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Mostrando postagens de Outubro, 2009

Lição de um pescador matuto a todos os pais do mundo >> Leonardo Marona

Foi nas intermediações do Portal do Curral, praia selvagem de mata virgem onde os escravos eram empilhados em porões que submergiam ao sabor das marés afogando os com mais sorte, hoje uma praia deserta com cheiro de sangue africano onde turistas espanhóis de bochechas vermelhas e pêlos raspados nas juntas fazem bacanais de despedida à vista dos pescadores que atracam os barcos e esperam pelo fim do gozo com sabugos de cana-de-açúcar entre os dentes, olhos desconfiados que nunca viram tetas brancas, e havia no meu barco um pescador do tipo bem rústico, pés esfolados com unhas sujas, barba áspera como a casca de um abacaxi, e ele trazia com ele no barco duas crianças, seus filhos, às quais dava ordens curtas e diretas como “fecha a boca senão engole os dentes”, “rapaz, vou dar murro de mão fechada na tua cara se não ficar quieto” e outras um pouco mais delicadas como “te deixo em casa trancado sozinho, peste”, e estávamos todos à bordo do Não Temas, havíamos acabado de passar por um for…

O BERÇO >> Kika Coutinho

Eu já sabia que estava grávida, e já o sabia há cerca de uns 6 meses. A barriga já apontava para o mundo, já não me deixava passar em vãos médios, já chegava primeiro do que eu em qualquer lugar.

Por tudo isso foi que estranhei a mim mesma, quando me vi surpresa com a chegada do quarto do neném.

O porteiro interfonou que tinha um caminhão de móveis com entrega e, até aí, tudo bem. Mandei subir. Rapidamente os entregadores batiam à minha porta e um deles, o mais alto, foi logo perguntando:

— Onde vai a cômoda? — mostrei-lhe o quarto e o canto reservado para a nossa pequena cômoda.

— Ok — ele continuou. — E onde vai a cama?

— A cama, claro, logo ali — indiquei a parede reservada para o sofá-cama que receberia os visitantes da nossa filhota.

— E o berço? — pronto. Foi aí que o negócio pegou. Quando ele falou a palavra berço, um instante de pânico me invadiu. Cama e cômoda são móveis corriqueiros, todo mundo já recebeu um ou dois na vida. Estamos todos habituados às camas e às cômodas, co…

A PESSOA MELHOR >> Carla Dias >>

Eu tento ser uma pessoa melhor.

Fui educada para sempre buscar essa pessoa melhor que me garantiram mora em mim. Quando acordo, meu piloto automático desembesta a buscar essa pessoa melhor que parece residir em todos nós, como fosse um animal de estimação com o qual compartilhamos todos os nossos segredos

Meu animal de estimação varia, de acordo com o meu destempero ou deslumbre vigente. Há dias em que ele é a televisão, mas em outros ele dá de ser a outra eu com quem filosofo constantemente sobre o motivo de a máquina de lavar fazer tanto barulho e quase pular pra casa da vizinha, ao final da centrifugação. Quando ela começa com aquele escândalo, eu fecho a porta da área de serviço e tapo os ouvidos com as mãos. São alguns minutos de tortura para mim que, naquele momento, não me acho uma pessoa capaz de ser melhor, mas apenas a vizinha sem noção com a máquina de lavar precisando de reparos...

Como a minha vida anda precisando.

Pelo o que entendi, ser uma pessoa melhor é dar de dez na pes…

QUE BICHO EU SOU?
>> Felipe Peixoto Braga Netto

"Não sei por que sujeitam os introvertidos a tratamentos. 
Só por não poderem ser chatos como os outros?"

Mário Quintana


Chego atrasado à reunião. Entro, a passos constrangidos, na sala. Estão reunidos num grande círculo. Meu atraso é obviamente percebido. A contragosto, cumprimento todos, com um vago bom-dia, e me sento. Então falam de quê? Um sujeito, barba e cabelos grisalhos, compara-se a um macaco. Antes que eu possa ordenar as ideias, os olhos da reunião voltam-se ameaçadoramente pra mim, perguntando que bicho eu sou.

Não achei muito elegante a pergunta. Isso lá é coisa que se pergunte assim, à primeira vista, a um honrado desconhecido? Balbuciei defesas, e a moça, que se proclamou facilitadora, não facilitou muito as coisas:

Todos nós temos um animal oculto. Com qual você se identifica?

