Pular para o conteúdo principal

PRATICANDO O DESAPEGO >> Clara Braga

Descobri que não tem coisa mais legal e ao mesmo tempo mais chata e mais trabalhosa do que fazer mudança! Toda e qualquer tipo de mudança é trabalhosa, chata e legal, mas eu estou me referindo a mudança física de endereço. Sair de uma casa e ir morar em outra.

Já morava no mesmo lugar há quase 20 anos, e a quantidade de coisa que acumulei nesse tempo e nem sabia é caso de psiquiatra! Eu tinha consciência de que gostava de guardar coisas que, ao meu ver, talvez fossem desnecessárias. Mas o peso desse talvez não permitia que eu me livrasse das tais coisas.

Cada caixa fechada eram várias histórias que iam sendo lembradas e relembradas. Memórias que eu nem sabia que eu tinha. Mas o desespero batia quando eu olhava para o quarto e ainda parecia que eu nem tinha começado a encaixotar minhas coisas. Uma caixa aqui e outra ali foi rapidamente virando um monte de caixas que continham até livros iguais. É tanto livro que eu já não lembrava mais o que eu mesma tinha comprado, ou seja, acabei comprando de novo.

Não tive dúvida, aproveitei o clima de final de ano, essa sensação de renovação de energia, e decidi praticar a arte do desapego. A última lembrança que eu tenho de um desapego tão difícil de ser feito é de quando eu tive que me desfazer da minha chupeta. Se eu fosse contar nos dedos quantas vezes eu tentei me desfazer da minha chupeta, não caberia. Mas se essa é a última lembrança, já dá para imaginar que essa arte não é das minhas favoritas.

Sacos de 100 litros de lixo foram doados com roupas que chegavam a ser novinhas em folha. Mas claro, como uma boa acumuladora, ainda tenho um daqueles vestidos que a gente guarda para quando emagrecer. Os livros também foram doados. Alguns eu confesso nem ter lido, mas a lista de livros para ler ainda está tão grande que eu preferi deixar que outras pessoas lessem esses livros antes de mim. Depois, se for o caso, pego emprestado com algum amigo ou algo do tipo. A quantidade de sacos de lixo com lixo também foi assustadora! Como alguém pode produzir tanto lixo? Fiquei mais abismada ainda depois de ler a tal notícia que está rodando pelas redes sociais agora, a menina que não produz lixo há 2 anos… preciso passar uns tempos com ela urgente.

Enfim, sei que há uma semana estou morando nesse novo apartamento que ainda não tem muita cara de lar doce lar, já que ainda está lotado de caixas empilhadas. Mas o medo de encarar essas caixas está grande. Sei que ainda falta desapego para ser praticado, mas acho que mais do que eu já fiz é demais para mim, afinal, na última caixa que eu abri tinham fitas VHS com shows do Hanson e uma outra com Lua de Cristal! Quem se desfaz de Lua de Cristal?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …