domingo, 25 de outubro de 2009

O FUTURO >> Eduardo Loureiro Jr.

Stella Brazil - FlickR.com

O futuro é uma coisa misteriosa e fugidia que a gente alcança um pouquinho a cada dia, mas que permanece sempre e grandemente inalcançável por mais que a gente avance.

Você deve conhecer a expressão déjà vu, o já visto, e talvez já tenha experimentado o sentimento de, em uma nova situação, ter a sensação de já ter visto, sentido ou visitado aquilo. Mas não deveriam inventar também uma expressão para a sensação de não ter experimentado ainda, uma espécie de encore vu, ainda não visto, algo que sentimos ou vemos, mas que não nos aconteceu ainda e que, por não ser parte do passado, só poderia ser uma indicação do futuro? Ou seria apenas o presente alucinatório nos pregando uma peça?

O futuro se anuncia de muitas formas. Pode ser um sonho, daqueles de que a gente acorda e se sente roubado de algo que tem mas que, quando desperta realmente, percebe que nunca teve; e tempos depois o sonho acontece. Ou então pode ser um desejo — esse sonho acordado — que, por termos concebido em vigília, sentimo-nos compelidos a fazer acontecer por qualquer meio que seja, e o futuro desejado acaba mesmo acontecendo. Pode ser também uma fala de oráculo, esotérica ou não: uma leitura de mão ou de mapa astral, ou a simples intuição de um amigo — ou nossa mesma — de que tal e tal coisa vai acontecer; e algumas vezes acontece tal e qual.

Um futuro que se revela antecipadamente traz sempre um risco: a perda do presente do presente. Seduzidos pelo presente que será nosso no futuro, estamos sujeitos a desdenhar os presentes garantidos, já recebidos, do próprio presente. Outras vezes, a revelação antecipada do futuro é essencial para que não nos percamos, para nos guiar, nos nortear.

Embora o futuro previamente revelado ainda não tenha chegado — e vivê-lo antecipadamente consista na forma mais arriscada de perder o presente —, a vivência imediata — aqui e agora — do futuro é também a forma mais certa de materializá-lo. Qual a justa medida, então, entre a aceitação do presente do presente e a realização do anúncio do futuro?

Aí é que vem a surpresa. Como diz o compositor Antônio de Pádua,

O futuro se pressente
no que a gente guardou.
Pois diz o velho ditado,
um ensino cristalino:
a chave do seu destino
se encontra no passado.


O passado contém a história de nossos futuros realizados e não realizados. O passado é como uma figura pontilhada de passatempo que já está com os pontos todos ligados. Revendo o passado, podemos reconhecer os caminhos do nosso traço. No passado que a gente esqueceu, nas ligações pretéritas que a gente não percebeu, estão nossas limitações de enxergar claramente o futuro. É preciso saber enxergar o espelho — que não mente — para poder visualizar a bola de cristal sem ilusão. Quem não vê o passado não vê o futuro.

Entre o passado que se tende a esquecer e o futuro que periga iludir, melhor mesmo é praticar o olhar com o presente. Cultivar a atenção feito quem pesa objetos numa antiga balança de dois pratos. Se o braço do passado está mais baixo, reforcemos de sonhos o prato do futuro. Se o braço do futuro está pesando mais, cuidemos de reforçar de lembranças o passado. Quem quiser equilibrar a própria vida, tem que se tornar o fiel da balança.



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4 comentários:

Larissa disse...

ADOREI!!! Belíssima!!! Uma ótima reflexão!!Forte abraço!!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, Larissa. :)

Anônimo disse...

Um futuro é a repetição melhorada de um passado. Poderia ser a percepção do "encore vu" de um "deja vu"? Tô adorando te ler! K:)s

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Anônima, agora você fundiu minha cuca. :)