Pego de surpresa, não quis me comprometer. Disparei cachorro, bicho neutro, sem conexões freudianas perigosas (acho), nem lá nem cá, nem rei da selva nem fresco que nem o tamanduá.

Escolh…

O FUTURO >> Eduardo Loureiro Jr.

O futuro é uma coisa misteriosa e fugidia que a gente alcança um pouquinho a cada dia, mas que permanece sempre e grandemente inalcançável por mais que a gente avance.

Você deve conhecer a expressão déjà vu, o já visto, e talvez já tenha experimentado o sentimento de, em uma nova situação, ter a sensação de já ter visto, sentido ou visitado aquilo. Mas não deveriam inventar também uma expressão para a sensação de não ter experimentado ainda, uma espécie de encore vu, ainda não visto, algo que sentimos ou vemos, mas que não nos aconteceu ainda e que, por não ser parte do passado, só poderia ser uma indicação do futuro? Ou seria apenas o presente alucinatório nos pregando uma peça?

O futuro se anuncia de muitas formas. Pode ser um sonho, daqueles de que a gente acorda e se sente roubado de algo que tem mas que, quando desperta realmente, percebe que nunca teve; e tempos depois o sonho acontece. Ou então pode ser um desejo — esse sonho acordado — que, por termos concebido em vigília, senti…

O IOGURTE [Carla Cintia Conteiro]

O primeiro incidente que me chamou a atenção e me fez ligar os pontinhos foi a declaração de um sujeito que faz o maior sucesso no circuito ongueiro. O ex-traficante Feijão diz para quem quiser ouvir que o que o fez entrar para o crime foi ver geladeira de traficante cheia de iogurte. Não que ele passasse fome, mas a coalhada industrializada jamais entrou em seu humilde barraco. Depois de virar o chefe de Acari, ser preso, condenado e, segundo afirma, reabilitado, Washington Rimas, nome como Feijão foi registrado, agora tem o iogurte de seus filhinhos pagos por Cacá Diegues e quem mais se interessar em ouvir sua história de superação.

Tem tempo que digo que não é a miséria mas o desejo incontrolável por aquele tênis de marca, provocado pela publicidade feroz que fomenta certos desvios nos jovens. Pelo menos no urbano sudeste brasileiro, onde numa hora de aperto sempre se pode apelar para vender biscoito Globo ou pipoca de saco cor-de-rosa no sinal ou na praia. Isso gera horas de debat…

SEGUNDO POEMA TODO TEU
>> Leonardo Marona

entra na casa, esta casa onde, por tantas
vezes, entraste sem perceber e, cada vez
mais dentro, saías de vez, mas agora não
sabes mais como sair – olha bem os móveis,
sente o peso das horas que, pela primeira vez
se apresentam arreganhadas, feitas de tecido
sem graça, soma de farrapos – mas olha bem.
não serão mais tuas estas horas, as paredes
te dão as costas, as portas de correr emperram,
estás sozinho onde tantas vezes disseste
a ti mesmo: “estou completamente sozinho”.
mas agora que estás, então não dizes nada.
percebes o ridículo: falas na segunda pessoa.
espera um pouco à porta, não olhes para dentro
do quarto pequeno, onde te espera à toa o corpo.
o ventilador roda noutra direção, e ali está ela,
que espantava as hienas e falava com mil sóis.
não te diz respeito o lugar para onde tantas vezes
fugiste sem pés de uma realidade seca, infame.
adeus ao quadro de Chagall, ao homem flutuante
em frente à Torre de Paris, adeus, Neal Cassady,
Kerouac, que primeiro te ensinou o abraço e,

QUAL É O SEU RITMO ? >> Kika Coutinho

Você pode não ter notado, mas a vida é feita de ritmos. Você pode até não se ligar muito em música, não entender os gêneros e as notas — como eu não entendo — mas todos os seus problemas poderiam ser traduzidos por desencontros musicais.

Se você é calmo e tranqüilo, anda num ritmo meio bossa-nova, por que vai procurar alguém no baile funk? Uma pessoa bossa-nova há de ter problemas com uma pessoa funk.

Se você anda meio ligado no 220, tem um pique total, deve ter um perfil rock'n'roll. Então, me conta, por que vai se meter a trabalhar numa empresa pública, toda lounge? Não vai dar certo. E isso não tem nada a ver com gosto, mas com perfil.

Suas brigas em casa, com a família, certamente têm um problema musical por trás delas. Filhos adolescentes costumam ser dance, ou pop rock, ou techno. Os pais, coitados, normalmente já pra lá do Tango, meio Valsa, nunca nem ouviram NX Zero, como é que acompanham essa dança, serve dois pra lá dois pra cá? Pra dar certo há de se ter semelhança…

A MENINA E O AMANHÃ >> Carla Dias >>

Falava ao telefone com a minha sobrinha que estava num daqueles dias em que criança traça futuro, sabe? Ela me contou, com todos os detalhes, quem pretendia ser – e o que faria - quando crescesse.

Dessa vez ela seria somente uma mulher adulta que compraria uma casa bem grande onde ela coubesse com o marido, o filho, a avó... Ela achou melhor que a avó (minha mãe) morasse com ela, porque, nas palavras dela “não fica esse sofrimento de ter que tomar ônibus e ir de lá pra cá o tempo todo”. Sim... Elas são muito unidas.

Pensei em como gosto de andar de ônibus. Claro que, aos quase quarenta anos de idade, num momento em que todos sabem tudo, eu não ter aprendido a dirigir parece meio indigesto... Mas para os outros. Não há quem possa com uma viagem de ônibus e o mp3 tocando as mais-mais da sua vida. A seleção de sentimentos.

Ela continuou falando, na verdade, estava mais para um monólogo. Disse que eu poderia morar lá também, mas que cobraria um “aluguel” de menos de 1 real, só para pagar as …

CHOCOLATE ENTENDE DE MULHER
>> Felipe Peixoto Braga Netto

— Você não entende, eu estou enorme, não está vendo?

Não, eu não estava. Juro que eu não via. De enorme, ali, só uma vontade tola que não contei, não podia contar. Mas o que importa é o que ela achava, já está provado que homem não entende de mulher.

Se minha opinião valesse alguma coisa — e eu já sei que não vale —, arriscaria, baixinho: Mulher também não entende de mulher. Pelo menos não nisso de magreza. Minha gente, sinceramente, essas magras modelos sem graça que vocês acham lindas, não são. Vou repetir: não são.

Não queiram ficar assim, por favor. Relaxem, menos chá-verde, uma honesta cerveja de vez em quando é permitido, não mata. E preservem. Preservem a Amazônia, a camada de ozônio, a biosfera, mas preservem também as curvinhas, por favor. O planeta agradece.

Há quem veja duendes. Há quem veja fadas. Há quem veja quilos a mais. Mulheres, em especial, têm talento para isso. Enxergam inconcebíveis quilos inexistentes onde você, por mais que olhe, não enxerga nada. Para as mulhe…

CADÊ A PROSA ENCANTADORA?
>> Eduardo Loureiro Jr.

Tenho uma amiga me cobrando a prosa encantadora. E me ocorreu que a gente, muitas vezes, não se relaciona com as pessoas realmente, mas com uma imagem delas gravada em algum momento da relação.

Nós estamos continuamente em mutação, mas, mesmo quando percebemos isso em nós mesmos, é difícil reconhecer no outro, e continuamos a nos relacionar com uma pessoa que já não está mais lá exatamente. Como a mudança é geralmente lenta, esse desvio no relacionamento é imperceptível durante um bom tempo. A cobrança vem quando o novo outro, já bem modificado, entra em desacordo com o outro que nós gravamos, então começamos a cobrar que ele corresponda à imagem inicial.

A mudança, por vezes, nem é definitiva, é cíclica. Feito as estações do ano. Quantas vezes queremos sol quando o tempo é de chuva, frio quando é época de calor!

O problema, que nunca está realmente no outro, deve estar na nossa relação conosco. Possivelmente gravamos de nós mesmos uma imagem que fica desatualizada, por assim dizer. Entã…

PAPO DE ÔNIBUS [Ana Gonzalez]

Eu subi no ônibus e me sentei na primeira cadeira do corredor que encontrei, cansada e contente por não ter ficado em fila. Havia um senhor de cabelos grisalhos na janela. Assim que o ônibus saiu, ele começou. Imenso, este ônibus, disse. Concordei. Preferia ficar quieta e levar minha pequena jornada em silêncio, mas ele ainda falou algo a que não dei atenção. Ele não se importou e, poucos segundos depois, continuou puxando assunto.

— Quanta gente ao mesmo tempo vai nele. Mais de mil pessoas.

Ops, será que ouvi mal? Um exagero. Não, acho que ouvi mal. Mas ele continuou em várias considerações sobre tamanho de ônibus e população. Logo depois, mudou o assunto.

— Fez quatro anos em março que ele me apareceu da primeira vez. De lá pra cá, mais três vezes. Jesus mudou minha vida.

Imaginei que seria mais uma pessoa que se convertera pela força da fé.

—- Eu não sei ler. Jesus não quis que eu aprendesse. Mais de cem mensagens eu já entreguei que ele mandou. A Igreja hoje tem às vezes só c…

FILOSOFIA DE QUINTA >> Leonardo Marona

Só seria capaz de ter respeito por mim mesmo no momento em que me odiasse. Mas gosto de mim em silêncio, como aquele pai que, no último dia do ano, revela “eu te amo, meu filho”. Engraçado passar esse tempo todo sem escrever e de repente, tentar a possibilidade do esquecimento, da ferrugem, da incapacidade de sentir a dor que move. Movo? Sim, há mudanças farejando a carne, há movimento, mas ele existe primordialmente pelo medo cultivado, pelo medo que é a única sensação que tenho de estar no mundo. Quando fico sem escrever muito tempo, arranjo mil desculpas: há um maníaco me perseguindo com ameaças de me cortar fora as mãos. Há uma separação de amor lamentosa, e qual separação lamentosa não é de amor? Há uma casa na colina e a febre da cabana que pode tomar meu corpo. Mas é tudo subterfúgio. Quero esticar a corda para reconhecer o material de que é feita. Se estourar, direi a mim mesmo: era uma corda vagabunda, preciso arranjar outra. Mas talvez o que impele seja realmente o pequeno v…

AQUELA PROFESSORA >> Kika Coutinho

Ela tinha os cabelos lisos, acho que viviam puxados para trás, e usava óculos como toda professora que se preza (ou que se prezava, na época). Uma pele clara, uma voz macia, Tia Márcia foi a minha professora predileta. Na verdade, mal me lembro de ter tido outra, pelo menos não nessa primeira infância.

Uma vez resolvi fazer-lhe um presente, com toda a minha dedicação e carinho. E a minha idéia genial foi preencher um caderno em branco com beijos sem fim. Passei batom e iniciei a epopéia. Horas beijando as folhas em branco do caderno. Revezando algumas cores do batom, para ficar mais bonito. Limpava a boca do vermelho e passava o rosa, depois o vinho, virava a folha e continuava com o batom marrom, provavelmente tirado da gaveta de minha mãe. Depois de muito caprichar no biquinho, para que os beijos ficassem lindos e meio redondos, encapei com cuidado, escolhi uma folha bonita e escrevi o nome dela em letras garrafais: Tia Márcia. Pra finalizar, escrevi na capa qualquer coisa como “mil…

SOLICITO DESCONSIDERAR ESTE AVISO >> Carla Dias >>

O suor escorrendo nas suas faces rubras. Diria o poeta que acabara de fazer amor sem mordaças. Já o empregador o consideraria dos mais competentes funcionários. Cada um olhando de um lado, como se o homem estivesse partido ao meio.

E se apenas cavasse valas para as decisões tardias, num vaivém de enxada quase tocando o céu, antes de ser enfiada na terra?

Disseram que ele é o único que sabe de intrigante segredo. Seja o que for, deve doer o diabo, porque quem, em sã consciência, ou em consciência entortada, gostaria de ser guardião solitário de uma importância que jamais deve ser revelada?

E tem o homem de ficar na mais absoluta mudez, o voto de silêncio enfiado goela abaixo, porque se abrir a boca, se verbalizar que seja o desejo pelo doce que é seu preferido, pode deixar escapar o segredo como escorregam das nossas mãos o que não nos cabe resolver.

A moça vomita verdades às donas de casa, modelos, meninas da roça, ladrinhas de lojas de bijoux, princesas à espera de príncipes, professoras…

O MAIS CARO É O MELHOR?
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Admiro esse rapaz, sem saber seu nome.

Nunca trocamos uma palavra. Não sei se trocaremos. Eu o vejo, breves segundos, quando passo numa rua lá do bairro.

Logo se vê que é um rapaz pobre, de origem humilde. Sua função, também humilde, é estacionar os carros que chegam na majestosa academia de ginástica, a mais cara, provavelmente, da cidade.

Os carros que chegam parecem helicópteros, se é que não chegam alguns helicópteros. Eu não sou bom em nomes de carros (sempre me perguntam quantos cavalos tem o meu carro e eu nunca sei, espero que sejam muitos, ter cavalos é sempre bom). Não sei os modelos nem as marcas, mas, nesse caso, não precisa.

São carros naturalmente importados. Pelo menos a maioria. Também nada sei sobre preços de carro, mas arrisco que com o valor de alguns desses você compra uma cidade e ainda recebe troco.

Nesse oceano de mirabolantes carros incríveis, o modesto manobrista conseguiu comprar o seu. É um Kadett idoso, provavelmente já com netos, quem sabe bisnetos. Talvez…

A INDESEJADA >> Albir José da Silva

"Quando a indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável)
Talvez eu tenha medo".
Manuel Bandeira


A transferência para o CTI aconteceu há duas horas. Rostos compungidos, olhos vermelhos e narizes congestionados esperam, chegam e se encontram nos corredores. Mas as olheiras informam que já dura vários dias essa situação. A peregrinação ao hospital começou há semanas com a internação. Nesse tempo, sustos, ambulâncias, telefonemas de madrugada — "Ele não está nada bem!" —, faltas ao trabalho e noites sem dormir: "Vai para casa, tenta dormir, você já ficou ontem."

O médico trazia notícias a cada meia hora. Notícias que não diziam nada. Nada de melhoras: "O neurologista está chegando para fazer uma avaliação. Temos de esperar."

Esperar é ter esperança. E ontem ele estava tão tranqüilo. Ofegante mas tranqüilo. "É, tranqüilo até demais. Pediu pra trazer as crianças, mandou devolver um livro que pegou emprestado há anos. Não gostei nada …

ENTREGA-PRAZERES >> Eduardo Loureiro Jr.

Vocês sabem que tenho aversão aos estraga-prazeres que são os despertadores. O despertador é uma daquelas invenções que só pode ter sido engendrada pelo filho-da-puta de um militar de alta patente que quer acordar todo o batalhão muito antes do necessário mas que, ele mesmo, quer continuar dormindo. O despertador é a terceirização do "Sentido, soldado!", é a mais pura expressão do autoritarismo e da violência exercidos sobre essa criatura frágil e inocente — quase infantil — que é o sono.

Mas, e isso não é novidade pra ninguém, há males que vêm para o bem e são justamente os reconhecidos estraga-prazeres que costumam nos surpreender com feitos agradáveis, deliciosos, memoráveis. É quando o estraga-prazer se transforma num — atenção para a novidade — entrega-prazer. Sim, sei que a expressão não existe, mas a ideia é mesmo essa: onde não se pensa que não existe, aí mesmo é que está.

Por exemplo, a vizinha ranzinza, podemos até mesmo dizer síndica, que fica vigiando tudo que você…

PERDÃO, DIFÍCIL E INDISPENSÁVEL [Maria Rita Lemos]

Todo mundo sabe o que é perdoar. Não há ninguém que não tenha passado, ao menos uma vez na vida, por uma dessas duas necessidades: a de perdoar ou de ser perdoado. Mais do que diz a consulta ao dicionário, perdoar não é apenas relevar, desculpar ou aceitar: perdoar implica também em esquecer. Por isso é tão difícil, tão árduo, que para algumas pessoas parece impossível.

Conviver é sempre difícil, e os perdões exigidos para que as uniões funcionem são muitos e diários. Quando se trata de relacionamento afetivo, entre pessoas que se amam e querem juntar suas vidas, então, os problemas triplicam, bem como a necessidade do perdão (aliás, "dos perdões"...) As pessoas são diferentes, vêm de famílias e meios diferentes, e tudo pode ser motivo para desentendimento, desde o mau humor matinal, passando pela toalha molhada jogada na cama, até o fuso horário diferente na hora de dormir e/ou namorar. Se a gente prestar bem atenção, até perde a conta das vezes em que é necessário saber p…

MAL-ENTENDIDO >> Kika Coutinho

O ambiente é que não era propício para a conversa. Eu culpo o ambiente.

Estávamos na aula de hidroginástica. Música de fundo, na água, e um professor que gritava:

Vamos lá, pessoal! Subindo esse joelho, abrindo os braços, força!

