os negros, um grande sábio deste parlamento já esclarreceu que são amaldiçoados por Noé e por isso a África tem fome, misérria, ebola e AIDS. Nordestinos, nem preciso dizer nada porque vivem num lugar quente e seco, e lugar quente e seco é o inferno.

Que é que tem São Paulo? São Paulo é uma lugar abençoado, e se está sendo castigado com seca é por causa do infestação gay. E agora estão querrendo fazer lei que proíbe bater em gays! Onde é que vamos parrar?

Essa gente fala em democracia, mas não sabe votar. Colocam comunistas no poder e depois sofrem as conseqüências. Homens já casam com homens e mulherres com mulherres. Já estão até adotando crianças. Esses crianças vão virrar gays e casar com gays e, em pouco tempo, a humanidade vai desaparrecer. Porque Deus fez Adão e Eva e não Adão e Ivo. E dois iguais não fazem filhos.

Esses gays deverriam ir parra os fornos crematórrios, parra os DOI-CODI, ou parra a casa do morte em Petrópolis. É preciso também avisar a operração condor porque o profilaxia tem de ser feita em todo o Amérrica Latina. Esse praga é que nem rato, se tem na casa do vizinho, volta parra o nossa.

Esse é o meu luta. Mas esse é também o luta de vocês. Está em suas mãos colocar os pingos nos is, o mundo nos eixos e cada macaco na sua galho. Muito obrigada.


Heil..., digo, salve o povo barrasileiro!”


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domingo, 14 de dezembro de 2014

GENTE É OUTRA ALEGRIA >> Eduardo Loureiro Jr.

A alegria do Enzo é assobiar. E fazer caretas. E ouvir o ruído da descarga sanitária a vácuo. E ver um ônibus sanfonado. E contar-lhe as rodas. E passear com seu tio. E rever sua avó.

A alegria de Manu é tocar violão. E assobiar passarinhos. E escrever poemas. E recitar poemas para sua filha. E dizer que seus poemas viraram canção no violão do amigo. E ver uma menina dançar ao som de seu reggae. E ser um interno do pátio. E falar de seus alunos.

A alegria do Fabiano é falar com pessoas. E ouvir histórias. E traficar pó...esia. E ver crianças lendo. E crianças contando. E crianças cantando. E crianças dançando. E crianças rindo. E crianças, crianças, crianças. E tirar fotos. E falar de amores com seu amigo. E contar suas alegrias desde o tempo de menino.

A alegria do Fábio é abraçar seu amigo. E continuar no abraço. E prolongar o abraço ainda um pouquinho. E dizer que estava precisando disso. E ver o sorriso de sua filha. E admirar o som de um novo violão. E dizer uma ou outra ironia. E pedir a noite do Fabiano. E tocar o dia.

A alegria da Luiza é receber visitas. E abraçar seus amigos. E falar da arte. E falar da vida. E pedir uma música. E outra. E outra. E ouvir a chuva do Fabiano. E oferecer chocolates que Manu leva para sua filha. E lembrar seus alunos. E lembrar melodias. E mostrar sua dama da noite. E regar seu jardim.

A alegria deles é a alegria minha.

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sábado, 13 de dezembro de 2014

AONDE QUER QUE EU VÁ... >> Sergio Geia

Campinas. Shopping Center Iguatemi. Livraria Saraiva. Vejo um sujeito de bermuda estampada lendo “Época”. Um japonesinho sentado ao seu lado se lambuzando num McFlurry. Um cara grudado no celular. Uma loura muito das gostosonas com uma porção de livros no colo. Com vontade de ficar na loura, mas já indo, encontro agora, ou reencontro, melhor dizendo, a página 197, que tem no centro a grande frase que dá início ao capítulo: “Amigos são os Paralamas e o Herbert Vianna”.

Estava procurando um livro de crônicas, quando dei com a foto do Marcelo e a frase “Não se preocupe comigo”. Dei uma lida rápida num capítulo escolhido aleatoriamente, e achei que valia a pena prestar um pouco mais de atenção naquilo tudo que ele dizia.

Marcelo Yuka. Baterista d’O Rappa. Época maravilhosa. Projetos. Planos que iam muito além d’O Rappa. Na José Higino. No Rio. 9 de novembro de 2000. 9 tiros. Um deles, na coluna. Estava a caminho da casa do Ed Motta. Iriam assistir a um show. Do Max de Castro. Entrou na José Higino e se deparou com um carro atravessado. Ouviu pipocos. Tentou dar marcha à ré, mas um carro com bandidos estava bem atrás do seu. Evitou um assalto sem querer, mas acabou virando alvo. Tudo muito rápido. E numa fração de segundo, Marcelo foi parar numa cadeira de rodas.

Amigos são os Paralamas e o Herbert Vianna. “Mas que parada é essa?”, pensei. “Por que o Marcelo tá dizendo isso?”. A amargura na sua voz eu conseguia ouvir, eu conseguia sentir, eu conseguia mensurar; aquilo me incomodava de tal maneira que minha vontade era largar tudo o que eu estava fazendo e devorar aquele livro, ali mesmo, no shopping, no meio daquela tumultuada livraria, em uma tarde tumultuada de domingo.

