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FELIZ CADA DIA DA SUA VIDA >> Carla Dias >>


Último, não o primeiro, aquele que deixa o frescor perambulando na alma da gente. O último, já com o saudosismo temperando - com o condimento da distância - os cometimentos menos palatáveis, dos quais fomos autores durante os dias anteriores.

O último dia calcado em contagem regressiva, calendário pronto para ganhar o lixo, champanha, refrigerante, branco: olhar para peneirar fogos de artifício. As listas que reverenciam o ano que chega com questões ancestrais, dependuradas no varal do esquecimento, pela quarta, quinta vez? Não há como passar a borracha e chamar de começo, mas é possível falsificar resolução e determinar recomeço.

Como se já não recomeçássemos a cada tombo.

Não é lamento, mas sim prefácio, meus caros. A minha lista de Ano Novo vem repleta de afazeres percussores de regalos, que desejo a todos que se tornem capazes de reconhecerem – sem medo, pudor ou enfeites – o que lhes aproxima da realização de um sonho.

Para a busca por outras realizações, temos o horário comercial.

Ouvi alguém dizer que o sonho de outro alguém era dormir até ao meio-dia. Esse é tipo de sonho realizado na preguiça. Não, nem é sonho. O que é sonho digno de realização? Qual? Por quê? Não deve ser dormir até descansar a mente. Na minha tradução displicente, seria justamente o contrário: não pregar os olhos, ainda que lhe doa o cansaço, até o sonho tornar-se fato. Porque, não se iludam, meus amigos... Aquela lista de “a fazer” para Ano Novo do daqui a pouco, requer trabalho árduo, mesmo parecendo tão, mas tão simples o desejo, que a consciência permite, sem a brutalidade do enquadramento em urgências estrambóticas, a procrastinação do tal.

Cada item tem o peso de um sonho.

Veja bem, peço-lhe gentilmente que revire a sua percepção. Que a permita embrutecer, se for necessário, até que ela lhe diga, a honestidade gritante, o que lhe apetece de fato, e de um jeito que não há virada de ano que mande esse o quê para os arrabaldes do esquecimento, ou do mais descarado descaso, tampouco para a repetição indolente grafada nas agendas, de janeiro 1 a dezembro 31.

Para mim são as pessoas. Meu sonho é entender o que elas desejam, sem ofendê-las ao não atender as suas expectativas, elas proibidas de sofrerem reajustes. Os reajustes me agradam, o que posso fazer? Há adaptações que enobrecem e enriquecem o original. Minhas pessoas, eu que lhes respeito profundamente, peço que me entendam em contrapartida, que tenho de ser capaz de contrariar a magnitude dos fogos de artifício e dos sorrisos ébrios, e a espontaneidade de distribuir abraços inspirados por um afeto que é para quem desejá-lo, na efemeridade desse momento em que, ao deixar de ser hoje, o dia se torna o primeiro amanhã das nossas vidas.

Para mim, pouco muda com a troca de calendário. Por isso mesmo, eu posso desejar que, se for desejo seu, essa mudança aconteça. Mas se houver dúvida, que a mudança seja da sua consciência sobre a vida. Sobre a sua vida. E que assim, a mudança não descarte experiências, nem sonhos, nem realizações pequenas e necessárias para a sua jornada. Que você celebre cada dia com a mesma alegria e desvelo com que celebrar o último dia até ele se tornar o primeiro.

Feliz cada dia da sua vida.


Imagem © Mônica Côrtes

Comentários

whisner disse…
Grande texto para começar o ano. Para todos os dias do ano.
Zoraya disse…
Copio o Whisner, esse texto é pra guardar
Carla Dias disse…
Whisner... Vindo de você, fico pra lá de feliz.

Zoraya... Vindo de você também!

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