Não era para termos começado um diálogo, mas quem começou foi ela, então isso também está a meu favor.

— Nossa, estou superdolorida da depilação.

Ops, aí toda a confusão se deu. Eu ouvi a senhora de touca cinza dizer isso. Que estava dolorida da depilação. Achei um bocado estranho o comentário, e precisei de uma aula inteira para notar que ela tinha dito outra coisa. A frase correta era: “Nossa, estou toda dolorida da musculação”. Pois bem. Com a água, a música e os berros do professor, eu entendi depilação e prossegui a conversa assim:

— Puxa, é mesmo, que chato, né?

— Ai menina, fiz ontem, e tá doendo horrores.

Nossa, ela fez depilação ontem e ainda tá doendo. Deve ter ido em um fundo de quintal, cruzes. Perguntei:

— Você fez onde?

— Aqui mesmo — ela infor…

SÓ O AMOR CONSTRÓI >> Carla Dias >>

Quando ele me disse que seu próximo disco teria o título Só o amor constrói, fiquei imaginando que espécie de teia ele estaria tecendo. Conhecendo a obra de Kléber Albuquerque de cabo a rabo, fã de carteirinha que sou, estava certa de que tinha gato nesse balaio.

E passei meses imaginando como seria o pobrezinho do gato. Qual a cor do balaio...

Quando ouvi o disco, pela primeira vez, o gato miou logo na primeira das 15 faixas. Lembro-me do dia em que ele disse: “Até bolero tem, acredita?”. Acreditei, mas tinha de ouvir para crer. E o bolero Só o amor constrói fez o gato correr atrás do rabo feito um cãozinho brincando de descobrir quem é. “Hay que endurecer, pero sin perder la ternura / porque só o amor constrói mas depois cobra a fatura / com juros das juras que fizeste por mim”. Pronto! Um bolero catártico e com refinada ironia.

As letras desse artista são sempre uma atração a mais na música. Esse poeta que não lança livros, mas declama em som seus poemas e os lança em discos — Só o am…

QUEM MANDA SER ROMÂNTICA?
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Se você ainda chora ou pelo menos se comove com certas canções, se você ainda olha, com carinho, para coisas obsoletas como a lua cheia, se você, ao conhecer certos locais incríveis, ainda pensa que irá lá um dia com seu amor, sinto muito, mas eu devo avisar: você está no século errado.

Século errado?! É, século errado. Peça o seu de volta, acho que se enganaram. Você é romântica, isso não se faz mais. Ninguém entende, é como falar chinês no Mineirão, vão olhar para você com perplexidade, talvez com pena.

Os séculos, minha amiga, mudam de idéia, mudam de roupa. O romantismo é uma roupa que não cabe mais. Fica apertada, a perna aparece, ou então fica lamentavelmente larga, grande, excessiva. Aliás, faz tempo que é assim.

Lamartine Babo, compositor que trouxe a música brasileira de volta ao caminho da simplicidade, era um romântico incorrigível. Depois de receber cartas inteligentes e bem escritas de uma jovem de Boa Esperança chamada Vera, tomou um ônibus para ir conhecê-la, embora ela…

FELICIDADES >> Eduardo Loureiro Jr.

Hoje é seu aniversário. Eu queria poder lhe dar os parabéns, lhe telefonar, lhe dar um beijo e um abraço, desejar-lhe um ano novo cheio de alegria e sentido. Eu queria fazer-lhe ao menos uma crônica, mas, se você não ler o que eu escrever, será que eu escrevi realmente alguma coisa?

Há quanto tempo não nos vemos? Quinze, dezesseis anos? Sim, eu a vi uma vez, num shopping, de passagem, há uns doze anos. Você me viu? Dizem que o mundo é pequeno. Se fosse verdade, as cidades seriam minúsculas. Por que então só nos encontramos essa única vez que nem chegou a ser um encontro, foi apenas eu vendo você sem saber se você também me viu? Se o mundo fosse mesmo pequeno, você e eu teríamos nos esbarrado algumas vezes, a última há poucos meses talvez. E o seu olhar no meu talvez pudesse ter aquela alegria que a gente tem ao encontrar as pessoas que marcaram nossa vida

Eu não lembro do seu derradeiro olhar pra mim. Não lembro se foi um olhar de súplica ou de desprezo. Carrego em meu peito uma culp…