O Herbert, em 2001, sofreu um acidente de ultraleve em Angra dos Reis. O equipamento caiu no mar. Sua mulher, Lucy, ficou presa no cinto e morreu. Herbert sobreviveu, mas ficou paraplégico. A diferença entre Herbert e Marcelo, eu entendi depois de ler o que ele dizia, é que Herbert, na sua opinião, contou com a solidariedade, a amizade e a paciência de seus amigos de Paralamas, Bi Ribeiro e João Barone. A banda está aí até hoje, com Herbert tocando e cantando sentado. Já Marcelo, não. Foi obrigado a se desligar d’O Rappa e teve que canalizar suas emoções através de outros meios.

O livro tem fotos interessantes. O Marcelo com um ano e meio. Na praia, com a mãe, o pai. Alguns shows d’O Rappa. Livre, leve e solto num mar, no sul da França. Deixando a Casa de Saúde São José, no Rio, depois dos tiros. De cadeira de rodas, beijando a mão do Herbert num show. Em casa, na frente de um grafite maneiro feito por um amigo.

Seu olhar está diferente. O olhar de um sobrevivente. Fico pensando, com o Marcelo em mãos, na fila do caixa, como a vida pode mudar tanto de uma hora pra outra. Do nada. De repente, tá tudo diferente. O cara descobre um câncer, ou sofre um acidente, ou fica paraplégico. Escuto a voz do Herbert saindo da caixinha de som da livraria: “Olhos fechados pra te encontrar, não estou ao seu lado, mas posso sonhar. Aonde quer que eu vá, levo você, no olhar”. Que coincidência, penso. Faço imediatamente a conexão Herbert-Lucy. A mocinha do caixa me chama.


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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A VIDA É UM JOGO DE FASES >> Paulo Meireles Barguil


A vida é um jogo de fases.
 
Em cada uma delas, há desafios para serem identificados e superados pelo aventureiro.
 
Enquanto você não cumpre a missão específica, a vida lhe coloca novos cenários e personagens, mas algo permanece inalterado: o que precisa ser aprendido, transformado no seu interior.
 
A maioria das pessoas ignora esse princípio e não entende que o mais importante na vida é o que acontece dentro delas e não do lado de fora.
 
O tempo despendido em cada estágio varia, pois relacionado às habilidades individuais, as quais são usadas para avançar, embora raramente elas sejam suficientes.
 
Suplantar as nossas fragilidades é, via de regra, a tarefa a ser assumida nos diferentes níveis, os quais não têm fim, embora o folguedo sim...
 
O jogo, embora apresente momentos competitivos, é, essencialmente, colaborativo.
 
Quando a pessoa entende isso, a jornada se modifica, tornando-se, ambas, mais leves e bonitas.
 
Afinal, ela descobriu um importante segredo: a riqueza da vida é partilhar o que se é, dividir para multiplicar.

E a gente colhe o que semeia, dentro e fora...
 
[Crônica dedicada a Samuel, meu filho de quase 19 anos, que me inspirou a escrevê-la e a entender um pouco mais sobre a vida.]


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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A GUERRA DA BELEZA >> Mariana Scherma

Dos conceitos abstratos da vida, a beleza ganha longe em dificuldade de ser compreendida. O que é bonito pra alguém pode ser horroroso para o outro. E ainda pode complicar: o que é bonito hoje-agora-já pra você, de repente, se torna feio amanhã-depois-logo-menos. No fundo, essa história de que o que é feio pra um é lindo para outro funciona muito bem, naquele velho esquema tem gosto para tudo.

O problema é quando você comete algumas insanidades pra conseguir ficar em paz com o espelho. Por que será que ficar de bem com sua imagem, às vezes, vira uma guerra absurda? Por que beleza em muitos casos é sinônimo de dor? Juro, não entendo.  Fiquei pensando a respeito disso com os casos de morte ou internação grave após as aplicações do tal de hidrogel pra ganhar mais massa muscular. Muita gente que faz essa aplicação já tem mais músculo definido do que eu vou ter na vida inteira (e, de certo, na próxima encarnação), mas, por algum motivo, isso tudo é insuficiente e acaba na mão de “profissionais” de segunda (ou terceira?) qualidade. De repente, a saúde vai lá pro último lugar só pra ter um bumbum mais duro que bola de boliche. Taí um tipo de prioridade estranha.

O caso do hidrogel é só mais um estranho. Tem também a turma da batata-doce e frango oito dias. Tem a galera das 500 calorias/dia. Tem o pessoal que mal sabe o que é uma caloria – que dirá então um brigadeiro. O maior perigo são os comportamentos extremados, uma coisa militar. Quando você olha blogs e perfis de Instagram fitness, pode se sentir um pecador se comeu um pedaço de chocolate depois do almoço – ou, Deus nos livre, um pãozinho branco, zero integral, e com manteiga derretida. Eu, sempre que caio em um desses perfis, tenho noção de que não precisa ser assim pra ser saudável. Mas e quem não tem?

A loucura pelo corpo perfeito faz você acreditar em absurdos, em médicos que não são médicos, em dietas nem um pouco saborosas e pior de tudo: faz você achar que sofrer é normal. Não é. Quando foi que ter saúde deixou de ser bonito? Quando foi que celulite virou crime ou músculos à la Stallone na época de Rocky se tornou vital? De repente, a saúde é secundária na guerra pela beleza, cujas batalhas são cada vez mais invencíveis. Uma pena.

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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

BELEZA, MEU BEM >> Carla Dias >>


Ela acredita que sua beleza é das mais refinadas, que, futuramente, viverá dela, conhecendo outros países, pessoas interessantes. Porque, vamos combinar, Eleonora e Marcílio não são assim tão interessantes. São amigos desde sempre, dividiu com eles os lanchezinhos no parque e a catapora, mas ainda assim, interessante é outra coisa.

Na escola, dedica-se a se tornar ótima aluna, que diferente de umas aí sobre as quais andou lendo, não quer ser bonita somente bonita, de beleza refinada. Ela quer ser inteligente, de inteligência afiada. Olha-se no espelho, ajeita-se na roupa, olha para si como se estivesse em capa de revista, mas a cabeça, ah, essa funciona a mil também. Outro dia, decidiu escrever um ensaio sobre a falta de cordialidade dos meninos da escola. Digamos que eles não aceitaram suas palavras cordialmente. Mas ela ganhou uma ótima nota e um peteleco do Jurandir.

Criada pela irmã, ela tem vida dura, mas não passa privação de enlouquecer, que Juliene é das irmãs mais mãe que ela conhece. Juliene não é bonita feito ela. Na verdade, às vezes se sente triste consigo mesma por botar reparo nisso. Mas como não fazê-lo? Quando criancinha de tudo, não se importava. Mas foi crescendo e percebendo as coisas, ficou impossível não escutar o que as pessoas diziam sobre a irmã. Às vezes, ela escolhe não receber as amigas em casa, que é para não comentarem sobre Juliene, que não tem beleza refinada. É bondosa, amiga, asseada. Ainda assim, às vezes cai na boca do povo e isso a entristece profundamente.

Ela acredita que sua beleza refinada a levará a outros lugares, melhor iluminados, tão aprazíveis quanto ela. Já fez conta de quanto gastará para conhecer os países que inundam seu imaginário com cenas felizes. O moço disse que ela só precisa querer, que beleza ela tem, da refinada, daquela que irá servir perfeitamente para famosas grifes exporem seus produtos. Antes disso, ela não sabia muito bem o que era uma beleza refinada. Agora, ela sabe que é beleza de capa de revista.

Não consegue parar de pensar que, quando partir, Juliene sentirá sua falta. Mas menina de beleza feito a dela, tão refinada, melhor não desperdiçar, certo? Certo mesmo? Desperdício mesmo? Eleonora acha que a amiga tem mais é que aproveitar a boa sorte de ter nascido assim, de beleza refinada, e lamenta não ter nascido com tal atributo. Já Marcílio discorda, acha que seria muito triste se ela fosse embora para viver de beleza refinada.

Juliene sabe tudo sobre corte e costura. Até as pessoas que falam coisas sobre ela, eventualmente a contratam para algum serviço. Depois que as pessoas superam o susto e a ojeriza pelo rosto queimado da moça, em incêndio na casa, que levou embora os pais dela, não há como não apreciá-la. O humor refinado, feito a beleza da irmã mais nova. A inteligência é afiadíssima. E a bondade não é disfarce para comiseração.

O moço a fez acreditar que sua beleza é refinada, digna das capas de revistas e das mais importantes passarelas e de um salário que deixaria tranquilas a ela e a irmã, sendo possível até bons investimentos para o futuro. Ainda assim, se pega repensando o caso, enquanto observa Juliene arrematando um vestido de casamento. Não contou para ela sobre o convite do moço, que não quis adiantar saudade. Daí que sua cachola dá de reverberar pensamento.

O moço lamentou profundamente. Eleonora tentou pegar a vaga, mas sem sucesso. Marcílio ficou tão feliz, que nem conseguiu dizer palavra que fosse. Ela se sentou com a irmã para conversa séria, explicando que, com a beleza refinada com a qual nascera, poderia desfilar as roupas de Juliene, a princípio, pelas passarelas da cidade, nem que fosse pelas calçadas. Com a inteligência afiada com a qual fora abençoada, ela poderia transformar um negócio singelo feito o da irmã, em algo maior e ainda mais especial.

Foi assim que a menina - de beleza refinada e inteligência afiada – se jogou ao mundo que ainda não conhecia. O mundo e suas passarelas corresponderam ao desejo dela. Jogou-se, mas antes compreendeu que, em determinadas jornadas, é preciso levar companhia.

Imagem: Girl at Mirror © Norman Rockwell

carladias.com



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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

JÁ É JANEIRO? >> Clara Braga

Final de ano é sempre assim, não acaba! O ano inteiro voa, os meses passam e a gente nem vê, mas chega janeiro e dezembro não acaba! Tudo bem, não é exatamente dezembro que não acaba, são as férias que não chegam! Saudade de quando dezembro era sinônimo de férias!

O pior disso tudo é que eu já comecei a reparar e todos os sinais estão indicando a mesma coisa, a maioria das pessoas já está de férias ou de recesso, já começou a se preparar para o Natal e para o ano novo e eu estou ficando por fora do babado.
  
Um dos sinais mais claros é o fato do parque estar mais cheio, muito provavelmente são pessoas já pensando em perder peso para a ceia de Natal ou iniciando a eterna promessa de início de ano: emagrecer! Outro sinal são os shoppings ficando mais cheios, espertos são aqueles que começam a fazer as compras de Natal antes da situação se tornar impossível.

Mas o maior sinal de todos, aquele que comprova que de fato todos estão de férias e você está ficando para trás, são os assuntos que se discutem no facebook. Só eu percebo isso ou de fato chega uma época do ano em que os assuntos vão ficando mais leves? Digo leve para não dizer inútil, mas inútil no sentido bom, afinal assuntos irrelevantes são extremamente importantes para descansar a mente. Obrigatório para as férias. E eu estou por fora de todos! Vou passar as férias inteiras tentando me atualizar e é capaz de não dar tempo!

Não curto novela, nunca vi um episódio dessa novela das 21h, mas queria muito saber o que rolou com a Drica Moraes! Estão comparando a atitude da Globo com as soluções das novelas mexicanas! Deve ser algo muito engraçado e eu ainda não tive tempo de descobrir exatamente o que aconteceu.

Outro assusto discutido diariamente é a tal da modelo que usou hidrogel. Esse eu tô 100% por fora, nunca ouvi falar da tal modelo e não tenho a menor ideia do que seja hidrogel, apesar de já ter medo desse nome.

E a discussão da Annita com a Pitty? O que aconteceu? Foi via web ou cara a cara? Afinal, quem é a feminista e quem é a machista?

A quantas anda o The Voice?

O que eu compro pro meu amigo oculto?

O que eu peço de amigo oculto?

O que é confraternização de final de ano?

É muita coisa! E me desculpem os intelectuais, mas nessas férias eu quero mesmo é saber de assuntos nada importantes, esvaziar a cabeça mesmo, conversar sobre assuntos que em nada vão mudar minha vida, para só depois voltar a pensar em trabalho e, aí sim, muitos estudos. E é isso, meus únicos desejos de ano novo são esses: que 2015 seja um ano de muito aprendizado e que 2014 acabe logo!


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sábado, 6 de dezembro de 2014

UMA ALEGRIA, UMA TRISTEZA E A MARESIA
<< Cristiana Moura

Gabriela, de tanto alinhavar a vida e assoprar, fez do cotidiano uma leveza só. Caminha de mãos dadas respirando o mar. Gabi transpira desavergonhada alegria ausente de qualquer retalho de timidez. Seus sorrisos já não flutuam em bolhas de sabão. São sorrisos que bebem da maresia e dos pés quase no chão.

Mas quando a noite vai virando madrugada, por vezes se pode ouvir os suspiros de Gabriela. Ela teme que sua tanta alegria acorde eufórica ilusão — ausência de chão.

Tomou café. Havia acordado como quem desperta de doze anos de sono. Seu coração e seu prazer, juntos, hibernavam. Gabi acordara em dia ensolarado. Ora, em nossa terra quase todos os dias são plenos de Sol ardendo na pele e na vista. Ela se desfez das cortinas porque decidiu que se o dia clareou, sua vida e sua casa também vão clarear.

Passaram-se semanas. Não houve mais mãos dadas e areia. Desejou recolocar as cortinas e adormecer longamente. Uma única lágrima deslizou do olho, como que em câmera lenta, até que ela sentisse seu próprio sal na boca. Era mais uma ilusão como ela tanto o temia. Mas para seu espanto, ao lamber os lábios foi diferente. Era gosto de si mesma na ponta da língua muda de tristeza.

Gabriela entendeu que a alegria da brisa ao caminhar, a do encontro do olhar com o outro olhar, são alegrias que moram em seu corpo. E que esta inquilina é irmã da tristeza que por vezes a visita. Passou um batom cor de laranja como quem quer se colorir de pôr do Sol e foi respirar a brisa salgada do caminhar à beira-mar.


Para conhecer melhor Gabriela leia também UM SORRISO NUMA BOLHA DE SABÃO
http://www.cronicadodia.com.br/2014/07/um-sorriso-numa-bolha-de-sabao.html




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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

CONSTRANGIMENTOS NÃO MUITO LEGAIS
>> Zoraya Cesar

Situações constrangedoras fazem parte da vida. Saber sair delas com classe é uma arte que nem todos dominam. Algumas das mais difíceis talvez sejam as que envolvem encontros romântico-sexuais.

As histórias a seguir são verdadeiras e poderiam ter acontecido com você. Oh, desculpe, com você, jamais — talvez com um amigo, uma conhecida, a prima do cunhado de sua tia-avó. Ou algo assim.


O Gato francês

Ele era lindo, e tinha sotaque francês. Parecia um anúncio de cinema, quase um Alain Delon. Quase, porque Alain Delon é único. Era cobiçadíssimo por todas as mulheres da empresa. 

Uma noite, durante uma happy hour do grupo, Lila se vê agarrada pelo Fulano Francês, aos beijos e abraços pegajosos e cada vez mais promissores. Ela vai ao banheiro, alvoroçada, as amigas atrás. Mulheres no banheiro, sabe como é. Não sabe? Dou uma ideia, sem revelar os segredos da confraria. O banheiro passa a ser uma gaiola cheia de maritacas entusiasmadas em ajudar a amiga a ter uma noite inesquecível. Ajeita o vestido, usa o meu batom, pega esses lenços umedecidos (se você não sabe para que servem, eu não vou dizer), leva umas balinhas de hortelã... Lila passou por uma fast glamour session, como só mulheres sabem fazer, e saiu esplendorosa para o encontro. Representaria todas as mulheres da empresa, a primeira a sair com o Fulano Francês para um motel, não podia fazer feio, para ter como contar todos os detalhes depois (e você pensando que só os homens fazem isso, hein?).

