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HOMEM-PÁSSARO >> Carla Dias >>


Não entende de poesia. Assim ele pensa, enquanto o olhar atravessa o recinto, lança-se pela janela, sobrevoa prédios e alcança o horizonte, fazendo com que ele questione, sem amaciar sentido de palavra que seja, por que diabos está dentro de casa, se lá fora o dia já deu as caras, é de sol, é convite para caminhar.

Seus pensamentos se embaralham com a fumaça do cigarro, que vem tentando largar, mas sem muito esforço. Qualquer hora isso dá certo, assim como a reconstrução da sua reputação de homem que entende necas de poesia.

Não nasceu para ser domesticado pela poesia, principalmente se ela for carente de rimas, amante das metáforas. Mesmo que, ao acordar se equilibrando no fio do devaneio, sinta-se compelido a aceitar que há mais poesia entre o sonho e a realidade do que as inspiradas metáforas possam recitar. E que não consiga se abster de anotar – agenda comprada há duas décadas, morando em gaveta do criado-mudo – o que acha que o inquieta e não é tarefa a ser cumprida, trabalho a ser feito, receita para se levar à risca e que dê em sobrevivência. Uma lista de dolências e querenças.

Pode até não ser poeta de carreira assinada, de sucesso adquirido, de intelectualidade celebrada. E ninguém o diria poeta ao vê-lo assim, prendado ao fazer da lógica o seu currículo existencial.

Mas que não é poeta mesmo, disso eu sei, e digo, mesmo correndo o risco de parecer intrometida. O que não significa que ele não conheça a poesia, nas suas curvas e transversais. Nas suas luas, marés e labirintos. Por detrás dessa máscara de aspirante a servo da lógica - dessa improdutiva ideologia que sofre por falta de ornatos e floreios, e que, obviamente, carece dos temperos sazonais -, mora um homem que aprecia os pássaros, de muitos até sabe nome, científico e popular, que se diz um apreciador das suas cores e dos voos rasantes, mas é apenas desejo, forjado em poesia transeunte, de roubar-lhes as asas.

Olha-se no espelho, já nos confins da madrugada, dialogando com seu reflexo sobre aventuras a serem vividas. No topo das mais altas montanhas, ele tem certeza de que encontrará vistas deslumbrantes, capazes de fazê-lo gargalhar de felicidade incontida. Escutará confissões em forma de música-ventania, e inventará para elas versos e melodia. Poesia?

Não, ele não é poeta.

Mas como não inspirar a poesia com seus desejos disfarçados de oportunidade de usar as milhagens acumuladas? Com cada olhar que sai da rota, e gesto que ele justifica como nada mais que curiosidade educativa? Como aquela que o levou a passear pela tez da moça que lhe ofereceu, de cara, sem rima, pontuação ao gosto do freguês, a poesia dos que só sabem dizer sentimento assim, com rima, sem rima, metáforas em destaque, ou com simplicidade pungente, longas cartas, sedutores bilhetes.

Não é poeta, mas apesar de também se impor como incapaz de reconhecer a poesia no mundo real — aquele dos cartões de ponto, do almoço do meio-dia a uma, da formalidade, do burocratismo endossando relacionamentos pessoais —, enche de poesia o universo da moça de tez que não esquece do homem-pássaro, que deu de ser menino chorando saudade de quem nunca será, no colo dela, e mais de uma vez. Quem lhe encheu de palavras de arrepiar sentimento, e lhe ofertou gentileza de um benquerer que nunca exigiu reembolso. Com quem ele foi poeta nas fotografias de céu, terra e mar, eternas fugas para seu olhar domesticado pela paisagem das grandes cidades.

Ela que espera que, dia desses, ele assuma as asas que lhe cabem.

E que o céu o ampare.


Imagem: La Clairvoyance © Rene Magritte

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