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Mostrando postagens de 2014

FELIZ CADA DIA DA SUA VIDA >> Carla Dias >>

Último, não o primeiro, aquele que deixa o frescor perambulando na alma da gente. O último, já com o saudosismo temperando - com o condimento da distância - os cometimentos menos palatáveis, dos quais fomos autores durante os dias anteriores.

O último dia calcado em contagem regressiva, calendário pronto para ganhar o lixo, champanha, refrigerante, branco: olhar para peneirar fogos de artifício. As listas que reverenciam o ano que chega com questões ancestrais, dependuradas no varal do esquecimento, pela quarta, quinta vez? Não há como passar a borracha e chamar de começo, mas é possível falsificar resolução e determinar recomeço.

Como se já não recomeçássemos a cada tombo.

Não é lamento, mas sim prefácio, meus caros. A minha lista de Ano Novo vem repleta de afazeres percussores de regalos, que desejo a todos que se tornem capazes de reconhecerem – sem medo, pudor ou enfeites – o que lhes aproxima da realização de um sonho.

Para a busca por outras realizações, temos o horário comerci…

SOMOS TODOS BRINCANTES >> Clara Braga

Escolhi o dia de hoje, penúltimo dia ano para assistir a um filme que há muito eu vinha querendo assistir e acredito que não poderia ter tido um dia mais propício para isso do que hoje. Depois de acompanhar algumas retrospectivas do ano marcado por momentos bons, mas, essencialmente tragédias, mortes e doenças causadas principalmente pela tristeza, o filme Tarja Branca nos faz refletir e lembrar da importância de um poderoso remédio: a brincadeira!
Não entendo como podemos ter tanto preconceito com algo tão natural ao ser humano. As pessoas não brincam mais por serem forçadas o tempo todo a serem sérias, mas será que ninguém nunca observou a seriedade com que uma criança leva o seu momento de se divertir? Alegria e trabalho, alegria e seriedade, brincadeira e produtividade, quando foi que esquecemos que todas essas coisas andam juntas e não separadas? Afinal, não é brincando que aprendemos a solucionar nossos primeiros problemas? Não é brincando que começamos a aprender o que é pesqu…

MIGALHAS >> Sergio Geia

Parafuso

Sou tomado por uma inspiração das mais elevadas, chego a dizer quase divina. Sinto meu pensamento, minhas ideias, meu modo de ver o mundo sendo lavados por uma máquina lavadora gigante, dessas que você não encontra nas Casas Bahia, e que só pode ser coisa do céu. Sabe aquela história de criança que escuta o estrondo do trovão, e a mãe vem dizendo que São Pedro tá arrastando os móveis e lavando o céu? Daí o barulho? Pois é. Só pode ser coisa do céu. Só pode ser máquina de São Pedro. Sinto — aliás, não sinto; ou sinto depois, isso sim — que a cabeça viaja e se desliga do mundo. Sabe quando você está dirigindo por uma estrada conhecida, a música do rádio tomando conta, e você simplesmente desliga? O Nirvana? Não sei. Só sei que é assim. E quando acordo tudo está diferente. Mas o pensamento, ah!, o pensamento, é a melhor parte. O pensamento está leve como um graveto. Límpido, arejado, como boiar no mar. E você descobre que a vida é muito simples de ser vivida. Mas dura pouco esse…

LIMPEZA CEREBRAL >> Paulo Meireles Barguil

Que o cérebro consome lixo, eu já sabia.