Lila estava elétrica de desejo. O homem era lindo, beijava bem, pegava bem, devia ser um deus na cama. 

Chegaram ao motel. Tiraram a roupa. No quarto é que, um pouco mais calma — e um pouco menos bêbada — Lila notou uma sacola em cima da mesa. Vocês sabem que mulher é bicho curioso, não importa a situação, não mesmo? Andando nua pelo quarto, fazendo o Fulano Francês babar de desejo, foi até a misteriosa sacola, ver o que tinha dentro.

— Uau, você comprou um monte de cuecas, todas brancas — espantou-se.

— Sim — respondeu ele — só uso cueca branca, que é pra saber quando está na hora de trocar...


O cachorro-quente

Homens acham, com perdão da palavra chula, um saco levar a mulher pra jantar e ela ficar de nojinhos, não posso isso, aquilo engorda, me dá uma saladinha de alface. Sair pra jantar é sair pra comer, oras, e não ficar de entojos. E há uma crença atávica nos homens que, se a mulher é boa de garfo, é boa também de cama. Não me perguntem de onde veio isso, não tenho a mínima ideia.

Marilise estava a par dessa particularidade. Por isso, quando finalmente conseguiu sair com Carlinhos, não se fez de rogada. Sabia que, depois do jantar iriam ao motel pela primeira vez. E a primeira vez, Marilise sabia bem, era fundamental.

O restaurante era desses indianos pós-modernos. Querendo impressionar e mostrar que era boa de garfo, ela pediu um cachorro-quente com pimenta vermelha, chili e açafrão, acompanhado por salada de brócolis. Tudo bem pra você?

Ao chegarem ao motel, Marilise já sentia os primeiros sintomas de uma revolução intestinal. Suando frio, desvencilhou-se do abraço de Carlinhos com um riso nervoso e a clássica frase que toda mulher, mas toda mesmo, já pronunciou: “preciso ir ao banheiro antes”. 

E para lá correu, na hora exata. Mais um micronésimo de segundo e o desarranjo intestinal ter-se-ia esvaído ali, no tapete do quarto. Os minutos foram longos e dolorosos. Carlinhos bateu à porta, perguntando se estava tudo bem. Não, cretino idiota, pensava ela em cólicas, é claro que não está nada bem. Depois da diarreia, a segunda parte do pesadelo: a descarga era fraca, não dava conta de todo aquele esgoto despejado no vaso. Terceira parte do pesadelo: o cheiro nauseabundo que empesteava o ar. Que azar, chorava ela, logo na primeira noite. Não podia deixar Carlinhos entrar no banheiro, de jeito nenhum.

No entanto, depois de tanto tempo esperando, Carlinhos sentiu necessidade de esvaziar a bexiga. E homem quando está com vontade de fazer xixi não consegue levantar o ‘companheiro’, por mais boazuda que seja a mulher. 

Ele entrou. Entrou, quase desmaiou, e saiu, dizendo que era melhor deixarem pra outra noite. Só que Marilise não estava mais no quarto.


Próximas

Um dia eu conto o caso da mulher que soltou um pum barulhento e fedido no meio do primeiro jantar que teve com a sogra; do sujeito que levou a camisinha usada — mas lavada! — pra não jogar fora e contaminar o meio ambiente; do cara que tinha um mau hálito tão podre que... Depois eu conto.



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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

CONSELHOS GENÉRICOS >> Fernanda Pinho



Dizem que “se conselho fosse bom, a gente não dava, vendia”. Balela. Tem tanta coisa boa que a gente não vende: beijo, abraço, companhia, sorriso. E a maior prova de que a máxima não passa de uma frase vazia, repetida por desacreditados, é que na mesma proporção em que ela continua sendo dita, seguimos a pedir conselhos. Eu sempre peço conselhos. E com uma frequência ainda maior sou procurada para dar conselhos. 

Bom, ainda não entendi bem o que motiva algumas pessoas a recorrerem a mim (Justo a mim! Tão impulsiva e insensata) quando precisam de uma palavra de apoio ou de ouvir umas boas verdades. Mas uma vez procurada para este fim, tento falar aquilo que eu realmente acredito. Não fosse assim, me sentiria uma pessoa fria, calculista e manipuladora. Tenho notado com os anos que “aquilo que eu realmente acredito” segue um certo padrão. Não importando qual é sua situação. Minha linha de raciocínio é basicamente a mesma.

O que tento fazer quando alguém me pede um conselho é aplicar a Lei dos 90 Anos. Não adianta procurar referências em livros de legislação porque fui eu quem inventei. Consiste em basicamente pensar em você mesmo com 90 anos e imaginar a importância daquele problema atual na sua vida depois de décadas. Pela minha experiência em decana na Lei dos 90 Anos, já percebi que isso basicamente leva a três caminhos:

1 - Desvalorize o problema: O mais comum. Às vezes a gente dá importância demais a coisas que quando misturadas à nossa biografia versão estendida não terão a menor relevância. Problema no trabalho? O máximo que pode acontecer é perder o emprego e até os 90 anos você certamente terá encontrado outro (espera-se). Gente te caluniando ou virando as costas pra você? Espera pra ver quantas voltas o mundo dá em cinco ou seis décadas. Problemas familiares? Não adianta esquentar a cabeça. Eles continuarão a se repetir em loop infinito, mudando apenas o foco de atenção. 

2 - Se joga: Geralmente, este é o caminho que eu sigo quando o problema envolve dúvidas. Aceito ou não a nova proposta de trabalho? Aceita. Se o trabalho atual fosse tão maravilhoso você nem seria mordido pela dúvida. Faço ou não faço aquela viagem sozinha? Se você tem a oportunidade, faça. Não espere por ninguém. Invisto ou não invisto nesse amor que parece tão errado? Invista. Amores que parecem errado podem dar certo e amores que parecem certo podem dar errado. É 50% de chance para todo mundo. O ponto aqui é pensar: "eu não quero chegar aos 90 anos e ter arrependido de não ter tentado". (Nota: sim, já me estrepei muito por levar isso a sério. Mas minha bagagem de arrependimentos é leve como uma pluma). 

3 - Faça a sua parte e tenha fé: Tem problemas que realmente não podem ser desvalorizados e precisam ser enfrentados de maneira muito mais complexa do que fazer uma escolha entre duas opções. Um problema de saúde, um problema na justiça. Nesse caso, não vejo outra saída: faça tudo o que estiver ao seu alcance e acredite que, lá na frente (quando você tiver com 90 anos), você verá com clareza que aquela situação te ajudou a ser uma pessoa melhor. 

Agora, se você estiver em uma situação em que de forma alguma poderemos aplicar a Lei dos 90 Anos, nem adianta me procurar na esperança de ouvir palavras bonitas. Eu realmente não saberei o que dizer. Mas terei sempre um beijo, um abraço, minha companhia e um sorriso. Tudo de graça.

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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A OUTRA >> Carla Dias >>


Eu morava em outro lugar que não aqui. Morava nesse não-sei-onde, e vivi uma vida por lá. Não tinha vizinhos, mas os amigos sempre apareciam. Não tinha vizinhos, mas tinha um lago no fundo da casa, onde eu molhava os pés, diariamente. Não, eu não mergulhava no lago, apesar de desejar fazê-lo. É que, mesmo nesse outro lugar onde eu morava, eu não sabia nadar. Projeto para a próxima existência: aprender a nadar para ficar de molho no lago, em dias de verão.

Eu era outra pessoa nesse lugar outro que não aqui. Tinha cara, voz e nome diferentes, andava em uma cadência que não reconheço. Vestia roupas que nunca moraram em meu guarda-roupa. Olhando daqui, aquela era uma pessoa que eu seria não estivesse ocupada com quem sou. Afinal, aqui o tempo voa, as contas aumentam, a correria é companhia constante, temos de pensar mil vezes, antes de revelar benquerenças, para que elas não sejam confundidas com banalidades, a mais pura conversa fiada para adulação.

A outra fazia longas caminhadas, porque não tinha medo de conhecer caminhos. Sua cabeça não era tomada por listas de afazeres, enquanto contemplava a morosidade de um fim de tarde qualquer. Não lhe inquietavam a tecnologia e as grandes descobertas, porque reconhecia seu lugar de pessoa a ocupar um espaço na vida que não lhe exigia sincronia com determinados assuntos, porque é preciso que também exista aquele que escolhe a sabedoria da simplicidade como guia da sua existência. Assim, ela tinha jardim, cadeira de balanço, noites bem dormidas, crianças correndo pela casa, amor de juventude ainda vigente. Horas para gastar com livros e discos, pessoas com quem papear sem o ímpeto de olhar no relógio, apressando o fim da graça e prazer de um encontro, por conta de um compromisso de negócios.

Tenho certeza de que ela nunca disse “o tempo está passando muito depressa, de jeito que não consigo acompanhar”, porque ela nãos disputa com o tempo. Não precisa, tampouco deseja saber quem passa mais rápido.

Eu morava em outro lugar, sendo outra, ainda que sendo eu mesma. Daqui, dessa vida que eu tenho, e que construí por meio de escolhas nem sempre acertadas, eu a observo com nostalgia, como se tivesse experimentado aquela história. Imagino que, diferente de mim, às vezes ela lance a mim olhares desinteressados, voltando-se de pronto a sua própria realidade.

Deve existir um lugar entre lá e aqui, onde eu possa morar em paz com as versões de mim, tornando-me um pouco mais bondosa comigo mesma. Esse ponto de encontro das águas, esse espaço que existe para confortar a alma da gente.

Até de descobri-lo, daqui eu observo a eu de lá, imaginando como seria encontrá-la para uma longa e honesta conversa.

Imagem: freeimages.com



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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

PRATICANDO O DESAPEGO >> Clara Braga

Descobri que não tem coisa mais legal e ao mesmo tempo mais chata e mais trabalhosa do que fazer mudança! Toda e qualquer tipo de mudança é trabalhosa, chata e legal, mas eu estou me referindo a mudança física de endereço. Sair de uma casa e ir morar em outra.

Já morava no mesmo lugar há quase 20 anos, e a quantidade de coisa que acumulei nesse tempo e nem sabia é caso de psiquiatra! Eu tinha consciência de que gostava de guardar coisas que, ao meu ver, talvez fossem desnecessárias. Mas o peso desse talvez não permitia que eu me livrasse das tais coisas.

