sábado, 5 de julho de 2014

UM SORRISO NUMA BOLHA DE SABÃO
<< Cristiana Moura


E era tanta a alegria num rosto só! Gabriela, num sorriso que não cabia em seu tamanho pequeno de menina com dois anos incompletos, brincava com a leveza efêmera das bolhas de sabão. Dera eu saber lidar assim com o que simplesmente se desmancha na minha frente. Dera eu.

Vez por outra acordo na madrugada. Insônia quando a gente não briga com ela é assim: um emaranhado de palavras, imagens, desejos como os de Gabi, voando em bolhas de sabão.

A menina cresceu e, no corpo de moça, às alegrias se juntaram seus delírios sãos. Queria adentrar os céus carregada pelas bolhas da infância até adormecer dependurada no sorriso da lua que mal começara a crescer. Deveria também ter sonhos de raízes adentrando na terra. Não. Ela se negava a manter os pés fincados ao chão — só queria o ar.

Houve um dia em que acordou muito depois do Sol. Perdera a hora. Já não era tão menina. Já não era tão moça. Olhou no espelho e lhe faltavam os sorrisos. E foi assim dia após dia. Era uma tal timidez nos lábios, como se alegria fosse que nem chave que a gente esquece pelos cantos. Gabriela havia deixado um pedaço de sorriso em cada encontro fugaz. Esvaziou-se de si. Deixou-se em infância e juventude remotas.

Era dia de quinta-feira, um dos mais atribulados. Acordou. Escovou os dentes. Sentiu, na pele, o Sol recém-nascido como há tempos não fazia. Tomou banho. Comeu suas frutas e cereais. Saiu como em todos os dias. No trânsito caótico, o senhor no carro de trás buzinava freneticamente como se quisesse que ela ultrapassasse o sinal vermelho e ele pudesse fazê-lo também. Ela freava indiferente. O jovem adentrou a faixa de pedestres como quem chega na própria casa. Passos lentos e longos. Era tanta a intimidade e um bem-estar à vontade que os olhos de Gabriela arregalaram-se. Ela, naquele momento, não sabia fazer uma coisa só: dirigia, ouvia o som das buzinas, preenchia o pensamento, simultaneamente, com a lista dos afazeres e a dos dissabores. Freou. Tudo parou. Nas mãos do homem-clown, com seus gestos leves e sua bola de cristal , o destino de Gabi era um sorriso não planejado no sinal fechado. E este sorriso lhe tomou o corpo numa alegria leve que lhe acompanhou por todo o dia.

A arte tem dessas coisas — adentra a vida da gente e oferece outros itinerários ao cotidiano. Ouvi dizer que Gabriela, agora, quer costurar os pedaços do dia a dia com linhas de névoa e assoprar. Assoprar até virar uma bolha leve.


Leia também UMA TRISTEZA, UMA ALEGRIA E A MARESIA
http://www.cronicadodia.com.br/2014/12/uma-alegria-uma-tristeza-e-maresia.html

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5 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Sopra, Gabriela, sopra...

sergio geia disse...

Cris, seu texto é gigante. Tô virando seu fã.

Cristiana Moura disse...

Edu, :)

Sérgio, é recíproco!

Zoraya disse...

Cris, que poético! Lindo e suave. gostei muito, me enterneceu o coraçao, obrigada!

Anônimo disse...

Com a esperança de não parecer desrespeitoso, eu estou prestes a escrever, com sotaque estrangeiro, um comentário nenhum senso. Este, a necessidade de provar a mim mesmo que eu não estou imaginando essa leitura. Bem, não é só isso, primeiro eu quero agradecer por criar um lugar tão maravilhoso para nós para visitar, é apreciado. No entanto, eu já me sinto a necessidade de ter cuidado para não ficar tão preso em suas estradas intermináveis ​​que eu esqueço o caminho que vim, e decidem se instalar.

Agora, de volta para o meu teste de realidade. Se Cristiana Moura não é você, nem ela nos vê. Eu acho que seria menos louco.