Para evitar tal tipo de contaminação, várias estratégias são possíveis, de modo especial, evitar contato com tais fontes radioativas.
Ciente também eu era de que sentimentos, pensamentos e comportamentos também podem ser nocivos à nossa saúde, motivo pelo qual precisamos, continuamente, nos purificar, adotando as práticas com que mais nos identificamos: atividade física, meditação, oração, passeios na natureza, respiração, terapia... Eu ignorava, contudo, o fato de que o cérebro também produz imundície e de que no sono ocorre a limpeza do mesmo, via sistema glinfático — em referência às células da Glia, nele localizadas, que funciona de maneira similar ao sistema linfático, responsável pela purificação do corpo. Há dois anos, cientistas da Universidade de Rochester, que fica no Estado de New York, publicaram um artigo na Science Translational Medicine, sobre a descoberta de um sistema de asseamento do cérebro, que consiste na retirada com o f…

NATAL, PANETONE, HOT WHEELS E SABONETE >> Mariana Scherma

Natal não é dos meus feriados preferidos, nem de longe. Sou meio do contra, um pouco Grinch e considero ser muito mais romântico e agradável um domingo chuvoso, preguiçoso, meio sem ter o que fazer, meio sem ter que confraternizar. Natal é o feriado da gulodice, dos presentes pra quem você, por várias vezes, falou ou pensou mal durante o ano, mas aí dá uma caixa de sabonete e beleza, sua barra está limpa. Ou você pensa que está.
Natal é o dia de fazer velhinhos barbudos sofrerem embaixo daquela roupa quente que é o caramba. Aliás, cada dia mais eu tenho dó do bom velhinho. Você já reparou que os enfeites com o Papai Noel estão cada vez mais perigosos? Toda vez que me deparo com um Noel pendurado em uma janela de um andar bem alto do prédio (mesmo sendo um brinquedo) fico com vontade de ligar para os bombeiros. O velho não tem mais idade (nem porte físico, nem dons de Homem-Aranha, veja bem...) para essas estripulias, coitado.
Não acredito que as pessoas são quem realmente são no Natal. …

NÃO SOMENTE PARA AMANHÃ >> Carla Dias >>

Sopa quente em dia frio. Dinheiro achado nos bolsos dos casacos, antes de dia de pagamento. Espaço vazio onde deslizar de meias e dançar, sentindo-se o Mikhail Baryshnikov ou o Sidney Magal. Fim de tarde a observar horizonte. Fim de espera a abraçar quem estava além do horizonte, mas voltou. Cinema às quatro da tarde de uma quarta-feira. Televisão em dia em que necessitamos do abraço dos cobertores. A celebração de um nascimento. O primeiro dia de escola do filho. O casamento do filho. Os netos a brincarem no quintal. A viagem dos sonhos. Sonhar a viagem dos sonhos. A palavra certa, dita no momento certo por alguém que você não faz a menor ideia de quem seja. Esbarrar com um dos seus ídolos na rua. Escutar aquela música... Sabe qual? Aquela... Escutá-la tocar durante a festa do vizinho. Vinho. Casa iluminada por velas, em dia de jantar especial. Chá de camomila, sempre. Se não de camomila, chá, o seu preferido. A roupa mais confortável, raramente a mais apresentável. Gargalhada de be…

Á minha nutricionista >> Clara Braga

Sempre gostei desse clima de renovação e recomeço que o ritual do ano novo nos proporciona. Somos seres cíclicos, esse recomeço faz parte de nossas vidas e, por mais que digamos que não, gostamos disso, é uma oportunidade de nos reinventarmos. O que eu sempre questionei é a necessidade de se deixar tudo para o próximo ano e só ter esse espírito esperançoso perto do natal. 
Não podemos procurar um novo emprego esse ano? Não podemos começar a academia esse ano? Não podemos ser mais amigáveis? Não podemos ir atrás dos nossos sonhos? 
Acho que podemos nos reinventar sempre que sentirmos necessidade, a não ser quando o assunto é dieta! Fui quebrar os meus próprios paradigmas e comecei uma dieta com o acompanhamento de uma nutricionista no mês de novembro, e agora me pergunto se não seria melhor ter deixado a dieta como uma promessa para 2015. Tudo bem que eu prometo isso todos os anos e não começo, por isso comecei ainda em 2014, mas quem consegue manter uma dieta em dezembro?
Por isso, h…

