Pular para o conteúdo principal

A GUERRA DA BELEZA >> Mariana Scherma

Dos conceitos abstratos da vida, a beleza ganha longe em dificuldade de ser compreendida. O que é bonito pra alguém pode ser horroroso para o outro. E ainda pode complicar: o que é bonito hoje-agora-já pra você, de repente, se torna feio amanhã-depois-logo-menos. No fundo, essa história de que o que é feio pra um é lindo para outro funciona muito bem, naquele velho esquema tem gosto para tudo.

O problema é quando você comete algumas insanidades pra conseguir ficar em paz com o espelho. Por que será que ficar de bem com sua imagem, às vezes, vira uma guerra absurda? Por que beleza em muitos casos é sinônimo de dor? Juro, não entendo.  Fiquei pensando a respeito disso com os casos de morte ou internação grave após as aplicações do tal de hidrogel pra ganhar mais massa muscular. Muita gente que faz essa aplicação já tem mais músculo definido do que eu vou ter na vida inteira (e, de certo, na próxima encarnação), mas, por algum motivo, isso tudo é insuficiente e acaba na mão de “profissionais” de segunda (ou terceira?) qualidade. De repente, a saúde vai lá pro último lugar só pra ter um bumbum mais duro que bola de boliche. Taí um tipo de prioridade estranha.

O caso do hidrogel é só mais um estranho. Tem também a turma da batata-doce e frango oito dias. Tem a galera das 500 calorias/dia. Tem o pessoal que mal sabe o que é uma caloria – que dirá então um brigadeiro. O maior perigo são os comportamentos extremados, uma coisa militar. Quando você olha blogs e perfis de Instagram fitness, pode se sentir um pecador se comeu um pedaço de chocolate depois do almoço – ou, Deus nos livre, um pãozinho branco, zero integral, e com manteiga derretida. Eu, sempre que caio em um desses perfis, tenho noção de que não precisa ser assim pra ser saudável. Mas e quem não tem?

A loucura pelo corpo perfeito faz você acreditar em absurdos, em médicos que não são médicos, em dietas nem um pouco saborosas e pior de tudo: faz você achar que sofrer é normal. Não é. Quando foi que ter saúde deixou de ser bonito? Quando foi que celulite virou crime ou músculos à la Stallone na época de Rocky se tornou vital? De repente, a saúde é secundária na guerra pela beleza, cujas batalhas são cada vez mais invencíveis. Uma pena.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …