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Lição de um pescador matuto a todos os pais do mundo >> Leonardo Marona

Foi nas intermediações do Portal do Curral, praia selvagem de mata virgem onde os escravos eram empilhados em porões que submergiam ao sabor das marés afogando os com mais sorte, hoje uma praia deserta com cheiro de sangue africano onde turistas espanhóis de bochechas vermelhas e pêlos raspados nas juntas fazem bacanais de despedida à vista dos pescadores que atracam os barcos e esperam pelo fim do gozo com sabugos de cana-de-açúcar entre os dentes, olhos desconfiados que nunca viram tetas brancas, e havia no meu barco um pescador do tipo bem rústico, pés esfolados com unhas sujas, barba áspera como a casca de um abacaxi, e ele trazia com ele no barco duas crianças, seus filhos, às quais dava ordens curtas e diretas como “fecha a boca senão engole os dentes”, “rapaz, vou dar murro de mão fechada na tua cara se não ficar quieto” e outras um pouco mais delicadas como “te deixo em casa trancado sozinho, peste”, e estávamos todos à bordo do Não Temas, havíamos acabado de passar por um forte construído pelos portugueses em 1531, depois de sangrenta batalha contra a tribo dos Gueréns, exímios guerreiros, e talvez as explicações históricas estivessem dando sono a um dos filhos do pescador, o menor, ou então ele chorava de manha, para chamar a atenção do pai, preso ao seu rádio de pilha na proa, enquanto que o filho mais velho ficava calado, sorriso capeta na boca, chupando o bagaço de cana que o pai tinha acabado de dispensar, e quando o mais novo finalmente parou de chorar, pulou na água de cabeça, correu até o topo do primeiro cajueiro, colheu um bem maduro e vermelho e pulou de volta na água, onde mergulhava ao mesmo tempo em que chupava o caju e quase se afogava para a tranqüilidade do pai que parecia disposto a deixar o menino fazer suas coisas sozinho e da sua maneira, mesmo que fosse se afogar sozinho, e quando o caçula voltou à embarcação apenas com a castanha do caju na mão, ainda havia um rastro de sal que lhe cobria as bochechas por debaixo dos olhos e então muito quieto ele se esparramou na rede que balançava no ritmo da náusea de Netuno e dormiu imediatamente com uma das mãos dentro da calça e a outra com o dedo na boca, quando o mais velho, indignado com a vadiagem do caçula, começou a implicar, chutando a rede com força, sempre o bagaço de cana na boca que impedia que víssemos seus dentes e o semblante de risonha perversidade.

O rapaz pardo de chapéu de folha de bananeira e sem os dois dentes da frente desancorava o Não Temas enquanto me apontava muito atenciosamente os abundantes cajueiros que cobriam o portal, com cajus amontoados no mesmo galho, suplicantes para serem recolhidos, muitos apodrecidos de tanta fartura, como alguns alemães ricos de viseira na segunda praia, e lá longe eu via a praia onde era possível cobrir o corpo com argila para hidratar a pele e evitar o tempo, quando distraidamente ouvi o pescador embrutecido pelo sal e pelo sol dizer uma das coisas mais sensíveis que já ouvi, não é claro pela forma como falou, mas pelo conteúdo da frase simples que dirigiu ao filho mais velho quando o mais novo voltava a chorar por causa dos pesados chutes nos flancos:

- O menino tá quieto, você deixa ele quieto.

E o mais velho parou de chutar a rede e jogou o bagaço de cana fora.

Acredito que se metade dos pais do mundo entendesse o que aquele pescador quis dizer, os homens teriam talvez um pouco mais de vida útil na Terra.


http://www.omarona.blogspot.com/

Comentários

Você não entrega o ouro, né, Léo? :) Belo relato!

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