MAIS UM NATAL ESTRANHO >> Zoraya Cesar

Àquela hora tardia da véspera de Natal, pelas ruas quase desertas circulavam apenas os perdidos, os avessos à festa e os poucos que ainda voltavam para casa. 
Vamos nos ater aos perdidos. Desses, alguns procuravam um lugar, um alguém, um milagre, qualquer coisa que transformasse aquele Natal numa ocasião feliz.
Bem vestido, bem apessoado, bem abatido e acabrunhado, o homem caminhava lentamente, arrastando, como bolas de ferro presas aos pés, o peso de uma decisão desesperada. Tão despercebido estava, imerso em pensamentos sombrios, que nem se deu conta de que entrara em uma Igreja.
Era uma construção antiga, de pedra e madeira, pouco iluminada, cheirando a sândalo e rosas. O homem despertou de si mesmo. Que estranho, notou. Os altares estavam vazios de santos, e os bancos, de fieis. Por que estaria aberta?
Porque, certamente, o padre ceava com os paroquianos, concluiu, ao ouvir vozes vindas da sacristia. Virou-se para ir embora, seu lugar não era ali.
– Entre, meu filho, coma alguma …

PREZADO 2014 >> Fernanda Pinho

Sei que nossa convivência já está caducando, mas ainda sigo a te dispensar um tratamento polido, posto que não consegui estabelecer um grau mínimo de intimidade com você. E nem pretendo fazê-lo nos 14 dias que nos restam. Aliás, não pretendo mais nada com você e antes que me acuse de ingrata já me adianto nas explicações. 
Não acho que você tenha sido um péssimo ano. Aliás, nunca tive um péssimo ano. Sempre que eu chegar viva e com saúde ao final de mais um dezembro, considerarei o ano acabado como, no mínimo, “ok”.
É isso. Você, 2014, foi um ano ok. E não sou eu quem estou dizendo. Quer dizer, eu também estou dizendo, mas para não ser leviana (para usar um termo muito repetido nos seus dias) consultei várias outras pessoas. E, sem querer te desanimar nem nada, muitas concordaram comigo. Você foi um ano pesado. Difícil de carregar, difícil de empurrar. Passar pelos seus dias foi como atravessar campos de areia movediça usando salto alto. 
Talvez seja por isso que, em alguns pontos do…

SÓ MAIS UMA PERSONAGEM >> Carla Dias >>

Lá vai ela, arrecadando suspiros, cultivando pensamentos nas cacholas alheias. Andando descalça no jardim da vida, dançando ao som da música que mora em sua memória, enchendo os olhos dos curiosos de delicadeza.

Contadora de histórias experiente, já inventou cento e cinquenta e sete personagens, com os quais convive pacificamente. Uns moram na sala de sua alma, outros na cozinha, há aqueles que, apreciadores profundos de certa mordomia, moram no sofá da sala e adoram assistir novela. Há até poeta que se levanta no meio da noite para resgatar poema ignorado durante o dia, só para poder declamá-lo na boca da madrugada.

Lá vai a moça que aprecia uma boa inquietude, que reage a elas a contento, que tem ciência de que amor dá trabalho, mágoa é desperdício de tempo e acerto nem sempre é resultado da escolha feita. Que os erros nasceram para nos abismar com seu jeitinho de cultivar avessos, e para nos mostrar o que pode ser aperfeiçoado. Ela que não tem problema que seja para assumir o erro…

