terça-feira, 27 de outubro de 2009

QUE BICHO EU SOU?
>> Felipe Peixoto Braga Netto

"Não sei por que sujeitam os introvertidos a tratamentos. 
Só por não poderem ser chatos como os outros?"

Mário Quintana


Chego atrasado à reunião. Entro, a passos constrangidos, na sala. Estão reunidos num grande círculo. Meu atraso é obviamente percebido. A contragosto, cumprimento todos, com um vago bom-dia, e me sento. Então falam de quê? Um sujeito, barba e cabelos grisalhos, compara-se a um macaco. Antes que eu possa ordenar as ideias, os olhos da reunião voltam-se ameaçadoramente pra mim, perguntando que bicho eu sou.

Não achei muito elegante a pergunta. Isso lá é coisa que se pergunte assim, à primeira vista, a um honrado desconhecido? Balbuciei defesas, e a moça, que se proclamou facilitadora, não facilitou muito as coisas:  

Todos nós temos um animal oculto. Com qual você se identifica?

Pego de surpresa, não quis me comprometer. Disparei cachorro, bicho neutro, sem conexões freudianas perigosas (acho), nem lá nem cá, nem rei da selva nem fresco que nem o tamanduá.

Escolhas feitas, a facilitadora, conhecedora dos mistérios da alma humana, completou:

— Agora vem a parte mais importante. Cada um de vocês vai estar representando, aqui na frente, o animal escolhido.

Ai... Arrependimento. Nunca lati, nem nas mais secretas fantasias sexuais. E latido é coisa séria porque, se sair fraco, desafinado, compromete a honra do cidadão honesto. Tem que ser um latidão, forte e decidido. Sinceramente, eu não estava com vontade de latir, quanto mais em público. Ai, meu Deus, por que não escolhi o bicho-preguiça, tão simpático, tão na dele, alheio ao mal-estar mundial?

Eu quis mudar, mas a dona não deixou. Disse que isso ia ao encontro das regras. Pensei em ponderar que então não haveria problema, mas desisti.

Fiz uma piada, dizendo que era um cão mudo, mas ninguém riu. A situação piorou visivelmente. Latir depois de uma piada fracassada é suprema humilhação. Pensei em simular um desmaio, mas, naquela altura, ficaria falso, acho.

Entre o latido e o desmaio, fiquei com o primeiro, e lati sem convicção. Qualquer vira-lata de bom coração, se me visse naquela ocasião, haveria de se solidarizar comigo, com meu latido vagabundo.

Voltei, com o rabo entre as pernas, pra cadeira, feito cão sem dono.

Minha vida de cão triste não demorou muito, pois a facilitadora atacou:

— Agora vocês vão estar me dizendo o que passou pela cabeça de vocês. Só assim descobrimos o verdadeiro eu.

Ela, tão engraçada, quis começar comigo, a facilitadora do inferno. Ah!, me esquece... Vai procurar javali, vai namorar elefante, que diabo! Essas coisas, eu só pensei. Disse, na verdade, outra. Falei que foi uma experiência única. Que coisa espantosa!, exclamei. Me conectei com camadas submersas do ser. Ao latir, senti aflorar meu lado selvagem, deixei vir à tona capas de agressividade reprimidas no disfarce do dia-a-dia. Porque a sociedade...

Ah, os olhos dela brilharam de satisfação:

— Sim, sim, é isso mesmo, é isso aí!

Ah, sou outro, reconheço. Obrigado, obrigado. Que Deus guarde, em bom lugar, as facilitadoras, facilitando-lhes o caminho. Para bem longe, quem sabe...

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6 comentários:

fernanda disse...

Felipe, essa é uma das suas crônicas mais hilárias. Dinâmicas de interação de grupos é uma das coisas que eu mais odeio na face da Terra. Está para a "auto-vergonha" assim como deixar público fazer perguntas a palestrantes está para "vergonha alheia".
Bjos

Cláudia disse...

Felipe, é bem por aí mesmo. Diria que sou um peixe. Fora d'água, é claro! A Fernanda tem razão. Estas é uma das suas crônicas mais hilárias!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Felipe, fiquei curioso pra saber qual o bicho da facilitadora? :) Maravilha de humor!

Anônimo disse...

Obrigado, queridíssimos amigos.

A facilitadora não tinha bicho, Eduardo. Rs...

Quanto às perguntas a palestrantes, é bem isso que a Fernanda disse. Eu quase escrevi uma crônica sobre isso. Comecei mas não terminei. Tem gente que, pelas perguntas, parece que pegaram à força na rua e jogaram lá dentro. Só pode.

Valeu, gente!

Felipe Peixoto

Ines Cozzo Olivares disse...

Quando eu crescer, vou escrever crônicas igual a você. Vou sim.

Jakeline disse...

Sim, meu querido. É nisso que dá ficar querendo descobrir os mistérios da alma humana... Eu nunca precisei latir, mas tive que fazer o HA, de pé, numa cadeira. Ô experiência...Suas crônicas são demais, parabéns.