Cada caixa fechada eram várias histórias que iam sendo lembradas e relembradas. Memórias que eu nem sabia que eu tinha. Mas o desespero batia quando eu olhava para o quarto e ainda parecia que eu nem tinha começado a encaixotar minhas coisas. Uma caixa aqui e outra ali foi rapidamente virando um monte de caixas que continham até livros iguais. É tanto livro que eu já não lembrava mais o que eu mesma tinha comprado, ou seja, acabei comprando de novo.

Não tive dúvida, aproveitei o clima de final de ano, essa sensação de renovação de energia, e decidi praticar a arte do desapego. A última lembrança que eu tenho de um desapego tão difícil de ser feito é de quando eu tive que me desfazer da minha chupeta. Se eu fosse contar nos dedos quantas vezes eu tentei me desfazer da minha chupeta, não caberia. Mas se essa é a última lembrança, já dá para imaginar que essa arte não é das minhas favoritas.

Sacos de 100 litros de lixo foram doados com roupas que chegavam a ser novinhas em folha. Mas claro, como uma boa acumuladora, ainda tenho um daqueles vestidos que a gente guarda para quando emagrecer. Os livros também foram doados. Alguns eu confesso nem ter lido, mas a lista de livros para ler ainda está tão grande que eu preferi deixar que outras pessoas lessem esses livros antes de mim. Depois, se for o caso, pego emprestado com algum amigo ou algo do tipo. A quantidade de sacos de lixo com lixo também foi assustadora! Como alguém pode produzir tanto lixo? Fiquei mais abismada ainda depois de ler a tal notícia que está rodando pelas redes sociais agora, a menina que não produz lixo há 2 anos… preciso passar uns tempos com ela urgente.

Enfim, sei que há uma semana estou morando nesse novo apartamento que ainda não tem muita cara de lar doce lar, já que ainda está lotado de caixas empilhadas. Mas o medo de encarar essas caixas está grande. Sei que ainda falta desapego para ser praticado, mas acho que mais do que eu já fiz é demais para mim, afinal, na última caixa que eu abri tinham fitas VHS com shows do Hanson e uma outra com Lua de Cristal! Quem se desfaz de Lua de Cristal?


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domingo, 30 de novembro de 2014

EM BUSCA (DA PALAVRA) DE UM SONHO
>> Eduardo Loureiro Jr.

Ele teve um sonho em que a canção "Como uma onda" era cantada com uma pequena e curiosa alteração na letra: em vez de "não adianta fugir nem mentir pra si mesmo", ouvia-se "não adianta estrudir". Ele olhou para sua namorada do sonho, enquanto esperavam pelo horário certo para descer à estação do metrô, e os dois sorriram da mania dos intérpretes de alterarem a letra das canções. Mas, ao final do riso, ele ficou se perguntando se não se tratava de uma mania dos ouvintes de escutarem errado as letras das canções: ele mesmo, durante muito tempo, achava que "tocando B. B. King sem parar" era "tocando de biquíni sem parar". Então pensou que seria bom consultar um dicionário para ver se existia a tal palavra — estrudir — e se ela fazia sentido no contexto da canção. Como não havia dicionário no sonho, ele teve que procurar ao acordar.

Nem o Houaiss nem o Caldas Aulete conheciam a palavra estrudir. O sonhador também procurou a grafia com x, mas extrudir também não constava na lista de vocábulos. A busca terminaria ali não tivesse ele se lembrado de que, na véspera, pouco antes de dormir, havia lido algumas páginas em inglês. Resolveu então, como uma última tentativa, pesquisar pela palavra extrude no Merriam-Webster... e a palavra estava lá, com seu duplo significado: 1. Forçar, pressionar, expulsar; 2. Dar forma (a metal ou plástico) forçando-o através de um molde.

Resolveu voltar ao dicionário em português, pois, ao pesquisar o verbo extrudir, que não existia, tinha visto um substantivo parecido: extrusão. Os significados eram dois: 1. Saída forçada; expulsão; 2. (tecnologia) Passagem forçada através de um orifício de uma porção de metal ou de plástico, para que adquira forma alongada ou filamentosa. Os mesmos significados do verbo em inglês, apenas inexistia o verbo em português, embora exista o adjetivo extrudado, significando "que sofreu extrusão". A etimologia indica que a palavra se origina do verbo latino "extrudĕre", que quer dizer "expulsar, expelir violentamente". Ou seja, o verbo em português também poderia existir. O Houaiss lista uma única locução associada a extrusão: "extrusão vulcânica (geologia), saída de lava muito compacta, que se consolida obstruindo a cratera vulcânica".

O sonhador resolveu testar se alguém, além do intérprete da canção do sonho, usava o verbo, e fez uma pesquisa no Google: vulcão extrudiu. Descobriu que "magma basáltico extrudiu" e "fluxos de lava podem extrudir".  Lembrou que, na véspera, com o controle remoto apontado para a TV, pensou em assistir ao filme "Pompeia", que trata da erupção do vulcão Vesúsio, mas optou por assistir ao documentário "Filhos de João — o admirável mundo novo baiano", a respeito do grupo musical Os Novos Baianos.