AUTORRETRATO OU SELFIE?? >> Clara Braga

Lembro de ter estudado sobre o tal do selfie na faculdade. Não exatamente o selfie, até porque na minha época ele tinha outro nome, era autorretrato, mas o princípio parece ser o mesmo. Mas é só o princípio que parece, pois os fins são bem diferentes. Na minha opinião, até o nome autorretrato é mais poético, selfie soa algo um tanto egoísta, mas pode-se dizer que a carapuça serviu.
Lembro de uma professora falar sobre o autorretrato. Resumindo por alto, é mais ou menos a técnica de se autopintar ou fotografar, enfim, se autorretratar dentro de um contexto significativo para você. Ou seja, o autorretrato está ligado à subjetividade, já que o que é significativo para você não necessariamente é significativo para os outros, está relacionado aos sentimentos. E é exatamente nesse ponto que eu me pergunto, onde foi parar o sentimento dos autorretratos?
Frida Kahlo foi uma grande pintora que criou uma quantidade enorme de autorretratos. Agora eu pergunto, você consegue imaginar a Frida sent…

"MEIN KAMPF" >> Albir José Inácio da Silva

“Deste tribuna eu querro hoje mostrar parra vocês o meu luta! O meu luta no vida e nesta parlamento! Cala o seu boca que eu não estar gritando, eu ser veemente, esta é a minha temperramento! E chame aquele senhorra que falou bobagem sobre ditadurra, eu precisa repetir parra ela que não a estupro porque ela não merrece.
Devo informar que essa negócio de estupro é uma vingança, eu explica porquê. No infância, durrante o carnaval, uns garrotos, fantasiados de mulher, se aproveitarram de mim. Na horra eu até gostei da brincadeira. Mas depois descobri que erra pecado e eu ia parra o inferno. Fiquei muito mal e me tranquei no armárrio.
Durrante muito tempo eu sofria. Parreceu que não tinha mais jeito. Isso é que nem mordida de vampirro, depois que acontece, a gente se transforma.  A minha sorte é que eu encontrei um psicólogo, o Dr. Marracutaia, que é especialista em curra gay. Além de me currar, ele ainda me casou com um mulher parra evitar recaídas.
Agorra estou tão currado que estupro m…

GENTE É OUTRA ALEGRIA >> Eduardo Loureiro Jr.

A alegria do Enzo é assobiar. E fazer caretas. E ouvir o ruído da descarga sanitária a vácuo. E ver um ônibus sanfonado. E contar-lhe as rodas. E passear com seu tio. E rever sua avó.

A alegria de Manu é tocar violão. E assobiar passarinhos. E escrever poemas. E recitar poemas para sua filha. E dizer que seus poemas viraram canção no violão do amigo. E ver uma menina dançar ao som de seu reggae. E ser um interno do pátio. E falar de seus alunos.

A alegria do Fabiano é falar com pessoas. E ouvir histórias. E traficar pó...esia. E ver crianças lendo. E crianças contando. E crianças cantando. E crianças dançando. E crianças rindo. E crianças, crianças, crianças. E tirar fotos. E falar de amores com seu amigo. E contar suas alegrias desde o tempo de menino.

A alegria do Fábio é abraçar seu amigo. E continuar no abraço. E prolongar o abraço ainda um pouquinho. E dizer que estava precisando disso. E ver o sorriso de sua filha. E admirar o som de um novo violão. E dizer uma ou outra ironia. E…

AONDE QUER QUE EU VÁ... >> Sergio Geia

Campinas. Shopping Center Iguatemi. Livraria Saraiva. Vejo um sujeito de bermuda estampada lendo “Época”. Um japonesinho sentado ao seu lado se lambuzando num McFlurry. Um cara grudado no celular. Uma loura muito das gostosonas com uma porção de livros no colo. Com vontade de ficar na loura, mas já indo, encontro agora, ou reencontro, melhor dizendo, a página 197, que tem no centro a grande frase que dá início ao capítulo: “Amigos são os Paralamas e o Herbert Vianna”.
Estava procurando um livro de crônicas, quando dei com a foto do Marcelo e a frase “Não se preocupe comigo”. Dei uma lida rápida num capítulo escolhido aleatoriamente, e achei que valia a pena prestar um pouco mais de atenção naquilo tudo que ele dizia.
Marcelo Yuka. Baterista d’O Rappa. Época maravilhosa. Projetos. Planos que iam muito além d’O Rappa. Na José Higino. No Rio. 9 de novembro de 2000. 9 tiros. Um deles, na coluna. Estava a caminho da casa do Ed Motta. Iriam assistir a um show. Do Max de Castro. Entrou na José…

