sexta-feira, 4 de julho de 2014

O CASACO - PARTE I >> Zoraya Cesar

Aline era tímida. Tímida de doer na alma — dela, naturalmente, porque o resto da humanidade que a cercava se aproveitava para explorá-la o quanto podia. Se havia uma palavra que Aline pronunciava uma vez na vida outra na morte era "não". 

Sua timidez era quase doentia. Cada vez que tinha de se aproximar do chefe — por quem era apaixonada — suas pernas tremiam, gaguejava, abaixava os olhos. Ver a face de Aline era um desafio, pois andava sempre de cabeça baixa e com o rosto coberto pelo cabelo. Seus olhos eram verdes, mas nunca ninguém reparara. 

Em casa, sustentava a mãe ranzinza que não perdia oportunidade de lhe dizer que era feia, magra, sem graça e que, ao contrário da irmã — que vivia na esbórnia —, jamais arranjaria homem. Aline pensava que era melhor ficar sozinha a sair com os estrupícios que a irmã conhecia, mas cadê coragem para dizer isso, parar com a exploração que sofria em casa?

E se fosse só em casa! No trabalho, as colegas empurravam as tarefas mais desagradáveis para ela, que não tinha jeito de negar. Mas o pior, o pior mesmo, era ver Cristiana Rosely dando em cima, descaradamente, do chefe. Não que ele desse muita bola, mas homem tem a carne fraca, é o que dizem, e Cristiana Rosely era insistente e insinuante. Timidez não fazia parte de seu vocabulário, assim como muitas outras palavras, já que nunca pegara num livro. 

De forma que o destino de Aline já parecia traçado: eternamente explorada em casa e no trabalho, eternamente solteira, eternamente escondida dentro de si mesma. Os vermes iriam comer seus olhos verdes sem que eles tivessem sido vistos e apreciados.

Mas, sabemos todos, o Sr. Destino é deveras surpreendente. 

Aline se vestia como uma sombra, para não chamar atenção. Suas roupas eram sempre em tons pastéis e jamais usara algo mais forte que marrom. Por isso, nem mesmo ela acreditou quando sua atenção foi chamada por um casaco amarelo brilhante. 

Entrou na loja, que, aliás, nunca vira antes. Era pequena, atulhada de roupas estranhas, penduradas em araras e abarrotadas em cestas, um brechó esquisitinho, pensou. O ambiente era aconchegante, um leve cheiro de incenso pairava no ar, um som de água saía das caixas de som.

O casaco. Macio, elegante e... chamativo. Feito para mulheres muito seguras de si e com estilo próprio. Aline nunca tivera uma roupa daquela. Vestiu. Olhou-se no espelho. Não se reconheceu. 

No reflexo, uma mulher de oblíquos olhos verdes semicerrados numa expressão langorosa; a boca, sorrindo sardonicamente, como dizendo: cuidado, posso ser muito, muito perigosa. Aline se assustou. Tirou o casaco, mas não o devolveu de imediato. Ficou a alisá-lo, virando-o pelo avesso, abraçando-o. Ficaria ridícula, não tinha nada a ver com a personalidade dela. Mas era tão bonito, e havia aquela festa da empresa, numa dessas casas noturnas da moda, que, nem preciso dizer, mas direi mesmo assim, Aline jamais fora. 

Num assomo de coragem inédito em sua vida, resolveu comprar o casaco. Nem que fosse para usar em casa, escondida. Não havia vendedor na loja, o preço estava pendurado na peça e Aline estava com pressa, se não comprasse naquela hora, perderia o impulso. Ela resolveu passar o cartão e deixar o comprovante debaixo da máquina. Foi ao pagar que ela percebeu o aviso em cima do balcão:

Atenção. Espere a vendedora para auxiliá-la na sua compra. Essas roupas, como seus antigos donos, têm personalidade própria. Você pode gostar da roupa, mas ela pode não gostar de você. 

Aline achou o aviso meio antipático, como assim, estavam insinuando que as clientes não sabiam escolher roupa? E desde quando roupa tinha vontade própria? 

Comprou e foi embora, estranhamente feliz com sua audácia.

Chegou em casa e escondeu seu butim, não fosse a irmã querer usá-lo. Mas permaneceu em tal estado de excitação que não conseguiu dormir. Tarde da noite, trancada no quarto, vestiu o casaco de novo. 

Olhou-se no espelho. E novamente, para sua estupefação, viu outra mulher. Aquela não era ela. Decididamente, aquela mulher de cabelos atrás das orelhas, mostrando o rosto, olhos brilhantes e sensuais, boca irônica e quase má, as costas eretas, não era ela. 

Alguns pensamentos de vingança, retaliação e sexo vieram à sua mente, em palavras que ela, Aline jamais usara, algumas que nem conhecia.

Ela se assustou. Se essa mulher no espelho não sou eu, então, quem era? Lembrou-se do aviso da loja, mas descartou-o logo, bobagens. 

Tirou o casaco. No dia seguinte seria a grande festa.


[Continua no dia 18 de julho.]



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7 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Fortes emoções a caminho... :)

albir disse...

Então, tá, Zoraya. Até lá vou ficar pensando qual de minhas roupas não gosta de mim, e qual o risco.

aretuza disse...

ooopa! quero a continuação looogo! será que o Felipe Espada terá que entrar em ação para decifrar o caso da mulher do casaco assassino? bom, nem falou em assasssinato e já estpu imaginando...

Ana Luzia disse...

ai, que medo!

Anônimo disse...

Como sempre surpreendente. Cheguei a ver o casaco!

p.s. - me diz onde é o brechó...


Cecilia

Erica disse...

Como já te disse, deixarei meu comentário para o fechamento desta crônica, porque se você pode ser vira-casaca, eu posso ser vira-casaco-amarelo-sem-comentários-até-você-mudar-a-maldita-bandeira! rs

Anônimo disse...

Aaaaiiii Zoraya, quer me matar de curiosidade?!?!?!? Estava toda empolgada com a tal festa rsrsrs
Mal posso esperar pela continuação - como sempre, arrasando nas crônicas. Parabéns! Cristina Mª