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AMOR, ESTOU COM SAUDADES DA FITA ISOLANTE
>> Fernanda Pinho



Uma das coisas mais bacanas de estudar outras línguas é descobrir palavras que só existem naquele idioma. Como “saudade” que, dizem, é uma palavra exclusiva do português. Mas de onde vem isso? Qual foi nossa primeira saudade? Pesquisando, descobri que a palavra nasceu junto com o Brasil. Ou, pelo menos, junto com aquele Brasil descoberto pelos portugueses. Já que a palavra, derivada do latim (em que “solitáte” quer dizer “solidão”), passou a ser utilizada pelos nossos patrícios para definir a melancolia causada pela distância de casa.

Na mesmo pesquisa, descobri também que o gaélico é o único idioma que nos oferece uma palavra com conotação textual semelhante: “hiraeth”. Como meu marido não é um escocês do século V, deve ter acontecido de, em algum momento, eu ter inserido a palavra “saudade” em nosso relacionamento. E provavelmente deixei claro que sentir saudades era o mesmo que sentir a falta, sentir a ausência.

Ótima explicação, certo? Precisa e esclarecedora. E quando ele me disse pela primeira vez que estava com saudades de mim, achei de uma fofura infinita. Até eu ser colocada no mesmo patamar de chinelos, fita isolante, faca, cabo HDMI, controle remoto e outros objetos que de românticos não tem nada. Como?

Aconteceu que, depois de um tempo, detectei quão vago é traduzir “saudade” como sinônimo de “sentir falta”. E tornaram-se corriqueiras em minha vida frases, digamos, peculiares do tipo: “Amor, fui tomar banho e senti saudades da minha toalha no banheiro”. “Essa comida está sem gosto. Estou com saudades do sal”. “Ontem eu deixei uns parafusos aqui, estou com saudades deles”. “Você viu o vidro de álcool? Procurei a casa toda. Estou com saudades”. “Essa imagem não está muito boa. Sinto saudades de um pouco de cor aí”. “Cadê o garçom que estava nos atendendo? Estou com saudades”. “Fui ao banheiro e senti saudades do papel higiênico”.

No início eu até tentei explicar que não era bem assim. Isso não é saudade, meu amor. Saudade toca fundo, mexe com todos os sentidos. Não é uma falta qualquer. Como quando você sente o cheiro de álcool e tem vontade de estar de novo na sala de aula, com cinco anos, vendo a professora mimeografar o Para Casa. Ou quando seu bife queima e você se lembra que o da sua avó sempre se queimava também e depois você tem que engolir o almoço com gosto de lágrimas. Ou quando você sente o cheiro do perfume que ganhou aos quinze anos e consegue até sentir o gelo na barriga da adolescência. É como quando eu estava no Chile e chorava depois de conversar com minha mãe pelo Skype. É como quando você foi embora do Brasil, amor, e esqueceu sua camisa lá em casa, me obrigando a dormir com ela. Saudade é isso. É outra coisa.

Mas por ser "saudade" uma palavra tão especial, cuja simples menção mexe com nossas emoções, acabei largando mão das explicações. Ouvir “saudade” a torto e a direito, carregar cada cena trivial com tanto sentimentalismo, torna a vida, no mínimo, mais poética.

Comentários

Fernanda, "saudade" (e essa exclusividade de sentido na língua portuguesa) é um tema muito batido. Você conseguiu apresentá-lo de uma maneira lindamente nova. Parabéns! Uma graça de crônica!
albir disse…
Fernanda, que beleza de crônica! Amanhã vou sentir saudades dela, e ler de novo.
Fernanda Pinho disse…
Muito obrigada, meus queridos Eduardo e Albir!
Um abraço.
Anônimo disse…
Ótimo ...amei...
Anônimo disse…
Gostei...d+
I eu tô cum sodadi docê!

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