A VIDA É UM JOGO DE FASES >> Paulo Meireles Barguil

 A vida é um jogo de fases.
Em cada uma delas, há desafios para serem identificados e superados pelo aventureiro. Enquanto você não cumpre a missão específica, a vida lhe coloca novos cenários e personagens, mas algo permanece inalterado: o que precisa ser aprendido, transformado no seu interior. A maioria das pessoas ignora esse princípio e não entende que o mais importante na vida é o que acontece dentro delas e não do lado de fora. O tempo despendido em cada estágio varia, pois relacionado às habilidades individuais, as quais são usadas para avançar, embora raramente elas sejam suficientes. Suplantar as nossas fragilidades é, via de regra, a tarefa a ser assumida nos diferentes níveis, os quais não têm fim, embora o folguedo sim... O jogo, embora apresente momentos competitivos, é, essencialmente, colaborativo. Quando a pessoa entende isso, a jornada se modifica, tornando-se, ambas, mais leves e bonitas. Afinal, ela descobriu um importante segredo: a riqueza da vida é partilhar…

A GUERRA DA BELEZA >> Mariana Scherma

Dos conceitos abstratos da vida, a beleza ganha longe em dificuldade de ser compreendida. O que é bonito pra alguém pode ser horroroso para o outro. E ainda pode complicar: o que é bonito hoje-agora-já pra você, de repente, se torna feio amanhã-depois-logo-menos. No fundo, essa história de que o que é feio pra um é lindo para outro funciona muito bem, naquele velho esquema tem gosto para tudo.

O problema é quando você comete algumas insanidades pra conseguir ficar em paz com o espelho. Por que será que ficar de bem com sua imagem, às vezes, vira uma guerra absurda? Por que beleza em muitos casos é sinônimo de dor? Juro, não entendo.  Fiquei pensando a respeito disso com os casos de morte ou internação grave após as aplicações do tal de hidrogel pra ganhar mais massa muscular. Muita gente que faz essa aplicação já tem mais músculo definido do que eu vou ter na vida inteira (e, de certo, na próxima encarnação), mas, por algum motivo, isso tudo é insuficiente e acaba na mão de “profissio…

BELEZA, MEU BEM >> Carla Dias >>

Ela acredita que sua beleza é das mais refinadas, que, futuramente, viverá dela, conhecendo outros países, pessoas interessantes. Porque, vamos combinar, Eleonora e Marcílio não são assim tão interessantes. São amigos desde sempre, dividiu com eles os lanchezinhos no parque e a catapora, mas ainda assim, interessante é outra coisa.

Na escola, dedica-se a se tornar ótima aluna, que diferente de umas aí sobre as quais andou lendo, não quer ser bonita somente bonita, de beleza refinada. Ela quer ser inteligente, de inteligência afiada. Olha-se no espelho, ajeita-se na roupa, olha para si como se estivesse em capa de revista, mas a cabeça, ah, essa funciona a mil também. Outro dia, decidiu escrever um ensaio sobre a falta de cordialidade dos meninos da escola. Digamos que eles não aceitaram suas palavras cordialmente. Mas ela ganhou uma ótima nota e um peteleco do Jurandir.