Ficou pensando se seria essa a mensagem do sonho: não adianta extrudir o vulcão de uma Pompeia hollywoodiana, é melhor assistir a um documentário brasileiríssimo. Mas havia aprendido que o sonho costuma ter várias significações simultâneas, pelo menos uma delas mais profunda que o dilema de um telespectador. Telespectador... Talvez seja isso. O documentário alimentou a vontade do sonhador de aprender um novo instrumento, uma gaita, vontade que ele teve enquanto vinha no ônibus para casa. Ônibus que, em determinado semáforo, ficou parado em cima de trilhos por onde já não passam trens. Ônibus que passara a um quarteirão e meio da casa da sua namorada do sonho, uma ex-namorada da vida acordada.

Não, não fazia sentido ainda. O sonhador estava se perdendo em sua busca. Resolveu investigar se os Novos Baianos haviam gravado "Como uma onda"... Não. Mais uma pista falsa.

Ele estava desanimando. Os sonhos não fazem sentido, disse para si mesmo, melhor desistir deles. Pensou em deixar tudo como estava. Havia muito o que fazer no dia: retomar uma alimentação mais frugal após dias de açúcar e farinha de trigo; lavar roupas; tocar violão, assistir a um filme, deitar numa rede na varanda...

Mas uma pergunta lhe ocupava o juízo: Por que não adianta extrudir em vez de não adianta fugir? Por que não adianta expulsar, expelir? E expelir o quê? De que magma, de que fluxo de lava se está falando e cantando? Se não é o caso de expulsar, expelir, o que se deve fazer? O oposto?

Ele voltou aos dicionários, dessa vez em busca de antônimos... Antônimos de expelir: aspirar, digerir, absorver. De expulsar: empregar, admitir, alojar, convidar. Ainda incerto quanto ao sentido do sonho, ele resolveu tentar os substantivos. Não constavam antônimos de expelição. De expulsão: entrada, ingresso. Essas palavras o fizeram lembrar que, no sonho, um pouco depois de eles rirem da palavra estranha na canção, ele perguntou para a namorada: "Vamos pegar o próximo metrô?". A resposta dela veio não com palavras mas com a ação de caminhar. Ele a seguiu.

Não havia uma escada. Eles estavam em um monte, que começaram a descer entre pedras. Havia que se cuidar em cada passo. Na tela onírica dele, viam-se apenas os pés e as pernas deles, principalmente dela. Ele seguia seus passos, procurando pisar perto de onde ela pisava. Descendo e fazendo curvas, eles chegaram ao ponto de entrada, de ingresso. Entraram.

A câmera do sonho deixou de acompanhá-los e foi subindo do chão para a linha do horizonte. Seriam eles os personagens de um documentário? Havia uma estrada e um posto de gasolina. Em seguida, se movimentando para a direita, a câmera mostrou um moderno estádio de futebol. Depois, um conjunto de casas coloridas, à moda antiga. As cores das casas foram aquarelando como uma onda que se aproximasse. Uma onda grande que cobriu as casas, mas, enquanto o sonhador temia que as casas fossem destruídas, a onda se desfez em sua própria nuvem de espuma. A câmera do sonho não estava mais no monte, havia se deslocado para a própria estrada e se movimentava nela, como se estivesse colocada na traseira de um veículo terrestre bem alto ou de um veículo aéreo bem baixo.

Enquanto a estrada que margeava o monte era filmada, o sonhador procurava ver a si mesmo e a sua namorada do sonho, ou mesmo o metrô, que poderia subir à superfície em algum momento. Mas nenhuma imagem dele, dela ou do metrô apareceu. Assim como havia se concentrado antes nos passos dele e dela, a câmera agora focava nos detalhes do chão da estrada: faixas tracejadas, faixas contínuas, retentores de velocidade... Os cinzas do asfalto ocupavam toda a tela onírica. Seria um bom fundo para exibir os créditos de um documentário. Mas as palavras não apareceram.

O sonhador acordou com uma vontade que havia expulsado, expelido de si há algum tempo. Alojada, hospedada em seu pensamento havia uma ideia. Ele precisou ficar um tempo deitado, ainda de olhos fechados, para digeri-la, absorvê-la. Ele a reconheceu de muitos e muitos domingos atrás. Era uma vontade de escrever. Não a vontade caudalosa e cheia de prazer dos tempos antigos, mas uma vontade miúda e dolorida, como um cisco no olho vermelho do coração.

Ele se levantou, bebeu um copo d'água, colocou o celular para carregar, mijou, lavou as mãos e o rosto, escovou os dentes, penteou o cabelo, vestiu a camisa, dobrou o lençol, desarmou a rede, desligou as lâmpadas externas da varanda, abriu janelas e portas, comeu uma laranja, bochechou um pouco d'água para que o sumo ácido da laranja não lhe causasse aftas, sentou-se ao computador, viu seus e-mails, entre eles o de uma amiga leitora que comentava uma antiga crônica sua, começou a responder o e-mail e, quando estava digitando "nos últimos anos, perdi a vontade de escrever", descobriu que a vontade perdida estava ali, ainda estava ali, miúda e dolorida. Ele interrompeu a resposta do e-mail, abriu uma nova aba do navegador e acessou o blog na má esperança de que hoje não fosse o seu domingo e sim o domingo do outro escritor com o qual ele deveria alternar as quinzenas (embora não o fizesse há meses), do outro escritor que era o escritor de verdade (e não um escritor de sonho), do outro escritor que não havia perdido a vontade de escrever. Mas o outro escritor já havia escrito na semana passada. Este domingo era dele.

O sonhador então, cheio de medo, abriu uma nova postagem, escolheu um título e começou a desobstruir sua cratera vulcânica...

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