domingo, 11 de outubro de 2009

ENTREGA-PRAZERES >> Eduardo Loureiro Jr.

Rafael Muller - Flickr.com

Vocês sabem que tenho aversão aos estraga-prazeres que são os despertadores. O despertador é uma daquelas invenções que só pode ter sido engendrada pelo filho-da-puta de um militar de alta patente que quer acordar todo o batalhão muito antes do necessário mas que, ele mesmo, quer continuar dormindo. O despertador é a terceirização do "Sentido, soldado!", é a mais pura expressão do autoritarismo e da violência exercidos sobre essa criatura frágil e inocente — quase infantil — que é o sono.

Mas, e isso não é novidade pra ninguém, há males que vêm para o bem e são justamente os reconhecidos estraga-prazeres que costumam nos surpreender com feitos agradáveis, deliciosos, memoráveis. É quando o estraga-prazer se transforma num — atenção para a novidade — entrega-prazer. Sim, sei que a expressão não existe, mas a ideia é mesmo essa: onde não se pensa que não existe, aí mesmo é que está.

Por exemplo, a vizinha ranzinza, podemos até mesmo dizer síndica, que fica vigiando tudo que você faz, e lhe denuncia na reunião de condomínio quando você, por engano, coloca o lixo seco na lixeira de lixo orgânico ou, pior, o lixo orgânico na lixeira de lixo seco; e que propõe que lhe seja aplicada uma multa só porque você colocou o som um pouquinho mais alto num final de semana prolongado em que a maioria dos moradores não estava nem em casa. Já deu pra notar a chatice da figura? Pois bem, então essa mulher que não tem nada de adorável resolve, sem mais nem menos, bater na porta do seu apartamento no meio de uma tarde de sábado e lhe entrega um potinho daqueles de sorvete, dizendo "acabei de fazer esse bolo, e não tinha ninguém com quem dividir". Aí você agradece, fecha a porta, abre a tampa do potinho, gosta do cheiro mas fica se perguntando se tem algum serviço a domicílio de identificação de substâncias perigosas, ou mesmo venenosas, presentes em alimentos doados por pessoas antipáticas. E, mesmo não tendo qualquer garantia, mesmo não estando depressivo nem com vontade de flertar com a morte, você pega um garfo, enfia no bolo e depois coloca na boca. E o gosto do bolo é a antítese dos desgostos da vizinha síndica. O bolo é a própria redenção da figura antipática da vizinha e você a perdoa, afinal toda a doçura ausente nela está concentrada naquele bolo — feito um artista que coloca toda a alegria na sua obra e vive uma vida absolutamente melancólica.

Nunca lhe aconteceu de ter uma vizinha assim? Comigo também não. Inventei isso aí só pra ilustrar. Tenho vergonha de contar as coisas reais que já recebi de vizinhas, o que não faz com que elas sejam — as vizinhas — menos síndicas ou que elas sejam — as coisas — menos deliciosas. Além da vergonha, também não costumo falar das mulheres com que tive o prazer de estar em vigília. Podem pensar que estou me gabando — o que estaria longe da verdade. O máximo que eu poderia sentir seria um profundo agradecimento, a la Willie Nelson: "I dedicate this song to all the girls I've loved before". O que me permito, ainda assim com um certo acanhamento, é falar das mulheres que tive em sonhos: nos recantos da minha imaginação acordada ou mesmo em felizes noites e tardes de sono. (Aliás, é uma mulher dos sonhos o único motivo de inveja que um grande amigo meu tem de mim. Só porque eu sonhei que namorava a Maitê Proença atrás das cortinas do Cine São Luiz, em Fortaleza. E eu admito que essa combinação é mesmo invejável, pois sonhar namorando já é suficientemente bom; dentro de um belíssimo cinema como é o São Luiz, um privilégio; e, com a Maitê Proença, chega a ser um abuso de felicidade.)

Mas não estou aqui pra falar de mulheres, e sim de despertadores. E a prova de que eles são mesmo estraga-prazeres é que alguns de vocês abandonarão a crônica agora mesmo, afinal por que eles têm se intrometer justo agora que o assunto está ficando interessante: cinemas, namoros, deusas...

E é exatamente aqui que surge a surpresa. Devido ao despertador que acabou de me tirar de meu tradicional e revigorante cochilo, devido a esse desprezível objeto é que estou escrevendo a crônica de domingo com quatro dias de antecedência, no início de uma tarde de quarta-feira. Porque os despertadores — se no mais das vezes nos roubam de um sono que poderia ainda continuar por alguns minutos, ou até mesmo horas — algumas outras vezes, mesmo que raras, nos acordam no meio de um sonho, o que poderia ser mais uma prova de sua infame utilidade, mas que pra mim, que quase não lembro de meus sonhos, tem um resultado positivo: o despertador interrompe meu sonho, mas ao mesmo tempo o entrega para mim. É aquela velha história de que mais vale um sonho pela metade na lembrança do que um sonho inteiro esquecido. E é nessa hora — que é agora — que o despertador transforma-se de estraga-prazeres em entrega-prazeres.

E se uso a palavra "prazeres" aqui, não é porque queira fazer um trocadilho mais similar à expressão original, é que o sonho do qual fui há pouco despertado foi realmente um sonho de prazer — no sentido carnal do termo. E mais não conto porque estou com o cheiro e o gosto e o suor e a saliva dessa mulher ainda frescos em meus sentidos — e falar com detalhes apenas dissolveria a sensação que tenho deles, porque se a palavra tem o poder de evocar o que estava quase perdido, é também da palavra o poder de fazer perder aquilo que já está por um triz.

E só escrevi o que já escrevi porque não fumo, nem mesmo após o amor. Meu vício é outro: tragar e soprar palavras. Às vezes, estragando prazeres. Outras vezes, entregando-os.

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8 comentários:

Juliêta Barbosa disse...

Eduardo

O sopro traz, invariavelmente, o perfume das palavras... Gostei da brisa e do suave odor que chegou até aqui.

C. S. Muhammad disse...

Eduardo, sempre entregando prazeres. Saudade de inalar suas palavras - easy like Sunday morning.
Concordo que, bem no fundo, despertar involuntariamente de um sonho prazeroso é perpetuá-lo. Bendito depertador! Amém.

albir disse...

Edu,
se você estraga, mas conta - e conta tão bem - já está entregando prazer.
Abraço.

Carla Dias disse...

Que crônica boa de se ler. Fiquei até mais amiga do despertador, já que ele pode, sem querer, sair da toca do estraga-prazeres metido à entrega-prazeres. Cartolas e coelhos.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Juliêta, Carlas e Albir, grato por terem sido despertados por minhas palavras. :)

Anônimo disse...

TU despertou em mim a tua presença. Entao, acordo para o prazer que tuas palavras me proporcionam.

Ana Lucia disse...

Bom mesmo seria um despertador que acordasse a gente com cafuné

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Anônimo desperto, já levantou da cama? :)

Ah, Ana Lúcia, por que apagou o outro comentário? Seria ótimo que um despertador nos acordasse para o sonho sem interrompê-lo. :) Quanto a acordar com cafuné, é só conseguir um despertador com um "pequeno" acessório: uma pessoa carinhosa que não se apresse em pular da cama, mas que se permita alguns minutos de preguiça e carinho antes de levantar.