Criada pela irmã, ela tem vida dura, mas não passa privação de enlouquecer, que Juliene é das irmãs mais mãe que el…

JÁ É JANEIRO? >> Clara Braga

Final de ano é sempre assim, não acaba! O ano inteiro voa, os meses passam e a gente nem vê, mas chega janeiro e dezembro não acaba! Tudo bem, não é exatamente dezembro que não acaba, são as férias que não chegam! Saudade de quando dezembro era sinônimo de férias!
O pior disso tudo é que eu já comecei a reparar e todos os sinais estão indicando a mesma coisa, a maioria das pessoas já está de férias ou de recesso, já começou a se preparar para o Natal e para o ano novo e eu estou ficando por fora do babado. Um dos sinais mais claros é o fato do parque estar mais cheio, muito provavelmente são pessoas já pensando em perder peso para a ceia de Natal ou iniciando a eterna promessa de início de ano: emagrecer! Outro sinal são os shoppings ficando mais cheios, espertos são aqueles que começam a fazer as compras de Natal antes da situação se tornar impossível.
Mas o maior sinal de todos, aquele que comprova que de fato todos estão de férias e você está ficando para trás, são os assuntos que…

UMA ALEGRIA, UMA TRISTEZA E A MARESIA
<< Cristiana Moura

Gabriela, de tanto alinhavar a vida e assoprar, fez do cotidiano uma leveza só. Caminha de mãos dadas respirando o mar. Gabi transpira desavergonhada alegria ausente de qualquer retalho de timidez. Seus sorrisos já não flutuam em bolhas de sabão. São sorrisos que bebem da maresia e dos pés quase no chão.

Mas quando a noite vai virando madrugada, por vezes se pode ouvir os suspiros de Gabriela. Ela teme que sua tanta alegria acorde eufórica ilusão — ausência de chão.

Tomou café. Havia acordado como quem desperta de doze anos de sono. Seu coração e seu prazer, juntos, hibernavam. Gabi acordara em dia ensolarado. Ora, em nossa terra quase todos os dias são plenos de Sol ardendo na pele e na vista. Ela se desfez das cortinas porque decidiu que se o dia clareou, sua vida e sua casa também vão clarear.

Passaram-se semanas. Não houve mais mãos dadas e areia. Desejou recolocar as cortinas e adormecer longamente. Uma única lágrima deslizou do olho, como que em câmera lenta, até que ela sentiss…

CONSTRANGIMENTOS NÃO MUITO LEGAIS
>> Zoraya Cesar

Situações constrangedoras fazem parte da vida. Saber sair delas com classe é uma arte que nem todos dominam. Algumas das mais difíceis talvez sejam as que envolvem encontros romântico-sexuais.
As histórias a seguir são verdadeiras e poderiam ter acontecido com você. Oh, desculpe, com você, jamais — talvez com um amigo, uma conhecida, a prima do cunhado de sua tia-avó. Ou algo assim.


O Gato francês
Ele era lindo, e tinha sotaque francês. Parecia um anúncio de cinema, quase um Alain Delon. Quase, porque Alain Delon é único. Era cobiçadíssimo por todas as mulheres da empresa. 
Uma noite, durante uma happy hour do grupo, Lila se vê agarrada pelo Fulano Francês, aos beijos e abraços pegajosos e cada vez mais promissores. Ela vai ao banheiro, alvoroçada, as amigas atrás. Mulheres no banheiro, sabe como é. Não sabe? Dou uma ideia, sem revelar os segredos da confraria. O banheiro passa a ser uma gaiola cheia de maritacas entusiasmadas em ajudar a amiga a ter uma noite inesquecível. Ajeita o v…

CONSELHOS GENÉRICOS >> Fernanda Pinho

Dizem que “se conselho fosse bom, a gente não dava, vendia”. Balela. Tem tanta coisa boa que a gente não vende: beijo, abraço, companhia, sorriso. E a maior prova de que a máxima não passa de uma frase vazia, repetida por desacreditados, é que na mesma proporção em que ela continua sendo dita, seguimos a pedir conselhos. Eu sempre peço conselhos. E com uma frequência ainda maior sou procurada para dar conselhos. 
Bom, ainda não entendi bem o que motiva algumas pessoas a recorrerem a mim (Justo a mim! Tão impulsiva e insensata) quando precisam de uma palavra de apoio ou de ouvir umas boas verdades. Mas uma vez procurada para este fim, tento falar aquilo que eu realmente acredito. Não fosse assim, me sentiria uma pessoa fria, calculista e manipuladora. Tenho notado com os anos que “aquilo que eu realmente acredito” segue um certo padrão. Não importando qual é sua situação. Minha linha de raciocínio é basicamente a mesma.
O que tento fazer quando alguém me pede um conselho é aplicar a L…

