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UMA ALEGRIA, UMA TRISTEZA E A MARESIA
<< Cristiana Moura

Gabriela, de tanto alinhavar a vida e assoprar, fez do cotidiano uma leveza só. Caminha de mãos dadas respirando o mar. Gabi transpira desavergonhada alegria ausente de qualquer retalho de timidez. Seus sorrisos já não flutuam em bolhas de sabão. São sorrisos que bebem da maresia e dos pés quase no chão.

Mas quando a noite vai virando madrugada, por vezes se pode ouvir os suspiros de Gabriela. Ela teme que sua tanta alegria acorde eufórica ilusão — ausência de chão.

Tomou café. Havia acordado como quem desperta de doze anos de sono. Seu coração e seu prazer, juntos, hibernavam. Gabi acordara em dia ensolarado. Ora, em nossa terra quase todos os dias são plenos de Sol ardendo na pele e na vista. Ela se desfez das cortinas porque decidiu que se o dia clareou, sua vida e sua casa também vão clarear.

Passaram-se semanas. Não houve mais mãos dadas e areia. Desejou recolocar as cortinas e adormecer longamente. Uma única lágrima deslizou do olho, como que em câmera lenta, até que ela sentisse seu próprio sal na boca. Era mais uma ilusão como ela tanto o temia. Mas para seu espanto, ao lamber os lábios foi diferente. Era gosto de si mesma na ponta da língua muda de tristeza.

Gabriela entendeu que a alegria da brisa ao caminhar, a do encontro do olhar com o outro olhar, são alegrias que moram em seu corpo. E que esta inquilina é irmã da tristeza que por vezes a visita. Passou um batom cor de laranja como quem quer se colorir de pôr do Sol e foi respirar a brisa salgada do caminhar à beira-mar.


Para conhecer melhor Gabriela leia também UM SORRISO NUMA BOLHA DE SABÃO
http://www.cronicadodia.com.br/2014/07/um-sorriso-numa-bolha-de-sabao.html


Comentários

Zoraya disse…
Aiii, q lindo, lindo!:
"Passou um batom cor de laranja como quem quer se colorir de pôr do Sol e foi respirar a brisa salgada do caminhar à beira-mar."

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