A OUTRA >> Carla Dias >>

Eu morava em outro lugar que não aqui. Morava nesse não-sei-onde, e vivi uma vida por lá. Não tinha vizinhos, mas os amigos sempre apareciam. Não tinha vizinhos, mas tinha um lago no fundo da casa, onde eu molhava os pés, diariamente. Não, eu não mergulhava no lago, apesar de desejar fazê-lo. É que, mesmo nesse outro lugar onde eu morava, eu não sabia nadar. Projeto para a próxima existência: aprender a nadar para ficar de molho no lago, em dias de verão.

Eu era outra pessoa nesse lugar outro que não aqui. Tinha cara, voz e nome diferentes, andava em uma cadência que não reconheço. Vestia roupas que nunca moraram em meu guarda-roupa. Olhando daqui, aquela era uma pessoa que eu seria não estivesse ocupada com quem sou. Afinal, aqui o tempo voa, as contas aumentam, a correria é companhia constante, temos de pensar mil vezes, antes de revelar benquerenças, para que elas não sejam confundidas com banalidades, a mais pura conversa fiada para adulação.

A outra fazia longas caminhadas, porq…

PRATICANDO O DESAPEGO >> Clara Braga

Descobri que não tem coisa mais legal e ao mesmo tempo mais chata e mais trabalhosa do que fazer mudança! Toda e qualquer tipo de mudança é trabalhosa, chata e legal, mas eu estou me referindo a mudança física de endereço. Sair de uma casa e ir morar em outra.

Já morava no mesmo lugar há quase 20 anos, e a quantidade de coisa que acumulei nesse tempo e nem sabia é caso de psiquiatra! Eu tinha consciência de que gostava de guardar coisas que, ao meu ver, talvez fossem desnecessárias. Mas o peso desse talvez não permitia que eu me livrasse das tais coisas.

Cada caixa fechada eram várias histórias que iam sendo lembradas e relembradas. Memórias que eu nem sabia que eu tinha. Mas o desespero batia quando eu olhava para o quarto e ainda parecia que eu nem tinha começado a encaixotar minhas coisas. Uma caixa aqui e outra ali foi rapidamente virando um monte de caixas que continham até livros iguais. É tanto livro que eu já não lembrava mais o que eu mesma tinha comprado, ou seja, acabei comp…

EM BUSCA (DA PALAVRA) DE UM SONHO
>> Eduardo Loureiro Jr.

Ele teve um sonho em que a canção "Como uma onda" era cantada com uma pequena e curiosa alteração na letra: em vez de "não adianta fugir nem mentir pra si mesmo", ouvia-se "não adianta estrudir". Ele olhou para sua namorada do sonho, enquanto esperavam pelo horário certo para descer à estação do metrô, e os dois sorriram da mania dos intérpretes de alterarem a letra das canções. Mas, ao final do riso, ele ficou se perguntando se não se tratava de uma mania dos ouvintes de escutarem errado as letras das canções: ele mesmo, durante muito tempo, achava que "tocando B. B. King sem parar" era "tocando de biquíni sem parar". Então pensou que seria bom consultar um dicionário para ver se existia a tal palavra — estrudir — e se ela fazia sentido no contexto da canção. Como não havia dicionário no sonho, ele teve que procurar ao acordar.

Nem o Houaiss nem o Caldas Aulete conheciam a palavra estrudir. O sonhador também procurou a grafia com x, m…